sábado, 28 de abril de 2012

Canalhas e canalhices


Até agora nada vi na imprensa escrita sobre o caso do desaparecimento da professora. O jornal que ontem dizia estar acompanhando o caso parece o ter abandonado. Deve saber de algo que desqualifica a potencial matéria. Seria provável que o suposto desaparecimento fosse desmascarado por um evento corriqueiro, como se a professora tivesse resolvido se esconder de alguém numa pousada ou hotel. Quem sabe quis dar um susto no noivo safado e mulherengo? Afinal foi ele quem denunciou seu “desaparecimento” à delegacia. De concreto, nada. Nenhuma palavra. O jornal e seu portal calam-se solenemente. Para um noticioso que afirmava estar de olho no caso é um péssimo exemplo.
            Observe-se outro dado que salta aos olhos em nossos periódicos. Eles estão a se parecer mais com livretos de lojas e magazines – estão repletos de propaganda de bens de consumo. E o que mais anunciam são os carros de luxo. Mas, na verdade, anunciam de tudo, de lençóis a caminhões. Ganham um dinheirinho aí. Além disso, salta aos olhos a nojenta, persistente e insistente propaganda oficial. O governo do estado e a prefeitura de Fortaleza estampam, todos os dias sem dó nem piedade, seus fantasiosos feitos e realizações. Dirá alguém que estou a exagerar, que de fato lá estão os postos de saúde, os hospitais, as escolas. E direi que de nada adiantam postos de saúde que não têm remédios, hospitais que não atendem à demanda de guerra e escolas que não educam. Ademais, aqui entre nós, governos servem a isso mesmo. Não fazem mais que sua obrigação, e mais – fazem infinitamente menos do que se espera deles. Isso sem falar que fazem o que não deviam, como funcionar de “fiadores” a funcionários públicos que tomam empréstimos a empresas que tem relações imorais com gente do centro do poder. Conclusão: a irritante propaganda “oficial” é um pé no saco do já combalido cidadão de bem, e uma afronta à inteligência dos esclarecidos.
            Mas há exceções nas fajutices da imprensa escrita. Além de uns poucos corajosos e sérios jornalistas, uns poucos colaboradores valem a pena se ler. Vejam, por exemplo, no jornal o Povo de hoje, o artigo do médico e professor Antonio Mourão Cavalcante intitulado “Consignados para quem” (http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2012/04/28/noticiasjornalopiniao,2829380/consignados-para-quem.shtml). Lá ele faz uma corajosa crítica reprovativa àquela história do governo do estado do Ceará oferecer empréstimos consignados a funcionários públicos. Uma crítica direta, ácida, corrosiva, indignada. Mais – sugere a participação dos “homens de cima” na mutreta, e fuzila: “Como acreditar na bondade do governo? Prefiro imaginar os conchavos de bastidores, as falcatruas cobertas ou descobertas...” De fato, tudo foi descoberto, os conchavos e as falcatruas e, diga-se de passagem, a que não falem que não dou a César o que é de César, a imprensa teve papel fundamental na divulgação desse material. Numa reflexão mais alargada, poderíamos dizer que o resto deveria ser feito pela sociedade, numa resposta veemente às urnas nas próximas eleições aos indicados e apadrinhados por essa gente, o que não acontecerá, infelizmente. O povo é canalha – me refiro às gentes, não ao jornal – e canalha não se importa com canalhices.
            Para encerrar venho declarar em alto e bom som: o senador Inácio Arruda foi finalmente “lançado” candidato do PC do B à prefeitura de Fortaleza (http://www.opovo.com.br/app/opovo/politica/2012/04/28/noticiasjornalpolitica,2829306/jantar-vira-evento-para-lancar-nome-de-inacio-a-prefeitura.shtml). Parece que eu estava certo ao criticar seu artigo de jornal no post “Análise do discurso?” (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2012/04/analise-do-discurso.html). E quem estava presente ao jantar do lançamento da candidatura era o deputado federal Artur Bruno do PT, ele próprio pré-candidato ao mesmo cargo. Vejam, como se diz, que está tudo dominado. Trocando um pelo outro devolvo ambos e nem quero o troco. Haverá alguém diferente nesse meio? É que me pergunto.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Sensacionalismo por nobre causa


Vejam que nada tenho contra os jornais! Contudo, confesso: também nada tenho a favor. Se puser à balança meu contra/a favor, o objeto se inclinará mais à esquerda. Minhas razões: nossos periódicos adoram o sensacionalismo barato. Alguém dirá que todos os jornais gostam do e praticam o sensacionalismo, e direi que o mais barato e rasteiro sensacionalismo é a marca registrada dos nossos.
            Por exemplo, amanhã. Amanhã pelo menos um de nossos periódicos anunciará em manchete de letras garrafais o desaparecimento de uma professora moradora do bairro Luciano Cavalcante. Segundo consta, a jovem senhorita saiu às 6 horas de ontem para ir ao trabalho e, após suposto contratempo com seu veículo, comunicado por ela por volta das 07h30min, lá não apareceu nem voltou para casa. Às 08h30min teria avisado que chegaria atrasada à escola. Às 13 horas o noivo da mulher já foi prestar queixa à delegacia. Faz, portanto, pouco mais de 24 horas que ela “desapareceu”.
            Não sei se lembram que há pouco mais de dois ou três meses uma outra mulher, uma jovem senhora mãe de família, saiu de casa para uma caminhada matinal e “desapareceu”. A cidade inteira já se cobria de comoção prevendo um desfecho funesto para o caso. Pensava-se tudo de ruim. Quando a polícia soltou seus cães farejadores à caça da mulher, eis que ela apareceu sã e salva. Onde estava? Aonde tinha ido? Ficou bem entendido ao final do episódio que as coisas não iam bem entre ela e o marido, pois sim. A imprensa então suspendeu seus arroubos lucubratórios, e esqueceu-se o caso. Um ou outro articulista, depois, escreveu sobre o drama da mulher dando-lhe o viés apropriado e até emoldurando-o em ares romanescos e reflexivos.
            Agora a infeliz quase coincidência nos traz a tona novo “desaparecimento”. Pergunto a meus inúmeros consultores jurídicos: - já é o caso de se o considerar um desaparecimento? ou é necessário que se passe um lapso maior de tempo para que se o considere assim? Em seu portal o periódico dá conta de que são os familiares em desespero que estão a divulgar o caso. E o jornal? Está fazendo o quê? Dando uma forcinha, n’é? Ou estariam a espicaçar a veia mórbida do povo, tangendo-o a já imaginar sangue e dor?
            Estava em Londres em maio passado e eis que me deparo com a manchete do Daily Mail do dia 26.05.2011: “Elderly patients dying of thirst” (“Pacientes idosos estão morrendo de sede”). As letras eram enormes, quase metade da capa. As nossas nem chegam perto. Tenho um exemplar da edição comigo para quem duvidar. A matéria trazia o resultado de um levantamento feito em 12 instituições do Sistema Nacional de Saúde britânico que demonstrou que 3 delas negligenciavam “gravemente” cuidados básicos de enfermagem para com os pacientes idosos, como dar-lhes de beber e até de comer. Os médicos tinham que prescrever “dar água” aos pacientes, caso contrário as enfermeiras não atentavam. E conclui a matéria: “a desidratação contribui diretamente com mais de 800 mortes de idosos por ano, enquanto outros 300 morrem de desnutrição”. Manchetes anteriores diziam: “Neglect that shames Britain” (“Negligência que envergonha a Grã-Bretanha”), de 02.12.2010; “Elderly facing eviction from NHS beds” (“Idoso encara o despejo de seu leito do hospital”), de 16.02.2011; e “We have forgotten our duty to the old” (Esquecemos nossas obrigações para com o idoso”), da mesma data.
O jornal, então, lançou uma campanha juntamente com a Associação de Pacientes conclamando o final da negligência institucionalizada para com o idoso no sistema de saúde, e o resultado foi que seus leitores ajudaram a levantar a quantia de 100.000 libras esterlinas, doadas a instituições de caridade. Elas contrataram mais pessoas para ajudar a cuidar dos idosos internados nessas instituições.
            Dirão que falo da Grã-Bretanha, um lugar do primeiro com jornal de primeiro mundo. Exatamente – falo da Grã-Bretanha, um lugar do primeiro mundo com jornal de primeiro mundo. No primeiro mundo acontecem descalabros, como se pode ver nesses relatos. A diferença é o veemente viés de indignação do jornal e sua notável proatividade para liderar uma mudança aliado a instituições vigilantes. E lá a coisa não é de “faz-de-conta”, não. As mudanças ocorrem tão logo surja o clamor.
            Estamos na torcida a que o caso do desaparecimento da professora tenha um bom desfecho e frustre a gana de nosso periódico fajuto. Ele está sedento para pôr o caso à página policial. Uma vergonha.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Um rótulo para mim


Ela queria uma explicação satisfatória, que de uma vez por todas a permitisse entender o que estava acontecendo. Não atendia seus telefonemas, evitava os lugares que freqüentaram juntos enquanto durou o romance, enfim, fugia dela e de tudo o que a lembrasse.
            Ele se envergonhava de sentir o que sentia. Surpreendera-a com o ex-noivo em restaurante suburbano. Estavam tendo um caso. Ficou claro pelo modo como conversavam, como se acarinhavam, como se olhavam. E, para não haver dúvidas, o beijo. Foi o único que presenciou, já que àquela visão uma espécie de náusea obnubilante quase o leva ao chão, e dali saiu cambaleante e rápido. Em suma – o ciúme o corroia as entranhas como um câncer a se espalhar em sua pressa de consumir. Por isso se escondia e fugia.
            Que fez ela? Valeu-se de um amigo comum, que combinou com ele um almoço. Ela chegaria como que de surpresa, e assim seria obrigado a ouvir ela perguntar o que queria saber. Pois foi justamente o que aconteceu. O amigo deu uma desculpa para ir embora. Ela foi propositalmente de táxi. Tudo muito bem armado. No mínimo teria de levá-la em casa. Era um sábado.
            Com sua insistência por explicações, ele acabou vomitando o que já o decompunha há dias. Contou-lhe da cena que vira, ela e o ex-noivo; e que por isso não queria mais vê-la. Ela desmanchara o noivado pra ficar com ele. Haviam sido acometidos de uma dessas paixões avassaladoras e laváticas, qual o magma que o vulcão expele em suas erupções coléricas e gigantescas; paixão abrasadora como esse material quentíssimo do âmago do planeta, vinda do cerne de cada um a tapar-lhes a boca, sufocar-lhes os gritos, afogar-lhes em miasmas entorpecentes e queimar-lhes a pele e os sexos qual uma substância viciante e vivificante... O noivo se tornara de uma insignificância desprezível, era o que ele pensara.
            O tempo, não obstante, veio demonstrar que não era bem assim. A cena no restaurante denunciou o que vinha acontecendo há meses. Ela e o ex tinham um caso. Uma ironia da vida já que ao início, quando estava ainda noiva, era ele quem mantinha caso com ela. Chifravam o noivo despudoradamente, até o dia em que ela anunciou a ruptura. E rompia com o noivo apenas por insistência dele, que não demandava abertamente tal atitude, mas que gastava um tempo precioso de seus furtivos encontros a se lamentar do noivado.
            Ela era direta, sempre fora. Não mentia. Ele estava para saber: ela não mentia - omitia. E agora, à mesa do restaurante, exercitava sua cruel e seca franqueza. Confessou: nunca rompera de fato com o noivo. Desmanchara o noivado certo dia e dali a uma semana já estava a sair com ele novamente. Essa era a verdade. Por que fizera isso? Olhando-o fixamente nos olhos disse: - “Porque gosto dos dois”!
            Certas verdades são paralisantes. Desarmam o interlocutor. O que se pode argumentar diante de certas verdades? Mesmo a verdade de caráter duvidoso pela medida moral das gentes é congelante. E ainda mais as desse tipo! Quem poderá fazer juízo de valor sobre objetos múltiplos do amor de alguém? As regras são às vezes traídas por exceções desconcertantes difíceis de explicar à luz de sua lógica. Contudo, são essas mesmas exceções que nos remetem a reflexões que de outra forma não cuidaríamos fazer. Haverá sempre alguém a duvidar das idiossincrasias de certos corações. Lançá-los-ão ao poço fundo da baixeza do caráter, como é bem mais fácil fazer. Não se quer debruçar sobre o drama de tamanha excentricidade. O julgamento e a condenação hão de ser sumários.
            Completou, sem o pudor da hipocrisia: -“Quando estou contigo é maravilhoso, e nem penso nele; quando estou com ele é maravilhoso e nem penso em ti”.
            Há, sem dúvida, certos desvios do comportamento, da sexualidade, do hábito alimentar... Mas seria o caso de se considerar tal sentimento um desvio da afetividade? do amor? da paixão? É isso já um desvio da sexualidade? quando “estar” com um e outro não conota o ato em si mas uma sensação de prazer mais ampla e plena, própria dos que se afeiçoam não apenas à carne?
            Ao menos para ele era uma situação completamente nova e absurda. Que argumento utilizar quando, mesmo diante do inusitado, a verdade impera límpida e irrepreensível? Disse a única coisa que lhe veio à cabeça, bem própria de seu evidente chauvinismo: -“Pois quero voltar a ser o amante!” E explicou: -“Reate o noivado – serei novamente o amante”!
            Não há um ser humano vivo ou morto em época recente que tenha comprado um pote que não tenha rótulo, uma roupa que não tenha marca, um carro que não ostente o nome e o símbolo do fabricante. Os rótulos nos são necessários e fundamentais. Ele queria o seu, o de “amante”. Que o outro ficasse com o de “noivo chifrudo”. Assim ele até topava.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Morre doente que, segundo o jornal, não corria risco de morte


À página 19 do jornal O Povo de segunda-feira 9 de abril de 2012 está estampada a manchete: “Paixão de Cristo] Ator enforcado por acidente não corre risco de morte” (http://www.opovo.com.br/app/opovo/brasil/2012/04/09/noticiasjornalbrasil,2817059/ator-enforcado-por-acidente-nao-corre-risco-de-morte.shtml). Ao que parece, a fonte do jornal foi a Folhapress, ao que me parece uma agência noticiosa onde alguns diários buscam informações para divulgá-las em suas próprias páginas. É o que se lê ao final da matéria, entre parênteses. A reportagem relata o acidente no qual foi vítima o desconhecido ator Thiago Klimeck, de 27 anos, que sofreu enforcamento acidental ao interpretar o apóstolo Judas nos festejos da sexta-feira santa durante a encenação da Paixão de Cristo. A matéria foi publicada três dias depois do fato.
O problema é que há lá pelo menos uma aberração, escrita por sabe-se lá quem. Está escrito precisamente o seguinte, ipsis litteris: “Segundo o médico Magen Haidar, Thiago teve ‘escócia’ cerebral – quando falta oxigênio ao cérebro – após uma asfixia mecânica etc”. (No Aurélio está escrito o seguinte sobre escócia: moldura côncava que faz parte da base de uma coluna; nacela.) O redator da matéria, em suma, afirmou que Thiago sofreu “escócia cerebral” e explicou o que é isso: é quando falta oxigênio ao cérebro. Vê-se nitidamente o erro crasso. O jovem ator sofreu hipóxia ou anóxia cerebral por asfixia devida ao enforcamento acidental. Analisando o termo usado pelo redator em sua confusão mental fica-se tentado a pensar que ele escreveu a matéria ouvindo-a de alguma fonte ou de alguém. Se a escreveu através da leitura de outro portal, fica a suspeita de que necessite urgentemente de lentes corretivas. Qualquer que seja o caso, fica evidente a pouca confiança que nos inspiram alguns de nossos jornalistas, revisores e editores no trato com a língua pátria.   
Eu disse pelo menos uma aberração, mas na verdade o tempo veio mostrar que existiam duas aberrações na reportagem. A outra – além da do assassinato da língua madre mostrado acima – era a informação em si, que ela trazia à sua headline, quase como uma garantia, de que o jovem não corria risco de morrer. Segundo a matéria, a irmã do ator afirmou que ele não corria risco de morte.
Pois eis que à página 12 do mesmo jornal O Povo de ontem, terça-feira 23 de abril de 2012, a manchete demonstra que as esperanças que os familiares do jovem ator alimentaram com ardor e grande desejo se viram, infelizmente, frustradas: “Tragédia] Morre ator que interpretava Judas” (http://www.opovo.com.br/app/opovo/brasil/2012/04/23/noticiasjornalbrasil,2825917/morre-ator-que-interpretava-judas.shtml). Perdoa-se a angústia e o sofrimento de uma irmã ao ver seu amado irmão a jazer em leito de unidade de terapia intensiva, anestesiada pela esperança de um desfecho feliz. O que não se perdoa é a manchete sensacionalista e sem autoridade de anunciar prognósticos sobre os quais não tem conhecimento abalizado. Pode um jornal/jornalista divulgar em manchete uma informação sem lastro técnico? sustentada apenas no sentimento de esperança de um familiar da vítima, como é o caso? Não demonstra isso um descaso com a presumível verdade por parte do órgão informador? Ainda que todos torcessem pela plena recuperação do ator, não seria obrigação do noticioso zelar pela fidedignidade de sua informação?
Mesmo para o médico, muitas vezes é difícil prognosticar. Ainda que tenha ciência da história natural das doenças que trata e também de dados estatísticos dos resultados de muitas terapias e suportes de vida, é tudo uma questão de probabilidades cujos maiores fatores influenciadores ainda não se conhecem. Assim, não é fácil prognosticar. Eis, então, que o jornal estampa a manchete colhida de fonte leiga, emocionalmente e compreensivelmente abalada. Poderia ter escrito “Ator sofre acidente ao interpretar Judas” e, no desenvolvimento da matéria, ser verdadeiro e afirmar que nada ainda se poderia então dizer sobre o desfecho do caso.
Outra tragédia está a se desenrolar no presente, o acidente com o filho do cantor Leonardo, que sofreu traumatismo crânio-encefálico após uma capotagem do veículo em que viajava. A coisa aqui tem sido diferente – foi divulgado hoje na íntegra no portal do O Povo o boletim médico sobre o estado de saúde do garoto (http://www.opovo.com.br/app/maisnoticias/brasil/2012/04/24/noticiasbrasil,2826848/pedro-leonardo-passara-por-hemodialise-apos-piora-da-funcao-renal.shtml). Não se emitem opiniões. Imperam os dados puramente técnicos. As esperanças estão nos corações. Não queremos a morte de mais um ser humano. Queremos que ele sobreviva, se possível, sem seqüelas e sem cicatrizes. Aqui, ao contrário, divulga-se e expõe-se, presume-se com a autorização da família, a intimidade do enfermo e de seus males fisiológicos. 

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Barriga branca


Não sei se já lhes contei sobre o currículo do Mesquita. Já contei? Se não, conto agora em rápidas pinceladas. É o seguinte.
O Mesquita tem curso superior. Não me lembra agora, mas me parece que é administrador ou economista. Que fez o homem após o curso? Foi ser empresário. E – querem saber? – tornou-se um empresário bem sucedido. Foi dura a batalha para chegar  onde chegou. E com muitos méritos, diga-se. Resultado: o Mesquita passou a acumular dinheiro. De tanto o amontoar, eis que surgiu a montanha.
O Mesquita adora esportes. Gosta de futebol – torce pelo Ceará –, gosta de ir à academia levantar pesos e estar à frente do espelho admirando seus músculos em poses de Mister Universo, e gosta de surf. É surfista da categoria “velha guarda”. Sobre a prancha não se sabe como o homem se equilibra, posto que balance mais que galhos de roseira aos ventos leves, mas ainda participa de competições do esporte. Contudo, o que a maioria não sabe é sobre o outro esporte que ele gosta mais ainda do que todos os que já enumerei – montanhismo. Mas, vejam, Mesquita nunca subiu montanha alguma como alpinista. Talvez a montanha mais elevada que tenha subido tenha sido o Corcovado, no Rio de Janeiro, e nisso se iguala à maioria de nós bons brasileiros. E para isso há de ter-se utilizado de um carro ou dos novos bondinhos que agora lá existem. Equipamento de montanhista ele nem conhece. Se não entendem o que quero dizer, direi que a única paixão que o Mesquita tem no montanhismo é a apreciação de uma paisagem em particular e em especial, por assim dizer – o homem adora contemplar a montanha de dinheiro que acumulou. Se pudesse nela subiria e lá permaneceria a brincar com as notas como uma criança na banheira a brincar e mexer na água. Imaginem o Tio Patinhas – sou do tempo do Tio Patinhas – numa de suas estórias de sucesso, em que acaba em sua caixa-forte particular a mergulhar sob as notas como a banhar-se nelas e com elas. Pois o Mesquita seria o nosso mais atual Tio Patinhas.
Outro dia contei de sua tristeza por estar comprando mais um imóvel. A princípio ninguém atentou para a razão de tão inusitada melancolia, até que o Braga, um observador nato e perscrutador da alma humana, tudo desvendou – Mesquita se entristecia com os freqüentes saques em sua montanha, que diminuía à sua frente e lhe causava as cólicas mais lancinantes e atrozes. Mas não era nada disso que eu ia falar. Falava do currículo do Mesquita. Voltemos ao currículo do Mesquita.
O que aqui interessa é dizer dos inúmeros e variados cursos extracurriculares que ele fez. E não somente cursos. Fez também vários retiros. Se saísse a enumerar aqui todos os cursos e retiros que fez o meu Mesquita, com suas respectivas cargas horárias e temas, nem toda a memória deste computador seria capaz de comportar tanta informação. Diga-se de passagem: o Mesquita só faz cursos acompanhado da mulher. Até porque tudo começou com a terapia de casal que resolveram fazer por... acho que por toda a vida. Até hoje fazem terapia de casal. Descobriram o que eu já há muito suspeitava – o casamento é uma doença e, como toda doença, necessita de terapia. Alguém aí já viu alguém se tratar estando sadio?
Por tudo isso é que exultei quando, hoje, recebi uma correspondência eletrônica intitulada “WORKSHP CURA ELETRÔNICA”. Alguns dirão que estou a debochar e peremptoriamente afirmarei que em absoluto! Outros dirão que, se o enviaram a mim, é porque o remetente me julga um potencial candidato a objeto da “cura eletrônica”, seja lá o que seja isso. Devo lembrar que aos dias de hoje todos estão sujeitos a receber por engano mensagens que de outra forma jamais chegariam. Assim, asseguro: não conheço esta senhora – foi uma senhora – que me remeteu o convite a participar do tal workshop. Mas foi só pôr os olhos sobre a matéria e visualizar o casal que adora fazer cursos que, segundo eles mesmos, “ajudam a viver”: o casal Mesquita.
Ao convite está escrito: “Esta é uma técnica muito nova, onde trazemos o fluxo de elétrons direto do coração do Arcanjo Metátron para os seres humanos, animais e plantas. Chama-se Cura Eletrônica porque utiliza a Luz e a Movimentação dos Elétrons ‘Divinos’”. Perceberam? Diz mais, sobre o mecanismo através do qual a “cura eletrônica” cura os ‘doentes’ ou seus necessitados: “esse fluxo de elétrons vai elevar a vibração, formando uma corrente de alta freqüência, conduzindo ao despertar da consciência para as novas realidades supra-físicas”. Vejam que o negócio não é pouca coisa! Assim, mais que de imediato liguei em separado para o Mesquita e sua digníssima. Ela me pediu que, encarecidamente, não pusesse pilha ao homem senão ele iria querer fazer o exuberante e moderno workshop, fazendo até parecer que ela não goste desses “negócios”. Já o Mesquita mostrou-se excitadíssimo com a possibilidade de receber os “elétrons divinos”. Disse: -“Fiz um curso de Chacras!” Respondi-lhe que ele poderia se “atualizar” e conhecer as novidades no assunto e que poderia até se tornar professor na matéria ao final do curso, mas o aconselhei a ter o máximo cuidado a não ser eletrocutado durante as aulas. Afinal, elétrons “divinos” saídos direto do coração do Metátron devem ser elétrons altamente energizados e, portanto, potencialmente letais.
Após mais umas poucas demonstrações de entusiasmo por parte do Mesquita quanto à sua nova forma de terapia a se desenhar, nos despedimos com a promessa de minha parte de lhe enviar o convite que havia recebido por engano. Tudo isso se passou à tarde de hoje.
Entretanto, não sei se sabem, mas na casa do Mesquita a última palavra a valer é dele. Diz sempre: -“Sim, senhora!” É o que, presumo, deve ter ocorrido. Qual não foi minha surpresa quando, ao abrir minhas mensagens há pouco, vislumbro entre elas uma do Mesquita em resposta ao convite que lhe enviei a participar do workshop sobre “cura eletrônica”. Disse, categórico: -“Tô fora!”
A pior desgraça do mundo é um homem barriga branca...

terça-feira, 17 de abril de 2012

Um poste para prefeito... e salve-se quem puder!


Observem que qualquer coisa que hoje digam os jornais está sujeita a desmentidos ao dia seguinte. Por exemplo: disseram ontem que o doutor Lúcio Alcântara caiu com sua bicicleta dentro do buraco ou devido a um buraco na Avenida Beira-Mar. Hoje dizem que não houve buraco – ele caiu da bicicleta porque a pista estaria escorregadia devido às chuvas. E asseguram – a informação é fiel porquanto seu autor é a própria vítima. Em que pese a possível suposição de que buracos em ruas e avenidas nenhum mal fazem, hoje o jornal vem à carga com matéria dando conta de buracos, bocas de lobo, desgaste de galerias, deformidades do asfalto e acúmulo de água em poças na avenida mais charmosa da cidade. Conclusão: os culpados são as chuvas que não param de cair e os ciclistas incautos que deveriam deixar suas bicicletas em casa.
            Ainda sobre as matérias sobre as quais comentei ontem, certo jornalista entendeu que a “Opinião” do senador Inácio Arruda exprime uma crítica aberta à gestão da prefeita Luizianne Lins. Eu jurava que seu discurso era típico de palanque de candidato. Enfim, é possível que seja ambas as coisas. Afinal, ninguém concorre a cargo eletivo elogiando o trabalho do último gestor. Veja-se o que se está a chamar de “desmonte” do Centro Cultural Dragão do Mar, obra do falecido prefeito Juraci Magalhães. Não só não se elogia como ainda deixa-se às favas o que o opositor realizou. É fato comum e notório na crônica política brasileira com exceção dos “Bolsas”, que essa é uma “obra” fadada a encher as urnas de votos e, portanto, reproduzível e ampliável como se bem sabe.  
Na edição de hoje, a matéria que mostra a prefeita inaugurando uma escola que já funciona desde há quase quatro anos enfatiza o que ela mesma diz sobre inaugurar escolas em ano de eleição, e antes que se apaguem as luzes: -“Acho que é minha obrigação concluir o mandato dizendo o que foi feito, porque se eu não inaugurar ninguém vai saber que existe.” Ou seja, se Sua Excelência não inaugura o equipamento, ninguém, nem os 600 alunos e suas famílias nem o Tribunal de Contas dos Municípios (TCM), viria um dia a saber de sua existência, apesar dos R$ 2 milhões investidos na obra. É o caso até de se procurar saber o que os alunos foram lá fazer nesses quase quatro anos em que ela (não) existia. Bom mesmo seria que, em não existindo a escola posto que não inaugurada, o TCM pudesse reaver o montante liberado para sua construção, ainda que esteja lá tudo bem construidinho e bonitinho como toda obra pública recém (não)inaugurada.
Disse mais a prefeita em seu discurso de inauguração da Escola Professora Maria José Macário Coelho: -“Ela funciona de fato, porque a gente não precisa fazer obra pra se aparecer, ou pra aparecer na imprensa; a gente tem que fazer obra é pra comunidade (sic).” Que será que Sua Excelência quis dizer com isso? Talvez quisesse ratificar que ela já funciona há tempos, sim, mas que não precisaria ser inaugurada, já que se fazem obras para servir às necessidades da comunidade e não para serem expostas ao povo e à imprensa como feitos de governo. Ora, se não precisaria de inauguração, por que a inaugurou e justo em ano de eleição? Por que promoveu o evento e lá chamou a imprensa? Ou não chamou e a imprensa foi lá de enxerida? Bem se vê que políticos têm gogó de girafa e língua de tamanduá, e são experts em falar sempre o oposto do que querem dizer. A frase correta e honesta seria: “a escola já funciona de fato, mas nós a inauguramos hoje, e chamamos vocês aqui para divulgar, porque precisamos que o povo veja as obras que meu governo está fazendo a fim de que tenhamos mais chance de eleger nosso candidato na próxima eleição que se avizinha, ainda que não prometamos que continuaremos mantendo o equipamento em perfeitas condições e seus professores bem pagos em seus planos de cargos e carreiras”. Eis aí a verdade irretocável. E se assim se pronunciasse garanto que muitos votariam no poste que ela indicará à sua sucessão. (Lembram-se que ela garantiu, com sua popularidade às alturas, que elegeria até um poste para seu sucessor?)
E – acreditam? – continua a se ampliar a indústria do assalto a banco e do assassinato. Sabem o que disse o tenente-coronel comandante da polícia militar do estado do Ceará, referindo-se ao assalto de ontem? Eis a pérola: -“A população pode ficar tranqüila, isso eu posso garantir. Nessas próximas horas tudo será desarticulado.” Após um assalto a banco a cada 3,7 dias neste ano – 29 assaltos entre 01 de janeiro e 17 de abril de 2012 –, fiquemos tranqüilos. Está tudo sob controle. O próximo será, pelo intervalo verificado, entre sexta e sábado próximos. Onde será é o que me pergunto. Ou será que o graduado oficial quis dizer, como fazem os políticos quando dizem o que não querem dizer dizendo, que o que será desarticulado é o sistema de segurança pública do estado? Se assim for, salve-se quem puder!     
   

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Análise do discurso?

Outro dia, num sarau em casa de amigos, conversava com meu recém apresentado amigo Ostramundo Nóia, psiquiatra de elevada estirpe entre seus pares e de boa reputação entre seus clientes. (Custa-me entender como pode um cliente de qualquer psiquiatra ser capaz de avaliar a qualidade de seu desempenho, mas, em todo caso, vá lá que seja...) Era uma reunião para recepcionar um casal de poloneses que se perderam por essas bandas, amigos do casal Nóia. A conversa era em inglês, já que nenhum dos convivas falava a língua dos ilustres convidados, nem eles arranhavam uma vírgula do português.
            Lá pelas tantas as uísques-calibradas mentes se entretinham em amenidades e, exceto medicina, de tudo se falava. Eu julgava ser tudo muito bom já que havia, então, se não uma maioria absoluta de médicos, pelo menos um número considerável: três ao todo – o casal Nóia e eu. É sabido da tendência dos médicos, quando em reuniões sociais, de puxar a sardinha para seu lado e encetar assuntos referentes ao seu trabalho. Na oportunidade essa tendência se dissipou quando, às apresentações, a anfitriã anunciou ao casal psiquiatra que também eu era discípulo de Asclepius. Ao responder sobre qual a minha especialidade, toda e qualquer comunicação entre nós em torno do assunto “medicina” se dissolveu como um picolé Pardal à canícula da praia ensolarada. É conhecida a reserva dos médicos da mente aos maus olores do corpo e também aos que cuidam a que ele se dissipe. Assim, conversou-se sobre o resto. Até que...
            ...meu caro Ostramundo comentou de um projeto em andamento: estavam a escrever um livro cujo tema central seria um estudo da tendência dos que sofrem do transtorno bipolar ao suicídio. E arrematou: -“Meu editor me convocou a uma reunião porque eu escrevera a palavra ‘suicídio’ bem mais vezes que a expressão ‘transtorno bipolar’!” E me explicou essa nova ciência que é a análise do discurso. Sem ainda ter lido nada sobre o que me parecia ser tão interessante assunto, indaguei ao nobre amigo se a análise editorial em seu texto não lhe teria exposto um Freudian slip (ato falho), ao que ele foi categórico: -“Em absoluto!” Alguns uísques depois nos despedimos.
            Não sei se têm percebido o quanto tenho lido jornais. Assumo: disse inúmeras vezes que não lia jornais. De fato, não lia jornais, mas de uns tempos pra cá eles têm se tornado minha notória e deslavada obsessão. Minto. Não são eles em si a obsessão, mas seu conteúdo. A conversa travada com meu amigo Dr. Nóia fez tudo se tornar claro feito água – cresce em mim cada vez mais o ardente desejo por uma leitura do discurso impresso nesses veículos de comunicação. Ainda que vários autores lhes redijam as páginas, há de lá estar a mensagem maior que emana dos vários discursos e reportagens que lá se lêem.
            Segundo a Wikipédia, uma das leituras possíveis desta análise é a de que “todo discurso é uma construção social, não individual, e que só pode ser analisado considerando seu contexto histórico-social, suas condições de produção; significa ainda que o discurso reflete uma visão de mundo determinada, necessariamente vinculada à do(s) seu(s) autor(es) e à sociedade em que vive(m)”. Seria então possível uma análise do discurso de uma peça produzida por múltiplos autores como é o jornal? Seguramente tal peça literária de nosso dia-a-dia emite os sinais que capta de nosso tempo e lugar, como a reverberar nossas mais eloqüentes dores, nossos mais incontidos estupores, nossos medos mais enraizados e renitentes, nossos maiores clamores e mesmo a mudez de nossas indignações.
            Vejam, a título de exemplo, a manchete maior de nosso O Povo de hoje, em negrito como lá está: Ferroviário é rebaixado. A matéria se debruça a esmiuçar o fato inédito de este tradicional clube do futebol local ter sido rebaixado à nossa segunda divisão. Todos sabem que os nossos melhores da primeira são dos piores do país; agora, imaginem-se os da segunda. Apesar da importância “rabo de fila” que este tema tem em nossas prioridades, elegê-lo como manchete principal emite-nos pelo menos um sinal: vamos dar uma relaxada que a coisa ‘tá braba! E, a propósito, é por demais conhecida a ausência de emoção que acomete os torcedores deste medíocre time de futebol que é o Ferroviário. Sua regularidade no nível inferior é tão grande e já há tanto se prolonga que não vejo nenhuma surpresa na imponente manchete. Seus torcedores já se acostumaram à sina. Seu fleugmatismo chega a ser exasperante.
            Comparada à do O Povo, a manchete do Diário do Nordeste exalta tema importante, mas não menos exasperante que a paciência dos torcedores corais – a lentidão de nossa justiça. Diz ela: Ações ficam até 5 anos nos Juizados Especiais. Atentem: nos Juizados Especiais!, onde a média deveria ser de 75 dias. Nada disso é inédito em nossa sofrida e lamentável crônica. Parece que os poderosos de outrora perderam de fato o poder a julgar pela vitória tardia do senhor Tasso Jereissati, nos tribunais, numa ação por danos morais movida contra o atual senador José Pimentel. É matéria dos jornais de hoje. A ação teve início em 2001, quando um era governador de estado e o outro deputado federal. A sentença saiu quase 11 anos depois, e o senhor Jereissati receberá menos de 10% do valor que pleiteava a título de indenização – ele pedia R$ 500 mil. Ele continua muito rico, mas não exerce hoje função pública e tem zero de poder, ao passo que o outro não possui riqueza, mas é senador da república. É o poder do dinheiro contra o poder político, o poder do poder. Bem se vê que ambos têm, de fato, muito poder – o senador paga fácil os R$ 30 mil, mas lhe fica a pecha de condenado, o que mostra alguma força do senhor Jereissati. Seria possível outra leitura? Respondam-me lá os experts em análise de discursos.
            E o que dizer da queda do ex-governador Lúcio Alcântara no buraco da Avenida Beira-Mar, zona “nobre” desta decadente cidade (Lúcio cai da bicicleta e é internado)? A bicicleta do ilustre teve a roda aprisionada dentro do buraco, o que nos indica que ele não deve ser um buraco muito pequeno. O homem foi internado com suspeita de traumatismo crânio-encefálico. Quantos fortalezenses caem nos buracos todos os dias? Sabe-se lá! Com tantos buracos por aí, é provável e possível que um montão deles. Só que são os ilustres desconhecidos que não se tornam manchete, exceção feita a se morressem ao cair no buraco. O lado positivo da história é que o ex ou atual homem público vítima da incompetência do serviço público tem a chance de sentir na própria pele o que sente o cidadão comum vítima da mesma incompetência. A reportagem não nos informa o que ele fará quanto à existência de tamanho buraco à nobre avenida. Omite-se a reportagem ou omite-se o homem esclarecido?
            Para encerrar, convido a quem teve a paciência de me ler até agora para ler o artigo Fortaleza quer soluções, do senador Inácio Arruda (http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2012/04/16/noticiasjornalopiniao,2821589/fortaleza-quer-solucoes.shtml). Quem ainda dispuser de algum tempo que o leia. Mas se não o fizer nada perderá. O ilustríssimo político lá diz o que todos os concidadãos estão carecas de saber. Algumas frases do homem, fisgadas do texto repleto de lingüiças: “A capital precisa de um projeto avançado...”, “...é necessário um projeto político ousado...”, “requer um projeto avançado...”, “este é o grande desafio estratégico:...”, “precisamos de uma ação política destemida...”, e por aí vai. É ou não discurso de candidato a prefeito? em plena coluna do jornal! Aí pergunto: e pode?
No mais, nossos periódicos emanam violência, assaltos, roubos, desvios de dinheiro público, e tudo o de pior que tem ficado cada vez pior. E pergunto novamente: qual a leitura de todo esse discurso? Qual a leitura do discurso dos jornais ao qual nossa sociedade tem dado origem?

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Uma brincadeira de mau gosto


Vejam que ter opinião é a todos permitido. É uma “mazela” da democracia. Até aí tudo bem, tudo ótimo. O problema ocorre quando uma opinião vazia faz escola.
            Uma opinião vazia é exatamente isso: um concatenamento de idéias que redunda numa certeza pessoal baseado em idéias que não são idéias. Diria que são idéias vazias. (Ainda não consigo definir opinião vazia e idéia vazia, mas continuemos.)
            Vejamos o que diz o “pai dos burros”: que nada contém; destituído: espírito vazio de idéias; fútil. Então, opinião vazia seria aquela cujas idéias a embasá-la nada contêm ou são fúteis. Como diria o meu amigo Danúzio Carneiro, opinião vazia é aquela sem “fôlego teórico”. Eu diria mais. Diria que é aquela sem fôlego teórico e também sem fôlego prático.
Fomos presenteados na edição de hoje do jornal O Povo com um confronto de idéias em que fica patente o que seja uma opinião vazia (http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/confrontodasideias/2012/04/12/notconfrontoideias,2819204/fortaleza-e-uma-cidade-boa-para-se-viver.shtml). O referido confronto se dá entre o jornalista Gimar de Carvalho e a escritora e zineira Fernanda Meireles, tudo a propósito dos 286 de Fortaleza a ser comemorado amanhã. Foi perguntado a ambos: Fortaleza é uma cidade boa para se viver? O que se vê é um dos debatedores descrever a realidade do que é nossa cidade sem lançar mão de artifícios metafóricos e até de impressões pessoais, enquanto o outro surfa na maionese. Presumo que a prancha usada por este era daquelas em que até um velhinho subiria sem vacilar. É como se um dissesse que, por todas as suas mazelas e problemas sérios, a cidade é imprópria para o ser humano de bem. Em poucas pinceladas ele enumera tais e quais mazelas, e que são do conhecimento de todos. Não dá pra discordar. É fato, e contra fatos não há argumentos ou opiniões. Ao passo que o outro conclui pela maravilha que é viver aqui porque... e nenhum argumento com base na realidade oferece. Não há lastro em seus motivos.
Mas tudo se explica. Há quem goste do que não presta. Ou, por outra, há quem sinta o gosto do doce ao saborear o vinagre. Quem pode explicar tal idiossincrasia? Por isso as opiniões. Por exemplo, o que disse a senhora Fernanda Meireles? Disse o seguinte, logo ao início de sua preleção: “Gosto de morar em Fortaleza porque posso passar o dia inteiro com uma camada fina de roupa e vai ser bom, não vou perder luvas e cachecóis pela rua.” Perceberam? A profundidade do que ela falou é daquelas, como diria Nelson Rodrigues, que uma formiguinha atravessaria tranquilamente com água pelas canelas. Vejam que onde se usam cachecóis e luvas os mesmos podem ser encontrados facilmente após perdidos, já que lá ninguém há de mexer nem se apoderar do que não é seu. Terá a jovem senhora esquecido esse detalhe, com certeza, como esqueceu também de mencionar que por aqui não é preciso que se percam os objetos pessoais – há descuidistas à larga e à espreita a espera do vacilo.
Mas há ainda pior no discurso da nobilíssima senhora. Disse ela: “Gosto da gambiarra que Fortaleza é porque aqui viver é muito perigoso, como disse o Rosa. Mas é o perigo de virar a esquina e ver a casa antiga onde entrei aos 15 anos enquanto gazeava aula ser demolida, por exemplo. É o perigo de reencontrar alguém que fez oficina de zines comigo cheirando cola no sinal de trânsito. Ou ainda de ter um pedaço da praia trocado por um aquário gigante. Mas é também o perigo de juntar em si a vontade de construir uma cidade dentro da outra e não conseguir – ou conseguir.” Enquanto o lúcido jornalista afirma que “temos vergonha do passado e destruímos as marcas da memória” e que “não construímos um projeto de futuro”, a mulher julga que a demolição de casas antigas representa um delicioso perigo. E lhe parece lúdico e romanesco o outro perigo de encontrar um conhecido cheirando cola no sinal de trânsito! A mim me parece terrível o cheirador de cola ao largo do semáforo! E não nos esqueçamos de seu elogio rasgado ao controvertido aquário que Sua Excelência pretende erguer roubando-nos, entre outras coisas, um pedaço da praia, enquanto o jornalista lucidamente esclarece o que nem precisaria esclarecer posto que sabido de todos: "Os poderosos destruíram as dunas, aterraram lagoas, emparedaram a orla, ocuparam praças e aterraram mangues. Levantaram edifícios dentro do mar, do mangue, e nas áreas de proteção aos mananciais. Nossas praias ainda são (e serão sempre) poluídas. Tudo é destruído em nome da ganância e do lucro."  
Enfim, senhoras e senhores, eis aí uma legítima opinião “miolo de pote”. Como já disse, o diabo é se a moda pega e a senhora Fernanda Meireles faz escola o que, a propósito, não seria muito difícil aos dias de hoje. Afinal, como disse o jornalista, “as relações pessoais são agônicas, e prevalece o ‘salve-se quem puder’. O povo, grosseiro, não pede licença, muito menos desculpas, não diz obrigado, e nem dá bom dia. Perdemos o melhor da ética sertaneja. Levamos a desqualificação do outro às últimas conseqüências. O riso é de puro deboche. E ainda tem quem acredite que sejamos hospitaleiros.” Foi o que me pareceu a “opinião” da escritora: puro deboche. Ou, se não, uma brincadeira de mau gosto.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Levantai os olhos e vede!

     Vamos e venhamos – nossa imaginação é tão fértil que nadamos nas ilusões e primamos por querer crer no que queremos crer. 
     Por anos a fio vem se prolongando a tão decantada e propalada incompatibilidade entre a ciência e Deus. (Eu ia dizer religião, mas dado que hoje temos tantas seitas e bandeiras e crenças e mitos e alegorias que nada têm a ver com Ele, é entre aquela e Ele que se pretende impor a completa incoerência.) Foi com o naturalismo darwiniano e a teoria do Big-Bang que se pretendeu assassinar a Criação e, consequentemente, o Criador. Muitos e muitos se perguntavam, numa indagação própria dos debochados, onde estava  Deus antes de tudo criar; e afirmavam peremptoriamente que, se tudo foi criado num fenômeno singular que explica o afastamento das galáxias e a expansão do universo, uma prova cabal do Big-Bang, não podia haver Deus. Outros, se não os mesmos, atestavam que, se o universo vem se expandindo desde há cerca de 13,7 bilhões de anos, um tempo tão longo que até a eternidade parecerá um minutinho diante dele, a evolução seria um fato comprovado e indubitável. Afinal, para ela ocorrer são absolutamente necessários os bilhões de anos. Assim, estava armado todo um complô da ciência contra a existência do Criador, e o dueto ciência-Deus jamais seria uma possibilidade.
     Aos que criam só restava a fé; aos que não criam era a vitória sobre um Deus incômodo, cruel e implacável. Aos que criam não parecia haver esperança com a ciência. Ainda que as profecias bíblicas se cumprissem fidedignamente e ao tempo determinado de cada uma, a suposta incapacidade da ciência em comprovar Seu Criador era um hiato amargo e desolador a perturbar e fazer vacilar a fé. Supunham que, se Deus criou o Universo, Seus sinais deveriam estar na beleza, diversidade e engenhosidade da mesma, comprovadas por equações e fórmulas de  Sua Ciência. Em suma, a Ciência falhava diante da ciência. Ainda que dissesse Voltaire que "a falsa ciência cria os ateus" ao passo que "a verdadeira faz o homem prostrar-se diante da divindade", parecia claudicar a Ciência. 
     Lucubremos.
     Se perguntavam onde estava Deus antes de tudo criar, podemos também fazer várias perguntas pertinentes ao antes do Big-Bang, como: por quanto tempo aquele pontinho quentíssimo e densíssimo estava ali não se sabe onde antes da colossal explosão "criadora"?  Dirão os "cientistas" que tal pergunta está destituída de sentido uma vez que antes da explosão não havia tempo e espaço e que, portanto, não havia "quando" nem "onde". Ao perguntarmos onde estava Deus, Ele reponde: "Porque os Meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os Meus caminhos; porque assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os Meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os Meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos." E ainda diz mais: "As coisas encobertas  pertencem ao Senhor, porém as reveladas nos pertencem, a nós e a nossos filhos para sempre..." Então, também não faz sentido perguntarmos onde estava Deus antes de tudo criar. Talvez um dia aos remidos resolva revelar mistérios que anseiam aprender. Quem viver verá...
     Também é sabido da ciência dois fatos que desmascaram por completo os "bilhões de anos". Primeiro, a percentagem do gás hélio na atmosfera terrestre NÃO corresponde àquela esperada para um planeta de 4/5 bilhões de anos. Ao contrário, a evidência científica aponta para rochas e sedimentos, componentes da crosta terrestre, com idade entre 4.000 e 14.000 anos, no máximo! Segundo, "vários estudos mostram que carbono 14", o isótopo radiativo do carbono que os naturalistas julgam corroborar a existência das longas  eras e cuja meia-vida é de 5.730 +/- 40 anos (uma meia-vida curta se comparada a de outros elementos radiativos usados em datação radiométrica), "tem sido detectado em amostras que não deveriam conter nenhuma quantidade detectável deste elemento devido às idades atribuídas por outros métodos de datação". É sabido que os métodos de datação radiométricos se baseiam em pressupostos que admitem que as condições durante a evolução permaneceram uniformes ao longo das eras.
         A evidência científica aponta para variações dessas condições, como as flutuações do campo magnético terrestre e a existência dos ciclos de atividade solar, que têm sido medidos nos últimos quase duzentos anos. Sabe-se que a única fonte de carbono 14 (C-14) é o reservatório atmosférico. Este reservatório é influenciado pelas emissões solares que, por sua vez, produz mais ou menos C-14 a depender das variações do campo magnético do planeta. Assim, abalam-se sobremaneira as pressuposições uniformitaristas dos naturalistas. Detectou-se estar havendo uma diminuição no campo magnético da Terra e um aumento da proporção C-14/C (carbono não radiativo). De qualquer forma, não é possível saber qual era esta proporção no passado, mas sabe-se agora que não foi constante. Ora,  o carbono está na atmosfera, na biomassa, nos oceanos e nas rochas e sedimentos. Seu componente radiativo  permite medir a idade  de fósseis e rochas e, indiretamente, a idade do planeta. Como o C-14 tem "precisão" para medir idades de até 70.000 anos no máximo, ele não deveria ser encontrado em objetos cuja idade medida por outros métodos tenha sido, por exemplo, de 100 milhões de anos. Pois foi precisamente isto o que aconteceu em vários estudos: objetos de 100 milhões de anos continham C-14, o que é "cientificamente" impossível! Há mais. Amostras de objetos diferentes com idades diferentes, uma de 40 milhões de anos, a outra de 350 milhões de anos, tinham o mesmo PMC (percentual moderno de carbono), o que demonstra a aberração dos "milhões de anos"!     
     Assim, sem aprofundar o assunto, que há sobre ele vasta literatura científica, percebe-se que estamos por demais entregues  a respostas cujo principal objetivo não parece ser a elucidação da verdade científica, mas a exclusão do que os naturalistas chamam de sobrenatural. Ora, é natural o Big-Bang? Não seria ele sobrenatural? Acharam para ele um termo mais "científico": singularidade. A verdade é que, havendo um Criador que criou coisas "naturais", será Ele também "natural" ao Universo que criou e cujas leis obedecem ao que estabeleceu Sua infinita sabedoria e genialidade. Não é plausível uma ciência que nos leve para longe desse Ser porquanto ela represente a revelação de Seu caráter. Essa é a Ciência do Criador, a mesma que a nossa quer ridicularizar e conspurcar.
     A conclusão é a de que não há Ciência sem o seu Autor. Seus  elevados caminhos não escondem a Sua majestade e Seu infinito saber. Tranqüilizem-se, portanto, os que soçobravam na mentira. A única singularidade do Universo é o Altíssimo.


"Levantai os olhos e vede. Quem criou estas coisas? Aquele que faz sair o Seu exército de estrelas, todas bem contadas, as quais Ele chama pelo nome; por ser Ele grande em força e poder, nem uma só vem a faltar." (Is, 40:26)

"Conta o número das estrelas, chamando-as TODAS pelo seu nome." (Sal, 147:4)

"Muito embora a evidência científica mostre exatamente o contrário (a inexistência dos longos períodos de tempo e um não uniformitarismo), sacrifica-se o fato pelo mito, a evidência pela suposição, para que a teoria naturalista sobreviva". (Adauto J. B. Lourenço, "Como Tudo Começou", 1ª edição, 2007, Editora Fiel) 

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Delírios de um senador


Nada está mais repleto de verdade do que a realidade. Zilhões de palavras não são capazes de substituir ou expressar um grama de uma realidade qualquer. Estarreceu-me, ou melhor, não me estarreceu a matéria que li hoje no jornal Diário do Nordeste. Não me estarreceu, mas há de estarrecer a muitos. Há de não estarrecer a outros muitos, também. Em meio a estarrecidos e a não estarrecidos, a realidade repleta da verdade imbatível. E o que diz a manchete da (não) estarrecedora matéria?
            Diz o seguinte: “Paciente morre ao ser atendido no chão” (http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=1123064). Aconteceu de o homem, não sei se jovem, não sei se idoso, ter sido alvejado com oito tiros, não sei se de revólver ou se de arma mais pesada. Foi levado ao Hospital Geral de Fortaleza e lá chegando, não havendo maca ou leito onde pôr a vítima, a equipe de plantão lhe prestou atendimento no chão mesmo. O êxito foi letal para ele. Ao se agredir alguém com tantas balas se quer a certeza de tal êxito.
            Vejam que a verdade das palavras vem sempre floreada ou “folclorizada”, o que dá margem a que se lhe diminua a força. A própria imprensa, no caso os autores da matéria, na intenção de chocar o leitor a reveste de uma epígrafe endereçada a lhe “sensacionalizar”. Concluímos, então, que a verdade dita ou escrita há de ser a mais lacônica possível a fim de aproximá-la o máximo da verdade que está na realidade e no fato em si. Ser atendido no chão seguramente não foi fator preponderante no mau êxito das medidas reanimadoras implementadas pela equipe médica na tentativa de reanimar a vítima, suposição que pode ser levantada por leitor leigo ou açodado. Seguramente ela sofreu lesões em órgãos vitais, o que lhe causou a morte. Ser a vítima atendida ao chão apenas denuncia o nível a que nosso sistema de saúde (?) desceu. Além do chão e próximo a ele, a campa. Vê-se, então, que a manchete passou de raspão na mentira para em seguida descrever o fato conseqüência entremeado de várias outros fatos causas, a verdade absoluta de nossa realidade.
            Ah... que saudades dos tempos em que era plantonista na Emergência do Hospital Geral de Fortaleza! lá pelo início dos anos ‘90! As quintas à noite com os meus amigos Paulinho Dourado e Conceição Parente, às sextas à tarde com o querido Moisés Muniz Bezerra, todos grandes cirurgiões emergencistas... E como atendíamos e operávamos doentes vítimas de doenças! Eram raras as vítimas da violência a se submeterem aos nossos bisturis. Tudo estava em seus devidos lugares: os doentes nos leitos ou macas, os corredores desimpedidos e livres à passagem e circulação das pessoas, a equipe médica bem trabalhando em tranqüilidade. Hoje a verdade salta aos olhos. Não importa quanto dinheiro os políticos digam que foi aplicado em saúde, quantos hospitais e postos tenham sido construídos, quanto de equipamento se tenha adquirido, quantas equipes dos programas de saúde primária tenham sido criadas, uma coisa é certa – o caos na saúde é pura e simplesmente notório e evidente. Quem não anda em hospital público nem imagina. Lá está a realidade da saúde. O que se fala só demonstra a incompetência e a má gestão de nossos tubarões da mentira. A coisa piorou muito.
            Vejam, como outro exemplo da verdade reprimida em ânsias eméticas, o artigo do senhor Hugo de Brito Machado, professor de Direito Tributário da UFC, publicado no jornal O Povo de hoje e intitulado “Penas pecuniárias” (http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2012/04/04/noticiasjornalopiniao,2814432/penas-pecuniarias.shtml), e a propósito dessa vítima atendida ao chão do hospital. Ele diz o seguinte, no arremate do texto: “Seja como for, alguma coisa precisa ser feita pelos governantes deste País no sentido de reduzir o número de criminosos soltos nas ruas. Aliás, o noticiário tem indicado que a maior parte dos assaltos, roubos e crimes violentos em geral é praticada por quem deveria estar preso, mas fugiu do presídio ou nem chegou a ser preso. Não basta colocar policiais nas ruas para gerar sensação de segurança, que é uma sensação inteiramente falsa.” (O grifo é meu.) O sistema prisional está cheio de ladrões de galinha e não pagantes de pensão alimentícia, enquanto os facínoras e perigosos criminosos estão soltos. A causa? Os presídios estão superlotados. Por isso ele defende com a lógica da verdade que a pena para crimes leves seja outra que não o encarceramento, e que este fique reservado aos grandes criminosos. O sujeito que leva oito tiros nem na guerra leva oito tiros. Oito tiros é tiro pra matar mafioso. Não sei se lembram a cena de “O Poderoso Chefão”, de Francis Ford Copolla, em que Don Corleone é metralhado na rua em plena luz do dia. Estamos tal qual. É outra bem sabida de nossas falências, apesar das Hilux de mais de cem mil reais...
O diabo é que onde está a verdade lá estará também a mentira ou o delírio. É precisamente o caso com este caso do Hospital Geral ou, melhor ainda, é este o caso com o jornal O Povo, já que há dois dias o senador Inácio Arruda escreveu um artigo intitulado “Saúde é o que interessa” (http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2012/04/02/noticiasjornalopiniao,2813087/saude-e-o-que-interessa.shtml), e que nada de engraçado tem, ainda que tencione nos lembrar o Paulo Cintura da escolinha do Professor Raimundo. A propósito, não sei onde nossos maiores jornais locais aprenderam essa mania feia de permitir que nossos políticos de quinta categoria escrevam suas fantasias e experiências oníricas. O que eles escrevem é, para eles, sonho realizado, ao passo que para o povo não passa dos mais assustadores pesadelos com bicho-papão e tudo. Para o senador, o que foi feito até agora pelos governos “de esquerda” no setor saúde foi o que de melhor já foi feito.
É cômico ler a reportagem do atendimento da vítima de nossa guerra urbana ao chão do hospital e compará-la ao que diz este insigne político nostálgico do imposto mais rejeitado que este país já viu. A conclusão é óbvia: ou ele está delirando, ou o atendimento ao chão foi feito em hospital alemão. E eu sou obrigado a ir dormir com isso.