segunda-feira, 20 de março de 2017

O AMIGO CONTRA OS INSETOS

          Corre o mês de março. Eis que me lembro que é o mês em que faz aniversário o meu amigo Fábio Motta. Sim, comemora-se a festiva data ao dia 23 do corrente. Digo “festiva data” e já me arrependo. E por quê?, perguntará o leitor. O arrependimento é um sentimento que nos assalta quando agimos de forma errada e nossa consciência nos aponta a culpa. Ora, seria errado me arrepender de considerar o dia do aniversário do amigo uma data festiva? Já expliquei inúmeras vezes, mas vamos lá.
                Ocorre que entra ano e sai ano e o Motta faz tudo da mesma forma. E o que faz ele? Resposta – tranca-se em si mesmo ao dia da festa. Vejam que não afirmei que o homem se tranca em casa, ou some, ou desliga todos os meios de comunicação que lhe permitam o alcance. Não. Repito para que não reste a dúvida – o homem tranca-se em si mesmo. Ou seja, tranca-se em casa, some, desliga tudo, e... não sai da cama. É tudo junto. É como se o homem estivesse morto. 
              Diz o poeta que “morrer é apenas não ser visto”. Pois fica evidente a vontade de morte do amigo. Arrisco-me até a dizer que a coisa piora a cada ano. Ano passado o homem sumiu por três dias. Penso que estava tão apegado ao leito de morte que ao erguer-se teve um surto de articulações congeladas. No toalete, olhando-se no espelho com as remelas nos cantos dos olhos, assemelhava-se a um figurante de “Epidemia de Zumbis”, ou de “A Volta dos Mortos-Vivos”. Por um momento, do alto de sua atual e interminável Síndrome de Peter Pan, julgou-se o ator principal de “Meu Namorado É Um Zumbi”. Outro dia escrevi que o pior suicida é o que não morre. Pois é isso – o pior suicida é o que não morre. 
          Assim, em poucos dias veremos o que nos reserva o homem para este ano de 2017. Arrisco um palpite. Diria que espera-se uma mudança radical em seu comportamento. E por quê? Porque agora ele é um surfista. Um surfista de marola, é verdade, mas ainda assim um surfista. Sim, o surf foi o divisor de águas, o ponto de inflexão, a razão de tudo o que é novo para o amigo, de modo que estou seriamente inclinado a duvidar que ele se negue a surfar no próximo 23. Insisto: da forma como (re)entrou na vida do homem, o surf tem sido o grande diferencial, o gatilho para a reversão desse comportamento deplorável. Enfim, alguma coisa boa restará desse hábito tão salutar. (Pode parecer que estou a propagar contradições, mas não há aqui contradição. É apenas uma aparente contradição.) 
          O surf afastou o homem de seus velhos amigos para aproximá-lo de hábitos saudáveis e de grupos de pessoas cujas vidas giram em torno desse esporte. Dito de outro modo, o amigo tornou-se parte de uma tribo. Nós, os amigos do tempo das fraldas e dos cueiros, fomos completamente alijados e violentamente distanciados do convívio desse impoluto varão vigoroso. Paciência. Nada se pode fazer quando a rejeição se apresenta friamente e cruamente. Os amigos comuns dirão que estou a manifestar, indisfarçadamente, meus ciúmes e direi que, não!, em absoluto! E direi que, sim!, são legítimos os ciúmes! Digam-me: – como poderei me conformar perder um amigo-irmão para uma "tribo"? Nada contra os indígenas, pelos quais declaro uma piedosa solidariedade. Até porque o termo "tribo" aqui empregado não é literal, mas uma figura de linguagem para designar um grupo que se aparta do "resto". Que seremos nós, os que somos "o resto"? Já me sinto o cocô a descer pelo grosso intestino ou o catarro a subir pela via aérea do fumante inveterado, a apostema da estafilococcia...
          Também, notem, falando assim fica a impressão que os antigos amigos são má influência ou estimulam uma vida de hábitos pouco saudáveis. Direi sem demora – nada está mais distante da verdade. A essa altura da jornada, cada um recebe a influência que se permite receber. Depois de certa idade as escolhas se apresentam diariamente. Está-se escolhendo a todo instante, a cada segundo. Paramos de escolher enquanto dormimos e, com efeito, até dormindo escolhemos, se acontecer de sonhar com a dúvida que nos assola. Penso comigo: – o amigo sonhou conosco e, em seu sonho-pesadelo,  éramos todos insetos, mosquitos da dengue ou do zica-vírus, enormes e gosmentos como no "A Mosca", de David Cronenberg, a vomitar sobre as pernas do amigo a gosma enzimática que derrete ossos. 
         Devo admitir: – se sonhasse isso de alguém, jogar-lhe-ia nas fuças uma baforada de Baygon ou de SBP, "terrível contra os insetos". Contra os insetos, viste Fábio Motta?

sábado, 18 de março de 2017

MAX GEHRINGER E O MARKETING MULTINÍVEL - SERÁ QUE ELE APRENDE?

Os amigos hão de lembrar o comentário que fiz há poucos dias sobre uma resposta que o Sr. Max Gehringer deu a uma leitora de “ÉPOCA”. Foi em sua edição anterior, há pouco mais de uma semana. Enviei o comentário ao Sr. Gehringer, que não me respondeu pessoalmente. Entretanto, creio que ele acabou por enviar-me sua resposta na última edição da revista de 10 de dezembro do corrente em sua coluna “Nossa Carreira”, à página 95. Uma senhora, chamada Laíssa, colocou a seguinte questão: -“Tenho 43 anos e formação superior. Mas sou recém-separada e sem experiência profissional (meu último emprego foi há 17 anos). Por onde devo começar a procurar uma oportunidade?” Ao que ele respondeu: -“Infelizmente, Laíssa, se você não conhece ninguém que possa recomendá-la para uma vaga, essa combinação de idade + inexperiência vai lhe trazer mais dissabores que alegrias se você for bater em portas de grandes empresas. Eu diria que há duas opções viáveis que você deve considerar. Uma é um concurso público. E outra é o marketing multinível – a venda direta de produtos de uma empresa ao cliente final. É uma atividade que não requer muito capital, cujo resultado dependerá APENAS de seu esforço e competência, e poderá não apenas lhe dar um fôlego financeiro, mas também ajudá-la a readquirir confiança profissional em si mesma etc. etc. etc.” (Grifos meus).
                Ficou claro por sua resposta que o Sr. Gehringer vê no marketing multinível, que eu prefiro chamar de Distribuição Interativa, uma opção de renda potencial às pessoas que envidam esforço e competência neste trabalho. Em suma, em nada diferente de qualquer atividade laborativa séria e honesta. Em suma ainda, qualquer atividade laborativa séria e honesta gerará um resultado. Com a Distribuição Interativa não é diferente. Com um detalhe importante: Distribuição Interativa, por formar uma rede de distribuição, pode gerar uma renda elevada e, o mais importante, mesmo cessado o trabalho feito para construí-la. Em outras palavras, cria-se uma renda residual ou renda passiva. Cria-se um ativo. Os contadores e economistas que me corrijam: ativo é tudo aquilo que põe dinheiro no teu bolso. Mais especificamente ainda: o ativo põe dinheiro no teu bolso sem trabalho. O trabalho que você tem é o de criá-lo!  O que quero dizer é que o resultado do trabalho em Distribuição Interativa, ou Marketing Multinível, pode ser bem melhor do que qualquer outro trabalho convencional. A renda passiva pode ser alcançada em poucos anos de trabalho e representa uma aposentadoria! Outro detalhe importantíssimo: em Distribuição Interativa deve-se ajudar outras pessoas a atingir esses resultados! Para ser franco, só se ganha dinheiro em Marketing Multinível se se levar os outros a ganhar dinheiro! Dito de outra forma: você só ganha dinheiro se os outros ganharem.
                A última frase do Sr. Gehringer é, talvez, a mais significativa de sua resposta, e merece um esclarecimento. Quando ele diz que a atividade de Marketing Multinível pode ajudar o indivíduo a readquirir confiança profissional em si mesmo ele deixa subentendido uma ferramenta poderosa de uma empresa séria de Marketing Multinível: um Sistema de Treinamento, ou de aperfeiçoamento pessoal. Robert Kiyosaki admoesta claramente que, antes de entrar para o negócio de Distribuição Interativa, deve-se procurar saber se a empresa à qual você se associa tem um Sistema de Treinamento voltado para o crescimento e aperfeiçoamento da pessoa. E desaconselha peremptoriamente a que se associe àquelas que não o têm. Os céticos quererão saber por quê. E lhes direi: Marketing Multinível é um negócio de pessoas. Muitas pessoas farão o negócio pelo simples prazer de estar com as pessoas que admiram, ou que lhes ensinam, ou que lhes ouvem, ou que lhes ajudam nas turbulências da vida. O Sistema de Treinamento lhes prepara para serem pessoas melhores de modo a atrair mais e mais pessoas para o seu negócio. Simples como dois e dois são quatro.
                Uma ressalva vem a calhar. Marketing Multinível não deve ser encarado como uma atividade de exceção. Pareceu-me que o Sr. Gehringer só a aconselha aos que estão sem oportunidades ou aos que estão “perdidos”. Não é verdade. Marketing Multinível pode ser o “plano B” de quem quer que seja.
                Para terminar, eu diria que Distribuição Interativa é um universo. Em que pese sua simplicidade matemática da geração da renda, que até uma criança de oito anos de idade entenderia, há tantos e tais meandros no Marketing Multinível que só os que não se deram o devido tempo não puderam vislumbrar.  Aconselho-os a que “percam” alguns poucos minutos para entendê-lo. Isso poderia desvendar uma oportunidade e um desafio inteiramente novo e excitante. A vida vale a pena ser vivida.
                De minha parte fico feliz em perceber que o Sr. Gehringer já sabe mais sobre Marketing Multinível. Se ele aprender mais sobre o assunto, em breve será consultor de empresários também.


Fernando Cavalcanti, 12.12.2007 

MAX GEHRINGER E O MARKETING MULTINÍVEL

Articulista  de “ÉPOCA” na coluna “NOSSA CARREIRA”, Max Gehringer recebeu a seguinte pergunta de uma senhora chamada Lisa, na última edição da revista, de 03 de dezembro de 2007: “Trabalho numa ONG e estou extremamente insatisfeita, porque não vejo perspectivas de crescimento. Estou em RH, mas não gosto da área. Quero mudar, mas não sei que setor ou atividade escolher. Já fiz orientação vocacional, mas não adiantou. O que eu faço?”
                O senhor Gehringer é comentarista corporativo e autor de oito livros sobre o mundo empresarial. Ele respondeu o seguinte: “Faça terapia, Lisa. Até que você descubra a razão de tanta insatisfação, não adianta mudar de empresa. Enquanto isso, sugiro que considere a possibilidade de trabalhar com marketing multinível (venda em domicílio). Embora essa seja uma atividade mais de curto prazo, que não constrói uma carreira, é algo que você poderá fazer a partir de sua casa, com horários flexíveis, que lhe garantirá uma remuneração decente até você encontrar seu rumo.  (Grifos e negritos meus)
                Acredito que a senhora Lisa deve ter ficado extremamente curiosa, e ao mesmo tempo confusa, sobre dois pontos da resposta do senhor Gehringer. Primeiro, por que uma atividade que garante uma remuneração decente não pode vir a ser uma carreira?  Segundo, por que a atividade de distribuição interativa, o mesmo marketing multinível, seria de curto prazo, já que é rentável?
                Acredito também que o senhor Gehringer tem muitos conhecimentos sobro o mundo corporativo, como é evidente em seu currículo. Quem não o conhece poderá ter o prazer assistindo ao Fantástico aos domingos. Entretanto, ele cometeu pelo menos um erro grosseiro em seus comentários, afora as dúvidas que suscitou. Distribuição Interativa, como prefiro chamar, não é, em absoluto, uma atividade que inclua vendas em domicílio. Como o nome sugere, há que se ter um forte relacionamento interpessoal entre o que vende e o que compra, e sempre se oferece, além de produtos a quem compra, a possibilidade e oportunidade de desenvolver a mesma atividade. Esta oferta inclui o apoio quase incondicional ao novo prospecto ou candidato, bastando para isso que ele assuma o compromisso de levar a sério o trabalho, já que quem convida não se torna seu chefe, mas seu sócio. Esse apoio contempla todos os conhecimentos e atividades didáticas que o prospecto necessita para exercer essa atividade, de forma a se tornar um profissional capaz no mundo do negócio de Marketing Multinível. Portanto, o sair de porta em porta não é uma técnica de vendas recomendada nem recomendável para o empresário de Distribuição Interativa. Os laços humanos de companheirismo, amizade e verdadeiro interesse no sucesso alheio são as características fundamentais do negócio de Distribuição Interativa. Essas características são a “cola” de um negócio bem-sucedido, rentável e consistente. São características e condições sem as quais simplesmente não se faz Marketing Multinível.
                Também, ao contrário do que afirma o senhor Gehringer, o empresário da atividade de Distribuição Interativa tem o potencial ilimitado de construir uma sólida, lucrativa e enriquecedora carreira. Como acontece em todas as atividades na vida, é apenas um potencial. Há que se pagar o preço. Como em tudo. Se quiser ser médico, pague-se o preço. Se quiser ser rico com Distribuição Interativa, pague-se o preço. Nada nasce feito. Há que se construir. Demanda aprendizado, tempo, estudo, fracassos. Quem não quiser aprender, se dar o devido tempo, estudar e se permitir fracassar para aprender com o fracasso, que procure um emprego.
                Distribuição Interativa é um revolucionário método de distribuição de produtos e bens de consumo aos consumidores. Pelas suas características, alguém já disse que é a socialização do capitalismo e da livre iniciativa. Por apresentar a mesma chance a todas as pessoas de várias classes sociais, diversos níveis culturais e de várias profissões tradicionais a que montem um negócio a partir de um investimento inicial mínimo e com custos mínimos como capital de giro, é que ela se torna atrativa e interessante. 
                O que me parece, para concluir, é que o senhor Gehringer é um excelente consultor... para empregados! Ele orienta, seguramente de forma correta, as pessoas que têm a mente de empregados. Ter a mente de empregado tem a ver visceralmente com a educação que as pessoas recebem sobre formas de ganhar dinheiro honestamente. A grande maioria das pessoas foi educada a ganhar dinheiro trabalhando para outras pessoas ou para o governo por um salário de paga. Desde grandes executivos (os Chief Executive Officer - CEO) com salários de cem mil a um milhão de reais/mês até um gari que ganha trezentos e cinqüenta reais/mês, é para essas pessoas que o senhor Gehringer discursa. Nada contra os garis! Eles são importantíssimos! Quem limparia essa sujeira se não existissem pessoas dispostas a fazer isso por esse salário? Ele ensina como ser um melhor empregado. Por isso não aconselhou à senhora Lisa a estudar com afinco e aprender sobre Marketing Multinível. Esta é uma atividade empresarial. Há que ter a mente de empreendedor para exercê-la. E não é todo mundo que foi empregado a vida inteira que estará disposto a mudar a sua mente e aprender a ganhar dinheiro de outra forma. Mesmo que esteja correndo o risco de ficar milionário. Isso o senhor Gehringer não saberia ensinar.


Fernando Cavalcanti, 03.12.2007

RISCOS

Não se pode viver sem riscos. Em tudo há risco. Nada há nesta vida que não implique n’algum risco. Só não há o risco de morrer: a morte é certa. Não é um risco de quem vive: é a única certeza. O resto, todo o resto, é um risco. Em tudo há risco, repito.
                Um amigo, que reclamava até da nuvem sobre sua cabeça, não queria mais nada em sua vida que implicasse algum risco. Em verdade, não queria nenhum risco. Eu lhe disse que não era possível; que escolhesse coisas de menor risco; que seria até possível aferir os riscos de cada projeto, mas não havia como evitá-los completamente. Ele se convenceu quando lhe disse que as seguradoras vivem do dinheiro que ganham assumindo os riscos alheios. Você as paga e elas assumem os riscos que você tem de ter prejuízos ou perder um bem num sinistro. Se o evento indesejado vier a ocorrer, elas te reembolsam. Deve ser um bom negócio, visto que elas crescem cada vez mais. E, se crescem, é porque o dinheiro que entra em seus contratos de risco é maior do que o que sai com o pagamento do prejuízo dos clientes. Conclusão: o risco é só um risco. O risco não é um fato líquido e certo, como a morte. Ele é apenas uma possibilidade, e, portanto, só ocorre eventualmente. Na maioria das vezes nada ocorre. Por isso as seguradoras enchem os bolsos de dinheiro.
                Ele passou, então, a especular sobre os riscos de cada coisa em particular. Antes, contudo, alertei-lhe que às vezes corremos o risco de que também coisas boas aconteçam; que o evento fortuito pode ser uma coisa esplendorosa, tremenda. Um exemplo: se jogar toda semana na loteria esportiva – sou do tempo da loteria esportiva – corro o risco de ficar rico. É óbvio que também corro o risco de perder todo o meu dinheiro jogando, o que é muitíssimo pouco provável se jogar apenas um único e mísero real por semana. Ele, que estava mais preocupado em problemas advindos dos maus riscos – os maus riscos são os riscos em que o evento fortuito é ruim ou indesejável – enumerou duas coisas que evitaria doravante: casamento e filhos. Sobre o casamento alegou que corria o risco de levar chifres ou de sua mulher lhe tomar o que tinha. Sobre ter filhos me saiu com esta: custam muito caro e não dão retorno. Sobre o matrimônio argumentei que diminuiria bastante os riscos se procurasse a companheira ideal, financeiramente independente e de reputação ilibada. Ele contra-argumentou que as mulheres financeiramente independentes não iriam casar com um borra-botas como ele, e que as de reputação ilibada seriam como rede preta: inexistentes. Disse-lhe que os filhos lhe dariam muito prazer e que seriam a ponte para transcender a vida. Disse ele, então, que preferia ter outros prazeres com as mulheres e que não tinha interesse em transcender, pois não estaria lá em corpo físico para ver. Lembrei-lhe que, com a vida devassa que levaria, correria o risco de adquirir doenças e morrer mais cedo. Ele replicou que não tinha medo de correr esse risco, desde que a morte fosse confortável e rápida. E a conversa foi, foi, foi... e não teve mais fim.
                Como vêem, cada um escolhe os riscos que quiser. Foi muito bom porque fizemos um exercício de pensar mais objetivamente nas coisas. Na maior parte das vezes não agimos assim. Não nos damos ao trabalho de pensar nos riscos que corremos, os bons e os maus. Às vezes, o risco de bom êxito é até maior que o de mau, mas recuamos porque focamos no último. Só olhamos para o medo de perder. E esquecemos que podemos ganhar. Isso mostra que os seres humanos são basicamente negativos. E por isso muitos não acreditam em si mesmos. Quando amealhamos o pouco, não acreditamos que possamos ir além e abdicamos do muito. Quando nossos projetos se mostraram inadequados para nossa realização pessoal, perdemos a autoconfiança e a auto-estima. Ficamos congelados e aterrorizados. Morremos em vida. Dizemos-nos velhos, ou cansados, ou decepcionados, e nos apegamos com unhas e dentes ao status que eventualmente tenhamos. E ficamos unicamente com ele, nosso status. Nesse momento esquecemo-nos de fazer a pergunta principal: qual o risco de me prender a esse status? E eu lhes responderei: o risco de perder a capacidade de aprender. Quando se perde a capacidade de aprender, acaba a vida. O tempo que nos resta será usado para relembrar quem já fomos, o que já fizemos, quão bons fomos um dia. Seremos velhacos. O status será tudo que nos resta. Paramos e ficamos a olhar para trás, enquanto a estrada se perde no horizonte à nossa frente. Esse é um risco que não devemos correr. Seremos zumbis a vaguear pelo mundo, desprezados pelos que pulsam de tanta vida.

Fernando Cavalcanti, 06.12.2007 

quarta-feira, 8 de março de 2017

POSE NÃO GERA RENDA

Esse negócio de rede social aproximou demais as pessoas. Não, não. Esse negócio de rede social aproximou pessoas demais. Sim, pessoas em número excessivo interagem simultaneamente. Imaginem aí cem, cento e vinte pessoas conversando ao mesmo tempo ou quase isso. Isso não seria o pior. Como se administram tantas vontades? tantas ânsias? tantas carências? Não há de ser fácil, por óbvio. Dirá alguém que a arte da interação é o uso da dialética, do contraditório, da tolerância. Tudo bem, tudo certo. Falar é fácil, fazer é que são elas, diria minha avó.
                Pois a moda em voga é a criação, na rede social, desses grupos. E para tudo se criam grupos. É o grupo dos amigos de trinta anos, dos amigos de quarenta anos; dos amigos que se conheceram no berçário, dos que se conheceram no bar da esquina, e por aí vai. Falo tudo isso e assumo – eu mesmo já criei grupos. Devo dizer que foram grupos mixurucas, pequeninos, três, quatro, cinco pessoas. Quase não se interage, quase não se fala no grupo. Chego a pensar: – para que diachos existe tal grupo? E não acho a resposta. Mesmo eu me presto, às vezes, ao efeito manada.
                Contudo, sei de grupos enormes, acima de cem pessoas. As notícias que tenho do grupo são as mais variadas. Soube de intrigas, de querelas, de arranca-rabos. Depois, ao que consta, veio uma calmaria, uma espécie de hangover, como se todos houvessem se cansado de tantos debates e de tantos embates. Enfim, veio a prova de que Rousseau, ou o Rubem Alves, ou o Rubem Braga, estava absolutamente certo – o homem, sozinho, é essencialmente bom. O ajuntamento de homens o corrompe e o degrada. Eis tudo aí.
                Eu não sei por que falei tudo isso. Há de ter sido um desses atos falhos que diariamente nos assaltam. (O melhor do ato falho é a ausência de culpa.) Queria mesmo era falar do carioca que conheci em Florianópolis, sim, o carioca que se tornou manezinho. Sobre ele, foi o seguinte.
                Parado em seu carro em monstruoso engarrafamento na Avenida Brasil, sentiu uma opressão no peito. Não era dor física, nem o aperto da angina. Era uma emoção, uma emoção negativa. E era tão negativa que a ela seguiu-se a diaforese. A gravata o sufocava, o colarinho parecia uma argola que se lhe fechava em torno do pescoço. Tinha medo, um medo incontrolável e incoercível. Sacou do telefone portátil e ligou para o cliente que lhe esperava no fórum, para a audiência. Disse-lhe que não poderia ir, que enviaria alguém para substituí-lo.
Já em casa, chama a mulher. Dá o ultimato: –“Não quero mais viver nessa cidade”. A mulher ouvia sem dar importância. Continuou: –“Escolhe aí outro lugar pra viver; aqui não fico mais”... A mulher argumentou lembrando-lhe os filhos, que estavam para entrar na faculdade. Ele refletiu alguns segundos e assentiu: –“Está bem. Espero no máximo 2 anos. Depois disso, vamos embora”.
                Dois anos depois, após lembrá-la do acerto feito, a mulher vacila. E meus pais? Vou embora assim? Deixando papai e mamãe no inferno desse Rio de Janeiro? Ele, que ia lhe perguntar se era casada com ele ou com os pais, recua e, sem hesitar, avisa: –“Estou partindo”. E, assim, o encontramos em Florianópolis, dirigindo seu carro para fazer um caixa extra, esse negócio da Uber, a empresa americana. Tem uma banca de advogado com um sócio, mas complementa o orçamento com essa atividade. No meio da corrida – íamos à praia da Joaquina – liga um cliente. (De fato, era uma cliente.) Atende. Ela quer saber de um processo. Ele explica que já saiu o mandato de prisão contra alguém e a tranquiliza. Combinam de falar depois, e ele promete mantê-la informada. Ela se despede com gratidão: –“Muito obrigada, doutor Martins”!
Ao longo de todo o percurso, o novo manezinho fala da cidade, de seu novo lar, da nova namorada, do divórcio, dos filhos já formados, dos concursos, dos salários na cidade... Acima de tudo, demonstra estar tranquilo, vivendo em paz. Afinal, ser manezinho é como habitar o oásis da violência grassante por todo o país. É tão desprendido que ousa parar seu carro no Mirante Morro da Lagoa para tirar fotos de seus clientes cearenses, algo que não está incluído no serviço que nos presta. Ao final, deu-me um cartão de visita; não o cartão do motorista que dirige Uber, mas o do causídico atuante no interesse de seus clientes.
                Ia esquecendo. O dinheiro extra se presta à realização de um sonho. Estão de passagens compradas, a namorada e ele, para Portugal em janeiro do ano que vem. Precisa juntar sete mil euros para trazer uma quantidade de vinhos que irá guarnecer a adega que construiu em sua nova casa. Já dispõe de pouco mais da metade. Não se envergonha do trabalho que faz. Vergonhoso é parasitar, furtar, roubar, enganar, e permitir que a vaidade suba à cabeça – coisa produzida pelo efeito manada, pela pose que alguns têm em alguns lugares do país.