segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Cretinas escolhas

          Outro dia comentei o artigo de certo articulista do The New York Times, o senhor Neal Gabler. Lá ele dizia do inexplicável interesse das pessoas, aos nossos dias, por informação sem qualidade, sem conteúdo, sem importância. E até alcunhei tal informação de "informação peito de homem" — a que para nada serve. O excelente resenhista se referia à boa parte das informações postadas nas redes sociais.
          Ontem eu conversava com o meu amigo Padilha, e me parecia que algo o abatia; era uma inquietação que me chamou a atenção posto que bastante incomum para seu temperamento resignado. Dali a pouco me relatou seu drama: almoçava com uma amiga, que não parava de consultar o telefone. A intervalos muito próximos ela mexia no aparelho portátil e sorria ou fazia,  a esmo, um comentário sobre algo ou alguém, como se nem ali ele estivesse. Estavam a prosear e não concluíam nenhum assunto devido às freqüentes interrupções por parte do telefone da jovem mulher, que sequer tomava algum cuidado em lhe pedir licença para ler as múltiplas e constantes mensagens que lhe chegavam. Eis aí toda a angústia do amigo, que fez das tripas coração para não ser grosseiro com sua companhia.
          Pois não foi outra pessoa que não o próprio Padilha quem me relatou o seguinte fato do qual muito se tem a lamentar, já que selou o fim de uma amizade. Duas amigas estavam a conversar enquanto faziam um leve repasto ao final de uma linda tarde de verão, quando o telefone de uma delas, desses que fazem de tudo, iniciou a anunciar uma série de mensagens postadas para ela na rede social. Dali em diante o diálogo se tornou uma dessas impossibilidades irremediáveis. A outra se conteve o quanto pôde. Dentro em pouco iniciou uma ladainha de queixas contra o que considerava um falatório inconveniente e inapropriado da amiga. Não mais podendo se controlar em sua indignação, ergueu-se e se retirou pedindo-lhe que não mais a procurasse, e decretando entre elas o rompimento perpétuo.
          Padilha me punha a par da outra história como que para embasar sua argumentação. Sua tese que, por sinal, mostrar-se-á, como logo verão, possivelmente verdadeira, é que esse frenesi das pessoas em participar continuamente do que se escreve e se publica nas redes sociais se deve a um sentimento de medo — o medo de estar perdendo alguma coisa caso delas se ausentem.
          A rede social engendra em cada um uma sensação de deidade até então insuspeita e impensável. O sujeito tem a sensação de que pode estar em toda parte ao fazer uso da rede social. Ele ganha uma dimensão múltipla da qual não cogita, nem quer, abdicar. Mesmo que nenhuma informação fundamental ou diferencial  lhe chegue através da rede, não aceita se desvincular daquela teia de blá-blá-blá, ti-ri-ti-ti. Em seguida, o pior — a vida real e a realidade das relações já nem tanta importância têm. Pode-se ser "amigo" de quem quer que seja sem se conhecer de fato aquela pessoa. Assim, o amigo real que está ao lado é relegado a um papel secundário nas interações do dia a dia. Tire-se pelos fatos relatados acima. São fatos. E tantos outros semelhantes hão de ter ocorrido mundo afora. Até seja provável que ninguém esteja em busca de informação — o que se quer mesmo é a segurança da relações superficiais. É isso tão possível que há indivíduos comuns que ostentam a marca de mais de 5 mil amigos! É ou não isso uma China de amigos? Cada um pense o que bem entender, mas este é um número altamente suspeito no caso de o indivíduo não já ser uma figura pública, como um político ou um artista. 
          Há mais. Hoje, nas redes sociais, surge a figura do amigo "pessoa jurídica". Esse tipo não é um indivíduo — é uma loja, ou empresa, ou escritório, ou repartição pública ou privada. Tornamo-nos "amigos" dessas instituições, que obviamente usam a rede como ferramenta de marketing. Em todo caso, e para todos os efeitos "reticulares", são amigos e assim devem entrar para a contabilidade. Afinal, a popularidade de um indivíduo, hoje em dia, tornou-se uma característica de peso em seu caráter. O sujeito pode ser um cretino de carteirinha, mas, se obter uma excrescente popularidade na rede, pode se considerar redimido de sua cretinice. Recordemos que essas são relações cuja profundidade uma formiguinha atravessaria com água pelas canelas, no dizer de Nelson Rodrigues. Aqui é possível ser amigo de tantos cretinos quanto se queira.
          Só agora me dou conta do que me incumbiu o Padilha: traçar um perfil psicológico da rede social, ou do sujeito ferrenhamente afeito aos seus encantos e possibilidades inúteis. Falando assim parece até que estou a propagar que nada há que se possa tirar proveito nas redes, o que seria uma estupidez de minha parte. Na rede se pode incrementar o repasse de informação útil, necessária e pertinente. Ademais, é inegável que também é possível que nela se estreitem laços de amizades da vida real, e que lá se tenha a oportunidade de fazer novas e boas amizades.  Não será tão difícil assim separar o joio do trigo. O que não parece salutar é se ter uma China de amigos enquanto se está trancado a sete chaves, ou desdenhar da presença dos amigos de carne e osso enquanto se dá atenção ao virtual. Isso seria inadmissível.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Boca do lixo

          Hoje, no hospital, fui surpreendido por fato inusitado. Dirão que não, que tal não deve ser considerado inusitado, posto que é o que se espera em tais casos, notadamente em se tratando desse hospital. O que aconteceu foi o seguinte — a casa de saúde cheirava mal em todos os aposentos onde estive. Julguei que havia, comigo mesmo, algo errado. Pensei para mim uma dessas rinites ozenosas que atacam alguns pobres indivíduos. Em contrapartida, imaginei que a crise do hospital tivesse atingido níveis tão elevados que nem mais material de limpeza houvesse para dissipar seus odores e sujeira.
          Todos sabemos que nossas crises são infindáveis e eternas. A única a ser debelada foi a antiga "crise inflacionária" que esteve a nos atacar após o chamado milagre brasileiro. Fora essa, desconheço a resolução de qualquer outra de nossas crises. Com efeito, todas as nossas crises só se aprofundam. Somos campeões em criar e perenizar crises. E mais — é já conhecida a ameaça que paira sobre aquilo que se considerava resolvido. Os novos do poder, cuja farra com o erário beira um "gang bang" dirigido por Buttman, estão prestes a trazer de volta o monstro que assolou o país por décadas.
        E, assim, já me acomodava na covardia natural do brasileiro quando diante de mais uma crise, e dizia em meu pensamento: -"É isso mesmo..." Para que se ensimesmar por coisas que ninguém tem interesse em mudar? A angústia é a do que infarta. Retardemo-na, portanto. Em particular, no caso desse hospital, o usuário não se presta ao mínimo de dignidade. Ele próprio é causa de seus males e perfídias.
          E nem nego que me tenha lembrado da anedota do português que viajava em certo trem no Brasil, e vítima de jovens e nativos gozadores. Que fizeram os garotos? Enquanto o pobre homem dormia, passaram-lhe merda nos vastos e densos bigodes. Ao despertar daquele sono que só as viagens proporcionam, o luso já sentia o olor bem próximo a si, e cafungava pra cima, pra baixo, pros lados, tentando identificar a fonte da fedentina, e nada. Dali a pouco abre a janela, põe a cabeça para fora, inspira forte pelo nariz e conclui, decepcionado, com as mãos à cabeça: -"Ai, Deus meu! é o mundo inteiro!"
          Mas voltemos à podridão que parecia inundar o hospital. Acudiu-me a idéia de uma halitose generalizada que houvesse atingido a todos. Seria uma epidemia de bocas fétidas.  Já vislumbrava as variadas causas que explicassem individualmente a inusitada e odorífera peste. De repente, em menos de um minuto, veio a explicação — o colega com quem eu conversava apresentava, de fato, uma dessas halitoses imperdoáveis e hediondas, que impede que a conversa prossiga um à frente do outro. É imperativo, em determinado momento, que nos viremos de lado para continuar o diálogo sem que o interlocutor perceba-nos a eloqüente razão
          Dali a pouco, já livre do indesejável conversador, um amigo me puxa e, quase me encostando os lábios à orelha, quis saber -"Sentiste o péssimo cheiro da boca do fulano?" Eu, verdadeiramente apreensivo com a situação do colega, emendei: -"Quem terá a coragem de o avisar?" Sem obter resposta, nos afastamos e fomos cada um cuidar de nossos afazeres. A dúvida que me assaltava então era a seguinte: e nos outros aposentos?  Estavam todos com a boca podre também nos outros aposentos? Parecia que minha hipótese se confirmava —uma epidemia se instalara. Em breve, como na história do português, seria o mundo todo. De lá fui direto pra casa escovar os dentes e embrocar a garganta.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Quem há de punir o Estado?



“Quando não se pode fazer o que se deve, deve-se fazer o que se pode.”

Devem saber da fábula – nem mesmo estou certo de sua existência – que conta o que acontece ao se pôr o lobo a tomar conta das ovelhas. Se tal fábula existir somente em minha alvissareira mente, ainda assim ela seria perfeitamente verossímil. Ainda havendo quem duvide, troquemos o lobo por um tigre faminto ou qualquer outro carnívoro de dentadura fenomenal. O resultado seria a certeza do destino cruel e sanguinolento dos pobres e indefesos bovídeos.
            Da mesma forma, não tenho certeza se os conselhos regionais de medicina, e mesmo o conselho federal, seriam entidades ligadas ao governo. Parece-me que são de fato, tendo em vista que os inadimplentes para com eles correm o risco de terem suas dívidas passadas à dívida ativa da União. Então, os conselhos são um braço do governo. E para que servem os conselhos regionais de medicina em cada estado da federação? Estou completamente desinformado, mas, ao que me consta, uma de suas funções é fiscalizar o exercício da medicina.
            Deixemos a ignorância de lado. Os conselhos regionais são autarquias e têm responsabilidade jurídica de direito público tal qual a União e os Estados da federação. São órgãos fiscalizadores, disciplinadores e julgadores da classe médica. Eis aí tudo.
            Eles fiscalizam, julgam e eventualmente punem médicos que cometem erros. A mídia adora quando surge um caso de suposto erro médico. As audiências aumentam nos horários nobres e elas faturam um bocado com os anunciantes. Os conselhos ficam lá, quietinhos, enquanto o médico acusado sofre um pré-julgamento implacável. Em silêncio o julgam e, se são inocentados, o dano midiático permanece indelével e perene. Se os conselhos ratificam a condenação da mídia, uma se soma à outra e o profissional com justiça e corretamente paga por seu erro.
            Estou aqui a ler o Jornal do Conselho Regional de Medicina do Estado do Ceará, em sua edição nº 89, ao mesmo tempo em que leio a Constituição Federal. A Constituição, em seu artigo 6º, diz o seguinte: “São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.” Já o artigo 30 diz: “Compete aos municípios: VII - prestar, com a cooperação técnica e financeira da União e do Estado, serviços de atendimento à saúde da população.” No capítulo II Seção II – Da Saúde, artigo 196, está determinado: “A saúde é direito de todos e dever do Estado,...” E o artigo 197 diz: “São de relevância pública as ações e serviços de saúde, cabendo ao Poder Público dispor, nos termos da lei, sobre sua regulamentação, fiscalização e controle, devendo sua execução ser feita diretamente ou através de terceiros e, também, por pessoa física ou jurídica de direito privado.”
            A conclusão a que cheguei foi a seguinte: se a saúde é um direito de todos e um dever do Estado, e se o Estado executa as ações de saúde diretamente ou através de terceiros e também por pessoa física (os médicos), então também o Estado deveria estar sujeito à fiscalização, disciplinação e julgamento pelo Conselho Federal de Medicina. Por quê? Vejamos.
            Diz o jornal, em seu editorial escrito por seu Presidente, que a Prefeitura de Fortaleza deve a seus médicos, só em gratificações atrasadas, a importância de onze milhões de reais. Até aí nada demais, num Estado em que seu governador tem a firme convicção de que o funcionalismo público deve trabalhar por amor, e somente por amor, não importando se tem ou não contas a pagar. Pior é o outro lado do palco – faltam médicos em número e de especialidades necessárias ao bom funcionamento dos serviços de emergência. O resultado é que muitos pacientes não são atendidos ou são atendidos quando seu quadro já se agravou. Como escreveu o editorialista, “surgem dilemas quanto a quem atender primeiro e o que fazer com os que ficam à espera, além da percepção de que tal cenário é propício à ocorrência de atitudes hostis e até mesmo agressões”. E mais: “o retardo no atendimento a alguns pacientes pode resultar em prejuízos graves para a saúde dos mesmos”. Além disso, faz menção ao sucateamento do equipamento necessário ao atendimento. Finaliza garantindo que “o Conselho Regional de Medicina do Ceará continuará atento e participativo na luta para que os médicos etc. etc. etc...”
            Poderia o Conselho punir o Estado do Ceará e/ou o município de Fortaleza por sua irresponsabilidade e péssima prestação de atendimento à saúde da população, ao contrário do que manda a Constituição Federal?
            Em brilhante e esclarecedor artigo publicado na mesma edição, o ilustríssimo conselheiro e Professor Dalgimar Beserra de Menezes diz tudo de forma clara e concisa: “tudo o que se tem (na prestação de serviço médico ao paciente do sistema único de saúde do governo), em todos os níveis, é precário, o que nos coloca muito aquém da expectativa, distantes do ideal. O paciente, usuário do sistema, adota a perspectiva do ideal inalcançável. Tudo o que se faz, sem quase exceção, está distante dessa perfeição. Defasagem óbvia entre o real e o imaginado, o proposto e o prometido, engendrando, em parte, o que se chama de erro médico.” E deixa entendido entre as linhas o médico como vítima de um sistema caótico e instituições sucateadas, quando diz: “... o médico sairá limpo se fizer tudo o que puder , com o que dispuser para fazer, em termos de atendimento, diagnóstico e tratamento.”
            Eis que se faz novamente necessária a pergunta: poderia o Conselho punir o Estado e o município por não cumprir o que manda a Constituição? Resposta: não – o Conselho fiscaliza, disciplina e julga médicos pessoas físicas. Mas o Estado não “exerce” a medicina, como reza a Constituição? Quem há de fiscalizar, disciplinar, julgar e eventualmente punir o Estado?

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A morte e 1 ano a menos

Faleceu Claudinha Viot.
     Assusta-nos quando a inexorabilidade do fim da vida se nos mostra tão precocemente e tão implacavelmente. De fato, não me assusto. Apodera-se de mim ou, melhor, deixo-me, entrego-me a essa sensação de que minha vida está suspensa a alguns centímetros do chão, como se isso indicasse a leveza e imponderabilidade de tudo.
E me permito a isso por um capricho que só os de coração empedernido podem se dar. É como se ali, a alguns centímetros do chão, se desvalessem todas as leis que regem o sofrimento humano. Não há ali dor – só uma perplexidade muda; não há ali choro – só uma leve confusão de ideias; não há ali medo – só a constatação de tudo e a dúvida do nada.
Nada direi de Cláudia. Minto. Direi apenas que foi das mais doces criaturas que tive o prazer e a alegria de conhecer. Nada mais direi. Minto novamente. Direi também que sua doçura foi de sempre, de desde que a conheci, e até de antes, e até depois. Nada houve nela ou que para ela fizessem que a levassem a perder sua constante e terna doçura. E note-se que há doçuras que enjoam, que entojam, que entediam. Não era essa a dela. Sua doçura foi a moldura e a tela de sua vida. E até seu corpo sem vida transpirava – só os vivos transpiram – aquela sua inconfundível ternura.
Não resisti à tentação de acariciar a moradia de sua alma, seu corpo agora sem vida. Não fosse o véu rendado que o cobria e ter-lhe-ia feito um cafuné. Deslizei a mão sobre sua fronte, como fazemos em nossos filhos quando estão para dormir, e toquei-lhe a mão esfregando-lhe com as unhas, como fazemos com os amigos que amamos em seus momentos difíceis.
Confessei antes a visita que lhe tentei fazer no hospital. Não sei se seu prognóstico ou a certeza de constatar sua distanásia me acovardaram no momento – saí de defronte ao CTI e dali para fora do hospital como um raio. Não quis vê-la ali. Repudiei aquela visão. Vê-la sem vida na paz dos que dormem me deixou na lembrança sua eterna doçura, sua face sempre plácida, seu ar sempre franco. Terei sido egoísta? Não sei.
Lembrei-me da sensação de perpetuidade que nos assalta numa azul e iluminada manhã de sol; de como nesses instantes nos deixamos iludir pela beleza da natureza; de como permitimos que esta ilusão perpetue nossos sonhos; de como nossos sonhos são fúteis...; de como não mudamos o modo como vivemos porque a ilusão da clara e luminosa manhã banha também aqueles sonhos. E quando os realizamos não dispomos à mão do corpo sem vida de alguém que amamos para nos lembrar que o sonho, mesmo e principalmente o realizado, é apenas mais uma volátil quimera.
Depois dos funerais, o aniversário do amigo, outro amigo. À hora dos parabéns puxou-me a um canto, após os “muitos anos de vida”, e segredou-me: -“É menos um ano, meu chapa...”
No alto, um céu repleto de estrelas, ofuscadas pelas luzes da metrópole, desafiava nossa compreensão de tão dúbias manifestações do pulsar da vida e nos humilhava em nossa pequenez e questiúnculas. Em silêncio entornei a dose do uísque do qual me servira há pouco.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Peidorreiro


Sei que não acreditarão – ligou-me hoje o Amorim. Muitos de vocês não o conhecem posto que me leiam há pouquíssimo tempo. Se quiserem conhecê-lo, poderão ver suas inúmeras histórias e peripécias em meu blog “O Desocupado” (fecavalcanti.facilblog.com).
Há vários meses o amigo não aparece. Julguei que as estradas da vida estavam a levá-lo para longe de mim como sói acontecer nessa fase. Todos estão muito ocupados com as bobagens e superficialidades de sempre. Hoje, por exemplo, fazia eu uma refeição matinal com todas as janelas e portas abertas. Entravam o sol e os ventos por todos os lados, dando, ao início da manhã, aquela sensação de nossa perpetuidade individual. Porém, entravam também os sons de britadeiras, de perfuradoras, de máquinas a trabalhar em construções próximas, anunciando a obstinação dos homens em eternizar o efêmero em seus sonhos menores. Lutamos por muito pouco, quase nada. Assim, ao momento dessas reflexões contraditórias, bateu-me o telefone o amigo.
Estava apreensivíssimo. Trazia-me um problema que, de tão inusitado, de tão original, deixou-me deveras preocupado. Confesso: jamais havia passado por minhas idéias semelhante possibilidade de contrariedades, como verão a seguir.
O que ocorreu foi precisamente o seguinte. Amorim, um solteirão convicto descoberto ao final de três casamentos, sentira-se, antecedendo a cada um deles, como o Tomas do Milan Kundera. Como o personagem do escritor tcheco, a cada uma das mulheres que Amorim conheceu, antes de levar cada uma de suas “Terezas” ao altar – notem que “levar ao altar” aqui não passa de uma figura de linguagem – se perguntava, numa cava angústia: -“Mas seria amor?” E seguia alimentando-se da dúvida kunderiana: -“Seria melhor ficar com ‘Tereza’ ou continuar sozinho?” E mais. Assumia-se cada vez mais um Tomas reencarnado a refletir: “não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação”.  
Deu no que deu, e achava-se Amorim tendo vivido todas as possibilidades com as três mulheres com quem contraiu matrimônio. Para completar o quadro de tantas e tantas semelhanças com o personagem, em sua solteirice encheu-se Amorim de amantes. Aquele diferia de Amorim em único aspecto: casara-se somente uma vez. No mais, seriam idênticos. Dir-se-ia que o amigo via no romance a enciclopédia para sua vida amorosa. Até a regra que Tomas ensinava aos amigos ele seguia à risca: “É preciso observar a regra de três. Pode-se ver a mesma mulher em intervalos bem próximos, mas nunca mais de três vezes. Ou então vê-la durante longos anos, mas com a condição de deixar passar pelo menos três semanas entre cada encontro”. Eis aí o pano de fundo sobre o qual veio se depositar o inusitado.
Amorim envelhecera e, sabem lá os proctologistas, às vezes alterações digestivas ou mudanças de estilo de vida, da alimentação, ou seja lá do que for, levam ao aparecimento de molestos sintomas, de menor importância no prognóstico, mas bastante tormentosos ao dia a dia – Amorim adquirira uma flatulência de grau, digamos, importante. E me dizia aflito: -“Sabes que as esposas toleram essas coisas, mas não as mulheres com quem ainda não temos intimidade...” Fui obrigado a concordar e a me solidarizar com o amigo. Sobre o pano de fundo da insustentável leveza dos relacionamentos de meu amigo pairava a insustentável leveza de seus gases intestinais a terrificá-lo a cada momento em que desfrutava da companhia de uma nova namorada.
Que fiz eu? Que poderia fazer? Sugeri duas, ou melhor, três abordagens: que doravante em hipótese nenhuma ingerisse qualquer alimento ou bebida gaseificada por pelo menos três horas antes de estar com a pequena; que descobrisse de imediato qual, dos alimentos que ingeria, aquele responsável por sua situação desconcertante; que ficasse íntimo das pequenas o mais rápido possível. Das três não lhe agradou a última que, segundo ele, quebrava a regra central de sua vida “sentimental”. Restou-me, então, a prescrição do Luftal como abordagem de urgência, já que um novo encontro se desenhava para breve.
Vejam vocês que o amigo me procurou apesar de sabedor de meu fracasso como proctologista, confissão que fiz com prazer já há algum tempo (http://fecavalcanti.facilblog.com/Primeiro-blog-b1/Proctologista-fracassado-b1-p4.htm). Como escrevi lá, odeia-se, desde sempre e para sempre, o proctologista. Talvez para o amigo seja melhor odiar a quem já se ama. Melhor isso do que exposições desnecessárias a um desconhecido cutucador das partes pudendas.

domingo, 6 de novembro de 2011

Emily Brontë no Facebook

Emily Jane Brontë era, segundo consta, tímida e solitária e, por isso, reclusa. Aguda, era capaz de descrever muito do íntimo das pessoas sem com elas se relacionar. Tentou lecionar, não conseguiu – sua timidez a impedia. Morreu de tuberculose aos trinta anos, tendo escrito uma única obra em prosa. Escondia as poesias que escrevia. O diabo é que ela viveu no século XIX, quando ainda não havia computadores nem internet.
Imaginemos agora a senhorita Brontë vivendo aos dias de hoje. Em primeiro lugar, não teria morrido de tuberculose. A menos que vivesse num país miserável, ela teria uma chance próxima a 100% de ter sobrevivido. Em segundo lugar, faria psicoterapia e teria sua inadaptabilidade sob controle ou, no mínimo, aprenderia a lidar com ela, seja lá o que isso queira dizer. Em terceiro lugar, estaria em pelo menos um site de relacionamento ou rede social.
Em que a rede social ajudaria esta pobre, solitária e sensível senhorita? A medicina e a psicoterapia teriam dado a sua contribuição. A rede social teria algo a lhe oferecer? Uma coisa é certa. Os fatores que se combinaram para levá-la a escrever seu único romance, cuja tensa atmosfera nos faz conjeturar sobre as tempestades que assolavam aquela criatura, não o teriam feito, e hoje não estaríamos a ler “Wuthering Hights” (O Morro dos Ventos Uivantes). Mas, e as redes sociais na vida de Emily Brontë?
Imaginem aí os senhores e as senhoras o seguinte – a senhorita Brontë no Facebook. Escreveria lá, em seu perfil, que teria seis irmãos, deles um único homem que, por sinal, seria alcoólatra. Mas esse último dado ela omitiria, que a ninguém interessa as mazelas de sua família. Nem confessaria os maus tratos de sua austera tia, que com a família veio morar após a morte de sua mãe. Escreveria diariamente recadinhos curtos para suas queridas irmãs, Charlotte e Anne, ambas escritoras e poetisas,  e perguntar-lhes-ia sobre os novos poemas que teriam escrito. Trocariam publicamente, nesse Facebook hipotético e surreal, carinhos e elogios desmedidos, cuja desproporção causaria reservas a uma criancinha pequena. E diariamente exporia as saudades que ainda sentia da velha e boa Thaby, a mais doce secretária do lar que já existiu.
Enfim, é bastante provável que a jovem Emily Brontë gastasse boa parte das horas de seu dia espantando e exorcizando sua imbatível e ininterrupta solidão nesse onírico Facebook. Para ela, ainda que suas sessões de psicoterapia estivessem ajudando bastante com sabe-se lá o quê, sua presença diuturna na rede social a ajudaria mais ainda. Lá ela poderia impressionar, falar, ser quem era e quem não era, poderia se reinventar, se promover, amar, odiar, informar, se informar, enfim, sair de si mesma e da prisão de si mesma. Poderia, na rede social, ter uma vida diferente daquela que vivia. Ou, melhor, da que não vivia. De fato, lá viveria, como muitos dirão.
A conclusão óbvia seria a de que a rede social tem lá a sua importância como palco de algumas vidas e, quem sabe, seria um coadjuvante de peso no tratamento de muitas e várias inadaptabilidades da vida moderna. O que seria dessas almas feridas se não pudessem viver n’algum lugar onde pudessem ser e não ser, fazer e não fazer, amar e não amar? Por outro lado a tal rede estará sufocando e reprimindo uma penca de talentos. A arte é a catarse do sofrimento. Cessado este, cessa aquela.
Quem seria Emily Brontë ao tempo deste Facebook?

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Paleozóica obtusidade

ESCREVEU-ME o Motta para me lembrar a frase de Bernard Shaw que diz que “é perigoso ser sincero, a menos que seja também estúpido”. Não sei por que cargas d’água ele me veio com essa, e já começo a suspeitar que tenha o Motta cometido o pecado de desobedecer ao que manda a frase. Terá, talvez, sofrido as conseqüências de ter sido estúpido. A verdade não é uma faca de dois gumes – ela tem um só, mas é afiadíssimo.
            O diabo é que me espicaçava o espírito uma idéia semelhante, a saber, a de ser sincero sobre determinado assunto. O tema me tem sido recidivante, ou me tem sido oferecido com demasiada freqüência para que o despreze.
Somos amiúde escravizados por idéias ou por pessoas. De fato, são sempre as pessoas a nos pretender escravizar. Idéias não nascem das rochas ou do asfalto quente – elas nascem nas mentes de pessoas. São geradas com uma infinidade de propósitos, e mesmo espontaneamente. Com muita freqüência já nascem para escravizar. As pessoas têm inteligência e a inteligência não é nada santa.
Há também os sistemas e os paradigmas escravizantes. Eles têm uma aparência inocentíssima, mas suas correntes e algemas não se desamarram facilmente. Uma vez em suas garras o sujeito estará embrulhado com lacres e tudo. O pior é que muito de tudo isso é perfeitamente evitável, e mesmo os sistemas que escravizam funcionariam melhor se se utilizassem de pessoas livres.
Não sei se já ouviram falar do senhor Ricardo Semler. Ele é chefe-executivo e sócio majoritário da empresa SEMCO S/A, “empresa brasileira conhecida por sua implementação radical dos conceitos de democracia industrial e reengenharia corporativa”. Além disso, ressalte-se que “sob sua gestão os rendimentos da empresa cresceram de quatro milhões de dólares em 1982 para 212 milhões de dólares em 2003”. O senhor Semler libertou sua empresa para crescer por ter libertado seus colaboradores. Em suma, o senhor Semler mostrou o que se pode realizar quando as pessoas são livres no trabalho.
Outro dia falei do ponto do IJF. Uma engenhoca eletrônica é lá utilizada para registrar a hora de entrada e saída dos funcionários do hospital, dentre eles os médicos diaristas. O que fazem os médicos diaristas daquele hospital? Depende da clínica a que     pertencem, mas, no geral, promovem a complementação do tratamento definitivo dos pacientes atendidos na emergência, vítimas da violência descabida em nosso meio ou de acidentes. Em algumas clínicas os pacientes recebem tratamento definitivo, provido pelos médicos diaristas, de doenças crônicas, mas a missão maior do hospital é o atendimento de urgência e emergência.
    Antes de seguir adiante, relembro – estou para ser sincero e, portanto, estúpido. A certa idade não é elegante o ser, uma vez que a sabedoria manda o contrário. Contudo, deixar de ser sincero a esta mesma idade fere o espírito de destemor que se achega nessa fase da vida. Assim, há aqui um aparente dilema inconciliável. Há aqui ideias mutuamente exclusivas.
O que quero dizer é que cobrar do médico não plantonista horas rígidas de permanência no hospital no intento de fazê-lo cumprir uma “carga horária” é tão colegial quanto – aqui sim! – estúpido. Médico não é mecânico de linha de montagem nem vendedor de loja de varejo. Médico não produz, uma vez que o doente não é um item. Nem mesmo saúde produz o médico. Saúde se produz com educação em massa e de boa qualidade. O que faz o médico, afinal? Resposta: cuida. O que se pode cobrar do médico, então? Resposta: que cuide.
Há lá, no IJF, médicos cuja folha de ponto é um primor, mas de ninguém cuidam. São a esses que se está pagando tributo ao se aceitar a “carga horária” como a medida de trabalho do médico. Estúpido sou eu em minha sinceridade ou os gestores em sua paleozóica obtusidade?