sexta-feira, 27 de março de 2015

SURFISTA CHEIO DE "ONDA"...

          Os amigos hão de se lembrar que o Fábio Motta voltou a ser surfista. Aos 53 acorda cedinho para aproveitar os swells da praia do Titanzinho. Outro dia, não faz muito tempo, o homem havia sumido sem dar explicações. E, sim, tinha explicações. Dizia: –“Trabalho muito”...! Seus amigos concluíram que eram todos uns vagabundos. Sentiam-se como inúteis parasitas da sociedade. Sim, tinham tempo de se encontrar para jogar conversa fora, tomar uns drinques, reclamar da vida... Fábio Motta não tinha tempo para isso.
          Eis que, subitamente, surgiu o nosso Fábio Motta. Dir-se-ia ser um novo homem e até um novo ser. Com efeito, ressurgiu. Ressurgiu magro, esbelto, as faces bronzeadas, o ventre escavado... O cabelo ainda tinha aquela tonalidade acaju e, diria mais, estava ainda mais acaju. Comprou pranchas de vários tamanhos, sungas, sungões, pés de pato, toucas de nadador e acho até que um novo carro dotado dos inúmeros acessórios que facilitam o transporte de toda essa tralha.
        Preparou-se para pegar ondas havaianas, as maiores do planeta, embora, ao que me conste, as do Titanzinho não se comparem com aquelas. Ainda assim quis se preparar. Sabe-se lá... Vai que um dia o aquecimento global derrete uma gigantesca calota polar e faz subir o nível dos oceanos... Não hesitou – matriculou-se num curso de apneia. Os leigos amigos se entreolhavam e queriam saber: –“Apneia”?? Somente o Mesquita, outro surfista da velha guarda, sabia do que o homem falava.
          Minto. O Sérgio Moura também já foi surfista. Entendia o jargão. Quando se encontravam, Motta e Sérgio Moura, era um palavreado danado na gíria do surf. Quando a eles se juntava o Mesquita, aí é que a coisa pegava fogo. Dizia o Motta: –“Estou fazendo um curso de apneia”. Os outros perguntavam: –“Que diab'é isso”? E ele respondia: –“É para aumentar o fôlego”! E assim o nosso amigo se reequilibrava nas pranchas e aprendia a segurar a respiração para não se aperrear nos caldos resultantes das quedas que levava. Afinal, 53 são 53!
          A repaginada do amigo fora tão marcante que eu já nem entendia o que o homem dizia. “O mar 'tava gordo, brother!”... “Fulando é o mó ka”!... “Sexta-feira só deu merreca”... Eu mudo estava, mudo permanecia. No Titanzinho, a praia que costuma agora frequentar, se envolveu com a comunidade, gente humilde e pobre, e até se tornou conhecido pelas caridades e ajudas que presta aos moradores. As gangues do lugar lhe abrem as portas e não o incomodam. Enfim, ao que parece Fábio Motta parou de trabalhar. Suspeito que tenha se aposentado. Nunca mais falou em escritório, em cheques a receber, em clientes novos ou antigos... Hoje em dia só uma coisa lhe interessa – a prática de seu esporte favorito. Bem se vê que a guinada foi de 180 graus.
          Eu disse que ele nunca mais falou em escritório? Foi um engano de minha parte. Ele falou de sua nova estagiária, uma jovem moradora da comunidade do Titanzinho. Verdade é que falar da estagiária não é a mesma coisa que falar do escritório, mas é só se fazer uma forcinha que é possível relacionar uma e outra coisa. Orgulhoso, outro dia publicou na rede social uma fotografia onde ele e a estagiária estão lado a lado, ela com um sorriso de orelha a orelha, ele com uma expressão facial tão ou mais enigmática que a da Gioconda do Da Vinci... E isso fazendo aquele conhecido sinal de hang loose em que deixa-se apenas o dedão e o dedo mindinho erguidos enquanto o indicador, o dedo médio e o anelar ficam para baixo. Tenho que admitir – na foto o meu amigo Fábio Motta está a cara do Gerard Butler em Chasing Mavericks. A diferença é que o Butler ensinava Jonny Weston a pegar ondas, enquanto não se sabe ainda o que o nosso Motta tem ensinado à estagiária.
       Antigamente o nosso Motta fazia muita propaganda de seu negócio de seguros. Com a nova fase, o negócio pode até ir pro beleléu que ele nem se importa. Hoje o que o move é a propaganda de seu esporte. Tanto é que, não satisfeito em divulgar a sua nova estagiária na rede social, resolveu também divulgar sua performance sobre as ondas. Foi o que pude comprovar há dois ou três dias. Abro a rede social e vejo lá, estampada, uma fotografia de um surfista descendo numa onda dentro daquela parte formada por sua base e o enrolar de sua crista, mais conhecida como “tubo”. Os amigos faziam comentários e estimulavam o surfista: “Valeu, Fábio Motta”! “O homem 'tá entubando muito bem”! “Dá-lhe, Fabão”!
          O diabo é que na foto o surfista está de costas para a câmera, de modo que é impossível ver-lhe o rosto. Começaram, então, os comentários maldosos: “É montagem”! “Não é o Fábio”! “O cara tem uma tatuagem; Fábio não tem tatuagem”... e por aí a coisa foi tomando vulto. O Sérgio Moura, aparentemente um exímio conhecedor do esporte, foi taxativo – não seria o Fábio Motta descendo na onda. O Tomasim, atento observador de detalhes de imagens por ser fotógrafo amador mas não menos competente, dizia: “Há mesmo uma tatuagem próxima ao cofrinho do homem”, ao que o Sérgio insistia: “Mostra a cara, mostra a cara”!
        Ao final das contas, não se sabe se o surfista é ou não é o Motta. Por isso, vai aqui uma pergunta a ele: Fábio Motta, tu és mesmo um tube rider ou não passas de um prego? Sim, porque até agora a negrada 'tá jurando que tu és, no mínimo, um maroleiro. Corre à boca miúda que tu fazes mesmo é muita onda!...

quarta-feira, 25 de março de 2015

A MORTE DO PAULO E O "SWELL" DO FÁBIO MOTTA

          Faleceu ontem, após meses de luta contra o câncer, o amigo Paulo José Brasil de Souza.
        Paulo descansou. Estava cansado e, ouso dizer, extenuado. Seus instantes finais demonstraram toda a fadiga que dele se apoderara. Seu último fôlego assemelhou-se ao do náufrago que, cansado de lutar contra as águas e preso ao derradeiro tronco de madeira remanescente de seu barco despedaçado, resolveu largá-lo e encarar seu instante final. Seu recalcitrar é explicável: – não queria ir. Queria ficar mais um pouco, mais alguns anos, e ver seus dois rebentos, o último nascido há cerca de quinze dias apenas, vicejarem. Em sua lápide constará que veio ao mundo em 19 de março de 1961 e dele partiu em 20 de março de 2015. Tão obstinado pela vida, viveu menos de um dia a mais de seus 54 anos, o que demonstra sua teimosia em viver. A vida lhe dizia não, e ele lhe dizia sim...
          Mas, o que somos nós quando a vida se vai de nós? Temos em nós a vontade de vida, mas ela, a vida, não tem a mesma vontade de nós. O que se vai fazer?... Ela nos abandona e cá ficamos, um corpo inerte e vulnerável à decomposição. Resultamos tão degradados que somos inumados, escondidos à visão dos que ficam, para que não assistam ao nosso desmonte. (Ontem o Mesquita me dizia de um amigo seu, rico e avaro até o semieixo, que morreu tentando economizar umas poucas patacas. Concluímos que por não querer deixar ir-se um pouco de seu dinheiro, foi ele quem se foi. Assim, o dinheiro o perdeu e permaneceu aí para alguém que dele faça melhor uso.)
          Paulo, com sua partida precoce, deixa-nos aqui com suas lembranças. Permanece vivo em nós, já que suas “artes” preenchem nosso relicário. (Diz o Rubem Alves que a arte não suporta o efêmero. A arte é a luta contra a morte.) Ontem o visitávamos com a plena consciência da gravidade de sua doença, ele com a inarredável esperança daqueles a quem nada mais resta senão ela, a esperança. Hoje, a morte. Enfim, o fim... Seu corpo volta ao pó de onde veio, enquanto a vida que o animava retorna para Deus.
          Por tudo isso e cheio dessas reflexões é que voltei à carga com o meu amigo Fábio Motta. O que aconteceu foi o seguinte. Admoestei-o com firmeza. Disse-lhe que não admitia que ele, vivo e saudável, se negasse a festejar a vida, enquanto Paulo a perseguiu até não mais suportar. Seria uma afronta ao amigo morto. Finalmente, ele acabou marcando um encontro entre nós, pressionado pelos amigos e particularmente por mim a comemorar seus 53 ocorridos na última segunda-feira, 23.
    Não demorou muito e eis que o amigo parecia querer escapar às responsabilidades. Reservadamente comunicou ao Mesquita, seu mais antigo e dileto pariceiro em assuntos surfísticos e nas saliências namorísticas da adolescência, que não seria possível comemorar na terça como combinado porque hoje, quarta-feira, iria “entrar um swell”. O Mesquita, como bom pontualista que é, não contou pipoca – divulgou em nossa rede social privada a nova data de comemoração de seu aniversário. E o fez como faz todo bom surfista; deu detalhes – vai “entrar um swell”. Mais literal do que isso, impossível.
         Os outros, nós, laicíssimos em termos de surf e do jargão que usam seus praticantes, ficamos aqui embasbacados e boquiabertos. Eu, que não gosto de entrar mudo e sair calado em debates cujo tema me seja desconhecido e analisando meus conhecimentos da língua britânica, presumi que um swell acontece quando a maré se avoluma. O tal swell que interessava o Fábio Motta iria “entrar” às 5 da manhã de hoje, cedo o bastante para obrigar o sujeito a ir dormir cedo caso quisesse ter o prazer de surfar as ondas gigantes que se geram nesse avolumado mar. Comecei, assim, a entender a procrastinação pedida por meu amigo. Por isso, e para contribuir para o entendimento, por parte de todos, da situação, anunciei na rede o seguinte: – “Caros amigos, a comemoração do aniversário de nosso Fábio Motta não mais será hoje à noite. Motivo: amanhã cedo vai entrar um swell no respeitoso orifício de nosso amigo”.
         O problema é que na próxima quinta-feira, o novo dia marcado para o regabofe, será o dia em que celebrar-se-á a missa de sétimo dia pela morte do Paulo. Ainda que nem todos sejam dados às missas de sétimo dia – sou um deles –, outros manifestaram seu desejo de comparecer à igreja para rezar pelo amigo, razão pela qual descartou-se a quinta e marcou-se a sexta como a data agora inadiável.
         Tudo certo, tudo perfeito. Era o que parecia. O diabo é que o Sérgio Moura, em casa a tentar mitigar o incômodo prurido que carcomia suas partes pudendas atacadas por uma crise obfirmada e molestante de hemorroidas, descobriu, na rede social pública, uma fotografia comprometedora de nosso Motta. Nela o homem aparece ao lado de uma mocinha muito simpática que, pela aparência, deve ainda ser menor de idade ou, como insistem os ignorantes da língua madre, ainda “de menor”. Indagado sobre a procedência da jovem o nosso Motta, todo sorridente dos sorrisos que denunciam as saliências casanovistas do varão vigoroso, confessou: –“É minha nova estagiária”...
          Não houve jeito. Acabamos combinando ontem à noite mesmo, a véspera do swell, para molhar a palavra e intimar o Fábio Motta a prestar esclarecimentos sobre sua nova estagiária e suas reais intenções em relação a ela. Sim, porque não queremos que o homem troque os pés pelas mãos e acabe processado ou preso por corrupção de menor. Em se tratando de Fábio Motta, é bom lembrar, tudo é possível. O homem dá um trabalho danado...!



(Atentem os leitores que, nesta crônica, há certa incongruência temporal quanto aos fatos. É simples. Comecei a escrevê-la no sábado e só a concluí hoje.)

terça-feira, 17 de março de 2015

PENSAMENTO COMUNISTA

          Quem o relata é o escritor norte-americano Irving Stone, morto em 1989, em seu “Lust For Life – A Vida Apaixonada de van Gogh”, de 1934.
          Foi no Café Bortignolles, em Paris. Corria o ano de 1886. Todos estavam lá – Paul Cézanne, Theo e Vincent van Gogh, Georges Seurat, Henri Rousseau, Paul Gauguin, Anquetin, Henri de Toulouse-Lautrec e Émile Zola.
          À exceção dos van Gogh, eram todos comunistas. Principalmente Zola.
         Em dado momento, Zola e Vincent van Gogh ficam sozinhos na mesma mesa. Ambos acabaram de se conhecer. Em dado momento da conversa, Zola diz (a transcrição é literal a partir do romance de Stone):
       –“Parte meu coração ver Cézanne desperdiçar sua vida dessa maneira fantástica . Ele deveria voltar para Aix e assumir a posição do pai no banco. Do jeito que as coisas estão agora... algum dia ele ainda se enforcará... como eu previ em 'L'Oeuvre'. Já leu esse livro, monsieur”?
          –“Ainda não. Acabei de ler 'Germinal'”.
          –“É mesmo? E o que achou”?
          –“Acho que é a melhor coisa desde Balzac”.
       –“É a minha obra-prima. Apareceu en feuilleton emGil Blasno ano passado. Ganhei um bom dinheiro por isso. E agora o livro vendeu mais de sessenta mil exemplares. Minha renda nunca foi tão grande quanto agora. Pretendo acrescentar uma nova ala à minha casa em Medan. O livro já causou quatro greves e revoltas nas regiões mineiras da França. 'Germinal' provocará uma gigantesca revolução. E quando isso acontecer, adeus ao capitalismo”! (Os grifos são sempre meus.)
          Zola continua: –“Que tipo de coisa pinta, monsieur... Qual foi mesmo o seu primeiro nome que Gauguin disse”?
           –“Vincent... Vincent van Gogh. Theo van Gogh é meu irmão”.
        Zola largou o lápis com que escrevia no tampo de pedra da mesa e olhou fixamente para Vincent.
          –“Estranho”...
           –“O quê”?
           –“Seu nome. Já o ouvi em algum lugar antes”.
           –“Talvez Theo lhe tenha mencionado”.
         –“Ele me falou de você, mas não foi isso. Ei, espere um instante! Foi... foi... 'Germinal'! Já esteve alguma vez nas regiões mineiras”?
          –“Já, sim. Vivi durante dois anos na Borinage belga”.
           –“A Borinage! Petit Wasmes! Marcasse”!
           Os olhos grandes de Zola quase saltaram para fora do rosto rotundo e barbudo.
            –“Então você é o segundo advento de Cristo”!
           Vincent corou. –“O que está querendo dizer com isso”?
        –“Passei cinco semanas na Borinage, recolhendo material para 'Germinal'. Os gueules noires falam de um homem-Cristo que trabalhou entre eles como um evangelista”.
          –“Fale baixo, por favor”!
          Zola cruzou as mãos sobre a enorme barriga e empurrou-a para dentro.
        –“Não precisa se envergonhar, Vincent. O que você tentou realizar ali foi meritório. Apenas escolheu o meio errado. A religião nunca levará as pessoas a parte alguma. Somente os fracos de espírito aceitarão a miséria neste mundo pela promessa de bem-aventurança no outro”.
           –“Descobri isso tarde demais”.
          –“Você passou dois anos na Borinage, Vincent. Deu aos outros sua comida, seu dinheiro, suas roupas. Trabalhou quase até morte. E o que conseguiu em troca? Nada. Eles o chamaram de louco e o expulsaram da Igreja. E quando você partiu as condições não estavam melhores do que na ocasião em que chegou”.
            –“Estavam piores.
       –“Mas meu meio produzirá resultados. A palavra escrita causará a revolução. Todo mineiro alfabetizado da Bélgica e da França já leu meu livro. Não há um café ou uma cabana miserável em toda a região que não tenha um exemplar bem folheado de 'Germinal'. Os que não sabem ler ouvem a leitura dos outros muitas vezes. Já ocorreram quatro greves. E muitas outras parecem iminentes. Toda a região está se levantando. 'Germinal' criará uma nova sociedade onde sua religião nada podia fazer. E o que eu tenho como a minha recompensa”?
            –“O quê”? 
            – “Francos. Milhares e milhares de francos. Quer me acompanhar numa bebida”?

domingo, 15 de março de 2015

UM PAÍS DE NEURÓTICOS

A liberdade é mais importante que o pão”. (Nelson Rodrigues)

          Não resta mais a menor dúvida – o brasileiro, coitadinho, está cada vez mais cego e, mais recentemente, sobram indícios de que também esteja surdo. Ou, talvez, o brasileiro seja, de fato e irremediavelmente, um ignorante por escolha própria. Informação não falta, embora, digamos logo, informação per si nada indique de sua origem e de sua credibilidade. O homem tem, dentro de seu crânio, a mais fabulosa estrutura do Universo e, dentro do peito, o mais terno ou mais brutal foco do que produz seu pensamento.
          Há quase 2500 anos um cidadão chamado Aristóteles, dado às conjecturas e às abstrações de quem não tem o que fazer, chegou à conclusão que a democracia é a pior dentre as melhores e a melhor dentre as piores formas de governo que existem. A democracia era, àquela época, o governo dos homens livres. Os escravos, párias da sociedade, não participavam do governo. Aos dias de hoje não há mais escravos. Assim, hoje, se vivemos em uma democracia, somos todos livres. É o que se presume. Contudo, mudou o mundo e com ele os conceitos e as nuances, como veremos. 
          Naquele tempo, escravo era aquele ser humano que não era um ser humano – era uma mercadoria. Era um ente, um “objeto” cujo dono dispunha para seu uso como bem entendesse. Homens bons tratavam seus escravos como seres humanos, ao passo que homens maus os tratavam como lixo. Portanto, coisa curiosa, a existência da instituição da escravidão servia a revelar corações. Hoje, como não há mais a escravidão, não mais se revelam os corações tão deslavadamente como outrora. A bela e floreada retórica camufla, hoje, o verdadeiro maucaratismo. Daí uma certa dificuldade aos mais incautos e aos mais desavisados em reconhecer os maus bofes desta canalha.
          Voltemos aos homens livres. Eu dizia que hoje não mais há a instituição da escravidão. Todos podem ir e vir à vontade. À pé ou de avião, todos vão aonde bem entenderem. A questão, a grande questão que surge aos dias de hoje, entretanto, é: – para se ser livre basta que se tenha o direito de ir e vir? Todos sabemos que aos dias de hoje fazem-se revoluções sem se disparar um tiro; mais do que isso, tiraniza-se todo um povo sem se o calar, ou sem se o reprimir, ou sem, como já foi dito, dar-se um único tiro. Assim, é notória e evidente a nova revolução, o novo tipo de submissão do povo – a submissão pela indolência, pela ignorância e pelo voluntariado. Em países onde a natureza do povo é a da irresponsabilidade, não se quer assumir nenhuma responsabilidade. Nem mesmo pelo próprio destino, pelo próprio futuro. A inconsequência, neste cenário, vence qualquer argumento lógico. Disse o Nelson Rodrigues que “o brasileiro não está preparado para ser o maior do mundo em coisa nenhuma”. E completou: “Ser o maior do mundo em qualquer coisa, mesmo em cuspe à distância, implica uma grave, pesada e sufocante responsabilidade”. O vaticínio rodriguiano parece expor o pobre e combalido brasileiro a um determinismo incômodo e cruel.
          Pois se nos submetemos, é natural e consequência que nos escravizamos. Se permitimos que tudo nos façam, ainda que possamos ir e vir, nos escravizamos. Se por nós tomam as decisões que a nós caberiam, nos tornamos escravos. Porque as decisões que por nós tomam servem a atender somente os interesses daqueles que decidem, relegando a plano terciário os nossos próprios. O escravo de antigamente fazia o que era do interesse e do prazer de seu senhor e tanto quanto mais cruel e mau fosse ele. Podemos ir e vir, podemos até pensar. Pensamos. Mas, que pensamentos pensamos? Não pensamos, talvez, nossos próprios pensamentos ou, se o fazemos, pensamos pensamentos menores, pensamos ao largo das grandes questões da vida e da existência, ainda que pareça o contrário. Assim, seguimos pensando o que outros povos já pensaram, já deliberaram e já descartaram como inútil.
          A conclusão é óbvia – se estamos a pensar o que outros já pensaram, estamos atrasados. (Parece que estou a dizer o óbvio, mas é preciso, cada vez mais entre nós, dizer-se o óbvio dada a obviedade de nossos atrasados pensamentos.) Outra conclusão parece óbvia – o atraso está, antes de tudo, no que pensamos ou em nosso modo de pensar. Queremos reinventar a roda. Como os neuróticos, achamos a roda, tal qual ela é, imperfeita. (O neurótico sabe que 2 + 2 = 4, mas não se conforma com tal resultado.) Somos, fácil deduzir, um país de neuróticos.
          Agora vejam. Comecei a escrever essas linhas a propósito de alguns comentários de pessoas, na rede social, dando conta dos motivos pelos quais não iriam às manifestações contra o governo e a corrupção que ora grassa programadas para hoje. O brasileiro se acha, antes de tudo, a fina-flor da inteligência e da coerência quando, na verdade, é um jegue que move as enormes orelhas a espantar as moscas enquanto chicoteia-se no lombo com o próprio rabo com o mesmo intento. Por outro lado, é conhecida e notória a abissal incoerência do brasileiro – faz em menor escala o mesmo que faz o político mau-caráter que ele próprio elege e se considera a si mesmo a fina-flor da honestidade. Assim, os comentários na rede social, escritos muitas vezes por pessoas “letradas” e “politizadas” davam conta, por exemplo, de que as manifestações de hoje seriam impróprias porque a presidente Dilma Rousseff havia sido eleita “democraticamente” pelo “voto direto” não cabendo, portanto, manifestações que pedissem seu impeachment.
          Observem como pensa o brasileiro. Ele acha, ou melhor, tem certeza de que, uma vez eleito pelo voto direto, o político tudo pode e contra ele nada se deve fazer. Para ele, o brasileiro, sua própria vontade não conta. Tentar derrubar um governo corrupto e inepto – os fatos são conhecidos à larga – seria “golpismo”. Quanta ignorância política! O povo foi às ruas hoje para protestar, para demonstrar sua enorme insatisfação com os governantes dos Três Poderes da República e não somente do Executivo. O povo foi às ruas demonstrar sua indignação com os desmandos e os atos criminosos que se perpetram diariamente nas altas esferas do poder deste pobre país. O povo não mais suporta trabalhar para sustentar uma corja que se locupleta de seu mandato com o fim de tirar vantagens pessoais. Dizer que as manifestações são ilegítimas e golpistas é uma demonstração clara de inconsciência política.
          Para essas pessoas, protestar contra o governo depois de o próprio povo tê-lo eleito é uma incoerência e, portanto, não tem cabimento. Nova demonstração de analfabetismo político por parte dessas pessoas. São conhecidas as circunstâncias em que ocorreram nossas últimas eleições “democráticas”. Uma infinidade de urnas foi violada. Várias representações pedindo a anulação do pleito chegaram ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas nada foi apurado. Afinal, seu presidente, o senhor José Antonio Dias Toffoli, é cupincha da senhora Dilma e de seu criminoso “partido”. É como se o bandido fosse chamado a investigar e julgar seus próprios comparsas. Essas pessoas, evidentemente, acreditam que tudo isso é balela e que nada disso existe. (O senhor Toffoli, ao que tudo indica, será o juiz que vai julgar o inquérito resultante da operação Lava-Jato da Polícia Federal que apura o caso de corrupção na Petrobras. Vejam que novamente o bandido está prestes a julgar o governo e seus comparsas.)
          É também conhecido o estelionato eleitoral que o governo promoveu a fim de comprar votos para sua candidata. Acusaram o candidato da oposição de, caso fosse eleito, acabar com os programas sociais bem como dar fim aos benefícios conquistados pelo trabalhador, além de tomar outras medidas impopulares como majorar impostos e tarifas. O que veio depois todos sabemos – a senhora Dilma se reelegeu e fez tudo o que afirmou que faria o candidato da oposição. Com efeito, não deu fim ao famigerado Bolsa Família, mas a política econômica irresponsável e populista implantada por seu governo no mandato anterior está cobrando a conta e há de corroer em breve a quantia já minguada que esse povo recebe. Será um desonroso fim, mas a retórica sempre pode contribuir para mitigar a tragédia. Isso sem falar na conhecida compra de votos através de pagamento direto de quantias irrisórias a um povo que se vende por dá cá aquela palha.
     Assim, esses ignorantes letrados brasileiros não foram às manifestações porque as consideravam “antidemocráticas”. Um povo que recebe "propina" para votar – alguém dirá que eles precisam comer –, que temeu perder seu “benefício” e se vendeu ao discurso mentiroso de um governo de canalhas e ladrões – vide a roubalheira na Petrobras –, é um povo livre? Essa é a pergunta que me faço. E direi a resposta: – este certamente não é um povo livre. É um povo que se vendeu há muito, escravo de sua preguiça, de sua indolência e de sua natural índole irresponsável.
          As manifestações de hoje foram, sim, legítimas e oportunas, uma demonstração de civilidade e espírito público por parte daqueles que trabalham e sofrem as consequências da irresponsabilidade de atos de políticos safados eleitos por um povo vendido e submisso. E é justamente de civilidade e espírito público genuíno de que andamos tão necessitados. Aos brasileiros que se posicionaram contra essas demonstrações de insatisfação política, um alerta: – todo ato tem consequências. Mesmo as omissões mais covardes. O comunismo se alimenta da omissão dos bons, da indolência dos pusilânimes e da crueldade dos poderosos.

terça-feira, 10 de março de 2015

CHICO ESTÁ PUTIN

          Ontem, ou antes de ontem, os jornais anunciaram a prisão se não me engano de cinco suspeitos de envolvimento no assassinato do opositor russo Boris Nemtsov. Eles teriam agido para “desestabilizar” a Rússia. Entende-se com isso que eles agiram justamente para fazer com que todos pensassem o óbvio, ou seja, pensassem que Vladimir Putin, o Presidente, seja o autor intelectual do homicídio. De obviedade em obviedade não se chega a qualquer certeza visto que há que se provar se, de fato, os cinco homens mataram mesmo o opositor. O Putin, que estava “putin” porque não entendia como poderiam pensar isso sobre ele, deve agora estar alegre além da conta. Ou não, já que o homem manda em tudo por lá e apesar da global queda vertiginosa do preço do petróleo, seu principal item de exportação. Até há pouco o Putin, que não está mais “putin”, era considerado o articulador e grande responsável pela melhora incontestável da economia de seu país, e ainda que também há pouco o rublo, a moeda russa, tenha despencado frente ao poderoso dólar americano.
          Afora esses superficialíssimos dados econômicos, já que nada de economia entendo, nada de novo no reino da Dinamarca. Aliás, há meses venho recebendo de meus queridos consultores da Empiricus o alerta de que o dólar ultrapassaria a barreira dos R$3,00 até o fim do ano corrente e que o investidor que desejasse proteger seu parco patrimônio deveria tê-los em sua carteira. Os caras, tidos como loucos, vinham dando o alerta desde que a moeda americana estava cotada a R$1,90. Muitos, repito, os chamavam de doidos varridos. A moeda batia os R$2,60 e ainda havia quem os taxassem de lunáticos, donde se vê claramente que o ser humano é um bicho de lida difícil, principalmente se for um bicho homem das plagas tupiniquins. 
          Eu, um jurássico ser econômico, contratei há algum tempo os estudados e independentes economistas justamente para me orientar sobre aquilo cujo conhecimento me falta, justamente da mesma forma que contrato o Aníbal, o engenheiro mecânico, para mexer nas entranhas de meu carro sempre que ele dá problema. (O Aníbal deve estar fulo da vida comigo, já que o carro não quebra nem a tiro; mas levo-o lá sempre que a troca de óleo é necessária.) Se pagar o profissional capacitado não me gerar a confiança necessária em sua acessoria, não há porque pagá-lo. Tal inferência me parece revestida e travestida de uma lógica inelutável. Assim, atendendo às orientações de meus consultores de investimentos, comprei cotas de um fundo cambial lastreado em dólar. 
          Os esquerdistas acham que o capitalismo não funciona porque nele nunca dará para dividir o “bolo” equitativamente, e eu digo que realmente nunca será possível dividi-lo porque não é justo que ganhe igualmente quem trabalha duro e quem não faz nada ou quem não trabalha. O esquerdista é, antes de tudo, um preguiçoso, um parasita, um indivíduo que só acredita no trabalho alheio enquanto ele gere o Estado a seu favor e à gangue à qual pertence. 
          Pois o meu amado e querido Chico é dado às ideias esquerdistas, sendo ele próprio um indivíduo que deu o maior duro na vida – dar duro significa trabalhar – para chegar onde chegou. Assim, começa que há uma abissal diferença e uma abissal incoerência entre o que diz, o que fez e o que continua fazendo o meu amado amigo – continua trabalhando duro. Por isso o incluo, na maior satisfação do mundo, em minha lista de falsos comunistas. Se alguém disser que ele é comunista, direi que é um comunista que ama, um falso comunista; nunca é demais repetir. O que ele diz, portanto, não deve ser levado em conta, como verão a seguir.
          Dizem que o segredo é a alma do negócio, mas essa máxima não tem se mostrado de todo válida. Tanto é que compartilho os “segredos” que meus consultores me contam em conversas com amigos. Por isso mesmo, quando estive em casa do Chico, ao primeiro mês do ano, relatei-lhe a previsão sobre o câmbio. Disse-lhe, sem papas na língua: –“O dólar vai estar acima dos R$3,00 no fim do ano. Aplica em dólar, rapaz”... Ele, que é dos sujeitos mais recalcitrantes que já conheci em toda minha vida, resmungou numa veemência de estudioso do assunto: –“Não acredito”. Duas semanas depois a moeda custava quase R$2,90. Em silêncio ele estava, em silêncio ele permaneceu.
          Hoje, no momento em que escrevo essas parvas notas, vejo aqui – a moeda americana fechou, ao câmbio oficial, a R$3,10 e chegou a ser vendido no paralelo a R$3,30. Concluí sem demora – erraram os meus consultores. O dólar passou dos R$3,00 já ao início de março. (Na verdade, em suas newsletters diárias os analistas já alertam há tempos que os R$4,00 na taxa de câmbio já é uma possibilidade bem real.)
          Vejam os caros leitores como o ser humano, em particular o brasileiro, é mesmo um bicho difícil. Os caras fazem as estimativas baseadas em dados históricos e em fundamentos econômicos. Eles não estão emitindo opinião; estão demonstrando dados e fundamentos que apontam para uma valorização da moeda americana não apenas aqui, mas no resto do mundo frente a outras moedas. Então, vem de lá o Chico teimar baseado em sua mera e simples opinião... Um único dado já é de arrepiar. No momento, o custo do dinheiro nos Estado Unidos da América é zero. Ainda assim, sua moeda se valoriza frente aos resultados positivos da política implantada por sua autoridade monetária. Agora imaginem quando resolverem subir as taxas de juros por lá... Até eu, que sou um jegue sem sela em economia, sei que isso provocará uma fuga de capitais das economias mais frágeis, elevando ainda mais a taxa de câmbio. 
       Assim, presumo que o Chico, com seus arroubos esquerdistas desfundamentados, esteja “putin” com o fato de o dólar está indo na direção apontada por meus queridos consultores. Um sentimento despropositado, já que ainda há espaço para se posicionar e proteger o patrimônio. Afinal, ficar “putin' nada resolve... 
          Bem se vê, também, que ouvir o que diz o meu amigo quando fala de economia e daquilo que acredita em economia não deve ser levado na mínima conta. Se alguém o ouvir quando falar do assunto, acabará por se ver “putin” por tê-lo escutado e não ter feito os providenciamentos necessários para se proteger. Está dado o aviso.

sábado, 7 de março de 2015

PUTIN E A NOVELA

          Foi invadido de terror que li ontem nas páginas de certo jornal local a seguinte manchete: PARA PUTIN, ASSASSINATO TEVE MOTIVAÇÃO POLÍTICA. A matéria relata que o líder russo teria dito que o assassinato de Boris Nemtsov, ferrenho opositor de seu governo alvejado com quatro balaços pelas costas, “foi politicamente motivado e representa uma vergonha para o país”. 
          Não sei se já relatei aos amigos que estou a assistir novelas. Peço, contudo, calma antes que saiam a fazer algum juízo de valor sobre esta aparente apreciação a uma forma de arte considerada menor. Sim, peço calma. E o faço por duas razões. A primeira é relacionada com a presunção de a novela televisiva ser uma forma de arte de quinta categoria. A segunda tem a ver com a primeira, mas perpassa por aquele que vê, ou assiste a, ou aprecia esta forma de arte. 
          Comecemos dizendo que houve novelas e há novelas. As de hoje pecam todos os pecados, o conteúdo ser essencialmente vazio o principal deles. O conteúdo oco é oco em temas de peso e preenchido com o que há de pior – autores de péssima qualidade querem impor formas “heterodoxas” de comportamento sexual ao mesmo tempo em que pretendem destruir ou desvirtuar os valores familiares. Assim, não há trama. Atualmente, a novela televisiva, antes uma forma de arte que nos fazia avaliar e refletir sobre as questões essenciais da vida e do ser humano, é uma das mais deslavadas formas de alienação e superficialismo a pulular neste pobre e lamentável país. Assim, os amigos leitores hão de entender meu apreço e minha admiração por esta obra-prima da arte brasileira, gerada e vinda a público em momento histórico e político notável. 
          O único a perceber bem cedo quais as reais intenções do prefeito de Sucupira, Odorico Paraguassú, foi o médico do posto da cidade, o dr. Juarez Leão. Odorico articulara, segundo ele, uma trama que cedo ou tarde resultaria no confronto homicida entre as duas famílias rivais da cidade, os Cajazeira e os Medrado. Como eram inimigos figadais desde tempos imemoriais, os ameaçadores bilhetes anônimos enviados a ambas as famílias em breve fariam o efeito desejado. Alguém acabaria morrendo, justamente o que o prefeito supostamente queria. Tais bilhetes faziam parte do plano de Odorico. Afinal, passados 7 anos da última morte na guerra entre as duas famílias, uma relativa paz reinava. Os Cajazeira haviam migrado para Jaguatirica, cidade vizinha, e o prefeito Odorico Paraguassú via em seu retorno à velha Sucupira a oportunidade de, finalmente, inaugurar sua grande obra, o cemitério em cujo portão mandara escrever, no arco que o cobria e em letras garrafais, o dizer: “Revertere ad locum tuum”.
          Era sua promessa de campanha a inauguração do primeiro e único cemitério de Sucupira o que, em sua avaliação, implicava na realização do primeiro sepultamento naquele campo santo. Como há mais de 2 anos ninguém morria na cidade, Odorico já havia feito de tudo para providenciar o primeiro defunto. A oposição, atenta aos “feitos” do prefeito, trabalhava para evitar aquilo que seria uma vitória para o executivo municipal. Até defunto havia sido roubado durante o velório, certa vez, para evitar que Odorico inaugurasse o cemitério. Como resultado, o prefeito partiu para a ignorância: – resolveu, com a ajuda de seu secretário particular, o senhor Dirceu Borboleta, um borboletista militante e juramentado, apor uma escuta clandestina no confessionário da igreja a fim de descobrir quem teria sido o autor do roubo do defunto, um vereador da situação morto durante um tiroteio ocorrido na cidade e cuidadosamente tramado por Odorico. 
          Antes disso, vários falsos alarmes soaram, mas ninguém morreu. Seu Libório, o dono da farmácia, tentara o suicídio 3 vezes, sem sucesso. O prefeito dizia, após os sucessivos fracassos do potencial suicida e depois de ter tentado facilitar-lhe o ato deixando, propositalmente, sobre a bancada da farmácia durante uma visita um frasco de veneno para matar ratos: –“Nesse aí num posso confiar”... Não funcionou e o prefeito passou a se referir a seu Libório como um suicidista fracassado. 
          De outra feita uma epidemia de tifo se desenhou no horizonte, e Odorico correu a interceptar o carregamento de antibióticos e vacinas que o doutor Juarez mandara trazer da capital. Novamente com a colaboração de seu secretário particular, que também trabalhava algumas horas na agência dos correios, Odorico fez sumir a valiosa e salvadora encomenda. Ciente do que estava a ocorrer, o médico viajou e foi, pessoalmente, buscar os remédios. Paraguassú não teve dúvidas – contratou Zeca Diabo, o famoso e temido filho da terra cangaceiro que voltara a viver na cidade, para assaltar o doutor e subtrair-lhe a carga. Zeca agiu com eficácia, mas pouco tempo depois devolveu ao médico produto do roubo posto que percebesse, arrependido, o mal que faria a muitas pessoas e isso não queria fazer, já que prometera a seu santo padim padre Cícero Romão Batista, seu santo devoto e protetor, nunca mais tirar a vida de ninguém. Verdade seja dita e esta bem o deve e é ela a seguinte. Zeca Diabo fora autorizado pelo senhor prefeito a voltar a Sucupira a fim de receber a benção de sua santa mãe que já era cega e beirava os 100, o que, na verdade verdadeira não era tão verdade assim, já que o coronel Odorico Paraguassú tencionava mesmo era que o facínora acabasse por matar algum de seus antigos desafetos ou quem quer que fosse a fim de realizar seu intento. O tempo passou e o bandido foi ficando, ficando, e acabou por matar ninguém. Antes, resolveu mudar de vida e fez promessa a seu santo padim padre Cícero Romão Batista de que nunca jamais tiraria  novamente a vida de alguém.  
          As esperanças do prefeito recaíram outras tantas vezes sobre Zelão das Asas, um pescador em débito com seu santo protetor, Bom Jesus dos Navegantes. Escapara ileso em acidente com seu saveiro e fez promessa ao santo – construiria para si um par de asas e saltaria com elas da torre da igreja matriz, com a fé inabalável de que nada lhe aconteceria. O diabo é que o senhor vigário, cônscio da loucura de tal empreendimento, impediu Zelão, várias vezes, de lograr seu objetivo, para grande contrariedade do prefeito Odorico que não via a hora de arranjar seu primeiro defunto.
          Na cidade de Sucupira permaneciam residentes somente as três irmãs Cajazeiras, que eram correligionárias de Odorico durante o dia e à noite reversavam-se em sua cama, sem que nenhuma das três soubesse das outras. Certa vez a caçula Judicéia teve a brilhante ideia de trazer da capital para a casa das três irmãs o primo Ernesto que havia sido desenganado pelos médicos da capital, onde morava. A esperança era a de que o homem batesse as botas em Sucupira e servisse como primeiro defunto para o cemitério. Arrependida, Judicéia recorreu a doutor Leão em busca de ajuda. Doutor Leão era competente e acabou salvando a vida do ex-moribundo, o que o tornou o adversário número 1 do prefeito.   
          Doutor Juarez diagnosticou sem dúvida: – o prefeito estaria acometido de um tipo grave e perigoso de psicopatia e deveria ser internado com urgência em hospital para doentes mentais. De fato, após o roubo do defunto o chefe do executivo passou a apresentar crises de alucinações e de delírios persecutórios. Como única medida prática possível, Leão procurou as lideranças das famílias em guerra e as alertou para a manipulação da qual estavam sendo vítimas, mas ninguém acreditava no que ele dizia. Odorico, diziam, jamais seria capaz de articular uma guerra entre eles. Afinal, sua rixa era antiga e muitos familiares de ambos os lados já haviam sucumbido nessa desavença. Os outros, membros do povo comum, também nada viam de errado com o excelentíssimo chefe do executivo e achavam que louco estava o próprio doutor Juarez Leão, ao levantar acusações tão sérias e graves contra um homem tão bom.
          Odorico, que antes de mais nada seria considerado, à luz do entendimento e senso comum sobre a avaliação de um político um político “habilidoso”, conseguia, através de seu carisma e de sua retórica inúmeras vezes vazia e incompreensível ao populacho, enganar e esconder de todos, e inclusive de seus familiares, seu verdadeiro caráter. Tinha de si mesmo a mais nítida e fiel avaliação – era homem reto, preocupado com o bem-estar do povo e benfeitor em sua comunidade. Seus capatazes e jagunços, que executavam suas ordens para perpetração de seus crimes os mais hediondos possíveis, nada pensavam, nenhuma opinião emitiam posto que fossem somente os agentes criminosos a serviço dos crimes de um outro criminoso não comum. Sim, o prefeito Odorico Paraguassú não era um criminoso comum. Era um criminoso pior que o comum, posto que gozasse da confiança cega das pessoas que o haviam elegido.
          Mas, voltemos ao Putin.
          O Putin vem a público fazer declarações que afastam de si mesmo quaisquer suspeitas. A matéria diz o seguinte: “as autoridades russas ainda buscam suspeitos de envolvimento no crime cuja motivação ainda é desconhecida”. Como Odorico Paraguassú, que queria sumir com os medicamentos para combater a possível epidemia de tifo a fim de que surgissem muitos defuntos para inaugurar o cemitério da cidade, Putin tinha o maior interesse na morte de seu desafeto. “Nós precisamos livrar a Rússia da vergonha e da tragédia desse tipo de crime que recentemente vimos e tivemos experiência: falo do audacioso assassinato de Boris Nemtsov bem aqui no centro da cidade”, disse Putin, utilizando-se da conhecida retórica manhosa e ardilosa dos autoritários que matam populações e etnias inteiras e depois veem a público fazer declarações que só contribuem para aumentar as suspeitas sobre quem fala. Não bastassem os assassinatos até hoje não esclarecidos de outros dois opositores, Anna Politkoviskaia e Alexander Litvinenko, ocorridos em seu governo as frequentes acusações de o estado russo muito se assemelhar politicamente à ex-União Soviética e de ter-se torndo um estado “mafioso” na sua gestão, além do fato de o homem ter sido agente da famigerada KGB, Putin segue lépido e fagueiro com o suposto milagre econômico de sua administração. 
          Foi tudo isso o que me causou horror. Como diz um velho e conhecido chavão, a vida às vezes imita a arte. No final da novela, Odorico é assassinado por Zeca Diabo e ele próprio acaba por inaugurar o cemitério de Sucupira...

O assunto mais importante do mundo pode ser simplificado até ao ponto em que todos possam apreciá-lo e compreendê-lo. Isso é – ou deveria ser – a mais elevada forma de arte”. (Charles Chaplin)

terça-feira, 3 de março de 2015

OS 53 DO FÁBIO MOTTA

          Mal começou o mês de março e já me vem à cabeça uma lembrança – o aniversário do Fábio Motta. Com efeito, durante o ano dois são os meses de sobressaltos relacionados com aniversários de amigos – março com o Motta e novembro com o Sérgio Moura. Os leitores que não me leem com frequência quererão saber, sem demora e se por acaso estiverem a me ler agora, que diachos uma coisa tem a ver com a outra. Direi sem rodeios: – a data comemorativa é, para esses dois varões vigorosos, um suplício. A razão é simples: – os dois amigos detestam comemorar seu natalício.
          Pois fiquem todos sabendo, desde já, que no próximo dia 23 de março faz 53 anos o querido e amado amigo Fábio de Oliveira Motta. Como o mais novo varão de nosso grupo, tão logo faz 53 fazemos 54. Isso, longe de ser um estímulo ao amigo é, na verdade, uma tortura medieval. A ele pouco importa que sejamos mais velhos. A ele o que tem importância capital são os seus 53, a sua nova idade que, inexoravelmente, é sempre maior que a do ano anterior. Mesmo sendo de seu conhecimento que o tempo passa igualmente para todos e que todos estão a envelhecer à medida que giram os ponteiros do relógio, não há saída – o amigo é acometido de ferozes e cavas depressões.
          Que dia é hoje? Ah! Cá está. Hoje é 3. Pois daqui a 20 dias estaremos a querer comemorar o aniversário do Motta numa festinha entre amigos íntimos, nós e nossas mulheres conosco; saborear um bom vinho, ouvir uma boa música, tocar as cordas de um violão, jogar boa conversa fora... Mas, qual? O amigo não enxerga as cores da vida; antes, só vê a escuridão... Eu ia dizer a morte, mas não quero apôr uma nota de tristeza neste texto que se pretende alvissareiro. Assim, convoco aos amigos mais chegados a darem uma dura no Motta antes que ele pense em frustrar nossas pretensões.
          Passou-me pela cabeça pedir ao Sérgio Moura que intervenha no caso, mas de imediato percebi a gafe. O Sérgio Moura é completamente desapetrechado da moral necessária a tal empreendimento. Afinal, é ele o criador desse desvio comportamental. É ele quem prega o sumiço do aniversariante ao dia da comemoração. Corre até um boato, alguém me sussurrou ao pé d'ouvido, que o homem guarda em casa a sete chaves um enorme esquife preto, belissimamente trabalhado em madeira de lei, as alças de fina liga de cobre, confortavelmente acolchoado e no qual passa o dia inteiro deitado, justo na data do natalício, como a ensaiar para o próprio avelório. Seria tudo feito à guisa de “treinamento”, uma espécie de retiro corporal e espiritual onde “viveria”, por antecipação, seus primeiros momentos como defunto. Não sei se a estória tem fundamento, mas, se o tiver, estaremos diante de grave causo de autonecrofilia crônica com periódicos e anuais surtos de agudização.
          Descartado o Moura como interventor no caso, veio-me ideia mais original e não menos drástica – raptar o aniversariante no dia anterior, no caso do Motta, ao dia 22 do corrente. Como somos todos pessoas com ocupações diárias e inarredáveis, há que se contratar profissional do ramo de sequestratio para resolver esta parte do plano. É preciso, entretanto, muitíssimo cuidado neste delicado passo. Convém não esquecermos de que estamos numa das cidades mais violentas do mundo e o profissional arranjado para o caso tem de ser versado apenas na atividade de subtrair gente sem – Deus o livre! - ir além disso. Não queremos que o sequestrador se empolgue e, num lampejo de oportunismo, esconda nosso homem no intuito de pedir vantagens pecuniárias em troca de sua devolução. Ele receberá a justa paga pelo trabalho realizado, inclusive com recibo e tudo. Digo isso, porém, porque muitas vezes se vê serviços dessa natureza acabarem da pior maneira possível porque o apalavramento resultou confuso e atabalhoado. Deixar-se-á bem claro que o Motta deve ser abduzido à tardinha do dia 22 e levado ao local da festa, são e salvo, na noite do dia 23 bem asseado, bem vestido, cheiroso feito uma flor, o cabelo bem aparado e infestado de gel, as unhas bem feitas e esmalteadas com brilho para homem, e tudo o mais que o distinga como sendo o homenageado do grande dia.
          Entretanto, é preciso que lembremos que o nosso Motta já sofreu duas ou três tentativas de assalto e que numa delas acabou por se engalfinhar com os facínoras armados até os dentes. Até hoje nem ele sabe como se safou. Assim, nosso sequestrador há de ser um profissional polido e amável, de modo a não provocar e despertar em nosso Motta a resistência e os arroubos de homem imprendível. Pensei até, devo admitir, que esse profissional deveria ser alguém do frágil e belo sexo, o que facilitaria muitíssimo o alcance da mansidão de nosso homem, já que ele é conhecido galanteador e sedutor de fêmeas. Ele pensaria estar levando a presa ao abate quando, de fato, seria ele a caça nas mãos da caçadora. E mais! Usando desse estratagema, sem sombra de dúvida o homem seria capturado com muito maior facilidade.
          Há, contudo, uma ressalva. Como neste março o dia 23 cai numa segunda-feira, precisamos decidir se o regabofe será no próprio dia ou se o anteciparemos. Aqui há que se redobrar os cuidados. Se anteciparmos, corremos o risco de o homem não aparecer, visto que há elevada possibilidade de o mesmo cair vitimado pela síndrome de Estocolmo, condição que acomete os sequestrados levando-os a se enlevar e se apaixonar por seu sequestrador. Para evitar que isso venha a ocorrer teríamos que contratar uma profissional não muito dotada de qualidades físicas exuberantes. Isso não seria um problema já que nosso Motta parece ter vindo ao mundo com seu seletor seriamente defeituoso, o que o leva a pegar qualquer coisa que lhe caia na rede, sem desmerecer uma ou outra eventual beldade que tenha lhe cedido aos encantos. Assim, e ainda assim, corremos sério risco de que ele, sendo abduzido na sexta em caso de antecipação, só nos apareça à semana seguinte e nossa festa vá para o beleléu. Se resolvermos que o quiproquó deverá cair mesmo na segunda, o risco é menor, mas não de todo inexistente, de modo que só nos resta uma alternativa: – arriscar. E seja o que Deus quiser.
          Agora, negada, é o seguinte. O segredo é a alma de todo bom negócio. Podemos contar com o silêncio de vocês? 

A REUNIÃO

          Por um momento cheguei a pensar que, hoje, justamente hoje, uma segunda-feira, eu estaria sendo perseguido por ela, a segunda-feira. Diferente do Crusoé, que encontrou o Sexta-Feira, imaginei que a segunda-feira seria, doravante e para mim, uma presença densa e constante. Ao seu final constatei – a segunda-feira é, de fato, um dia incomum.
         Paro no cruzamento entre Pessoa Anta e Alberto Nepomuceno. À direita o motoqueiro não dá a mínima para o farol vermelho e imprime velocidade à sua bicicleta provida de motor, avançando o sinal. À esquerda, um outro, um motociclista, para a meu lado e, olhando para mim, comenta, referindo-se ao insano: – “É por isso que ninguém respeita a gente e pensa que somos todos iguais a esses malucos”... Concluí que os preconceitos e os posconceitos frequentemente se confundem. De fato, no caso em questão, o posconceito prevalece lastreado em evidências gritantes e incontestáveis, o que leva muitos de nós a serem levados na conta daqueles que não amam suas vidas o que, obviamente, é uma dedução presunçosa e injusta. Toda regra tem lá sua exceção...
          A nota mais robusta do dia foi a reunião. Não sei se comentei – acho que não comentei –, mas fui convocado a uma reunião. Meus mais antigos e recalcitrantes leitores sabem – detesto reuniões. Pois fiquem sabendo que a tal foi marcada para hoje, uma segunda-feira. Por aí se vê como minhas segundas-feiras têm sido, no mínimo, suspeitas. O sujeito podia ter marcado a reunião para a terça, para a quarta, para a quinta ou para a sexta-feira. Mas não – marcou-a para a segunda. Ao menos uma vantagem tive – pude preparar a “defesa” ou, melhor dizendo, a pauta no fim de semana. Como detesto reuniões, ninguém obviamente acredita que eu tenha perdido meu fim de semana preparando a pauta de uma, e nem deve mesmo acreditar – não perdi um segundo sequer de meu precioso tempo preparando nada disso.
          Devo dizer, não sem uma pitada de empáfia, que nada preparei porque já me considerava preparado. Os amigos leitores hão de me perdoar esse deslize na humildação, mas ele, de fato, nada tem de pretensioso. Em que pesem opiniões contrárias, o tempo de vivência é um senhor professor, inda mais se estivermos sustentados sobre fortes pilares de princípios imutáveis e valorosos.
          Eis que começa a reunião. Lá fora a chuva e a violência, a mesma que nos traz, aqui no hospital, a “matéria prima” na qual labutamos. O assunto, a pauta, a melhoria e a integração das Residências Médicas do Instituto Dr. José Frota. Lá fora a demanda que, na reunião, segundo o superintendente, mantém-se constante, como a constante gravitacional, nada tem de constante. Segundo ele, a grande diferença são as pessoas. Se as pessoas fizerem a sua parte, superaremos as dificuldades e a demanda já não será uma variável importante da equação. E o doutor? o médico? O médico quer encolher, quer responsabilidades restritas, tem medo da “juridicização” da medicina. Em suma, o médico tem medo de ser processado. Por isso não quer ir um micra além do que faz sua especialidade. Mas... que diabos é uma especialidade? Falando de outra forma, quais os limites de uma especialidade médica? Onde começa e onde termina uma especialidade médica? Mais: – até onde onde posso atuar sem ser processado?
          Quanto menos se sabe, menos responsabilidade se tem, menos envolvimento se tem. Trabalhemos, então, contra a maior responsabilidade. Restrinjamos-nos a um campo restrito, bem curto, quase nada. Esqueçamos, inclusive, o básico, a febre, os estertores, as bulhas, o ritmo de galope, a anasarca, o facies hipocratica, a dispneia paroxística noturna, os ruídos hidroaéreos... esqueçamos tudo o que é básico. Escondamos-nos por detrás da ignorância, como se a nós, médicos, fosse permitida alguma ignorância a respeito de tudo o que basicamente e frequentemente acomete o ser humano em suas agonias e angústias... Fujamos, afrouxemos os laços!... Não nos envolvamos...!
          Na reunião quase ouvi alguém dizer: – “Coitado do médico residente!... 'Tadinho! Tanto trabalho”!... Minha indignação quis gritar, mas minha polidez impediu... a muito custo, devo admitir. Por um momento me distraí e meti o dedo no nariz, em busca de uma casca de minha crônica rinite... Súbito, me vi pego como o menino travesso a catar melecas no nariz adulto... Estou na reunião! Aquieta-te! Comporta-te! O residente está sendo preservado pelo discurso que o quer preservar. Mas... preservar de quê? A resposta veio rápida: – do trabalho excessivo, das vicissitudes do dia-a-dia de um médico interno. Interno?? Corrijamos: – interno é o doente, não nós, médicos residentes. Como se chama o doente? Não sabemos. Ou, melhor, sabemos sim: – seu nome é 1304. Sim, o doente do leito 1304.
           A reunião passou por mim como o vento que não consigo deter. Boa vontade não paga o almoço, nem resolve a questão do residente que não quer aprender. Falou-se em cultura. Estamos sob a égide de uma nova cultura, a cultura do não envolvimento. Súbito, na reunião, lembrei-me da definição de cultura da Brené Brown: – cultura é a maneira como fazemos as coisas por aqui. Perfeito! Demonstrei aos presentes à reunião que cultura é um modo, uma maneira de agir. Eles diziam: –“Aos poucos vamos mudar a cultura”... Sem falar, sem emitir um som, como um coelho prestes a ser abatido para o churrasco, eu gritava para dentro de mim mesmo: –“Não, não, não! A cultura numa instituição se impõe pelas regras e elas, as regras, são ditadas pela caneta da autoridade”! Eis aí tudo... a autoridade... A autoridade persegue, corta o ponto, desconta o salário... mas não impõe a cultura que gera resultados!
            Acabada a reunião – mesmo que não estivesse acabada, para mim ela já era passado – saí. Devo dizer que bebi do café e da água de coco dos chefes, mas tive náuseas e refluxos. O melhor é que, mais uma vez, tive a certeza: – reunião nada resolve. Evitar a ilusão me acalmava, me dava uma sensação de unicidade, de clarividência e liberdade. Eis aí tudo: – liberdade! Pensar segundo as regras de pensar é uma forma de submissão ultrajante e aviltante. Mais gente sou com o dedo no nariz a arrancar melecas e crostas riníticas. À tarde, a má notícia – a gravíssima doença de um querido amigo, de um colega... As lágrimas queriam vir e eu as suprimia, eu as afogava, eu as bebia, nelas me afogava... E pensava e levitava como se pairasse dois ou três metros acima do chão, como o bêbado do dia-a-dia que não repousa... Ah...! é segunda-feira, dia com cara... de segunda-feira. Mas, que importância tem isso se quem vive, vive e quem vai morrer, vai morrer? Perdi a noção... devo por aqui ficar...  

domingo, 1 de março de 2015

UMA SEGUNDA COM CARA DE SEGUNDA

          Como dizem os queridos amigos da Empiricus Research em suas matutinas newsletters de segunda-feira, esta segunda-feira teve cara... de segunda-feira! E por que estou aqui a repetir chavões de outros, correndo o risco de ser taxado de plagiador? Porque esta foi uma segunda-feira realmente inusitada. 
          Tudo começou quando encontrei o meu querido e amado amigo Ciro Ciarlini ali no hospital. O Ciro, para quem não o conhece, é um sujeito boníssimo e um excelente bisturi. Faz tanto o bem que elabora anedotas de seus próprios e múltiplos sucessos. Outro dia ele vem andando pela rua e dá de cara com um sujeito que, se aproximando, lhe diz, os braços abertos dos que almejam um abraço e um sorriso amplo e legítimo a lhe iluminar os olhos: 
          – Doutor Ciro! O senhor me salvou!
          Ele, retornando ao mundo real a partir de sua meditação de leitor voraz, retruca em sua voz macia e clara: 
          – Mas, quem é você, meu amigo?
          O homem responde: 
          – O senhor não se lembra? Operou-me de um balaço no peito e me salvou!...
          Ele, mordaz, responde: 
          –  Eu te operei e tu ainda estás vivo?? Tens muita sorte, meu amigo...! 
          O amigo Ciro Ciarlini diz, enfático, que não ajo corretamente. Em nossas deliciosas e enriquecedoras conversas, ele, de dedo em riste, me diz que devo, como funcionário público, ser esquerdista. Como já debatemos largamente o tema, hoje ele me saiu a querer comparar o Brasil e os Estados Unidos, dando à prosa um rumo mais caótico e mais controverso. Ao final, fi-lo aderir aos argumentos dos fatos. Após um falatório danado, deu-me abertura para explicar porque no Brasil é mais negócio ser funcionário público do que ser empresário, enquanto lá, nos Estados Unidos da América, é mais negócio ir para a iniciativa privada. 
          Vejam o intrigante, ainda na esfera dos fatos. Ciro mora no Brasil, diferentemente de seu filho Pedro, que mora nos Estados Unidos, onde faz Residência Médica. Aqui o amigo ocupa duas posições no Quadrante de Fluxo de Caixa de Robert Kiyosaki: – é empregado e é dono de negócio. (Também consta que andou comprando umas ações na bolsa de valores, mas parece que andou perdendo dinheiro e, vocês sabem, antes perder o juízo a perder dinheiro...) Como empregado, é funcionário público do Estado e do Município, sendo que já está a gozar a aposentadoria no primeiro, enquanto luta desesperadamente para se aposentar no segundo.  Como dono de negócio, possui um imóvel onde aluga salas para consultórios médicos – ele mesmo utiliza uma delas como seu consultório particular – e onde até funciona um pequeno centro cirúrgico. Emprega meia dúzia de funcionários ou pouco mais que isso.
          Como funcionário público, meu amigo quer o certinho todo fim de mês, as férias, a licença prêmio e a aposentadoria do governo. Afinal, dedicou anos de sua vida ao serviço público; não está disposto a "perder" tudo isso. Como dono de negócio, está sempre às voltas com a burocracia, com os fiscais do governo, com a justiça do trabalho paternalista, com os impostos escorchantes e obrigações a pagar diariamente. Além disso, há as despesas do negócio como a conta de energia, a conta de água, a manutenção de equipamentos, os serviços de limpeza, etc. 
          Em suma, concluímos que escolhemos ser funcionários públicos, no Brasil, por uma simples razão: – é bem mais fácil. Tem-se alguma dor de cabeça, mas incomparavelmente menor do que a do dono de negócio. Esse negócio de ser dono de negócio não é, definitivamente, coisa de Brasil. E até é. Para poucos. Alguns bons, aguerridos e recalcitrantes brasileiros metem as caras, metem os pés pelas mãos e montam negócios mesmo à luz das sombrias estatísticas que provam que a grande maioria dos negócios fracassa logo no seu primeiro ano de vida. As causas? Já as listei acima. Não é à toa que temos no Brasil um dos piores ambientes de negócios do mundo. E assim, após as conclusões tiradas à luz dos fatos e das evidências, despedimos-nos, Ciro e eu, e fomos cuidar da vida. 
          O inusitado da segunda-feira se caracterizou definitivamente à tarde. Os amigos do tempo dos cueiros e fraldas principiaram, na rede social, um caloroso e choroso debate na rede social – pasmem! – sobre o mesmo tema debatido pela manhã com o Ciro. Com dois deles fazendo parte do grupo de Donos de Negócio do Quadrante do Fluxo de Caixa do Kiyosaki, outro sendo Autônomo e um outro sendo Empregado na "iniciativa" privada, não podíamos esperar bons auspícios e boas perspectivas na conversa. Afinal, toda conversa vai bem se o tema tem bom prognóstico, ao passo que vai mal se o horizonte se mostra nebuloso. Com a procela a se desenhar em lapso não distante, as opiniões e queixas eram diversas e intensas. 
          Porém, a pelo menos uma conclusão chegamos: – no Brasil, em termos de negócio, só prospera quem está na informalidade, quem usa ilegalmente os espaços públicos para fazer funcionar seu negócio, quem falsifica e negocia produtos falsificados, quem não emite nota fiscal e não é penalizado, enfim, quem não é incomodado pelo governo. Em suma, prospera quem está à margem da legalidade e não é perturbado pela autoridade de plantão. Quem pensar que isso é coisa do submundo das cidades e da calada da noite, engana-se. Tudo isso funciona diuturnamente e vespertinamente nas ruas, avenidas, calçadas e balcões montados e cedidos pela própria autoridade municipal para este fim. São "pequenos" comerciantes, pobrezinhos, que, por serem "pobrezinhos", tudo podem fazer de ilegal e ainda estarão protegidos pelo governo, ainda que ferindo vários artigos da lei, numa demonstração de que o grande e maior criminoso neste país é este mesmo governo. Esse povo que tudo pode precisa alimentar os filhos, precisa sobreviver e, sob a égide desta nobre justificativa, pode infringir a lei. Assim, ficamos sabendo que, neste país, todos somos diferentes perante a lei e que otário é quem a cumpre.  
          Após a conclusão inevitável e inexorável, a conversa virtual teve o fim melancólico próprio das conversas que prognosticam o pior para os dias vindouros ou, ainda, das conversas que prognosticam a inexorabilidade da perpetuação de tudo o de pior que temos hoje. De fato, esta segunda-feira teve cara de segunda-feira e previsão de tempo ruim com tempestades contínuas e visibilidade de menos de um palmo à frente do nariz...

09/02/2015