terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Vossa guerra interior

             Uma epidemia de espíritos revoltosos e raivosos tomou conta de parte de meu ambiente. Não vos digo que me surpreenda tal lamentável constatação. Há tempos não apreciava episódio semelhante, e confesso mesmo não recordar a última vez que o presenciei. Interessa desta vez  a proximidade das "vítimas".
          É bem possível que as vítimas das "vítimas" não se conheçam entre si, mas as "vítimas" do nefasto mal – a tautologia é proposital – se conhecem, creiam-me. A princípio me perguntei se haveria uma relação de contigüidade entre os raivosos, já que eram todos do sexo feminino. Entretanto, percebi que a proximidade entre eles seria apenas aparente. De fato estavam a uma distância considerável entre si, o que excluiria a suposta relação. 
          Desvendemos o mal em si. 
          Assomos de explosão desproporcional ao insulto é o sinal cardinal desse mal que, ao que parece, se alastra a olhos vistos. Poderíamos até alcunhar tal reação de "intolerância". Caberia também a expressão "tolerância zero" no comportamento dos acometidos. Essas pessoas chegaram a um ponto de zero de tolerância com pequeníssimos estresses da vida cotidiana, mormente os causados por amigos incautos. 
          Digamos logo: somente nos desentendemos com quem amamos. Não costumamos perder tempo com quem nos é indiferente ou com quem desprezamos. Assim, não é de surpreender que os atingidos pela epidemia saiam atirando cobras e lagartos entre os amados. Darei um exemplo prático, tirado de minha própria verve.
          Há certo cidadão, celebradíssimo na vida noturna desta decadente cidade, pelo qual não nutro a mínima simpatia. (Imaginem que o Eça, na pessoa de seu Jacinto Galião, já considerava a Paris da segunda metade do século XIX como o pior exemplo de cidade de sua atualidade. Nela então já abundava a superficialidade que hoje grassa impudicamente em nossa Fortaleza "bela".) De fato, minhas reservas para com esse cidadão se amontoam como um Himalaia de queixas. Deixemos claro que nada me fez este respeitado cidadão. Entretanto, desde sempre vi em sua pessoa a dissimulação, a empáfia, o gárrulo intolerável e pedante, os maus bofes quase a lhe saírem pela bocarra. E – observem que infringiu até mesmo a regra que deitei acima sobre somente nos desentendermos com que amamos – certo dia se chateou comigo. O motivo foi um cisco de tão minúsculo. Que se há de fazer quando alguém se sente incomodado por algo que não lhe diz respeito?, ou algo que supomos não seria razão para reação tão desproporcional? Nada podemos fazer, eis a verdade. Somente os anacoretas estão livres de correr tal risco. 
           Que fiz diante de tão ignóbil resultado? Desculpei-me. Mesmo aos trogloditas devemos solicitar o perdão por injúria, sob pena de lhes nos tornarmos semelhantes. Óbvio é que somente isso não serviria a atestar de sua abissal estultícia. O que o faz é o seguinte: o que lhe feri inocentemente  ele o faz contumazmente com as piores intenções que possa alguém supor. Com efeito, lhe conheci o caráter através de suas inúmeras fanfarrices e invasões à privacidade alheia. O aprendizado era claro – quanto mais longe ficasse deste senhor melhor seria para mim. Não devia arrazoar consigo em hipótese alguma. Desde então com ele não mais tive imbróglios de qualquer espécie. Não há bem-querer entre nós. É o exemplo de anti-amigo.  
          Até se explica que um sujeito que perceba que se não lhe tenha nenhum apreço se irrite com facilidade. Afinal ele se sabe completamente excluído do amor e mesmo da amizade de alguém cujo conceito sobre si é verdadeiro e o pior possível. Ao desmedido vaidoso é odiosa a percepção da sutil repugnância de si por parte de alguém. O descomunal vaidoso quer ser amado e invejado por todos. Sua personalidade jactanciosa não aceita desertores da seita que julga lhe seguir. Se isto perceber nada fará. É um patife, mas é inteligente. Sabe que qualquer reação mais estrondosa fala contra o tipo por ele criado em sua imaginação. Assim, o desertor estará em paz. Somente em situação em que se exponha em excesso a "petulância" de alguém contra seus propósitos e vaidade levá-lo-á a perder o controle. Aí, então, revelar-se-á o lobo sob a pele de cordeiro.
          Porém, o que dizer das doces almas que se destemperam? Essas são almas puras, doces e brandas como a suave brisa que sopra do mar no final de uma tarde tépida. Por que se exaltam por pouco? Que estará a lhes ocorrer? Que mal estão a lhes fazer? Estão, talvez, enfastiadas de seu bom procedimento que foi retribuído com uma má ação por parte de outrem; cansaram-se, talvez, da vida que escolheram ou, ao contrário, anseiam a vida que escolheram e que não levaram a cabo; enfim, algo as azedou ou está a lhes azedar o proceder. Que farão? 
           Fazei imediatamente algo antes que vosso azedume contamine a profundidade, tornando amargas vossas melífluas almas e tempestuoso vosso conviver. Os que anelam a paz de vós fugirão, receosos de serem destruídos por vossa guerra interior.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Uma irretocável reputação

           Foi ali embaixo, no calçadão. Raramente ocorre de se encontrar Amorim ao calçadão, e nesse dia ele vinha meio agitado, meio "elétrico"; seu nervosismo era visível. Pus-me à sua frente, interrompendo-lhe a caminhada. 
          Disse-lhe: -"Que houve, homem?" Ele, ofegante devido ao ritmo, respondeu: -"A noiva ouviu-me conversa indevida ao telefone!", e passou a explicar como a noiva, que mora noutra capital do país, ficou sabendo de suas estripulias fora do noivado. Ele falara com ela minutos antes. Fora a última chamada que fizera no aparelho. Momentos depois conversava com um amigo, relatando-lhe como lograra conquistar a morena maravilhosa do último fim de semana. 
           O problema é que, durante a conversa, inadvertidamente ligara para  o número da noiva no aparelho portátil e ela acabou por ouvir toda a história. Que fez ela? Após ouvir tudinho em detalhes, bateu-lhe o telefone numa nova chamada. Disse-lhe: -"Moleque!" E completou: -"Nunca mais me procure!" Eis o cenário da tragédia do amigo.
          Estava de passagem comprada a ir visitá-la. Perguntava-me, moralmente zonzo pelo fato de ter sido pilhado em flagrante delito: -"Que faço?" Aconselhei: -"Liga de volta e explica que foi um mal-entendido; que a história da morena aconteceu com um amigo e não contigo!" Admitiu já ter tentado esse "argumento", mas ela não se dispôs a aceitá-lo, posto que lhe parecesse que o fazendo estaria a duvidar de seus próprios sentidos. Afinal, escutara tudo e lembrava-lhe muito bem ouvi-lo dizer ao interlocutor: -"A mulher passou comigo uma noite repleta de amor e sexo!" 
           Amorim namorava a noiva há uns cinco anos. Ela era 25 anos mais jovem. O amigo já tinha filhos, e o casamento com a mãe dos garotos terminara de forma trágica e traumática... principalmente para seu bolso. Até há pouco a ex lhe perturbava o juízo com questiúnculas irritantes. Felizmente os meninos lograram atingir a maioridade e ela não mais reunia o combustível necessário às suas empreitadas jurídicas irresponsáveis e inconseqüentes. Ainda assim, não se dissipou do espírito do amigo as más recordações. Funcionavam como uma úlcera antiga que nunca cicatrizava. Por isso sua atitude sempre reticente diante da noiva quando ela demonstrava sua intenção de casar.
          A verdade inquestionável era a seguinte. Amorim não queria casar novamente. Não era uma questão pessoal. Adalgisa era uma mulher perfeita para o enlace. Culta, jovem, viçosa, inteligente e carinhosa, sonhava ainda casar e ter filhos, tudo o que Amorim menos queria para si. É óbvio que a ela não confessaria suas mais ardilosas intenções. Dizia, quase orgulhoso de sua assumida falta de virtude: -"Sou um galinha!" Ela nem sonharia com tais coisas.                        
          O problema para Amorim, e que a jovem noiva sequer atinava,  era o abismo de 25 anos. Aos 30 se sonha, aos 55 se vive. Há uma inconciliável diferença de idéias, sentimentos, conceitos, sabedoria, experiência, expectativas, noções e crenças entre quem goza os 30 e os que amargam os 55. Mais que isso, havia o problema dos maus bofes do noivo. Seriam maus bofes ou a vida o tinha levado a tal comportamento, não importa. É sempre cômodo responsabilizar alguém ou às circunstâncias pelos maus atos que se pratica, quando na verdade é a índole a se esgoelar ao ascender à tona. Ao mau caráter é oportuno o aparecimento de uma oportunidade de justificar o injustificável, e encoberto aos olhos de um coração sensível e pronto a perdoar. Daí tira ele as maiores vantagens e impõe os maiores tributos às suas indefesas vítimas. 
          Não queria o casamento, embora estivesse envolvido até os sapatos com toda a família da pequena. Sua família sonhava vê-la casada. Mais – sonhava com a tradicional cerimonia católica seguida da pomposa recepção. Dinheiro havia. Manter-se-ia a tradição: as despesas de tais festividades seriam por conta do pai da nubente. Amorim, que estava a nadar em dinheiro, razão adicional para sua vida de Casanova, não gastaria um centavo.
          Tudo isso lhe causava uma impressão tremenda, e se sabia faltoso agora que a moça lhe descobria o maucaratismo. O que de fato sentia era a percepção de sua baixeza,  de sua vileza. Cristalizava-se-lhe na consciência o retrato de sua torpeza. Pela primeira vez em sua vida admitia que era um escroque. Não o fazia senão para si mesmo. Não teria coragem de o confessar  a Deus. Ou talvez até o fizesse, posto que não acreditasse em Sua existência.
          O que o incomodava era a ponta de seu caráter a aparecer em tão bisonho engano. Não queria salvar o noivado, a princípio. Queria, sim, salvar seu falso bom caráter e, depois, o noivado com a potranca 25 anos mais jovem. Os maus caracteres têm sempre a necessidade de se promover, inda mais no que diz respeito à sua virilidade inalterada à maturidade. Essas eram, sem dúvida, suas mais prementes preocupações. 
          Ao leitor desatento parecerá que minha torpe sugestão me faria cúmplice do canalha assumido. É uma conclusão precipitada. Percebi desde o início, já ao relato inicial da tragédia, que a situação do homem era certamente irremediável, dadas as circunstâncias em que ocorrera. Minha aparente tentativa era, com efeito, ao mesmo tempo, duas armadilhas. A primeira lhe aprisionaria definitivamente na desilusão da noiva, ao levá-la a perceber do que ele seria capaz em situação de perigo extremo. A segunda o obrigaria a decidir – se não lhe apetecia a idéia do casamento, que se aproveitasse da situação. 
          Nem foi necessária minha intervenção. Ele tentava, desde o flagrante, livrar sua reputação, ainda que fosse obrigado a manter o noivado. Desde o princípio lutava para manter o noivado, posto que fosse a única maneira de salvar sua boa imagem à noiva e seus familiares. Nem que desmanchasse o noivado dali a algum tempo, arranjando para isso um outro pretexto que não o auto-difamatório, precisava mantê-lo agora a qualquer custo. 
          Encerramos a conversa após várias demonstrações de exaspero do amigo. Anelo encontrá-lo em breve para saber se a jovem merece o homem com quem está a se relacionar.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Na velocidade e no lugar certo para morrer

          Outro dia encontrei minha querida amiga Jesoni Gruska no edifício garagem do Hospital Geral. Estava eu tirando as luvas. Ela percebeu que era equipamento de motociclista. Perguntou: -"Não tem medo de andar numa motocicleta?" Respondi "de bate-pronto": -"Me pelo de medo, amiga!" E completei: -"Mas a coragem é maior que ele."
          Poderia ter estendido um rosário de argumentos, reflexões, idéias, noções, conceitos, mas calei. Quando se faz assim, tem-se a nítida impressão de que se está a tentar "catequizar" alguém em sua própria e individual concepção sobre algo. Não me disponho a tal. Até porque é extremamente difícil, se não impossível, tentar convencer alguém que a motocicleta é um veículo que pode, sim, ser seguro. 
          Contudo, ainda não a deixei ir sem antes lhe dizer que é bom o medo, que é bom ter medo. E lhe disse mais, quase filosófico: -"Tenha medo do homem que não tem medo!" E ela partiu a se rir de mais uma de minhas idiossincrasias. 
          Pensemos bem: o que faz o medo? Das duas, uma: ou paralisa, ou leva à reflexão. Na primeira hipótese o medo é mau porquanto limita o ousar; ousar é usar da coragem, é atrever-se a algo, é se permitir ultrapassar o limite do lugar-comum. Se hoje voamos, por exemplo, é porque os corajosos ousaram, venceram o medo que não os paralisou. É mau, portanto, o medo que paralisa quando a experiência pode ser recompensadora. 
           Na segunda, o medo leva ao aprendizado, porquanto a reflexão é um "pensamento sério ou meditação profunda a respeito de determinado assunto ou problema". Se estamos a pesquisar sobre determinado assunto, o estudamos a fundo a fim de aprender o máximo sobre ele. Daí ser comum se ter medo do que se não conhece. 
          Assim, o homem que não tem medo ousa se aventurar em terreno desconhecido pondo em risco a si mesmo e a outros. Tal espécie de homem comete o erro capital, e às vezes mortal, de pensar que já tudo sabe, que nada lhe restou a ser aprendido, atitude cediça entre os mais jovens. Se já tudo sabe sobre tudo, não vê o que há para ainda aprender. Age, então, baseado em preconceitos pessoais. Diz o Robert Kiyosaki sobre investir: "Não é o investimento que é de risco, mas o investidor, se não sabe o que está fazendo". O mesmo se pode dizer quanto a correr riscos em outros cenários. 
          O conhecimento que se adquire numa atividade ou "ação" de risco serve a minimizar ao máximo esse risco. Assim, no caso específico de se pilotar motocicletas, como não há anteparos ou proteção nenhuma para o corpo do piloto, deve ele pilotar com cautela elevada à decima potência. Então, a pergunta que se faz é: como elevar a cautela a tais níveis? Ou: há ainda algo que não sei e que possa ser feito para elevar a segurança? Resposta: sim, há muitas medidas a serem adotadas. Porá em prática e tornará elas um hábito o motociclista que tem medo. 
          Vejam que o motociclista pensar em segurança apenas eventualmente é uma perigosa armadilha a ser destacada. Segurança aqui obedece à lei do tudo ou nada. Ou, ainda, pensar em segurança em 100% do tempo em que se está pilotando é a regra de ouro. Diria mais – o verdadeiro e consciente motociclista começa a pensar em segurança antes mesmo de subir à máquina. Por isso não se deve condescender com mínimas estripulias que sejam como, por exemplo, andar na contra-mão ainda que por dez metros, ou ir até a esquina sem o capacete, ou ainda pilotar após um gole na cerveja. 
          Andar em alta velocidade é a "manobra" mais mortal a que o motociclista, que nessa instância chamo de "motoqueiro", se expõe. As razões para isso são tão óbvias que me absterei de comentário adicional. Abrir a guarda para tais maus hábitos é negociar com a sorte e, nessa seara, a sorte não é uma variável desejável nem confiável. O indivíduo que está em alta velocidade numa motocicleta está procurando provar que a sorte é o encontro do preparo com a oportunidade – está na velocidade e no lugar certo para morrer.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Olhando Betelgeuse

          Desde há algum tempo tenho manifestado abertamente minhas reservas em relação às redes sociais. Sou mais afeito ao ósculo, ao amplexo apertado, ao aperto de mão, à caminhada lado a lado, enfim, à presença real do amigo. Disso os que me conhecem sabem, e penso que mesmo os que me não conhecem também. Além disso, digno de nota é a série de equívocos ou situações que deram ensejo a males-entendidos de toda espécie tendo como cenário a rede social. 
           Assumo: fui vítima de situação vexatória uma meia dúzia de vezes por exposição excessiva na rede social. A rede social expõe o indivíduo mesmo que ele escolha não se expor. É precisamente o meu caso. Não me vejo impelido a expor o que faço, meu estado civil, se tenho filhos ou não, onde trabalho, se viajo ou não, se gosto de cerveja ou vinho, onde estudei, na rede social. Mentiria se dissesse que nunca o fiz. Fiz. O erro é excelente professor. O diabo é que se tem amigos que adoram se expor na rede. Uma pose em fotografia com eles e lá estará você para todo o planeta saber onde e com quem você estava, o dia e a hora. Pergunto: pra quê? 
            Dizia o Roberto Carlos numa canção antiga que "às vezes as mentiras também ajudam a viver". Outro dia eu dizia que não mais tinha idade para mentir. Não mais me disponho a mentir a mentira que fere, a mentira que esconde minhas mais essenciais verdades ou que se cria para levar vantagem sobre alguém. E minto. Ainda minto a mentira inconseqüente, quando não quero explicar detalhes do que só diz respeito a mim. Afinal, a privacidade e o pudor são louváveis e necessários para um mínimo de intimidade consigo mesmo. Não se deve esquecer que as pessoas já sabem tudo sobre você e freqüentemente têm soluções para os teus problemas. Mesmo que não se divida nada com elas, estão sempre interferindo, ainda que não convidadas a tal. Imagina se as municiarmos com mais detalhes que versem sobre nossa vida pessoal.
          Outro dia publiquei na rede social um texto que escrevi há alguns anos, onde exponho minha indignação com um colega de profissão que falou mal de mim. [O texto está em meu outro blog "O Desocupado" (http://fecavalcanti.facilblog.com/Primeiro-blog-b1/Vergonha-sobre-mim-b1-p29.htm).] O resultado é que algumas pessoas, aparentemente totalmente desprovidas de sensibilidade, nada entenderam. Ou, por outra, entenderam tudo da forma mais equivocada possível. Não tiveram a menor perspicácia para perceber que o texto é, todo ele, um rasgado auto-elogio oculto entre palavras de aparente autodeprediação – caíram na armadilha que lhes preparei. Vê-se bem que as pessoas estão propensas mais a expor seus próprios problemas do que a se deixar enlevar pelo que o outro está dizendo. Em outras palavras, elas entendem o que bem entendem, entendem o que querem, numa fragorosa explosão de atos falhados. 
          Mas estou falando, falando, e ainda não digo o que quero. O que quero dizer é que não somente a rede social, mas também o telefone portátil é fonte de desentendimentos, e frustrações, e enganos, e males-entendidos de toda sorte. Outro dia eu perguntava a um amigo: -"Quem precisa de um celular?" Hoje há um código implícito que define como se deve comportar na "mídia". Quebre as regras e estará sumariamente condenado. Quem pensar que o telefone portátil não se enquadra na definição de "mídia", engana-se. Exemplo: receba uma ligação e não retorne. 
           (Ainda não digo o que quero dizer!) Dizia o Casoba – ou dizia ele o que outro dizia – que se Deus não existe então tudo é permitido. O descomedimento, por exemplo. Toda reação temperamental é descomedida. Mesmo que nos sirvamos da terceira lei de Sir Isaac, aplicada por extensão às interações entre os homens, uma reação a uma ação deveria lhe ser, se não igual, pelo menos proporcional. Às vezes ferimos sem querer, sem a intenção. O coração do ego do homem é por demais sensível. Exalta-se com uma brisa, uma tênue lufada, um discreto balouço. É nossa tendência à exaltação própria que nos faz assim. Policiar-se é necessário, é altamente recomendável. 
            Termino sem dizer o que queria dizer, o fato doloroso e lastimável que me lançou neste devaneio talvez impróprio. Deixemos quieto. Convém à noite, mais tarde, olhar as estrelas em Órion, ver Betelgeuse, o portal da casa de Deus.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Os 50 do Mesquita

          Sábado último aconteceu o rega-bofe do Mesquita.  Foi, com efeito, um acontecimento tremendo, em sítio próximo ao Eusébio. 
          Já vos falei do convite, mas sobre ele não listei detalhes. Ora, eram dois tipos de convite, como vim a descobrir depois já à festa. No que recebi constava um mapa de como chegar ao local; no outro não. No outro constava a "programação" do evento, mas não o mapa. Devo dizer que o mapa se mostrou absolutamente desnecessário: havia uma enorme faixa amarela à entrada da propriedade, que se situava em movimentada auto-estrada, com os dizeres "Parabéns, Mesquita!" em garrafais letras azuis. (Ou seriam verdes?) Bastava ter dito que à altura do quilômetro tal se veria a indiscreta faixa e pronto. 
          A programação dava as 10 horas como início dos "trabalhos" — um jogo de futebol com amigos. Às 11, banho de piscina. Como cheguei após o meio-dia, não sei se o Mesquita expulsou o povo do campo e o empurrou à piscina. Também desconheço se o Mesquita fechou a piscina pro povo vir ao churrasco que começou a ser servido em seguida, às 12 horas. No churrasco serviram churrasco e panelada, uma manobra "fisiológica" do churrasqueiro. É sabido que as gorduras retardam o esvaziamento gástrico, e que estômago cheio, para o cérebro, é sinônimo de saciedade. Assim, servir panelada ao início contribui para um menor consumo de carne em seguida. 
          Concomitante à comelança, uma banda tocava música dançante. Às 16 horas a banda saiu e entrou um DJ. Após o DJ ficaram a beber e comer os que sobreviveram. Eis aí tudo, em resumo. 
          O povo comia e dançava, alguns até mais afoitamente, mostrando dotes dançantes até então desconhecidos, como o Braga, que de lá saiu com a alcunha de "o novo Baryshnikov". O homem usava coreografia inusitada e autêntica, fazendo par, às vezes, com outro dançarino incansável, o querido Camarão. Vez ou outra se engalfinhavam em abraços sufocantes e o Braga chegava até a "subir" no outro como se o homem fosse uma árvore. Uma presepada bem superlativa e que devemos atribuir ao álcool e à amizade secular entre varões acima de qualquer suspeita. 
          Sem dúvida a festa adotou um estilo rococó, e seu outro ponto alto foram os discursos. Discursaram os filhos do Mesquita, o próprio Mesquita, e alguns bêbados mais exaltados. Lá pelas tantas pediram-me a que lesse o "improviso" que preparei por solicitação da senhora Mesquita. (Não sei se já lhes disse, mas a senhora Mesquita não usa o nome "Mesquita".) O tal "improviso" não fez nenhum sucesso. Afinal, a maioria não conhece o homem como nós e, portanto, não podem se rir de suas idiossincrasias. Para se rir do Mesquita só conhecendo o Mesquita. 
          Um terceiro ponto alto do rega-bofe foi o encontro entre amigos de quase 40 anos. É momento para celebrar o presente, relembrar a boa vida passada, e desejar bons fluidos para o futuro. Completamos um ciclo. Estamos vivos e felizes. Faremos muitos outros aniversários do Mesquita, se assim o Senhor permitir. O aniversário do amigo é aniversário de todos nós. Valeu por mais um, Mesquita!

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

"A gente só está bem enquanto dorme!"

    Adalgisa não conseguia dormir. Para não faltar com a verdade, direi que minha amiga já vinha, há algum tempo, sofrendo dessas insônias renitentes e cruéis. Dir-se-ia que seu grande desejo era a alvorada, enquanto que seu grande medo era o ocaso.
          Lia muito. Já se empanturrara de tantas páginas. Folheava revistas, semanários, jornais, o diabo. Até gibi comprara. E lia biografias, que adorava. Sabia de tudo da vida de muitas personalidades, vivas ou mortas. Os romances eram também bastante apreciados. Contudo, queria o sono, queria dormir.
          Aos dias de hoje há as redes sociais, como se bem sabe. (Diz o meu amigo Siqueira, escritor de pena hábil, que a rede social é a calçada de antigamente.) Imaginemos a calçada nos tempos machadianos. Não, não vamos tão longe. Imaginemos a calçada nos tempos do iê-iê-iê, nos tempos da Jovem Guarda.
          Sim, eram bons tempos aqueles!... Ficava-se à calçada em cadeiras de balanço até altas horas. E o que lá se fazia? Exibia-se o novo vestido, o novo figurino, falava-se da vida alheia. Enfim, as pessoas se mostravam. Tamanha interação não podia resultar noutra coisa – sabia-se da vida de todo o mundo. A fotografia era coisa cara, um hobby da elite financeira. As viagens também. Pobre viajava de carro ou ônibus e rico de avião.
          Hoje faz-se o mesmo, só que na rede social, com a vantagem do encurtamento da distância entre ricos e pobres. Hoje pobre tem máquina fotográfica e viaja de avião. Ricos e pobres fazem viagem pro estrangeiro como quem vai ali, a Sobral. Inventou-se, então, tão logo se percebeu a aproximação dos pobres dentro das aeronaves, a primeira classe e suas inúmeras vantagens e confortos. E levam-se máquinas fotográficas que não se diferenciam. Ricos e pobres têm câmeras que só não falam por falta de língua. Além disso, nem é mais necessário ter a câmera – os telefones portáteis são munidos de câmeras fotográficas tão ou mais perfeitas que as simples máquinas de hoje.
          Então, mesmo à madrugada e não mais sendo possível ir à calçada, hoje se pode ir à "calçada de antigamente". Sempre há de lá estar alguém também insone ou aproveitando sua restrita liberdade conjugal. Encontram-se uns e outros na "calçada de antigamente" a esperar o entorpecimento ou o clarear do dia. E conversam, fofocam, trocam mostras de fotografias recém obtidas, opinam sobre a chuva...
          Adalgisa queria dormir. Não conseguia. A "calçada" se esvaziava. E o que ocorreu foi que passou a cair, repentinamente, um pé d'água de proporções medonhas. É sabido o amor que o nordestino nutre pela chuva, inda mais em se tratando de chuva à madrugada. Chuva à essa hora é sinônimo de sono garantido entre cobertas quentinhas e acolhedoras ao som da água que banha o torrão árido lá fora.
          Eis que, mais que a insônia, com a chuva Adalgisa se angustiava. Mais que uma angústia comum, uma angústia mortal, de sensação de morte iminente, de anulação e extinção eternas se apoderava de minha amada amiga. Que fazer?, pensou. Correu de volta à "calçada se antigamente" com o firme propósito de acordar o povo, gritar bem alto, pedir socorro, se esgoelar e uivar como uma loba prenha faminta, prestes a dar à luz a cria que pereceria em seguida.
          Claro está que todo esse é um cenário metafórico e surreal. O que ela de fato fez? Enviou mensagem aos mais íntimos. Dizia: -"Acordem! Tá caindo uma chuva deliciosa e vocês que conseguem dormir estão perdendo!" Ora, os que estavam a dormir estavam, com efeito, a perder o espetáculo da chuva. Bem se vê que Adalgisa, como a raposa de Esopo que desistia das uvas, abria mão do sono em favor da apreciação do aguaceiro que nutria a terra. E demandava companhia para o espetáculo.
          Ninguém lhe deu ouvidos. Todos dormiam na paz. Adalgisa estava só. Após o urro inaudito, não suponho o que lhe tenha ocorrido, mas é certo que não morreu. Como sei? Cedo, pela manhã, a mãe de Adalgisa, que "passeava" pela "calçada de antigamente" e, vendo os alardes da filha na madrugada silenciosa, ainda se permitiu repreendê-la. Com um puxão de orelha virtual, disse-lhe, enfática e assumida de toda a sua autoridade : -"Vai dormir, menina! A gente só está bem enquanto dorme!" Adalgisa, então, não teve dúvidas – sua noite fora de fato um inferno.
          De minha parte, eu, que sou um fanático de frases, ainda agora me está a ribombar nos ouvidos a frase da madura senhora mãe de minha amiga: -"A gente só está bem enquanto dorme!..." É, sem a menor sombra de dúvida, a frase lapidar que está a mover em mim toda uma cólica, todo um processo, toda uma gestação de idéias e pensamentos. Nem eu mesmo sei onde irá parar...

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Resenha do Mesquita

  Eis que hoje, numa dessas surpresas que nunca se espera ter, ligou-me a mulher de meu amigo Mesquita. A surpresa é fácil de entender: a mulher do Mesquita nunca usa seu telefone portátil. De tanto não falar ao telefone portátil suponho que sua conta não passe dos impostos nela embutidos mais uns trocados. Não chegaria a, digamos, 10 reais. Uma mixaria. A bem da verdade, custa-me entender que ela insista em possuir o aparelho.
         Fez um pedido. Queria que eu escrevesse um "improviso" para ler ao dia do grande rega-bofe que se aproxima, o aniversário do marido. Queria que eu fizesse uma homenagem a ele e a nós, seus amigos desde as fraldas. E argumentou o óbvio – nós, amigos desde as fraldas, o conhecemos há muitíssimo mais tempo que ela. Foi o bastante para me convencer a pensar no assunto. Sim, porque não sou dado a escrever "improvisos" a serem lidos para uma multidão. Ainda agora estou absorto a pensar no caso.
          Escrevo, não escrevo; escrevo, não escrevo... eis a dúvida crudelíssima. Que direi? A memória me transporta ao início dos anos '70, quando conheci o Mesquita. Era um garoto como outro qualquer – éramos mirrados e sadios. Nada de excepcional há que relatar sobre o então menino Mesquita. Éramos danados, sonsos, curiosos e felizes. O grande lance de todos nós ocorre à maturidade, como a seguir verão.
          Conhece-se um homem pelos seus gostos. De que gosta o Mesquita? Direi que gosta do que é bom. Conclui-se de imediato que é um bom homem o Mesquita. Dirão que todos gostam do que é bom e, contudo, nem todos são bons. Direi que não, que os maus gostam do que é mau, eis a verdade. Em suma, Mesquita gosta de virtudes, e isso o faz excelente. Esse, sim, é o grande lance da maturidade de meu amigo, posto que é conhecido o fato de que muitos se corrompem à medida que "amadurecem". Meu amigo ainda é, para mim e para os outros que o acompanham desde há 40 anos, aquele menino, aquela criança alegre e danada. Quando o olho não consigo ver outra coisa senão pureza, senão ludicidade, senão o que é bom. Direi ainda mais, atendendo ao pedido da senhora Mesquita – hoje os maridos não mais dão seus nomes às mulheres – somos, Mesquita e seus jurássicos amigos, todos bons porque não existe amizade entre maus, como atestou Marco Túlio Cícero. 
          Há, não obstante, sobre o Mesquita, sérias acusações por parte de "setores" de seu círculo de amizades. Acusam-no de ser cobaia, glutão e hipocondríaco. Apurei, como seu dos mais chegados amigos, e no intuito de defendê-lo em tribunal se preciso for, todo o caso e passo e expô-lo agora para que os senhores tirem suas próprias conclusões.
          Ora, saibam que o Mesquita sofreu,  em tenra idade, sério acidente automobilístico que o levou, com o passar do tempo, a uma seqüela incômoda – uma artrose de coluna cervical. Precisou ser operado. A operação, realizada aqui mesmo por certo pica-grossa das bandas de São Paulo, foi um sucesso, restando a meu amigo apenas uma discretíssima seqüela  deglutiva. Quando o amigo engole, pende a cabeça para o lado, sempre o mesmo lado, como a dirigir o bolo alimentar na direção correta. O diabo é que, para ele, o responsável pela minimíssima mazela não foi o pica-grossa paulista mas o renomado cirurgião cearense que lhe assistiu à operação. Como pode?, muitos indagarão. Explico.
          Quando se lhe apresentaram as dores no pescoço, anúncio da artrose, Mesquita procurou o competente cirurgião local que, após avaliação criteriosa e cuidadosa, informou: -"Não tenho experiência neste tipo de operação!", e lhe sugeriu o operador sulista que por aqui  passava uma temporada não se sabe fazendo o quê. Assim, foi o amigo para a mesa de operação para ser operado pela dupla, o cirurgião cearense funcionando como auxiliar do outro. Ocorre que, por obra da baixa biodisponibilidade das drogas anestésicas ou de uma dormitada do anestesiologista, Mesquita ouviu quando o paulista disse ao cearense: -"Faz você qu'eu te ajudo!" 
          Assim, as frases "Não tenho experiência neste tipo de operação!" e "Faz você qu'eu te ajudo!" não saiam da cabeça do Mesquita como a causa de sua seqüela. Crê, no mais íntimo de seu ser, que foi operado pelo cirurgião cearense, o que não reunia experiência com "aquele" tipo de operação. Em suma, acredita ter sido usado como cobaia pelo cirurgião cearense. E – pior! – passou a alardear pelos quatro cantos do planeta seu status de cobaia. Dizem que, chegando em França, numa viagem com a mulher, foi logo anunciando ao hotel: -"Sou uma cobaia! Exijo respeito!" Resultado: os amigos lhe puseram o apelido de "cobaia". Afinal, para que servem os amigos?
          Bem conhecido é o zelo com o qual o Mesquita trata suas doenças. O homem tem prostatite, sinusite, artrite, laringite, paroníquia e viroses recorrentes. Bem conhecida ficou sua "virose cérebro-muscular" que o acometeu há poucos anos. Gastou todo o dinheiro do plano de saúde em exames e consultas apenas para concluir que tivera uma "virose cérebro-muscular". O médico que o assistiu nunca ouvira falar de tal entidade nosológica e até hoje a desconhece, mas o diagnóstico foi dado pelo próprio Mesquita. Por exclusão, diga-se  an passant.
          Está aí o Motta que não me deixa mentir – Mesquita tomou antifúngico para uma micose na unha do pé por seis meses. E a micose já invadia-lhe quase todas as unhas e o homem seguia a ingerir o tóxico medicamento na crença de que curaria. Resultado: a micose hoje é sua fiel companheira e lhe ataca apenas uma das unhas. 
          E as viroses "comuns"? Quantas viroses "comuns" teve o Mesquita!... Faltou várias vezes ao "racha" por causa das malditas viroses. Ano passado, salvo engano, foi acometido 12 vezes de viroses " comuns", uma a cada mês, portanto. Funga mesmo sem ter o que fungar durante suas recorrentes viroses. Quando funga mesmo decreta: -"É a sinusite!" E sai a fungar pela casa como um tísico sem tosse que, a propósito, raramente tem. Se tiver exige de imediato uma chapa do pulmão. Pode ser uma pneumonia!
          Assusta no Mesquita sua fortaleza diante de tantas doenças. Acreditem – o homem não perde o apetite quando está doente. É justamente o oposto. Quando adoece o Mesquita é acometido dessas polifagias ferozes e ilimitadas. Durante a virose "cérebro-muscular", por exemplo. Seu desjejum era um... não! – dois copos de liqüidificador de uma densa  bananada barrados com três ou quatro sanduíches de ovos, com presunto, queijo e outras coisas mais leves.  Estava doente às pampas mas sua tez parecia ainda mais saudável e corada. Por isso, e somente por isso!, dizem-no um incorrigível glutão. No almoço o homem come, e mesmo "doente", comia mais que um cavalo no pasto. O jantar? Nem descreverei, posto que já me empacha só de falar.
        Agora, digam-me os senhores: tem esse povo, essas más línguas, razão em classificar o meu amado amigo como cobaia, glutão ou hipocondríaco? São uma súcia boquirrota e verborréica! Isso sim!

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Um bem gratuito

          Vejam que o sujeito cria seus próprios problemas e afaga seus pequenos e inocentes monstros que um dia virão a mordê-lo. O Padilha, por exemplo. Quer mudar, mas não move uma mísera palha. Quer se desenterrar de sob as toneladas de areia que o sufocam, mas não move um músculo. E – pior! – dá a si mesmo todo o tempo do mundo. 
          Mas tudo se explica. Não há nada que se enterre sob os escombros de uma alma sofrida que não se explique. E explica-se também a lerdeza das soluções encontradas por esses pobres seres na lida com seus fantasmas. O porquê deles? Como viverão várias vidas, em não mudando nesta, esperam para mudar na outra mesmo. Melhor. Ninguém precisa testemunhar a mudança de ninguém, ora bolas! Assim, procrastinam o inadiável. 
          Nao obstante, a história é bem pior, acreditem. Antes do postpone fatal, ou ao longo de seu continuum, Padilha agarra-se à firme convicção de que está em processo de mudança. Em sua mente e em sua consciência permanece absolutamente convencido de que está prestes e em vias de mudança radical e inexorável, quando os que o rodeiam testemunham justamente o oposto – nenhuma mudança à vista, por menor que seja. 
          Não falemos de crenças, que este é um tema espinhoso, mas digamos que também se paga pelo que se crê. Se se crê que se pode permanecer imutável impunemente sabendo-se sofredor em seu estado atual, das duas uma: ou se é masoquista ou não se é sofredor. E se não é sofredor, não há porque mudar. Se não há porque mudar, por que quer mudar? Observem que o exercício da lógica é bem útil quando as coisas não parecem muito claras. Em outras palavras, a mudança e a velocidade com que ela ocorre dependem daquilo que se crê. É uma questão de escolha, como muitas outras coisas na vida. 
          Para que servem os amigos nessas horas? Resposta: para nada. O sujeito não ouve, não dá a mínima, não quer ver. Já disse linhas atrás: crê, no caso específico do Padilha, que mudará na próxima vida, reencarnado. Vamos e venhamos, tudo parece valer na lida com a questão da aparente aniquilação definitiva. Há séculos que atormenta o homem. Por que não atormentaria ainda agora, ainda hoje? A situação fica ainda mais difícil se o amigo tomar a crença do outro como um conto de fadas de péssimo gosto. Assim, repito, paga-se pelo que se crê.
          Cada um creia no que lhe convier, portanto. E os amigos que se resignem a aceitar as mútuas esdrúxulas crenças que porventura encarem de parte a parte. É o primeiro grande exercício de democracia a se obrigar no dia a dia. O amor é um bem-querer gratuito.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O salseiro do Mesquita

    Eis que hoje, 22 de dezembro, faz anos o Mesquita. E quantos anos faz ele? Faz 50. Bato-lhe o telefone para os parabéns e o que descubro? Mesquita estava, no exato momento em que liguei, chegando a São Salvador da Bahia para um merecido descanso de férias com a família. 
          Bem se vê que fazer aniversário a essa época do ano é ainda mais excitante, tendo em vista o clima de festa que se apodera das pessoas. Vamos e venhamos – não é a mesma coisa que aniversariar ao dia, digamos, 04 de maio. O que há em torno do dia 04 de maio? Resposta: nada. Assim, fazer anos a essa época é uma festa só. Tanto é que o Mesquita resolveu "comemorar" a data somente ao próximo mês, lá pelo dia 20. 
          Expliquemos, de modo que o assunto não se torne um mistério.
          O Mesquita está apenas começando as comemorações de seu aniversário. Viajou com a família e vai ficar fora por pelo menos uma semana. Quando digo "família" alguém pode supor que viajou o Mesquita com a mulher e os filhos. Tolo engano. 
          Quando o Mesquita viaja leva meio mundo. Vão seus pais, os pais da mulher, os irmãos com as respectivas consortes e filhos, as cunhadas com os maridos e filhos, as amas-secas dos meninos, e talvez vá também o papagaio e o cachorro de alguém. Seu cunhado, homem pouco afeito a essas erupções familiares, vai à força das circunstâncias, mas vai. Lá chegando pega-se-o olhando o céu a pensar: -"Que diabos estou fazendo aqui?..." Ônus do casamento. Ajoelhou tem que rezar.
          A segunda etapa da comemoração será daqui a aproximadamente um mês – uma festa de arromba a troar o dia inteiro e escorregando noite adentro. Assim, Mesquita comemora com a família e depois ajunta os amigos.
                                                                         ****
          Empino minha motocicleta para adentrar o estacionamento do prédio e o porteiro me faz parar. Entrega-me uma sacola que deixaram para mim. Diz o nome do entregador – foi o Mesquita. Dentro, uma garrafa de Johnny Walker Red Label ainda lacrada e um convite.                         
          Subo. Passados quase trinta dias – hoje é 12 de janeiro de 2012 – descubro o rascunho das anotações que fiz, acima, sobre o aniversário do Mesquita, de modo que a entrega da encomenda e o rascunho me avivaram a memória para o evento que se aproxima – o rega-bofe de proporções tremendas. 
          Não sei se já comentei. Se já, nada me custa comentar novamente. Os Mesquita adoram comemorar, adoram festas. Comemoram de aniversário de mudança a aniversário de divórcio, não perdoando nem a comemoração do primeiro chifre nem do aniversário de morte. Tudo relembram e celebram com uma alegria e um humor contagiantes. Tanto é que, entre eles, não há sofrimento nem se reclama de nada. Vamos e venhamos, não é toda família que é dada a essa visão tão positiva da vida e de seus acontecimentos mais funestos.
           Cá em cima, já em casa, abro a sacola e me deparo com o conteúdo já relacionado. O destilado foi a sobra dos festejos do Ano Novo que ficou em poder de meu amigo. O convite era o de seu rega-bofe. E – olha – que convite! Parecia o convite de casamento de um príncipe. Não sei já viram um convite de casamento de príncipe. Eu nunca vi, confesso, mas tenho a mais absoluta convicção de que aquele seria um convite para o casamento do filho de um rei. Logo concluí – aquilo era coisa da mulher do Mesquita. 
          A mulher de meu amigo o cobre de todos os cuidados e zelos possíveis. Minto. Não são cuidados nem zelos – são mimos e paparicos. Diga-se de passagem, o Mesquita é dos homens mais bem casados que conheço. Sim, porque agüentar o Mesquita e ainda lhe ceder aos caprichos não é coisa pra qualquer ser humano normal. Sua mulher é uma santa da mais elevada hierarquia. Perde apenas para a Virgem maior. Ela seria, em minha opinião, a única responsável por aquela obra de arte que jazia em minhas mãos. 
          Não me darei o trabalho de o descrever aqui. Eu o farei na festa. Tomarei do microfone – sim haverá, sem sombra de dúvida, um microfone nessa festa – e farei um discurso, usando de toda a minha mais refinada retórica e eloqüência, com o propósito de elogiar o convite. Tomei o cuidado de não o danificar ao abrir, já que preciso tê-lo à mão no momento de minha fala. Minha memória não seria capaz de guardar tantos detalhes estéticos e gráficos do impresso, de modo que o improviso deve se alicerçar apenas e tão-somente nele mesmo. 
          Após o salseiro prometo relatar seus pontos mais elevados aos que não forem. É aguardar pra ver.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Garotão cinqüentão


"Jovens, envelheçam!" (Nelson Rodrigues)

           Disse-me nessa madrugada o Moura, indignado com o comentário da filha: -"Eles pensam que somos velhos!" Referia- se aos mais jovens. E continuou: -"Pensam que, porque o corpo decai, decai também a mente, os pensamentos, os desejos, as idéias...!" Segurava o copo com a esquerda e gesticulava com a direita. "Não sabem nada!", arrematou.
          E, de fato, o Moura se vestia com uma T-shirt  azul, uma calça jeans desbotada e sapatos esportivos azulados com cadarços brancos. Do alto de seus cinqüenta e poucos anos, a cabeleira inteiramente branca, dir-se-ia que o homem sofria do complexo de Peter Pan. Ao que pude entender, a filha, que o encontrara antes de ele sair de casa para a balada onde estávamos, criticara a indumentária de seu jovem e maduro pai. Teria dito ela: -"Que coisa imprópria para a tua idade, meu pai!" Ele recebeu aquilo como uma falta de sensibilidade da jovem e verde filha. 
          Ora, jovem e maduro é o meu amigo Moura; e jovem e verde é sua inábil filha. E cubro de razão o amigo. Como não? Nós, os cinqüentões, estamos no interregnum da juventude biológica. Porém... e daí? Nós, que estamos ainda tão presos aos nossos bons e saudosos tempos, sentimos no cerne de nosso ser a pulsação indelével e irremediável de nossa eterna juventude mental. Sentimo-la tão viva que o que vemos ao espelho é apenas um pálido reflexo daquilo que somos de fato. 
          Nunca nos abandonaram os pensamentos que também acometem os atuais jovens biológicos, com várias e notáveis diferenças a contar a nosso favor. Eles pensam sobre o futuro, nós pensamos sobre o presente, e temos um passado a lembrar. Tivemos um rico e bem vivido passado, que nos faz orgulhosos de hoje sermos quem somos, orgulhosos de termos nos tornado o que nos tornamos. Nosso passado nos proveu a saúde mental, emocional, afetiva e até física que temos hoje. Fomos forjados em famílias sadias, com os problemas normais de famílias normais. Fomos educados em escola que nos imprimiu na alma princípios indeléveis. Crescemos com o amor de nossos pais a nos envolver na segurança e paz de um verdadeiro lar. Muitos não se podem jactar de tal riqueza. 
          Nosso passado é nosso tesouro. Para muitos o passado é o inferno. Nosso passado, onde estão todas as nossas experiências e ensinamentos básicos, é a fonte de sabedoria onde sempre bebemos ao nos defrontar com novas e desafiadoras situações da vida. Nossa bagagem de quantidade de vida não nos faz menos jovens. Ao contrário, é justamente essa boa bagagem que nos faz mais jovens: somos cada vez mais sadios em todos os aspectos que dependem de nossas escolhas e decisões. A juventude biológica até pode, em parte, depender de uma decisão nossa, ao adotarmos ou não um estilo de vida mais ou menos saudável, mas não podemos ser responsabilizados pelos méritos e deméritos de nossos genes. Daí porque não há muito o que se vangloriar na beleza estética – nela não há merecimento de seu possuidor. 
          Para nós, cinqüentões, o que conta é o presente. Vivemos intensamente o presente porque nele nosso futuro chegou. Estamos vivendo aquilo que no passado chamávamos de futuro. E descobrimos nele, sem excitação e com muita tranqüilidade, que o que vale e o que conta na vida é justamente a bonança e a calmaria da sabedoria, a descoberta da simplicidade e dos plácidos relacionamentos como o grande momento dessa aventura fantástica. Não queremos mais nos mostrar, não mais ambicionamos, não mais nos angustiamos, não mais nos apressamos, não mais atropelamos, não mais nos iludimos nem mais iludimos a fim de obter as vantagens que sabemos hoje não se sustentarem. Queremos o fácil e o simples, porque no futuro, que para nós está mais próximo, teremos o encontro final de nós com nós mesmos. Nele não queremos nos arrepender do que fizemos e, menos ainda, não queremos nos arrepender do que não fizemos. Queremos a paz final da missão cumprida. 
          A jovem filha de meu amigo é jovem e, como tal, nada sabe, como ele mesmo concluiu. De que pode ela falar? Sobre que assunto ela entende? Qual marca a vida lhe imprimiu? Que aprendeu de prático? Que aconselhamento pode prover? Que decisão pode tomar sem os riscos que a verdura da vida impõe? O futuro do jovem biológico seria melhor se entendesse o que seus experientes pais tentam lhes mostrar; se percebesse que seus pais não são velhos, mas sábios; se se humilhasse à sua ignorância e à autoridade de sua vivência; se compreendesse, enfim, que a vida é laboratório de curta aplicação – uma péssima experiência ao início pode lhe comprometer seriamente até o final. As decisões dos primeiros anos são aquelas que vão impactá-la para sempre, justamente ao tempo em que estão disponíveis as palavras de sabedoria dos pais, que teimam em negligenciar.
          Que importa como nos vestimos? Se o Moura, um cinqüentão de marca maior, se veste como um garotão de vinte e cinco é porque está podendo, ainda que a cabeleira branca lhe denuncie os anos de estrada. Sofremos todos do complexo de Peter Pan. E não temos nenhuma necessidade de psicoterapia. Estamos resolvidos. Somos quase uma enciclopédia. Estamos apenas maduros, quase podres, no dizer de meu amigo Casoba.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Sejam burros!

                         

          De outra feita eu dizia que o sujeito hoje em dia vai ao toalete  e, incontinênti,  publica o notável ato na rede social. Um amigo comentou: "-Veio para ficar, e já se incorporou ao cotidiano de muita gente!" E arrematou: -"Nós, por exemplo!" O diabo é que, para anunciar os perigos e criticar a exposição excessiva das pessoas na rede social, é necessário estar na rede social. Nada mais lógico – está todo o mundo lá! Seria uma estupidez de quem pretende tais intentos ir anunciá-los no aterro sanitário. Somente os urubus que, ao que me conste,  não estão inscritos na rede social, ouviriam o bem intencionado arauto. 
          De fato, há pessoas que gastam seu dia na rede social. Para elas a rede veio para ficar e faz parte de seu cotidiano. Meu amigo está coberto de razão em sua constatação. Já ao afirmar que para "nós" a rede faz parte do cotidiano, equivocou-se redondamente o amigo.
           "Nós" é a primeira pessoa do plural de uma conjugação verbal. Inclui alguém e "eu". Então, venho informar em alto e bom som: "eu" não tenho a rede social como parte de meu cotidiano. Há dias que nem lá vou. Aliás, a rede social, em minha humílima opinião, é, sob todos os aspectos, um pé no saco. Que me desculpem os amigos apreciadores da fruta, mas questão de gosto não se discute. E até se discute, sim, mas não haverá possibilidade de acordo que não seja a aceitação do outro com seus caprichos e idiossincrasias. Assim, mais uma vez anuncio em alto e bom som: estou mais para um old fashioned guy que aprecia a conversa olho no olho ao vivo e a cores. Quem não tem tempo, ou não pode, ou não quer, paciência. Que fiquem na rede social.
          E não me venham de lá os afoitos afirmar que lá posto meus textos, como se quisessem me acusar de incoerência. Não o será. Essa é uma das poucas utilidades da rede social – a divulgação de algo. E mesmo assim confesso – não é sem um certo grau de arrependimento que faço tal divulgação. 
          A rede social tem muita gente sabida, "inteligente", "entendida". Essa gente tudo combate, tudo complica, tudo empanca, tudo dificulta. E se se reclama de sua agressividade, insensibilidade e insensatez, o que diz essa gente? Diz o óbvio. Diz que a gente não tolera "críticas". Assim, já começo a pensar seriamente em evitar a divulgação de qualquer coisa, desde um anúncio de sabonete a um conto humorístico. Outro dia postei  um texto onde relatava um hilário episódio ocorrido com um amigo – algumas dessas pessoas sabidas demais fez beicinho e cara feia. Pior pra elas. Municiaram-me com mais temas para escrever. 
          Assim, antes de parar de postar na rede social digo a essa gente sabida o que Nelson Rodrigues dizia aos então novos e "entendidos" diretores de teatro: -"Sejam burros! Sejam burros!"

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Gênios de araque


 "Porque onde não há lei também não há transgressão." (Rom: 4, 15)


           Outro dia uma amiga foi vítima na e da rede social por parte de desconhecido. Passadas poucas horas de meu texto sobre o caso, ela me confessou: -"Sei quem é o canalha!" E saiu a me dar a ficha do "canalha". Resumamos para não cansarmos o pobre e vitimado leitor – ela conhece o homem de cabo a rabo. Digamos que ambos chegaram a conviver na intimidade. Diria até que coabitaram. 
           Antes, uma pausa. Eu disse que minha amiga foi vítima "da" rede social. Não sei se perceberam. Conclusão: a rede social vitima. Você pode ser a próxima. Qualquer um pode ser a próxima vítima. Basta estar lá. Estar vivo na rede social é como estar vivo na vida real. Para lá morrer basta lá vivo estar. Vejam que esse "estar vivo" não se refere à biologia do ser, mas à sua vida virtual.  
          Outro dia fui testemunha de um "assassinato" na rede social. Uma pobre senhorita fez o que eu considerei uma admoestação em determinado grupo da rede. O que se seguiu foi um massacre virtual, liderado por uma outra senhorita, ou senhora, de elevada estirpe cultural. (Aos que me perguntarem como tanto sei do currículo da "assassina", direi que tudo se sabe na rede social.) A propósito, abundam os "figurões culturais" na rede social. Eles propagam tudo, desde a inexistência da família até a inexistência da norma culta na língua portuguesa, tudo parte da deliberada disseminação da idéia de que não há o mal, não há o erro. Cansei-me de labutar sobre e contra tal idéia.
           Então, a conclusão a que se chega é a de que há assassinatos virtuais com a vantagem, para o assassino, de não se providenciarem inquéritos, perícias, exame cadavérico, nada. Até porque este tipo de assassinato é público, e o assassino não se intimida por tão elevado número de testemunhas. Como não há inquérito, não há depoimentos, nem delegados, nem escrivães. As infelizes testemunhas só se prestam a sofrer com a vítima. A vítima ainda respira, mas estará morta por dentro. Tanto é que a vítima da "excelsa cultura" morreu vociferando contra sua algoz, o que considerei um muito bem-feito.
          Voltemos ao drama de minha amada amiga. 
          Não se perpetraria tal crime não fosse a rede social. Até há pouco era necessário ter dinheiro para difamar. Era necessário ter dinheiro para ter opinião. Dizia o Assis Chateubriand: "se quiser ter opinião, compre um jornal." Não um exemplar de jornal, mas uma redação com maquinaria e tudo. Os  inimigos do senhor Chateubriand eram sistematicamente trucidados nas páginas de seus jornais. 
          Hoje não. Hoje há a rede social. Hoje, os idiotas, que antes se sabiam idiotas e se recolhiam à sua insignificância, descobriram sua superioridade numérica e passaram a tudo tomar, tudo invadir. Estão a aspergir suas idéias e veneno como em anúncio de jornal barato. Eis, então, que o idiota – e criminoso! – desafeto de minha amiga passou a difamá-la na rede social. Orientada por bons advogados, ela está a imputar-lhe todos artigos do Código para responsabilizá-lo  por crime. Até lá, segue o idiota em sua sanha difamadora.
          Serve também este causo a confirmar a tese de que os assassinos são sempre os mais íntimos de suas vítimas, aquele que a "amou" um dia, exceção única talvez para o assassinato com platéia e tudo, onde a "exuberante cultura" derramou o "sangue" de sua apenas conhecida virtual. Por ela jamais nutriu sentimento algum, exceto o provável desdém, dos que se julgam gênios, por seres humanos normais. Afinal, o "gênio" é sempre alguém que ouse desafiar todo um cabedal, toda uma evidência, toda uma estrutura, mesmo que seu desafio seja visivelmente estúpido e matize de preto e branco aquilo cujas cores eram justamente seu viço e beleza.