quinta-feira, 21 de setembro de 2017

O BOM, O RUIM E O PIOR

      É impressionante como se usa comparar pessoas ou coisas. “Isso é melhor que aquilo” ou “fulano é melhor que beltrano” é o lugar comum de nosso dia a dia. A cultura da competitividade, alastrada, plantou em nossas mentes os sinais matemáticos maior e menor. No meio médico ouve-se “doutor fulano de tal, o melhor médico da cidade”. Onde se escreve melhor leia-se maior, muitas vezes empregado também.
            A pergunta que me faço é: quem pode dizer que alguém é maior ou melhor que outro alguém? Há tantos e tantos e tantos bons médicos, assim como há tantos e tantos e tantos bons advogados. Em contrapartida, há médicos e advogados ruins. Mas não há, dentre os bons, o melhor. (Minha intenção é provocar.)
            Tomemos o exemplo, um lamentável exemplo, o do ex-médico Roger Abdelmassih, tido como o maior especialista em reprodução humana do país. O homem, sabe-se hoje, é um estupradorzinho de quinta categoria. Era o maior, o melhor e, súbito, revelou-se o pior. Nem pelo estágio de ruim passou. De bom que era passou a pior. Tão grande a sua fama e tão elitizada a sua clientela que ao final só serviram a engrandecer ainda mais seu crime.
             Tentemos uma explicação. O que é bom pode, eventualmente, agir ou ser melhor, se sair melhor do que o normal. Nem por isso será o melhor absoluto. Se, ao contrário, cometer grave erro, será um pior absoluto. O melhor jamais poderia cometer erros, nem mesmo os menores. Além disso, um pequeno erro do cirurgião – escolhi o cirurgião como exemplo só para puxar a sardinha pro meu lado - pode representar uma catástrofe para o paciente, por exemplo, o que demonstra que um erro não se mede pelo seu tamanho, mas por suas conseqüências.
             Consideremos o Yamandu Costa. Não sei se conhecem o Yamandu Costa. Apresento, aos que não o conhecem, o Yamandu Costa. É um violonista virtuosíssimo. É um gênio do violão de sete cordas. Foi assim reconhecido aos dezenove, vinte anos. Fará trinta e um em janeiro próximo. Quem já viu o Yamandu tocar diz: -“É o melhor!”(Suspeito para falar – sou louco pelo Yamandu -, estou quase a desistir de continuar com essa história de que não há melhor.) Eis que se vê tocar um Marco Pereira, um Raphael Rabelo, um Marcel Baden Powell, um Manassés, um Nonato Luis, e outros, e outros, e outros, e se acaba por concluir que não há melhor. São todos bons. O que se disser acima da categoria de “bom” fica por conta dos superlativos de nossa emoção. (Outro dia alguém escreveu no site oficial do Yamandu que ele acerta até quando erra.)
              Ocorre que, ao errar o violonista, não há conseqüências no resultado, como se vê pelo comentário do fã do Yamandu. (Assevero: não fui eu!) Continua sendo bom o violonista, com os superlativos que lhe queiram acrescentar. Não há possibilidade de que lhe rebaixem a qualidade por causa de um ou outro erro. Afinal, a música é uma arte em que a liberdade de improvisar até permite que o erro pareça tudo menos um erro.
              Percebe-se, ao comparar o cirurgião com o violonista, que há bons violonistas e bons cirurgiões, e que há cirurgiões ruins e violonistas ruins, e que há ainda os piores cirurgiões e os piores violonistas. (Quem quiser saber onde encontrar os piores violonistas vá a uma festinha de aniversário onde apareça um violão.) Não há, contudo, melhores. Felizmente há muitíssimo mais ruins e piores violonistas que ruins e piores cirurgiões. De fato, esses últimos eu não saberia dizer onde encontrar. (E aqui não estou puxando a sardinha pro meu lado.)
               Faço agora uma confissão. Iniciei esse texto sem a menor intenção de falar sobre isso. Eu queria falar sobre a Unicred, nossa cooperativa de crédito, e os juros que se pagam entre ela e seus cooperados. Paga-se a ela mensalmente um valor acima de vinte reais que é depositado na conta capital do cooperado e que vai rendendo a uma taxa xis. Se o cooperado tiver um cheque especial - que cobra uma taxa xis mais muito mais – e a conta estiver sem dinheiro, saca-se automaticamente o valor do cheque especial. A conta fica “negativa”. Você estará devendo aquele valor mais xis mais muito mais ao banco, e o mesmo valor vai render para você módicos xis de juros em sua conta capital. Conclui-se o seguinte. Primeiro, é bom gastar menos do que o que se ganha. Segundo, é ruim tomar dinheiro emprestado. Terceiro, é pior quando se teima em desobedecer a essas regras básicas. O melhor? Aqui há, sim, o melhor: desistir de ter. “Vaidade de vaidades, tudo é vaidade.”

Fernando Cavalcanti, 08.12.2010

terça-feira, 1 de agosto de 2017

DE OUTRA FEITA DIGO-LHE O NOME

Foi na última quinta ali na choperia Zug. Digam o que disserem, mas a choperia Zug continua sendo o lugar. Mas, enfim, foi lá onde me abordou o idiota. Ou direi o imbecil. Tanto faz. Um ou outro adjetivo será pouco para qualificar o indivíduo.
                Mas tudo se explica. Para tudo há uma explicação. É tudo muito simples. O indivíduo é assessor de um deputado, um deputado estadual. Para os esclarecidos, é sabido que deputado estadual e merda, no Brasil, é tudo a mesma coisa. Deputado estadual existe para duas coisas: dizer “amém” ao troglodita do governador; e fazer as mesmas merdas que suas contrapartidas federais. Num país onde os Estados são meros entes subservientes a Brasília, a Sodoma nacional, o puteiro da República, deputados estaduais e, por consequência, vereadores são nada mais do que nada.
                Ora, não é bem assim, devíamos saber. Eles não são nada. Eles valem muito para o esquema que aí está. São eles, deputados estaduais e vereadores, os detentores dos currais de vacas de eleitores corruptos que sustentam o vandalismo nacional. Do outro lado, os homens de bem. Agora os leitores sabem sobre o tipo que me abordou na Zug Choperia. (Poderia declinar-lhe o nome, mas evitarei.)
                Pois o troglodita, à guisa de uma brincadeira comigo, abordou-me por detrás (eu estava sentado) e, segurando-me pelas costas, gritava como uma hiena brava: – “Ele vai ser o presidente, Lula vai ser o presidente!” Nem mesmo tive tempo de me virar e ele emendou: – “Tu ‘acha’ que ele vai ser preso? Tu ‘acha’ que alguém vai ser preso??” Eis aí tudo. O discurso é claro.
                Antes, porém, digamos que o assessor é assessor de um deputado estadual do Partido Comunista do Brasil (PC do B). Vejam a combinação entre pobreza nordestina, pobreza fortalezense, pobreza cearense, e esse PC do B. Gente preguiçosa e ávida por benefícios estimulada e ensinada por essa canalha comunista.  (Estou sendo deveras direto, mas é inevitável.) Que não me confundam com o imbecil que taxou todo o Nordeste brasileiro de qualquer coisa semelhante com os adjetivos que já aqui usei. Digamos sem muita delonga – o Nordeste brasileiro tem muita gente de bem, mas que a canalha aqui tem-se proliferado mais, disso não se tem a menor dúvida. É como o Rio de Janeiro. O Rio de Janeiro era tudo e, de repente, o Rio de Janeiro se tornou um antro, um submundo, uma sarjeta cultural, fiscal, econômica, financeira, moral. Os canalhas tomaram de conta do Rio de Janeiro assim como tomaram de conta do Nordeste. Não é o Rio de Janeiro nem o Nordeste que não prestam – são os canalhas que os tomaram os que não prestam. A gente de bem desses lugares está oprimida, estupefata, encurralada, eis a grande verdade. A conclusão é única – é preciso libertar o Rio de Janeiro e o Nordeste da influência e poderio do canalha. E mais – urge libertar o país dessa canalha.
                Agora, vejam. O problema maior é que o canalha se traveste de bom moço, de Peter Pan, de Robin Hood. O canalha da “casa legislativa” inútil – sim, inútil porquanto sua legislação tão-somente imita a da Sodoma que tudo arbitra, tudo negocia, tudo estabelece – tudo faz para se travestir de idôneo e salvador do povo. O canalha vai à Zug, se mistura, conversa; faz-se passar por bom moço. Eis, então, toda a fonte de sua confiança.
                Falo, falo, e não vou ao ponto. O canalha que me abordou, fácil é deduzir, tem a mais absoluta certeza de que o canalha-mor, Luís Inácio Lula da Silva, será, novamente, eleito presidente da nação brasileira, ainda que condenado pela justiça. Além disso, demonstra seu relevante desprezo pelas leis vigentes. Afinal, ele tudo sabe sobre nossas leis fajutas.  Foram seus comparsas federais que as referendaram. Complementa afirmando, quase que peremptoriamente, que ninguém será preso. Como poderia o homem de bem, nordestino, fluminense ou carioca, dizer o contrário? E em meus ouvidos gritava: –“Você vai ter que engolir! Você vai ter que engolir!” O canalha da esquerda tem certeza que vencerá contra o homem de bem.
                Eu, controlando meus mais primitivos instintos, tive que sorrir amarelo. Meu maior medo é me decepcionar com o meu povo. Mais uma vez.

terça-feira, 25 de julho de 2017

UM SONHO, VÁRIOS FRACASSOS

Outro dia ouvi alguém falar sobre fracassar e fracassados. Dizia o palestrante que há, entre um e outro, uma enorme diferença: fracassar é uma etapa; fracassado é o que desistiu. Vejam que, segundo ele, o fracassar é um momento, um estágio, uma etapa de uma caminhada no caminho de uma meta, de um objetivo, ao passo que o fracassado é aquele que, numa dessas etapas, ali ficou sem se deixar ou querer reerguer. Desistiu da meta, do objetivo, do sonho. Deixou-se estar à beira do caminho culpando a estrada, os que pretenderam encorajá-lo, o mau tempo, o vizinho, enfim, tudo e todos, exceto ele próprio.
Vamos e venhamos – não é fácil realizar sonhos. Digo isso por experiência própria. E é tão pessoal a minha experiência que até admito – eu nem sabia que tinha sonhos outros. É fácil não os ter. Basta que, como aconteceu comigo, se os busque apenas nos lugares-comuns. Quando se os buscam aí e se faz tudo o que é necessário e a anuência de todos, é certo que se os conseguirá realizar. Entretanto, o mesmo não se pode dizer dos sonhos que a manada não permite sonhar. Se ousar, será considerado mais um louco a surtar. Neste contexto, mesmo os mais empedernidos lutadores hão de sucumbir se se permitirem serem vítimas da implacável rejeição. Sim, porque a rejeição ao sonho não consentido será como a rejeição a mesmo.
Não é fácil ser rejeitado. Os sonhos comuns são, como se supõe, disseminadamente aceitos e bastante estimulados. Por isso, como é óbvio, não serem rejeitados. Quem os sonha pode fracassar quantas vezes necessário for, e o fará sem temor. A razão é a ausência completa de rejeição. Já os sonhos não permitidos, esses não. O primeiro fracasso em sua direção é razão mais que suficiente para intensificar sua rejeição, o que para muitos servirá como prova de sua completa inviabilidade. Eis aí tudo.
Dizia o palestrante que fracassar é bom, e eu me perguntava qual seria a anatomia do “bom” fracasso. (Doravante o “mau” fracasso será referido àquele resultante de sonhos não aceitos, em que o sonhador é contundentemente rejeitado ao sonhá-lo.) E a resposta já se me deslindava no pensamento: – como a manada não aceita seus rebeldes, os que ousam ousar são, para ela, detestáveis. O cérebro da manada é a vaidade e seu coração chama-se status. Para ela, o bom fracasso é muito bem aceito porquanto é ele quem referenda e avaliza as altas posições, os elevados postos, as incontestáveis autoridades, ou seja, seus órgãos vitais. São esses bons fracassados os que nutrem os órgãos vitais dessa massa, como se fossem eles o sangue que lhe traz vida e a faz pulsar em fluxos de infindável gozo. O fracasso no contexto da não realização dos sonhos aceitáveis vem a bem do fluxo para os mais aquinhoados, pretendendo manter o que se considera imutável e inexorável. Tal fracasso é “bom” porque é comemorado por todos, bem-sucedidos e fracassados, os quais procuram, nas formas mais extremas de fracasso, algum tipo de esmola pública ou privada e a anuência de seu status aeternus como compensação e reparo. Os diferentes estratos dessa manada opaca traduzem tão somente diferentes níveis de sucesso e fracasso, o que relativiza mesmo tais conceitos, como se existissem níveis de um e de outro, plenamente aceitos e considerados “normais” e até necessários e desejáveis. Tudo isso é deveras oposto ao que consideram o mau fracasso. Sim, o mau fracasso é ameaçador. (Tirei-lhe as aspas injustamente, já que de mau nada tem ele, a não ser para a manada que pretende seguir irretratável e livre de ameaças.)
Pois direi também da anatomia do “mau” fracasso. (Volto sem demora a lhe pôr as aspas.) Este tipo é ameaçador porquanto só acaba quando alcança o pleno objetivo, a realização do sonho de quem sonhou, dentro de uma ordem absolutamente estranha ao que a manada permite. Seu cérebro é a crença no incrível e seu coração é a grandeza do sonho que sonhou. Ousar é o sangue de suas veias e persistir é a musculatura que o carrega pelo caminho da rejeição e escárnio.   
Façamos um resumo a fim de que não haja dúvidas.
Há dois tipos de fracassos, segundo o entendimento ordinário. O bom fracasso, aquele aceito à larga e com o qual se simpatiza; e o mau fracasso, aquele resultante de se tentar o extraordinário. Este último, quando ocorre, alivia o temor da ordem vigente como se isso viesse a bem da confirmação de ser ela a única possível.
Ocorre que, com a evolução tecnológica e o resultado de seu uso para fins econômico-financeiros e do surgimento de novos modelos de negócios, a ordem vigente se viu irremediavelmente ameaçada, visto que muitos se permitiram fracassar incontáveis vezes antes de verem concretizado o sonho considerado impossível. A vaidade se viu aterrorizada, o status se desesperou. Seu poder de encantar, seduzir e humilhar se viu impotente e reduzido a pó. É questão, apenas, de mais um lapso de tempo antes que todos, sem exceção, percebam que a tal ordem sucumbiu de vez, como estão a sucumbir cada um de seus alicerces sem que muitos se deem conta em razão de sua cegueira.