sexta-feira, 28 de junho de 2013

Fricotes do Brasinha


          Ligou-me o Brasinha, o homem dos fetiches. Vez ou outra me bate o telefone para dois dedos de prosa. Soube do nascimento de meu neto e anelava parabenizar-me. Assim, externou toda a sua felicidade por saber do nascimento de uma linda criança. De fato, a chegada de um descendente de segunda linha é um acontecimento ímpar. (Vejam que segunda linha aqui não traz em si qualquer juízo de valor ou diminutivo. Pelo contrário, o neto é o salto no além e para além da vida de um avô. O mais apropriado termo seria linhagem.) Contudo, Brasinha queria ir além a seu telefonema, o safado.
            As fofocas são o conjunto de todo o folclore em torno de um fato. Há na fofoca, que eufemisticamente chamaríamos de boato, uma verdade bem menor que o seu todo. O diabo é que o todo sempre ofusca aquela, de modo que ela se torna um minúsculo grão de areia diante do resto. Pois o Brasinha empertigava-ser por debulhar uma fofoca.
            Joguei-lhe uma boa bacia de água gelada. A fofoca que ele queria debater simplesmente não haveria de ser uma fofoca. As fofocas estão além do controle de seus protagonistas, o que nem de longe seria o caso por um simples detalhe: - o próprio autor, eu no caso, cuidou de relatar os acontecimentos tão logo pôde. Alguém dirá que mesmo assim não se pode evitar que se emprestem ao fato detalhes inexistentes e enfeites indesejáveis, e direi que, com efeito, não há como evitar essa interferência. Nesse caso em particular, entretanto, o peixe foi vendido pelo dono ainda fresquinho e cru. Quem quiser lhe apor temperos e pimentas que o faça, mas depois não se reclame que o bicho não agrade ao paladar.
            Fez-me uma confissão: - os amigos o estimulavam a escrever uma crônica sobre o referido fato, já que eu por mais de uma vez havia tomado-o como ator numa de suas hilárias histórias. Por duas ou três vezes relatei episódios inusitados protagonizados por ele e que levaram os demais amigos à galhofa. À última vez, lembro-me bem, bateu-me o telefone tão logo leu o relato escrito por mim. Estava deveras preocupado. Temia que sua jovem esposa viesse a tomar conhecimento do texto. Não que seu conteúdo lhe fosse desconhecido. (Ela, a própria mãe e ele foram os principais atores dessa história, uma tragicomédia em três atos cujo desfecho inesperado emprestou-lhe o caráter de hilaridade.) Temia que ela se enchesse de cólera ao constatar que o lastimável evento já ganhasse o mundo. Bem se vê que o tal episódio não foi coisa de que se pudesse orgulhar. Ainda que o acontecimento tenha sido grave, nem por isso foi menos cômico.
            Felizmente – para mim, creio – meu querido amigo Brasinha não se achou competente para transformar a história que me vitimou na bela crônica que os outros desejariam ler. Eu, de minha parte, adoraria que ele o fizesse. Afinal, não há do que me envergonhar no episódio do qual fui vítima. Cada doido tem sua mania e não se pode culpar ou responsabilizar a vítima de uma pessoa amalucada. Ademais, o tal fato nada tem de engraçado. Assim, atribuo a desistência de meu amigo em relatá-lo mais por essa razão do que propriamente por sua suposta falta de talento literário.
            O que parecia claro em nossa prosa ao telefone era o desejo de meu amigo de que eu soubesse que os outros amigos ficariam muitíssimo satisfeitos se o caso viesse a se converter em arte, ou seja, numa bela crônica. E assim nos despedimos.
            Destarte, venho informar aos queridos e saltitantes amigos que estou seriamente a cogitar a possibilidade de eu mesmo deitar ao papel o episódio que tanto os faz sorrir até hoje. E é porque a coisa já se passou há meses. O Sérgio Moura é um deles. Após tomar conhecimento da "anedota", bateu-me o telefone para perguntar se eu não estaria interessado nos serviços dos seguranças do senhor Barack Obama, simplesmente o Presidente dos Estados Unidos da América, em meu dia-a-dia. Dei uma de joão-sem-braço e ele ficou a se abrir na outra ponta do fio. Mas ele não perde por esperar. Logo, logo dar-lhe-ei a pilha de que necessita para suas rotundas e soberbas gargalhadas.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Quanto mais chefe mais chifres...


               Nunca quis ser chefe. Ser chefe é das atividades mais desafiadoras do ser humano. Para se ter uma idéia, os animais não têm chefe, embora haja chefes que mais se assemelhem a animais. Com efeito, esta é uma afirmação/comparação injusta. Com os animais. Os animais são puros, não têm malícia, não agem segundo ardis premeditadamente engendrados. Assim, nenhum chefe há de ser comparado a qualquer animal: - os animais não merecem.
               Paremos um pouco. Falando assim deixo transparecer que sou um ativo e ferrenho opositor à atividade de chefiar, o que não é o caso. Ao contrário, sou a favor do chefe, de qualquer chefe. O diabo é o chefe estar a meu favor. Alguém dirá que o chefe tem que agir e tomar as decisões que beneficiem o serviço ou o setor que chefia; e que, se me contraponho aos chefes, estou a me contrapor à ordem e à eficiência e à eficácia. Repito: - não é o caso. Como funcionário público comprometido com a filosofia dos melhores meios para se atingir os melhores fins, conheço chefes e chefes... De chefes eu entendo, eis o que queria dizer.
               Há que se ter maturidade tanto para chefiar quanto para ser chefiado. Falta a muitos chefiados, por exemplo, a madureza de se deixar chefiar. Por exemplo, já surpreendi muitos chefiados a detestar o chefe quando, de fato, experimentavam, eles próprios, um comportamento regressivo. O chefe tomou uma medida drástica. E a tomou porque assim o cargo exigia. Se não agisse daquela forma, não estaria fazendo o que um chefe deveria fazer diante daquela situação. Seu nome era fulano. Quem estava tomando aquela atitude não era o fulano, mas "o chefe". Não sei se me faço entender, mas aí está bem explicado.
               O que quero dizer é que, quando o sujeito é chefe, ele deixa de ser o fulano. O fulano tem mulher, filhos, amante, contas a pagar, torce pelo Corinthians, etc. etc. etc. O chefe não tem nada disso. O chefe é quase um ser etéreo, sobrenatural, imponderável. O chefe só pisa ao chão para não desafiar a lei da gravidade. Em suma, chefe tem que ser duro mesmo. Tem que ter cara de turrão, de pouca simpatia, de poucos amigos. A recíproca é dessas verdades absolutas: - quando o sujeito é o fulano, deixa ele de ser chefe. Chefe não tem nome. Chefe quando se torna chefe deveria ir ao cartório cancelar a certidão de nascimento. Em resumo, todo chefe deixa de ser gente.
               Chefe-amigo não presta. Entenda-se: - não presta para ser chefe. Chefe-amigo tem que continuar sendo amigo, senão ou vai deixar de ser chefe ou vai deixar de ser amigo. Chefe-família é pior. Contratar parente é a pior desgraça que um chefe pode fazer, se o chefe for o dono do negócio.  Quando o chefe é chefe no serviço público e contrata família chama-se a isso nepotismo. No nepotismo o chefe joga a eficácia e a eficiência no camburão do lixo. Por isso não existe nepotismo na iniciativa privada. É muito fácil se locupletar do que é dos outros. Só o gestor público atira no próprio pé, quando, de fato, não é o pé dele, mas o do povo. Só atira no próprio pé o masoquista ou o suicida caolho, que não sabe nem onde é a cabeça. 
               Mas o pior é o chefe bundão, o chefe que tem medo dos chefiados. Esse tipo de chefe é o pior porque oprime a quem não deveria oprimir. Parece que estou a plantar uma incoerência, mas explico em seguida. 
               Há organogramas confusos, onde a hierarquia prima pela confusão. Como assim?, indagará alguém e com razão. Há organogramas em que há o chefe na cabeça da estrutura e abaixo o resto, a gentália, a miudeza, a arraia miúda. Apenas um detalhe faz a diferença: - na arraia miúda há comparsas do chefe que, por ligação curricular com ele, funcionam como chefes adjuntos, chefes ocultos, chefes paralelos que, repletos de interesses a serem defendidos e resguardados, estão afinados em fins. A ligação funcional é o que os faz sentir, como numa oligarquia, donos do poder e daquela chefia. O chefe torna-se, então, apenas um instrumento do grupo. Mais uma vez, óbvio é que isso só acontece no serviço público, lugar de todas orgias e de todas as prostituições sociais. É onde estão os piores chefes, os corruptos e os bundas-moles. 
               Nada de santo. Não sou santo. Mas do cargo de chefia nada quero. Nem o percentual no contra-cheque. (Cá entre nós, há termo mais apropriado ao documento que recebemos como demonstrativo de nossos vencimentos?) Diz o velho adágio: - quanto mais chefe mais chifres. Uma bobagem enorme. Tanto os chefes quanto os chefiados são passivos de chifres igualmente. Mas que os chefes mais o merecem isso não vou negar.
               

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Dois nadas querendo ser


            Não sei se conhecem o Califórnia. Pois saibam, mesmo os que não o conhecem: - eis que sumiu o Califórnia.  Há mais de três ou quatro anos não o vejo. Morrer não morreu, que as más notícias correm duas vezes o mundo antes de se dar um suspiro. Assim, fica a pairar no ar como uma densa nuvem a questão: - onde se meteu o Califórnia?
           Outro dia, acho que quinta passada, encontrei um amigo comum, o Paulinho Lima. E fiz-lhe a mesma pergunta. Disse-me a mesma coisa: -"Não tenho a menor idéia!..."
            Devo dizer que esta não é a primeira vez que o Califórnia toma chá de sumiço. À última vez, contou-me ele mesmo depois de aparecer ileso, trancafiou-se em casa por três anos e de lá saiu, ainda segundo ele, com um livro escrito. Sim, o homem se dizia escritor de livros. Segundo consta de sua crônica, seus prolongados retiros – esse não teria sido o primeiro – são sombreados por intenso desejo de morte. Abatem-lhe ferozes e profundas depressões e, até hoje, não se sabem as razões que o demoveram de tentar o supremo ato. Sozinho, enfronhado em abismo de tristeza e cercado de livros pagãos, o natural seria que estivesse, a essas alturas, decomposto sob sete palmos de terra árida. Seu livro, ao que me consta, jamais foi lido. Quero crer que nenhum leitor se deu o trabalho de correr os olhos por páginas enlameadas de tanta dor e tristeza.
           O fato incontestável e irremediável é que a miríade de seus amigos desconhece seu paradeiro. A todos os que encontro, indago: -"Viste o Califórnia?" A resposta tem sido a mesma nesses três ou quatro últimos anos. "Sumiu!", dizem todos. À última vez que meus olhos repousaram sobre sua figura, disse-me: -"Vou-me embora pro Rio!" Conhecido por suas histórias inverossímeis e por falar demais e fazer de menos – há fortes suspeitas de que jamais tenha escrito livro algum –, sua credibilidade não goza de boa reputação por essas bandas.
            Contudo, uma coisa é certa: Califórnia é querido entre seus comparsas. É homem que, justamente por suas idiossincrasias, angariou admiradores e companheiros de boêmia. Tinha fama de "pegador", termo que se usa para adjetivar o sujeito que goza de facilidade em adquirir novas namoradas. De fato, desde os tempos do velho e saudoso Cais Bar, ali na praia de Iracema, Califórnia é tido como um sujeito boa praça, boa palestra e boa companhia para umas pilhérias sadias e inocentes. Seu círculo não era amplo, mas continha "gente influente" na noite fortalezense, ainda que isso nada signifique ou apenas indique que o homem andava com os mais cachaceiros espécimes daquela época. Andou casado por um tempo, mas o relacionamento degringolou e finalmente, cansada, deu-lhe a mulher um pontapé nos fundilhos.
            O homem era míope – falar no pretérito imperfeito também o salva da hipótese mortal – e seus óculos quase quadrados emprestavam a seu rosto um certo ar de seriedade, que se perdia inteiramente após uns tragos de álcool "duro". Dizia-se jornalista e, embora não lhe tenha lido nenhum artigo ou reportagem no jornal, brigava como um leão quando, na época, sua profissão corria o risco de não ser regulamentada. Ele próprio, ao que me lembra, não era formado. De fato, Califórnia não tinha curso superior.
             Dizia-se leitor voraz. Durante certo tempo vinha com autores clássicos à ponta da língua. Meu amigo Costa, que por sinal anda tão sumido quanto ele, demonstrava-lhe uma ponta de inveja quando ele vinha, à frente do mulherio, dizendo-se leitor de Charles Boudelaire. Ainda que não chegasse a lhe declamar a poesia, e muito menos falasse o mais elementar francês, Califórnia os deixava na cruel dúvida. A razão da incerteza? Resposta: - gogó. Sim, Califórnia tinha muito gogó e, vocês sabem, o gogó de um homem se impõe por si mesmo. Há gogós e gogós. O do meu amigo Califórnia era um senhor gogó. Costa lhe era tão vulnerável que resolveu iniciar, por influência daquele, a leitura da obra suprema de Sartre, "O Ser e o Nada". Após a tentativa de leitura das primeiras cem páginas, Costa desistiu. E desistiu porque nada entendeu do que leu. O livro lhe custara oitenta e tantos reais, e suas ideias eram tão abstratas que o homem sentia-se um verdadeiro apedeuta diante da obra. O detalhe é o seguinte: - Costa é um advogado muitíssimo bem formado. De nada lhe serviu o curso de Direito. Sua OAB era apenas um número sem valor à frente do gênio de Jean-Paul. Assim, diluiu-se no sartriano nada a tentativa do Costa de se transformar num Califórnia, suposto bom entendedor do existencialismo. A partir deste triste episódio, Costa passou a nutrir por Califórnia uma admiração ainda maior, e até viu no amigo certa semelhança física com o filósofo dada a sua baixa estatura, ainda que não fosse vesgo.
            A deficiência visual do Califórnia era de gravidade até então desconhecida. Só se deu conta disso quando, certa vez, teve seus óculos quebrados numa sexta e foi obrigado a passar o fim de semana sem eles. Deu-lhe na telha, justo naquele fim de semana, tomar uns drinques em certa chopperia de intenso movimento noturno. Estava a apreciar o movimento quando, de repente, avistou uma senhorita possuidora, segundo ele, de belos apetrechos físicos. Era loira e atraente. Encontrava-se à sua frente, do outro lado do bar. Logo percebeu que ela também lhe dirigia o olhar. E enquanto ele a olhava daqui, ela o olhava de lá, e assim a coisa ficou por seus vinte a trinta minutos, quando resolveu testar seus dotes de conquistador. Dirigiu-se à donzela contornando a bancada do bar, segurando o copo de uísque que se ia derramando de tão cheio. (Parecia o Victor Mature depois da gripe.) Qual foi sua surpresa quando, ao chegar bem perto, reconheceu imediatamente a pequena. Era a ex-sua mulher, que foi logo lhe avisando: -“Nem vem que não tem...”! E foi logo emendando: -"'Num' me conhece mais, rapa'?" Para o bem de ambos, a solidão de meu amigo prevaleceu ao que seria uma reprise daquilo que já se mostrara inviável e impossível.
          Se bem me lembro, Califórnia passava, à época, por dificuldades financeiras. Quase todos os bares locais exibiam-lhe contas penduradas das mais antigas às mais recentes. Outra explicação para o sumiço de meu amigo seria justamente essa. Como no país não se vai preso por dívidas, na cadeia ele não está; também não está morto, como já bem concluímos. Deve, então, estar homiziado alhures, quiçá bem longe, no Rio de Janeiro, ou bem pertinho de nós a escrever um novo romance que jamais será lido.
          O meu desejo é que por obra da tecnologia moderna ele venha a ler essa piegas manifestação de saudades e me bata o telefone para dois dedos de prosa. 

quarta-feira, 19 de junho de 2013

O vândalo é o governo


               Com a crescente energia das manifestações do povo brasileiro nas ruas, ganha cada vez mais corpo a idéia de que há vândalos a incitar as multidões que protestam contra tudo. Em grandes e representativas cidades brasileiras, manifestações inicialmente pacíficas tornaram-se violentas contra o patrimônio e contra a força policial. Carros são incendiados, edifícios são apedrejados, agências bancárias são destruídas. A força destruidora do povo demonstra o que este povo tem trazido contido em seu seio.
               A violência no contexto de protestos contra os governos pode ser interpretada ao gosto de cada um, mas há de haver pelo menos um cientista sócio-político que a explicará sem a paixão e a emoção daqueles que a analisam de forma superficial e "politicamente correta". É possível que alguém do meio da multidão esteja ali, na frieza de seu coração, a intentar a prática violenta para gerar o caos que ao governo interessa. Sabe-se desde o tempo das cavernas que governos são, acima de tudo, astutos no que tange ao domínio das mentes. Um governante aprende desde cedo que o povo deve estar submisso para que ele possa exercer o poder em toda sua plenitude e tranqüilidade. Ainda que atos de insubmissão ocorram, o governante dispõe de toda uma estrutura para lidar com o problema e ainda "lucrar" com ele.
              Assim, quando a multidão parte para a depredação e o enfrentamento das forças organizadas do Estado, o governo tem a seu favor o ordenamento jurídico e o que se conhece como "estado de direito". De cara o governo, neste momento, aparece como uma espécie de vítima nas mãos de "vândalos" que ameaçam o ordem e o "estado de direito". A imprensa, quando inclinada ao governo – situação comum neste tão sofrido país –, contribui para a disseminação dessa impressão, o que fortalece a tese do governo vítima. Outro dia um amigo, homem de bem e do bem, indagava se seria possível uma revolução sem o uso da violência e, já se declarando contra todo e qualquer ato de violência, exalava uma espécie de depressão ao sentir no íntimo crescer-lhe a negação como resposta ao seu questionamento. Ficou implícita nele mesmo a tristeza por constatar que provavelmente não, não seria possível romper subitamente com qualquer estrutura de poder sem fazer uso da força.
               Se é correto o adágio que diz que violência gera violência, não seria lógico pensar que a violência crescente contra o ordem vigente seria em si uma reação à violência hodierna imposta e praticada por essa mesma ordem? Vejamos.
               O sistema de saúde pública do país é caótico; mais certo seria chamá-lo de sistema de doença. Os doentes – idosos, pobres e ignorantes – amontoam-se como lixo à porta e aos corredores de hospitais públicos falidos, vítimas de um modelo que não funciona devido a incompetência estatal. Noutro cenário os doentes são jovens, pobres, ignorantes e ligados de alguma forma a um dos múltiplos laços da rede de tráfico de drogas e criminalidade que o governo não é capaz de controlar, amontoados em hospitais abarrotados de outros jovens vítimas de um trânsito caótico gerado pela incompetência estatal em planejar e executar um plano para a mobilidade urbana. Eles estão nas ruas porque nasceram em famílias desestruturadas. Seus pais são pobres e não tiveram oportunidade de conseguir algo melhor porque o sistema educacional está falido há décadas. Deles herdaram o horizonte sombrio e a desesperança. Os cidadãos de bem são vítimas, a toda hora, da ação de bandidos bem trajados ou não, revelando de um lado a relativa anomia e de outro a miséria renitente num país onde o ambiente de negócios é o pior possível. 
               Nas cúpulas o Poder segue a tramar em favor da persistência da violência, da corrupção, do enriquecimento ilícito, de sua própria existência, de sua própria sobrevivência, relegando o povo a uma existência vil, indigna e desumana. O penhor desse Poder em preservar a violência e o banditismo nada mais é do que a evidência gritante de que os bandidos estão lá, nas cúpulas, comandando o leme que dirige o país. As sucessivas tentativas por parte deste Poder de tornar legal o ilegal, distanciando cada vez mais o Direito da Moral como uma reedição kelseniana de um puro Direito enlameado de impurezas à vista do mínimo humanismo, têm sido cada vez mais explícitas aos olhos da nação. 
               Os evitáveis mortos da violência gratuita promovida pelo abandono do povo à própria sorte diante da bandidagem das ruas; os evitáveis mortos da saúde pública assassina; os evitáveis mortos do trânsito caótico; os bilionários rombos em cofres públicos repletos do suor do povo; a liberdade acintosa de criminosos de colarinho branco e de criminosos sem idade; os furtos e assaltos de toda a sorte ao povo honesto e trabalhador; enfim, o prosperar do crime e do desgoverno que promove o terror são obras do Estado, desse mesmo Estado que cobra a manutenção de uma "legalidade" que lhe é conveniente e que sustenta suas arbitrariedades.
               Conclui-se sem muita dificuldade que, de fato, violência só gera violência, e que vandalismo só gera vandalismo. O vândalo da avenida depreda o patrimônio público e o privado e grita palavras de ordem porque já não agüenta mais. Patrimônios são refeitos e reformáveis; vidas e dignidade perdidas e sofrimentos e humilhações impostos pelo poder público são irrecuperáveis. A única conclusão possível é a de que o vândalo, de fato, é o próprio governo.
               

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Paz para todos!

               Entre ideias e ideias, entre alertas e manifestações de “apoio” do Governo do Estado, foi ontem para as ruas o Movimento Fortaleza Apavorada. As ideias que assombraram o movimento foram e ainda são, posto que ele não esteja enfraquecido ou morto, tão ou mais assustadoras que o Fantasma do Palácio da Abolição. Do Palácio o Fantasma incomoda com sua retórica coativa, ao passo que as ideias incomodam por sua futilidade, inanidade e inutilidade. E por que condeno as ideias que assombram o Fortaleza Apavorada? A resposta é muito simples: - o Movimento não é um movimento de ideias, não propõe ideias, não condena ideias nem se propõe a inventar a roda. O Movimento é o grito de terror e de dor de quem já sentiu na própria pele a dor e de quem sente na pele a dor alheia. Todos os que na alma e no coração se sensibilizaram com a quase anomia que campeia em nossas ruas, situação posta à evidência pelos absurdos, múltiplos e inacreditáveis casos de violência que vêm penalizando ricos e pobres, se aglutinaram em torno da dor e do medo. O Movimento é simplesmente isso. Nada além.
                A conseqüência direta e imediata de quem sente dor e medo é gritar e fugir da fonte de dor. É uma reação medular, impensada, e até afetiva segundo a tipologia geral das ações sociais de Max Weber. A dor do ser humano é mais complexa do que a do animal, porquanto amiúde vai além do físico. A dor do ser humano que é violentado é também moral e psíquica. Contra a primeira há os lenitivos, os antálgicos, os analgésicos, os procedimentos cirúrgicos, os comas e tudo o mais que nos abaixe o sensório e a sensibilidade. A dor moral e psíquica é insondável, inescrutável, imponderável. Quem pretender minimizá-la ou desdenhá-la comete ato a mais doloroso, contribuindo ainda para a crueldade da agressão.
               Então, avise-se aos senhores cheios de ideias: - o Movimento Fortaleza Apavorada é para os que sentem dor e medo, sentimentos primitivos despertados pelo instinto de sobrevivência. As ideias que os senhores nos acusam – faço parte do Movimento – ter ou não ter e que nos colocam como alvo de vossas maldosas e mordazes críticas são, repito, inúteis. Vejam que não estou a criticá-las em si. São as idéia$ que movem o mundo, e não pretendo aqui testar a tese de sua vacuidade; mas pretender que tenha ideias o individuo que está a se contorcer de dor física, moral e psíquica já é demais. Se os senhores criticam a falta de ideias do Movimento, têm o direito de o fazer, mas não escondem aí sua insensibilidade. Se seu positivismo só aceita a frieza da ciência, aliem-se ao Governo e a seus assessores na busca de medidas práticas a serem tomadas contra esse estado de coisas. O Estado é a instituição em que o cidadão comum deposita sua confiança para a lida com a questão da segurança pública. É matéria constitucional. Cobrar do povo para que ele colabore tecnicamente com a solução de problema social relacionado com o dever precípuo do Estado é como querer que o paciente forneça ao médico o protocolo para o tratamento de seu câncer de estômago.
               Aos senhores cheios de ideias deve ser dito que o Movimento Fortaleza Apavorada não é exclusivo. Pelo contrário, ele é inclusivo. Os que sugerem tal premissa são aqueles que ainda surfam nas hipócritas ideias comunistas que de comunistas nada têm. Se o Movimento surgiu no seio da classe média é porque é ela quem detém a consciência política do papel do Estado nas questões sociais, mas daí afirmar, como muitos têm afirmado categoricamente, que o Movimento é alheio à pobreza, à precária educação e a todas as mazelas e estratagemas da politicalha brasileira é, no mínimo, indecente e injusto. Como estrato social que mais paga impostos no país, a classe média sente no bolso o resultado do incesto entre a classe política brasileira e boa parte da classe C e D, porque são essas que freqüentemente e conhecidamente vendem seu voto por dá cá aquela palha. Todos sabem: - o povo não é santo, o povo nada tem de santo. O político que quer se eleger no Brasil sabe muito bem de quanto precisa para comprar seu passaporte ao cargo que pretende. Portanto, não me venham os senhores defender aqueles que não se aculturaram, mas que de bobos nada têm. O Movimento Fortaleza Apavorada pretende, apenas, segurança para todos, e sabe que isso só acontecerá se o Governo implementar um plano que faça cair a níveis “normais” os assaltos e assassinatos em todos os bairros da cidade. Alargando a semântica do que cantou o Tom Jobim, é impossível ser feliz sozinho.
                A inclusividade do Movimento Fortaleza Apavorada está implícita, embora para os bambambans das idéias seja a exclusividade que assim esteja. Bem se vê que o sujeito só enxergará o que sua bagagem cultural consinta, caso não se permita o exercício da soma do pensamento com o questionamento de si mesmo e com a afetividade e sensibilidade. O ser humano só logra sua plenitude quando à sua razão alia-se o coração e seu conjunto afetivo. Como disse Stephen Convey, a inteligência não é santa.
               O que ficou, mais uma vez e infelizmente, evidente com a manifestação do Fortaleza Apavorada foi a péssima qualidade da informação que a imprensa local passou e vem passando sobre o Movimento. É ela, a imprensa, uma das entidades que cobra, indevidamente como parece claro, propostas concretas por parte do Fortaleza Apavorada para o problema da segurança pública. Nessa cobrança está clara a voz do Governo, falando através de uma imprensa vendida e tendenciosa e, portanto, irresponsável. Além disso, a disparidade de informações fornecidas pelos dois maiores jornais locais a respeito do número de pessoas presentes na manifestação denotam seu descaso e falta de compromisso em fornecer a informação correta. Um dos periódicos chega maliciosamente a sugerir que a manifestação levou incômodo a hospital próximo ao Palácio da Abolição, levantando a suspeita de, mais uma vez, estar esta imprensa falando pelo Governo
              O fato – e contra fatos não há argumentos, como já disse em texto anterior – é que a manifestação se mostrou um ato cívico de alto nível, demonstrando a capacidade de mobilização ordeira e pacífica do povo de Fortaleza. Presentes idosos, crianças, jovens, adultos, homens e mulheres, todos pediam apenas uma coisa para todos os habitantes de nossa cidade e de todo o Estado do Ceará: PAZ!      

quinta-feira, 13 de junho de 2013

O pior cego é o que se faz de cego


               Lembra-me o tempo em que de nada se sabia. E sabíamos apenas as notícias locais, o resultado do jogo, da Loteria Esportiva e das previsões do matemático Oswald de Sousa. Até os capítulos das novelas nos chegavam com atraso de semana. Quem viajava ao Sul vinha na empáfia de quem é sabedor por antecipação do que corria o mundo. Nós, que aqui ficávamos, nos encolhíamos como caramujos, humilhados de nossa ignorância televisiva e novelesca.
                Hoje não. Hoje o sujeito é corno e já se sabe antes. Verdade é que ainda é ele o último a saber, mas o corno de hoje é um corno cuja duração de sua ignorância é mínima, ainda que última. No mais, a notícia quase antecede o fato. Dir-se-ia ser esta a época dos vaticínios porquanto quase tudo se pode prever.
                  Considerando essas conclusões aparentemente óbvias – esta é também a época do óbvio –, não é possível compreender que ainda tanta gente se deixe levar por histórias de lobo mau. Mas é exatamente o que se vê no mundo real. E por que digo isso? É tudo muito simples. Para onde se olhe há informação; para onde se incline os ouvidos há informação; para onde se cheire há de se sentir odores mais ou menos agradáveis dando conta de atividades mais ou menos cheirosas; e assim por diante, só não sabe das coisas quem realmente não quer.
               Contudo, levemos em conta um aspecto intrigante. Existem duas facetas de uma informação: - a informação em si e os fatos de que ela dá conta. Veja-se, por exemplo, que hoje tudo está volatilizado. É como se a realidade tivesse dois estados físicos. No estado sólido estariam os fatos e no estado etéreo a informação que lhe corresponde. Assim, é-se obrigado a concluir que a informação está sujeita, como tudo o que é etéreo, aos ventos e às tempestades pessoais de seus autores/veículos, ao passo que os fatos são incontestáveis.
                    O diabo é que, como não se pode estar em todo lugar, estamos bem mais vezes sujeitos ao que se diz dos fatos do que dos próprios. Um exemplo típico me ocorreu outro dia, antes de ontem, acho. Estou eu a navegar pela rede mundial de computadores e me deparo com o blog de certo jornalista. Em seu texto mais recente ele saiu a falar do Movimento Fortaleza Apavorada, iniciativa da sociedade civil escandalizada com a onda de violência que ora grassa na capital cearense. Começo a ler a peça e, logo ao início, percebo que o autor quer lhe condenar os fins, como se os fins do Movimento não fossem aqueles para os quais ele deveria ter vindo a existir na reles, mera e estúpida opinião daquele autor.
               Ora, se é fato notório – fato notório é uma deslavada tautologia, se me permitem observar – que a violência em Fortaleza está descontrolada e é ubíqua, atingindo a ricos e pobres, seria natural que isso incomodasse a muitas e muitas pessoas de bem. Seria também natural que essas pessoas, acometidas de um medo próprio de quem teme não somente por sua vida, mas também pela vida de todos os seus entes sob o mesmo risco e, agindo sob o instinto de sobrevivência, se aglomerassem em torno da causa comum, do perigo comum, e se organizassem para exigir o que lhes é de direito. É óbvio que o Movimento Fortaleza Apavorada não nasceu para resolver o problema do abismo social de Fortaleza. Somente um imbecil com o juízo nas ancas seria capaz de pensar e escrever tal disparate, como fez o referido jornalista dono do blog que tive o desprazer de conhecer. Se este senhor se tivesse dado o trabalho de ler a página do Movimento na rede social, teria visto o que lá está explicitado como objetivo único do movimento.
                  Entretanto, como já disse, há o fato e a informação do fato. O jornalista escolheu, tendo em vista suas tempestades da alma, ter uma opinião e fazer uma leitura toda pessoal do fato criando, assim, uma visão distorcida do mesmo. Ainda que esteja tudo às claras, o sujeito resolve, ao seu bel prazer, levar para o campo do etéreo aquilo que é real, que é fato incontestável.
               Há mais, infelizmente. (Agora me lembro que me permiti ler ainda mais um pouco a pitoresca peça.) O sujeito, o tal jornalista, deixando transparecer suas idéias pouco embasadas na realidade, em certo ponto do texto sugere que a causa da violência na cidade se dá por causa da pobreza e do já referido abismo social. Sem querer, ou quem sabe num lampejo de um ato falho impróprio ao comentário, demonstrou, ele próprio, um extremado preconceito. De “defensor” da causa da pobreza se transmutou no acusador dos pobres da cidade. E, mais uma vez, saiu dos fatos para a alucinação. Para ele, o Movimento Fortaleza Apavorada está acusando os pobres como os responsáveis pela violência que ora vige, e que a classe média da cidade, representada no Movimento, está é incomodada por não ter tranqüilidade para ir ao Iguatemi fazer compras.
               Ao mesmo dia da publicação deste inútil e precário texto, a imprensa divulgou as imagens, feitas por uma câmera de TV em circuito fechado, de assalto a mão armada praticado por três elementos a uma padaria no Bairro de Fátima(http://g1.globo.com/videos/ceara/cetv-1dicao/t/edicoes/v/assalto-com-refem-em-comercio-assusta-clientes/2630470/). Lá é possível constatar que os assaltantes eram homens bem aparentados e bem vestidos, longe daquela presunção do bandido miserável e faminto.
               Ainda ao mesmo dia, uma amiga me relatou o assalto de que fora vítima. O carro subitamente estacionou à frente da parada do ônibus onde ela estava e dele desceu um sujeito bem apessoado que lhe anunciou, calma e tranquilamente, que queria sua bolsa e todos os pertences que por ventura carregasse aos bolsos da vestimenta. Enquanto falava, subia com a mão esquerda a barra da bela camisa que usava a fim de lhe mostrar o punho reluzente e prateado da arma de fogo que trazia consigo.
               E, assim, todos os dias se publicam na rede social, à página do Movimento Fortaleza Apavorada e em outros domínios, relatos de assaltos praticados por pessoas que nem de perto se assemelham a indivíduos necessitados do mínimo, revogando completamente a nefasta idéia de que são os pobres a realizar esses atos criminosos em sua maior freqüência. A fome não é a causa desses crimes. Afinal, não estão aí os “Bolsa” a suprir do mínimo aqueles que não o tinham? Não se tiraram milhões da extrema pobreza? Não ascenderam milhões da classe C à classe B?, e outros tantos da classe D à classe C? Se tais informações não traduzem a verdade dos fatos, serão elas o etéreo daqueles?
               Portanto, além do assustador crescente da violência urbana em nossa cidade, assusta também a capacidade de muitos de, com seus discursos repletos de maviosidade e aparente interesse nas causas populares, enganar a muitos que não estão atentos ao que ocorre no campo da realidade, ainda que esta realidade esteja a se esgoelar na ânsia de ser vista.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Fortaleza Apavorada apavorada!


          Achei muito engraçado. Vejam o que é o Brasil. Ou melhor, vejam o que era o Brasil ao tempo em que Felipe II reinava, lá pelos idos de 1600. 
          Vigiam as chamadas Ordenações Filipinas, um documento jurídico da União Ibérica e de suas colônias, incluído aí o Brasil. Por esse documento, a pena capital para certos crimes considerados graves era a morte, sendo que havia quatro tipos de morte: a morte cruel, a morte atroz, a morte natural ou simples, e a morte civil. Nesta última o sujeito permanecia biologicamente vivo abstraindo-se-lhe, contudo, todos os direitos. Presume-se que o indivíduo perdia seu registro de nascimento e todos os outros documentos pessoais que à época atestavam sua existência "legal". O réu, condenado, tornava-se um zumbi, um morto-vivo, uma sombra, uma espécie de assombração.
          A segunda maior penalidade era o degredo para o Brasil. Os que eram flagrados em falso testemunho – considerado um crime muito grave também punível, às vezes, com a pena de morte – eram, nos outros casos, apenados com essa viagem sem volta. Assim, é fácil concluir que o Brasil era o cu do mundo ou, melhor, era o cu da União Ibérica. Outra conclusão possível e tentadora é a de que quase todos os nossos políticos atuais tiveram ancestrais degredados para cá. Seus herdeiros não têm feito outra coisa aqui que não seja mentir. 
          Hoje a imprensa local, que come como uma galinha faminta na mão do poder público e econômico, divulgou matéria em que dá conta de nota publicada pelo Governo do Estado do Ceará, onde o mesmo denuncia a presença de "grupos partidários e marginais de uma milícia" que supostamente pretende se infiltrar no Movimento Fortaleza Apavorada para "provocar violência e 'gerar repressão' que escandalize a opinião pública".
          Eu, de cara, já me escandalizei. Toda a nota é um bordejado danado, endereçada a uma população alienada e ignorante dos descasos deste poder acostumado ao populismo, clientelismo, patrimonialismo, paternalismo, e todos os "ismos" viciosos da nossa velha e boa politicalha estatal (http://www.opovo.com.br/app/fortaleza/2013/06/10/noticiafortaleza,3072151/governo-ira-monitorar-manifestacao-contra-a-violencia-na-capital.shtml). Como não poderia deixar de ser, a nota aponta os "feitos" do governo na área da segurança pública. Jacta-se, por exemplo, de ter bem atuado para mitigar o número de seqüestros antes em alta, "esquecendo-se", como lhe é bem conveniente, que só se seqüestram os abastados e que a violência atual é hodierna e intolerável porquanto tem atingido a todos independentemente da classe social. 
           Entretanto, o que me escandalizou na nota foi precisamente o trecho que transcrevi acima. O grupo que está no poder, e que perdeu todo o senso de sua função pública, será capaz de ir além dos limites a ponto de implantar, ele próprio, o terror? Seus ardis estarão implícitos nesse trecho, como um incontido Freudian slip que escapou ao controle do superego do redator/autor da nota? 
          Mais precisamente, a nota diz que "chegou ao conhecimento desse Gabinete" (do Governador do Estado) etc. etc. etc., e segue-se o já referido trecho. Ora, como será que essa informação tão privilegiada e assustadora chegou ao Gabinete do senhor Governador do Estado do Ceará? De uma fofoca é que não foi, excetuando-se talvez aquela forjada pelo irmão-desempregado-fantasma do Governador, Ciro Ferreira Gomes.
          Ciro recentemente acusou o vereador e egresso das fileiras da Polícia Militar, o Capitão Wagner Sousa, de ser o líder de uma milícia ligada a traficantes de drogas. Disso nenhuma prova apresentou, como também nenhuma em sua defesa quando acusado publicamente pelo senhor Roberto Pessoa, ex-perfeito de nossa vizinha Maracanaú, de ser um cocainômano de carteirinha. 
          Em resposta às acusações feitas pelo Fantasma do Palácio da Abolição, Capitão Wagner saiu em busca, na Câmara Municipal de Fortaleza, das quinze assinaturas de parlamentares necessárias para instalar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a si mesmo. Conseguiu dezesseis, as quais posteriormente caíram para doze. Fantasmas assombram e é bem provável que o Fantasma da Abolição tenha saído de seu ataúde uma noite dessas no intuito específico de atordoar os quatro vereadores que inexplicavelmente retiraram suas assinaturas da proposta de criação da CPI. Ponto para Capitão Wagner. Uma CPI que acabaria por provar o contrário seria uma vergonha para o governo totalitário que ora exerce o poder no Estado, embora o Fantasma não passe de um Fantasma, e ainda que um Fantasma de sangue azul. Ou, por outra, vai que a CPI encontrasse rastros do próprio Fantasma em conluio com os traficantes? Que seria do círculo do Palácio? Seria um Palácio que daria abrigo não a um, mas a dois Fantasmas. 
          Mas voltemos à fonte que forneceu informação bombástica ao Gabinete do Governador. Outra possibilidade é que ela seja produto de uma investigação cientificamente levada a cabo pela Inteligência dos quadros policiais do Estado. Ora, meus caros! Sabemos que esses quadros estão esvaziados de seus serviços de Inteligência. Não fosse assim o Movimento Fortaleza Apavorada jamais teria nascido por pura falta de objeto. A criminalidade já teria sido foco dessa Polícia Científica e a coação do Estado se teria feito sentir. Mas qual! Eis aí o Fortaleza Apavorada a exigir a cabeça da incompetência e da leniência estatal. De outra forma poder-se-ia concluir que o aparato policial detém o equipamento técnico e os recursos humanos para uma investigação científica e, se não os está utilizando, seria o caso de se pensar pura e simplesmente, e mais uma vez, em terrorismo estatal. 
          O trecho da nota explica ainda que o Gabinete do Governador admite a possibilidade de repressão, por parte do Estado, ao momento da manifestação pública prevista para a  próxima quinta-feira, 13 de junho, caso esse "grupo marginal" se faça presente incitando a violência. Ora, quem garante que não seria o próprio Estado a "plantar" os supostos "partidários de grupos marginais" para justificar uma já  planejada ação violenta contra as pessoas de bem que participarão deste ato cívico? 
          O documento do Governo anuncia que já compartilhou as informações que detém com autoridades do Poder Judiciário, do Ministério Público e da Assembléia Legislativa a fim de que estas enviem observadores à manifestação popular com o objetivo de garantir a segurança e a tranqüilidade de todos. Olhando com zelo, parece-nos à primeira vista que o Governo está de fato preocupado conosco ao envolver, aparentemente, os outros Poderes estatais no problema que diz ter em mãos. Resta-nos saber quem, nominalmente, serão os representantes dessas autoridades e se lá comparecerão de fato. Ou o Governo está fazendo cortesia com o chapéu alheio.
          Por fim, pede o Governo que não se levem crianças à manifestação, dando o claro recado que não pode garantir a segurança dos cidadãos a este ato público pacífico. Isso todos já sabíamos. Não é nenhuma novidade. É para isso que lá estaremos, para pedir ao governo que nos dê segurança. 
          Queremos, agora, saber se os agentes a serviço desse governo – um governo que não há porque lhe confiar nada e em nada – serão capazes de agredir a população e seus filhos. É bom que ele tome cuidado para que a bomba não lhe explora ao colo, como a que explodiu ao do Sargento Guilherme Pereira do Rosário e do então Capitão Wilson Dias Machado no estacionamento do RioCentro na noite de 30 de abril de 1981. A sensação que temos é a de que a ditadura branca oprime e fere mais que a militar armada.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Terror

Estou chocado. Melhor dizendo, estou estarrecido. Sinto uma espécie de letargia e dormência em meu corpo, como se fosse desfalecer. Há em mim, também, uma profunda tristeza, um desgosto enorme, uma sensação de perplexidade e de incredulidade. Há dias venho tentando, num exercício mental de otimismo, olhar a realidade sob outra óptica, sob novos ângulos, ver o que de bom ainda há para se ver. Mas agora, nesse exato momento, tudo o que me invade é aquela sensação de incredulidade e de perplexidade, além do recrudescimento de todas as outras visões nebulosas que me assaltam há dias.
Sou um sujeito de espírito e mente alvissareiros. Não me abato com facilidade. E, se algo me faz fraquejar, logo seu efeito se dissipa como uma sezão de um só tremor. Sou dado à boa pândega, à pilhéria, ao riso, à boa e desinteressada conversa com amigos cuja amizade cultivo há mais de 40 anos. Mas hoje, agora, sinto um vazio enorme, como se, repentinamente, fosse alvo de uma orfandade atroz.
Entretanto, fez-se, de fato, um outro e mais jovem órfão. Mais um órfão da violência que grassa solta, lépida e fagueira, em nossa cidade. Quem é o jovem órfão? Um bebê de apenas seis meses de idade. E não somente um novo órfão, mas também uma nova vítima. Sim, vítima de uma arma de fogo, de uma bala que lhe varou o ombro cujos ossos ainda nem ossos são. Está internado ali, no hospital, no hospital que ninguém visita, donde a nobreza-burguesia vez ou outra se utiliza; aqui nessa cidade onde o inferno parece ter baixado, feito pousada, feito estadia por sabe-se lá quanto tempo.
A bem da verdade, o bebê não é a primeira criança que lá internou vítima de outra bala, de outro monstro, criado pelos monstros que o armaram, que já nem tão indiretamente o armaram; os monstros que estão encastelados em nossos palácios, gabinetes e plenários. (De que nos servem hoje os contextos?) Várias outras crianças lá baixaram e, como se vê, continuam baixando. Certeza é que assim continuará, posto que, quem quer que seja o monstro a puxar o gatilho, ele está à solta, livre para agir, impedido apenas por sua vontade de eventualmente acordar ao dia seguinte sem a vontade de matar, de ferir, de fazer sofrer.
A orfandade deste bebê decorre da morte de sua mãe, que o segurava ao colo no momento da agressão. Observem que o monstro é mesmo e, de fato, e, com efeito, um monstro. Nem mesmo a pequena criança indefesa o impediu de prosseguir em seu intento. Disparou sei lá quantos tiros. Eu quis descer à enfermaria das crianças para saber melhor do fato, mas algo me prendeu, o terror talvez. Temia açoitar ainda mais as nuvens da tempestade que vem abatendo o meu espírito diante de tanta insensatez. Mas – pobre de mim! – a privação da visão da pequena vítima de nada adiantou, como bem podem observar ao início deste lamento. 
      Um grito entalado na garganta me sufoca. Uma lágrima que me corresse sobre a face não seria capaz de me aliviar a dor. Sei, sinto: - apenas o brado real desse grito me destampará do peito a tonelada de minha ira que quer ganhar as ruas da cidade e acusar os monstros que querem a nossa morte, a nossa vida, a nossa indignidade. E nem farei a comum pergunta que se faz quando o “até” e o “quando” nos interessam. Ela me assusta ainda mais...