terça-feira, 1 de agosto de 2017

DE OUTRA FEITA DIGO-LHE O NOME

Foi na última quinta ali na choperia Zug. Digam o que disserem, mas a choperia Zug continua sendo o lugar. Mas, enfim, foi lá onde me abordou o idiota. Ou direi o imbecil. Tanto faz. Um ou outro adjetivo será pouco para qualificar o indivíduo.
                Mas tudo se explica. Para tudo há uma explicação. É tudo muito simples. O indivíduo é assessor de um deputado, um deputado estadual. Para os esclarecidos, é sabido que deputado estadual e merda, no Brasil, é tudo a mesma coisa. Deputado estadual existe para duas coisas: dizer “amém” ao troglodita do governador; e fazer as mesmas merdas que suas contrapartidas federais. Num país onde os Estados são meros entes subservientes a Brasília, a Sodoma nacional, o puteiro da República, deputados estaduais e, por consequência, vereadores são nada mais do que nada.
                Ora, não é bem assim, devíamos saber. Eles não são nada. Eles valem muito para o esquema que aí está. São eles, deputados estaduais e vereadores, os detentores dos currais de vacas de eleitores corruptos que sustentam o vandalismo nacional. Do outro lado, os homens de bem. Agora os leitores sabem sobre o tipo que me abordou na Zug Choperia. (Poderia declinar-lhe o nome, mas evitarei.)
                Pois o troglodita, à guisa de uma brincadeira comigo, abordou-me por detrás (eu estava sentado) e, segurando-me pelas costas, gritava como uma hiena brava: – “Ele vai ser o presidente, Lula vai ser o presidente!” Nem mesmo tive tempo de me virar e ele emendou: – “Tu ‘acha’ que ele vai ser preso? Tu ‘acha’ que alguém vai ser preso??” Eis aí tudo. O discurso é claro.
                Antes, porém, digamos que o assessor é assessor de um deputado estadual do Partido Comunista do Brasil (PC do B). Vejam a combinação entre pobreza nordestina, pobreza fortalezense, pobreza cearense, e esse PC do B. Gente preguiçosa e ávida por benefícios estimulada e ensinada por essa canalha comunista.  (Estou sendo deveras direto, mas é inevitável.) Que não me confundam com o imbecil que taxou todo o Nordeste brasileiro de qualquer coisa semelhante com os adjetivos que já aqui usei. Digamos sem muita delonga – o Nordeste brasileiro tem muita gente de bem, mas que a canalha aqui tem-se proliferado mais, disso não se tem a menor dúvida. É como o Rio de Janeiro. O Rio de Janeiro era tudo e, de repente, o Rio de Janeiro se tornou um antro, um submundo, uma sarjeta cultural, fiscal, econômica, financeira, moral. Os canalhas tomaram de conta do Rio de Janeiro assim como tomaram de conta do Nordeste. Não é o Rio de Janeiro nem o Nordeste que não prestam – são os canalhas que os tomaram os que não prestam. A gente de bem desses lugares está oprimida, estupefata, encurralada, eis a grande verdade. A conclusão é única – é preciso libertar o Rio de Janeiro e o Nordeste da influência e poderio do canalha. E mais – urge libertar o país dessa canalha.
                Agora, vejam. O problema maior é que o canalha se traveste de bom moço, de Peter Pan, de Robin Hood. O canalha da “casa legislativa” inútil – sim, inútil porquanto sua legislação tão-somente imita a da Sodoma que tudo arbitra, tudo negocia, tudo estabelece – tudo faz para se travestir de idôneo e salvador do povo. O canalha vai à Zug, se mistura, conversa; faz-se passar por bom moço. Eis, então, toda a fonte de sua confiança.
                Falo, falo, e não vou ao ponto. O canalha que me abordou, fácil é deduzir, tem a mais absoluta certeza de que o canalha-mor, Luís Inácio Lula da Silva, será, novamente, eleito presidente da nação brasileira, ainda que condenado pela justiça. Além disso, demonstra seu relevante desprezo pelas leis vigentes. Afinal, ele tudo sabe sobre nossas leis fajutas.  Foram seus comparsas federais que as referendaram. Complementa afirmando, quase que peremptoriamente, que ninguém será preso. Como poderia o homem de bem, nordestino, fluminense ou carioca, dizer o contrário? E em meus ouvidos gritava: –“Você vai ter que engolir! Você vai ter que engolir!” O canalha da esquerda tem certeza que vencerá contra o homem de bem.
                Eu, controlando meus mais primitivos instintos, tive que sorrir amarelo. Meu maior medo é me decepcionar com o meu povo. Mais uma vez.

terça-feira, 25 de julho de 2017

UM SONHO, VÁRIOS FRACASSOS

Outro dia ouvi alguém falar sobre fracassar e fracassados. Dizia o palestrante que há, entre um e outro, uma enorme diferença: fracassar é uma etapa; fracassado é o que desistiu. Vejam que, segundo ele, o fracassar é um momento, um estágio, uma etapa de uma caminhada no caminho de uma meta, de um objetivo, ao passo que o fracassado é aquele que, numa dessas etapas, ali ficou sem se deixar ou querer reerguer. Desistiu da meta, do objetivo, do sonho. Deixou-se estar à beira do caminho culpando a estrada, os que pretenderam encorajá-lo, o mau tempo, o vizinho, enfim, tudo e todos, exceto ele próprio.
Vamos e venhamos – não é fácil realizar sonhos. Digo isso por experiência própria. E é tão pessoal a minha experiência que até admito – eu nem sabia que tinha sonhos outros. É fácil não os ter. Basta que, como aconteceu comigo, se os busque apenas nos lugares-comuns. Quando se os buscam aí e se faz tudo o que é necessário e a anuência de todos, é certo que se os conseguirá realizar. Entretanto, o mesmo não se pode dizer dos sonhos que a manada não permite sonhar. Se ousar, será considerado mais um louco a surtar. Neste contexto, mesmo os mais empedernidos lutadores hão de sucumbir se se permitirem serem vítimas da implacável rejeição. Sim, porque a rejeição ao sonho não consentido será como a rejeição a mesmo.
Não é fácil ser rejeitado. Os sonhos comuns são, como se supõe, disseminadamente aceitos e bastante estimulados. Por isso, como é óbvio, não serem rejeitados. Quem os sonha pode fracassar quantas vezes necessário for, e o fará sem temor. A razão é a ausência completa de rejeição. Já os sonhos não permitidos, esses não. O primeiro fracasso em sua direção é razão mais que suficiente para intensificar sua rejeição, o que para muitos servirá como prova de sua completa inviabilidade. Eis aí tudo.
Dizia o palestrante que fracassar é bom, e eu me perguntava qual seria a anatomia do “bom” fracasso. (Doravante o “mau” fracasso será referido àquele resultante de sonhos não aceitos, em que o sonhador é contundentemente rejeitado ao sonhá-lo.) E a resposta já se me deslindava no pensamento: – como a manada não aceita seus rebeldes, os que ousam ousar são, para ela, detestáveis. O cérebro da manada é a vaidade e seu coração chama-se status. Para ela, o bom fracasso é muito bem aceito porquanto é ele quem referenda e avaliza as altas posições, os elevados postos, as incontestáveis autoridades, ou seja, seus órgãos vitais. São esses bons fracassados os que nutrem os órgãos vitais dessa massa, como se fossem eles o sangue que lhe traz vida e a faz pulsar em fluxos de infindável gozo. O fracasso no contexto da não realização dos sonhos aceitáveis vem a bem do fluxo para os mais aquinhoados, pretendendo manter o que se considera imutável e inexorável. Tal fracasso é “bom” porque é comemorado por todos, bem-sucedidos e fracassados, os quais procuram, nas formas mais extremas de fracasso, algum tipo de esmola pública ou privada e a anuência de seu status aeternus como compensação e reparo. Os diferentes estratos dessa manada opaca traduzem tão somente diferentes níveis de sucesso e fracasso, o que relativiza mesmo tais conceitos, como se existissem níveis de um e de outro, plenamente aceitos e considerados “normais” e até necessários e desejáveis. Tudo isso é deveras oposto ao que consideram o mau fracasso. Sim, o mau fracasso é ameaçador. (Tirei-lhe as aspas injustamente, já que de mau nada tem ele, a não ser para a manada que pretende seguir irretratável e livre de ameaças.)
Pois direi também da anatomia do “mau” fracasso. (Volto sem demora a lhe pôr as aspas.) Este tipo é ameaçador porquanto só acaba quando alcança o pleno objetivo, a realização do sonho de quem sonhou, dentro de uma ordem absolutamente estranha ao que a manada permite. Seu cérebro é a crença no incrível e seu coração é a grandeza do sonho que sonhou. Ousar é o sangue de suas veias e persistir é a musculatura que o carrega pelo caminho da rejeição e escárnio.   
Façamos um resumo a fim de que não haja dúvidas.
Há dois tipos de fracassos, segundo o entendimento ordinário. O bom fracasso, aquele aceito à larga e com o qual se simpatiza; e o mau fracasso, aquele resultante de se tentar o extraordinário. Este último, quando ocorre, alivia o temor da ordem vigente como se isso viesse a bem da confirmação de ser ela a única possível.
Ocorre que, com a evolução tecnológica e o resultado de seu uso para fins econômico-financeiros e do surgimento de novos modelos de negócios, a ordem vigente se viu irremediavelmente ameaçada, visto que muitos se permitiram fracassar incontáveis vezes antes de verem concretizado o sonho considerado impossível. A vaidade se viu aterrorizada, o status se desesperou. Seu poder de encantar, seduzir e humilhar se viu impotente e reduzido a pó. É questão, apenas, de mais um lapso de tempo antes que todos, sem exceção, percebam que a tal ordem sucumbiu de vez, como estão a sucumbir cada um de seus alicerces sem que muitos se deem conta em razão de sua cegueira.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

A PUTA QUE ELE LOUCAMENTE AMAVA

                 Após tantas desfeitas, aguentou ainda mais desfeitas. Direi sem rodeios – aguentou chifres até não mais poder. O diabo é que podia, sempre podia. No início acreditava piamente. Poria a mão no fogo por ela. Hoje, depois de sabe-se lá quantos chifres, por ela põe no fogo a cabeça. Vá entender a mente humana.
                Havia, segundo ela, uma justificativa, uma desculpa. Não seria propriamente uma desculpa esfarrapada, dessas que se dão de última hora apenas para tirar o corpo fora. Não era, não parecia ser. Confesso com toda pureza d'alma – era uma senhora justificativa para os chifres, para mais chifres, e para quanto mais deles viessem. Aconteceu o seguinte.
             Viviam os dois num cafofo que beirava o padrão da miséria, dois aposentos e um reservado onde se banhavam e se aliviavam. Na caixa da descarga ela desenhou, com batom vermelho, um coração flechado e embaixo escrito “fulana e fulano”. A mobília se constituía numa cama de casal, uma cadeira e um móvel largo com gavetas amplas. No outro aposento, a cozinha, a geladeira e um fogão. Não sei se havia armários sobre a pia.
            Um dia uma amiga lhe bate o telefone. Estava vindo do interior, da cidade onde ambas nasceram, para trabalhar. Precisava de um lugar para ficar. Não tinha dinheiro. Uma pousada por alguns dias era tudo o que precisava enquanto se arranjava.
            Foi motivo de alegria receber em casa a amiga do tempo das fraldas. Dormiria numa rede que armariam sobre a cama do casal. Ele não fez objeção a essa hóspede inesperada. Seria bom ter mais alguém em casa. Mudaria a rotina. Todos sabem, rotina é um negócio chato.
            A verdade é que ele nutria más intenções para com a pequena. Era jeitosinha, engraçadinha, charmosinha... Tinha o rosto bonitinho, os cabelos lisos e escorridos. Ter diariamente essa visão não seria uma má ideia, eis o que pensava.
            Chegada a hora de dormir, ia o casal para a cama e a amiga para a rede. Ele, que adorava o perigo extremo, que desde a infância adorava assediar a secretária do lar, fosse ela quem fosse, perdoando apenas as mais velhas enquanto seus pais e irmãos dormiam, entrava, nesse instante, em estado de excitação que beirava o incontrolável. Cada vez era um tormento maior, e já não sabia por quanto tempo seria capaz de se conter.
            Até que, certa noite, atormentado pelo desejo, pelo perigo de ver saciado seu apetite, percebeu que a companheira dormia profundamente, tão profundamente que sibilava em suaves estertores, um ronco macio e pleno, desses que denotam estar a mente ausente e bem longe da realidade. Ergueu lentamente o tronco e sentou-se ao leito, de modo que pudesse espreitar o interior da rede onde dormia a apetitosa hóspede.
            A janela entreaberta se deixava transpassar por raios de luzes suaves e esmaecidos pela debilidade e distância de sua fonte, mas que provocantemente iluminavam o corpo seminu da que lá jazia. Parecia que retirara de cima de si, propositalmente, o lençol que se amarfanhava ao lado de seu corpo, longe da utilidade de encobrir, de proteger do frio, de resguardar o mínimo de pudor, deixando à penumbra leitosa a visão que o excitou ainda mais, a ponto de enlouquecê-lo. Vagarosamente arrastou-se para mais perto do que contemplava e, inescrupulosamente, saiu a palpá-la nas coxas, nas partes pudendas, no baixo ventre...
                Como não houvesse sido rejeitado, durante quase uma semana espreitou o sono da companheira a fim de se entregar à aventura do assédio à outra que parecia que dormia, mas que, notara, apreciava deveras aquela invasão, aquele ímpeto descarado e destemido. Percebera que o corpo da jovem se eriçava e que suas secreções abundavam à investida. Nada daquilo seria possível sem o mínimo estado de alerta.
                Certa noite, contudo, foi veementemente rejeitado e, em meio a sussurros de cínica indignação a fim de não despertar a outra, foi definitivamente repelido. Que nunca mais se atrevesse. Que nunca mais dela se aproximasse, mesmo durante o dia, sob pena de dar ciência à amiga do que ele tentara fazer aquela noite. No dia seguinte procuraria um lugar para ficar ou iria embora, de volta ao interior. 
             Dias depois as duas tiveram uma entrevista em que tudo veio à tona. Foi desde então que ele passou a colecionar chifres. Eis aí a justificativa, uma senhora e mais que justificada justificativa.
                Como não houvesse solução para tantas e tantas galhas, vez ou outra ele também pulava a cerca. Cada vez que ela lhe fazia uma nova desfeita, ele sofria como se fosse a primeira vez. Ela, por sua vez, não tomava as dele como desfeitas. Não dava a mínima. Só queria dele uns trocados de vez em quando. Era quando saíam para uns drinques. Já nem coabitavam. Ela se tornou para ele a puta que loucamente amava.