quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Cumim

               Queríamos comer um peixe frito. 
               Veio o garçon. Com efeito, parecia mais um cumim. Teria o quê?, dezesseis, dezessete anos. Trazia numa enorme bandeja três pargos crus para que escolhêssemos. 
               Terminada a refeição, veio com a máquina para passar o cartão. Abri a carteira sem o cuidado de não expor seu conteúdo. Curioso e atrevido, ele falou: -"Vixe, doutor!... o senhor tem essa 'ruma' de cartão"?
                Percebendo o tom ingênuo do comentário, repliquei: -"É, não, rapaz... Aqui tem até carteira de estudante"!..., e puxei de lá minha carteira de estudante. Duvidando, certamente por conta de minha grisalha, fuzilou: -"E o senhor 'inda' é estudante"? 
               Segurando a carteira, só faltou pô-la de ponta-cabeça tão minuciosa a análise que dela fez. Dando uma olhada final no verso do documento, foi passando-a de volta às minhas mãos e dizendo: -"Tô terminando o terceiro ano e já 'num' 'güento' mais!... Doido pr'acabar"!... 
               "Gosta de estudar, não, macho"?, perguntei olhando fixamente para ele. Meneou a cabeça visivelmente contrariado e definitivamente convicto de sua pouca afeição aos livros. 
               Respondeu: -"Não, senhor"!... Fez-se um silêncio de poucos segundos, enquanto me decidia se valeria a pena falar alguma coisa a mais. Ao final disse, olhando para Bella: -"Vamos, então"? Ela sorriu o seu sorriso radioso e assentiu positivamente. Levantamos-nos, agradeci e saímos.
               Foi ali nas Flecheiras. Uma belíssima paisagem se espraiava diante de nós. O mar verde-azul formava piscinas naturais onde ficávamos imersos jogando conversa fora, a contemplar o azul anil do céu límpido, sem uma nuvenzinha sequer. Havia um olor doce-salgado, um cheiro de praia misturado a vento e luz e, ao longe, os coqueirais balouçavam sua ramagem e inclinavam-se como a prestar deferência à obra do Altíssimo. Por detrás das dunas e enfileiradas apontavam as torres e hélices do progresso, as geradoras de energia do vento. 
               O cumim já tomara a decisão. Preferia a vida de índio à de engenheiro. Ele estaria errado? Era o que me perguntava. Por um triz não agi como o histórico homem branco quando invadiu a terra inexplorada. Se de onde venho a cultura – ia dizer "ética" – impõe o "sucesso" e as posses, que direito tinha eu de imputar a essa ética a verdade absoluta? O cumim havia de ter outros talentos. Ele é apenas um ser humano, como eu, como qualquer um de nós.
              Feliz saí por saber que quando lá voltar teremos a pureza do cumim – que então já  garçon será – a nos servir com o mesmo prazer, alegria e solicitude. "O homem que não vive para servir não serve para viver".

                    Para Bella
                   Radioso é o teu sorriso, pela alegria de estarmos juntos, pelo brilho que dele emana...
                                                   

terça-feira, 29 de outubro de 2013

O DILEMA, A OPERAÇÃO, A VAIDADE E A MORTE

           Um dia desses perguntava-me a mim mesmo para que serve a vaidade. E já me dava a resposta dizendo que servia para semear a discórdia, a empáfia, etc.etc. Pois bem. Vejam agora um exemplo fosco das entrelinhas da vaidade, o que elas podem representar, e quão hediondas elas se configuram. Aconteceu comigo mesmo há cerca de catorze a quinze anos, quando ainda exercia o cargo de cirurgião geral do pós-operatório do setor de Emergência do Hospital Geral de Fortaleza.

                                       O DILEMA

    Chega-nos à enfermaria uma linda jovenzinha de apenas quinze aninhos. Uma icterícia ferrenha; olhos amarelos assustados, indagadores, perscrutadores; o rosto delicado, angelicamente belo; o corpinho bem desenhado já tomando formas de mulher e o andar hesitante, quase oscilante. Nenhuma história de consumpção, doenças graves prévias, nada. Exames complementares sugerem um tumor na confluência dos ductos hepáticos. Colédoco não visualizado, fígado congesto.
    Os clínicos pressionavam pela cirurgia. Eu hesitava e queria mais informações anatômicas. Eu queria um Chiba. O setor de radiologia não estava realizando o Chiba, mas eu achava fundamental obtê-lo para ter um desenho preciso da árvore biliar. Conversa daqui, conversa dali, e nada de Chiba. Eu já estava achando que se fosse operar sem o Chiba entraria na chibata. Estava realmente inseguro, mas evitava demonstrá-lo. Por isso não fui tão enfático quanto à questão da colangiografia trans-hepática percutânea. Aos diabos o exame. Se eles queriam que eu operasse, eu o faria. Tomei a decisão.

                               A OPERAÇÃO

    Pensei, é óbvio, que pudesse colher alguma informação a mais durante o ato cirúrgico que me ajudasse com a conduta operatória a ser tomada. Foi uma laparotomia exploradora. Essa realmente foi a razão de eu ter decidido operar sem as valiosas informações do Chiba.
    Paciente na mesa cirúrgica, olhinhos rodopiantes; olhavam-me despretensiosamente, como se eu fosse apenas mais uma peça daquela engrenagem assustadora que era o hospital. Sim, o hospital tem seus próprios sons, cheiros, cores, luzes, pessoas. Eu era só mais uma dessas coisas que a assustavam. Tentei tranqüilizá-la dizendo que tudo iria dar certo, que quando acordasse tudo estaria resolvido e ela voltaria para casa em breve. Tenho consciência que disse tudo isso acreditando piamente em minhas próprias palavras. Não estava tentando enganá-la. Falava do fundo do meu coração. Era sincero.
    Sou obrigado a dizer que a operação foi uma seqüência de manobras frustrantes e improdutivas sem, contudo, nenhum prejuízo a mais para minha pequenina paciente. O objetivo maior era descomprimir a via biliar proximal à obstrução. Após remover a vesícula tentei inúmeras vezes, puncionando-lhe o fígado a céu aberto, achar um ducto biliar e colangiografá-lo com o intuito de estudar a anatomia biliar intra-hepática e promover a derivação externa ou bilio-entérica.
    A colangiografia transoperatória demonstrou ductos muito altos. Isso implicaria uma abordagem em que seria necessário literalmente fraturar o órgão tenso e congesto, uma manobra de alto risco. Ademais, a colangiografia demonstrou apenas parte da árvore biliar implicando em que a descompressão satisfatória provavelmente seria ineficaz com aquele ducto. Frustrado, optei por fechar a paciente consciente de ter feito absolutamente nada por ela.

                                  A VAIDADE

    A intenção era cumprir o adágio cirúrgico "first, do no harm". Decidi que os riscos da abordagem eram sobremaneira maiores que seus potenciais benefícios. Anelei, durante a operação, a concorrência de um cirurgião com maior experiência naquele tipo de procedimento.
    No entanto, em meu íntimo estava frustrado. Uma enorme sensação de impotência tomou conta de mim. Sentia-me derrotado, como se aquele insucesso representasse uma enorme lacuna em minha formação profissional. Momentaneamente esqueci-me daqueles olhinhos rodopiantes e indagadores e fixei meu pensamento em mim mesmo. Seria uma mentira se não admitisse uma grande tristeza por ela, mas a isto se misturou este sentimento menor.
    Saí em busca de opiniões de colegas mais experientes, e ela foi transferida para outro setor do hospital a fim de que se realizassem novos testes. O mais experientes diziam que ela precisava de um Chiba antes de uma segunda operação. Opinei que provavelmente isso não seria possível posto que já havia tentado esta manobra a céu aberto e não lograra êxito. Considerei que a mim parecia que sua única chance seria um transplante, mas isso não foi levado em conta por ser um tumor a causa do problema.
    Eu sabia que eles estavam preparando-a para uma nova operação. Aquela espera foi como a espera para uma grande prova ou teste de conhecimentos. Eu estava convencido de que, se eles conseguissem derivar sua via biliar, eu estava reprovado no teste. Só havia uma saída para mim: eles não conseguiriam drenar aquela via biliar e eu passaria no teste.
    Eis aí aonde pode levá-lo a vaidade. Eu estava torcendo para que eles não conseguissem seu objetivo, ainda que isso representasse o pior para aquela linda jovem. Eu estava arrasado pela minha tosca e medíocre vaidade frustrada. Eu era um monstro vestido de branco pela minha repugnante vaidade. Eu tinha vergonha de olhá-la cada vez que ela saía no corredor, e me sentia um inseto parasita cada vez que abria os olhos para mais um dia.

                                  A MORTE

    Eu passei no teste. Eles também não conseguiram fazer algo por ela e não drenaram a sua via biliar. Ela entrou no CTI quando eu coincidentemente lá estava. Meus olhos encheram-se de lágrimas ao ver sua fragilidade moribunda cotejada com meus pensamentos vis. Aproximei-me de seu leito quando ela já estava inconsciente. Tocando levemente sua mãozinha implorei-lhe seu perdão. Em resposta só ouvi o som frio e repetitivo do respirador funcionando e as batidas rápidas do monitor cardíaco que lhe detectavam os últimos momentos de sua curta vida. Apesar da coloração cérea e pálida de sua pele suada, ainda era angelicamente bela. Afastei-me lentamente sentindo que ela levaria consigo muito do que tenho de podre.
    Algumas poucas horas depois ela partiu. E eu continuei frustrado por ser um ser humano.


Fernando Cavalcanti, 23.04.2007

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O cearense hospitaleiro

               Eles estão ali para quem quiser ver. Não poderão dizer que minto. Basta passar no corredor que liga a unidade 13 à unidade 12 do Instituto Dr. José Frota. Eles estão sentados lado a lado, conversando, olhando o movimento e, diria até, flertando as acompanhantes dos pacientes. São os policiais militares que fazem a segurança dos pacientes internados envolvidos em atos criminosos. É a maior densidade policial do estado do Ceará.
               Os criminosos, internados, estão incapacitados de se locomover. Muitos estão mutilados. É pouco provável que perpetrem alguma ação violenta em pleno hospital, embora outro dia, em 31 de agosto passado se não me falha a memória, um elemento tenha invadido suas dependências e assassinado a tiros um paciente que acabara de receber alta hospitalar. A ação se deu ali embaixo, na área onde as ambulâncias entregam e recebem os pacientes. Havia policiais militares no local, mas não foram suficientes para intimidar o agressor e muito menos para evitar a tragédia.
               São sete policiais, os do corredor da unidade 12 e 13. Muitas delegacias do interior não têm o privilégio de contar com tamanho contingente. É verdadeiramente impressionante. Segunda-feira última quatro elementos assaltaram uma agência bancária na pacata Trairi, a 124 km de Fortaleza. Vejam que somente esses sete policiais aqui da enfermaria bem poderiam estar por lá vigiando o tempo. A cidade é tão calma que chega a dar sono andar por suas calçadas. Vai ver foi justamente por isso que os facínoras não encontraram a mínima resistência. O posto policial da cidade é a última palavra em desenho arquitetônico, uns vidros fumês que devem ter custado aos cofres do governo uma fortuna, mas inútil. Tão inútil quanto os sete policiais espremidos no final do corredor. Eles e suas cadeiras, juntos, ocupam uma área de, sei lá, 5 metros quadrados. Um, dois no máximo, daria conta do serviço. E nem estamos falando dos outros tantos postados às portas das enfermarias das unidades 11, 15, 17, 18, 19, 20, 21 e 22, e os da recepção onde o menor criminoso alvejou outro bandido indefeso. (Estou quase certo de estar-me esquecendo de outras seções do hospital onde eles são encontrados a fazer a "segurança"). 
               Quem disse-me hoje pela manhã no hospital foi o Ciro Ciarlini: - o sujeito para querer ser prefeito de uma cidade como esta, das duas uma: ou é santo, ou é inescrupuloso. (Ia dizer "canalha", mas o termo que o Ciro usou foi "inescrupuloso".) Sim, porque, segundo o meu amigo, uma cidade como esta é um abacaxi difícil de descascar. Os problemas são tantos e tão insolúveis que nada justifica que alguém queira, de bom grado e  de boa intenção, assumir tamanha responsabilidade. Um homem de princípios e de boa fé jamais abraçaria uma causa onde o mal impera. 
               Outro dia escrevi aqui mesmo neste humilde e pouco lido blog: - não há como entrar numa pocilga e sair limpo, cheirando a perfume francês. É, simplesmente, impossível. Assim, explica-se a ausência de santos na atividade política, em que pesem as noções dos antigos sobre ser a política uma nobre ocupação. O plano real está distante do imaginário, como quase tudo na vida. 
               Pois o Ciro, num exercício de lógica e silogismo aristotélico, concluiu que o mesmo vale para os que almejam assumir a superintendência de um hospital como este Instituto. Uma casa de saúde onde os problemas se amontoam dia após dia há anos e onde nenhuma nova abordagem resolutiva foi tentada não é candidata a entrar nos eixos. Se refletirmos sobre o que disse o Einstein – "um problema complexo não tem solução no mesmo nível em que foi criado" –, veremos que estamos diante de um problema assim, complexo. E falo da cidade e do Instituto. Verdade seja dita: - o hospital recebe o supra-sumo dos problemas da cidade, quais sejam, ignorância e falência do sistema educacional, cultura da violência, ausência de regras e leis, desprezo pela vida humana, desprezo pela alteridade, ausência de um sistema punitivo, cultura da inversão de valores, ausência de oportunidades e de horizontes, e uso alastrado de drogas lícitas e ilícitas.
               A mentalidade dos habitantes de uma cidade cria seus problemas ou suas soluções. Todas essas coisas, os problemas, cresceram entre nós aos poucos, possivelmente porque fomos continuamente omissos sobre suas mais ínfimas manifestações; porque menosprezamos os maus feitos de nossos piores homens; porque mitigamos a oportunidade de educar, não para as letras, mas para o humanismo (o pior é saber que muito do humanismo vem pelas letras, pela arte e pela verdadeira história); porque fomos inconsequentes e irresponsáveis no trato com a coisa pública. Assim, temos criado continuamente os problemas porque não somos afeitos às soluções. Alguém disse que a miséria persiste porque dá lucro. Estamos na miséria porque ela deu e continua dando lucro. Na origem de tudo está a qualidade de nossos homens públicos que, em última análise, é encarnado e esculpido o seu eleitor. Daí porque uso a primeira pessoa do plural: - nós.
               Nós mudamos nossa mentalidade? Continuamos produzindo a ignorância, a mentira histórica e atual, as leis que não funcionam, os crimes que não punimos, o ódio ao outro – o que tem odeia o que não tem e vice-versa –, os valores sem princípios, o negro horizonte, e a cultura do consumo como forma de projeção social. São essas as idéias e os sentimentos que não paramos de alimentar. Por conseguinte, nossos problemas seguirão insolúveis enquanto não resolvermos os seres humanos que somos. Bem se vê que nossas soluções estão em nível muito acima de nós, o que nos impede de alcançá-las. 
               O bom de tudo isso é estarmos a assistir de camarote ao esfacelamento do mito que reza que "o cearense é um povo hospitaleiro". Disse "cearense" e poderia ter dito pernambucano, ou paulista, ou paraense, ou o brasileiro de qualquer província. Como diria o Nelson, o brasileiro perde a sua delicadeza a cada quinze minutos. Uma coisa lamentável e, por que não dizer?, potencialmente mortal, como mostram nossas estatísticas.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

A mentruação oficial

               Entrei na fila da farmácia e deu-me a impressão de que a mulher que imediatamente se postou atrás de mim havia chegado na frente. Se fosse o caso, eu, indelicadamente e involutariamente, tomara o seu lugar. Na dúvida, me deixei ficar. 
               Poucos segundos depois toca-lhe o telefone portátil. Atende: -"Boa tarde, capitão"! Pelo rabo do olho percebo que está fardada. Não é das forças armadas. Parece uma farda de passeio da polícia militar. Tinha duas estrelas ao ombro: - primeira-tenente. (Será tenente ou tenenta? Como grassa a idéia de que não há o mal e não há o erro, é possível que ambas as formas estejam corretas.) Houve uma breve pausa enquanto o interlocutor falava. 
               Disse, em seguida: -"Estou na fila do pagamento da farmácia. Vim comprar umas vitaminas que estou menstruada e me sentindo muito mole"... Um espanto se apoderou de mim. A primeira-tenente – vou ficar com a forma clássica – parecia ter uma relativa intimidade com seu capitão. Falava demasiado alto para quem está naquele período e a confessá-lo ao telefone. Não somente o capitão, mas toda a fila sabia da menstruação da primeira-tenente língua frouxa. Entrasse naquele momento um assaltante, coisa assaz comum aos dias de hoje nesta terra, roubar-lhe-ia o fluxo com alguma finalidade em vista, tamanha a propaganda que a mulher fazia de sua regra. 
               Dali a pouco meu espanto tomou menores proporções. Foi quando a ouvi dizer claramente: -"Obrigada, capitã... Não sei como lhe agradecer"... Percebi que ouvira mal a princípio. Seu interlocutor era uma mulher e não um homem, como eu julgara ao início. E o diálogo se seguiu quase normalmente, exceto pelo fato de a militar não se importar em falar àquela altura ao telefone, inda mais sobre assuntos de foro tão íntimo. Quem estava incomodado era eu. Ela não dava a mínima. (Observei: - era gorda. Muito gorda. Se era policial, havia de ter outros talentos que não a excelência da forma física. Lembrei de "Círculo de fogo" e imaginei uma franco-atiradora.)
               Por tudo isso, quando vagou um dos caixas, ofereci-lhe, com um gesto de assentimento, a que me passasse à frente. Assim, estaria livre daquelas impróprias confissões ao mesmo tempo que corrigiria uma eventual indelicadeza por ter-lhe tomado o lugar. Ela agradeceu: -"Obrigada"! Enquanto transacionava com o caixa manteve o diálogo com a superior. Continuamos a ouvir quase tudo, mas a essas alturas a menstruação tornara-se uma contingência do diálogo. Para nosso alívio, ela não enveredou em detalhar sua síndrome menstrual. Para a sorte de todos, não veio também o ladrão.
               Saí da farmácia ouvindo a policial detalhar sua escala de serviço ao resto da semana. Os bandidos perderam ótima oportunidade de engendrar um plano para tomar de assalto sua companhia, roubando-lhe as armas. É o que fazem atualmente. (Há o assalto "labuta" e o assalto "logístico". O primeiro tipo é para o leite das crianças, das carreirinhas de pó e pagamento dos "funcionários" e fornecedores; o segundo é para a reposição do "material de expediente".) 

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Um país inviável?

               Eis que estou ali no Hospital Geral e encontro o meu querido amigo Marcílio Adjafre. Pergunto-lhe: -"E o Canadá"? (Esteve recentemente no Canadá visitando a filha que lá estuda.) Respondeu-me: -"Uma maravilha. Anda-se a toda hora e não se vê um policial. Como aqui". Bem claro está que, aqui, estamos necessitados de mais policiais, ao passo que, no Canadá, nem necessários eles são. 
               Adjafre queria falar da Andréa, uma colega de turma que lá reside há vinte anos. Falou da Andréa, de como vive bem por lá com seus filhos e seu marido. Eis que, de tanto falar do Canadá, lembrou-se de outro contemporâneo da faculdade, o amigo Helly Ellery. Também o Ellery tem uma filha que estuda no Canadá e frequentemente é visto por lá.
               Helly é um muito amado amigo, mas tem um defeito gravíssimo: - é comunista. Falar que o homem tem uma filha a estudar no Canadá e que lá vai com frequência chega a confundir o pobre observador dessa vida louca. Comunistas deveriam pôr seus filhos a estudar em Cuba, ou na Venezuela, ou...  onde mais? que outros países comunistas existem? A China não conta. A China inventou o comunismo capitalista, ou o capitalismo comunista, ou seja lá o que for que eles fizeram para politicamente oprimir o povo ao mesmo tempo que demonstram todo mês ao mundo a pujança de sua economia. Assim, o meu querido Helly seria mais coerente se pusesse a filha a estudar na Venezuela, ou em Cuba, ou – vá lá! – na China. (Só agora lembro que faltou a Coréia do Norte.)
               (Não resta a menor dúvida de que o senhor Hugo Chavéz foi dos poucos comunistas coerentes que se viu por esses tempos. Fez questão de ir tratar-se em Cuba. Lá foi duas ou três vezes, se não me engano, buscar cuidados médicos para o câncer que o matou recentemente. Os nossos grandes comunistas, por exemplo, tratam-se por aqui mesmo, mas não se utilizam da rede pública. Preferem o Albert Einstein ou o Sírio Libanês que seus seguros saúde lhes garantem, pagos com o dinheiro do contribuinte. Vejam que os comunistas desta terra, entre os serviços públicos de saúde de seus irmãos ideológicos e nossos excelentes hospitais particulares alimentados por gordos "recursos capitalistas", preferem os últimos.) 
               Ontem, no IJF, o meu amigo Ciro Ciarlini foi categórico: - o Brasil não é um país viável. O "culpado" disso, segundo ele, é o homem conhecido como "o patriarca da Independência", José Bonifácio de Andrada e Silva. De fato, o jornalista e escritor Laurentino Gomes bem o demonstra em sua trilogia 1808, 1822 e 1889. Para o Bonifácio, que depois foi para o ostracismo e morreu amargurado, a manutenção de Dom Pedro I no Brasil importava por duas razões: - frustrar a pretensão portuguesa de levar o país de volta ao status de colônia e, após a Independência, mitigar a tendência de fragmentação do império em várias nações. Pois ele conseguiu manter a unidade nacional e, graças a isso, o país é hoje esse enorme território ingovernável, inadministrável e, por conseguinte, inviável como nação.Terá razão o Ciro? Há uma incoercível suspeita de que, sim, tem razão o Ciro.
               Veja-se, por exemplo, o que se vive hoje no país. Dois facínoras assaltaram um cidadão que estava pilotando sua motocicleta na rua. (Quando se fala em assalto, implícito está o uso de violência e/ou de grave ameaça.) Queriam tomar o veículo do outro. Os bandidos usavam, eles próprios, uma motocicleta. O garupa portava uma arma de fogo e a apontava para o cidadão, que tudo registrou porque usava, na ocasião, uma câmara de filmagem acoplada ao capacete. Toda a cena foi gravada. Não há o que opinar. O fato está lá tal qual sucedeu. 
               Quando o marginal senta à motocicleta alheia, recebe voz de prisão de certo policial que estava próximo e assistia à cena. O bandido, então, lhe aponta a arma. O policial, não tendo outra alternativa, efetua dois disparos e o derruba. Segundo consta, atingiu-lhe no membro inferior e no abdômen. Em seguida, checa a situação do baleado, solicita socorro médico e pede reforço policial para o local. 
               Onde está o norte? Como sabermos se agiu certo o agente da lei? (Observem que o agente da lei tem regras a seguir até mesmo na abordagem de um declarado marginal em ação flagrantemente delituosa!) Há o Código Penal. Em seu artigo 23 diz ele que "não há crime quando o agente pratica o ato: II- em legítima defesa; III- em estrito cumprimento de dever legal ou no exercício regular de direito". 
               Qual foi a minha surpresa quando vejo, estarrecido, a matéria dando conta da punição do policial! O governo do estado – o fato aconteceu na província de São Paulo – entendeu que o agente da lei não agiu de acordo com a mesma. A essas alturas nem se sabe o que farão com o marginal assaltante. Paira a forte suspeita de que será tratado com todas as honrarias de injustiçado histórico.
               O Ciro tem toda razão. Pobres dos que ainda pensam e têm alguma esperança de que vinguemos como nação. Diz o velho ditado: - a esperança é a última que morre... mas morre. A minha se esvaiu para sempre ao testemunhar este horrível episódio. (Atentem: o horrível não é o bandido baleado durante sua ação criminosa. Horrível, tétrica, apavorante e indignante é a punição do policial que atuou em legítima defesa e em cumprimento do dever. Qualquer dúvida quanto aos rumos do país será fruto de uma esperança infundada e recalcitrante.)

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Bandido morre cedo

               Eu quase iniciava a crônica dizendo uma frase de efeito, quase rodriguiana: - nunca se odiou tanto quanto em nosso tempo. Em seguida, logo depois, julguei estar plagiando o grande cronista, e desisti. Julguei, por outro lado, estar generalizando além da medida. Afinal, uma frase desse tipo pressupõe a necessidade de uma limitação geográfica. Onde, nesses tempos, está-se a odiar tanto? 
               Por exemplo, os primeiros cinqüenta anos do século passado. Duas grandes guerras e uma revolução assassina nada mais foram do que a tradução do ódio que grassou no mundo, rompendo fronteiras e invadindo os mais tépidos e amorosos corações. Nunca a humanidade odiou tanto. Se me refiro à humanidade, me refiro ao mundo inteiro, e aí estava o espaço geográfico do ódio do século último.
               Com efeito, minha frase inicial pretendia se referir ao nosso diminuto universo estadual e municipal. Nunca se odiou tanto no Ceará e na cidade de Fortaleza quanto nesses tempos. No resto do país também muito se odeia, como jamais visto, mas o que ocorre aqui é infinitamente mais intrigante.  
               Falei tudo isso somente como introdução ao comentário que quero fazer a propósito do artigo de certo advogado publicado hoje no jornal O Povo. Ele afirma que nossa violência está "democratizada". Disse que a violência, antes restrita e sufocada na periferia, hoje está geograficamente disseminada entre nós. Todos em todos os estratos sociais ressentem-se do problema. Até aí nada demais porque nada disso é novidade. O problema surge quando o articulista ensaia adentrar para as explicações sócio-econômico-idealistas.
               Outro dia falei: - nossos assaltantes portam armas que custam dinheiro, usam carros e motocicletas na maioria das vezes não roubados, isto é, de sua propriedade, e muitas vezes são sujeitos bem apessoados e bem vestidos. Conclusão: - estamos diante de criminosos comuns, e não de esfomeados miseráveis. Esses últimos não roubam. No máximo furtam. Além disso, imputar ao pobre a autoria de nossos assaltos rotineiros demonstra um preconceito inaceitável. A maioria das pessoas pobres segue trabalhadora e honrada e não merece que se a ponha suspeita do mal que ora nos aflige. É bom que se lembre que muitos desses crimes são perpetrados contra pessoas humildes e pobres. 
               E o que dizer dos quase oitenta ataques a agências bancárias e caixas eletrônicos no Estado? Por suas características se percebe que seus autores são bandidos organizados e articulados. Não se está diante de moleques amadores. Usam armas pesadas e artefatos de uso restrito às forças estatais. São bandos numerosos que agem premeditadamente. É preciso dispor, previamente à ação criminosa dessa natureza, de recursos consideráveis. Conclusão: - os chefes desses caras são sujeitos poderosos e influentes. 
               Assim, me parecem tremendamente simplistas as explicações que se escoram em nosso conhecido, inegável e persistente abismo social. Não somente simplistas, mas até convenientes a propósitos nefastos e bem possíveis. Implanta-se a cada dia uma cultura do medo e do terror com lastro em fatos cotidianos, gerando a sensação de desamparo do cidadão por parte do Estado que não cumpre o seu papel. 
               E por falar em Estado não cumpridor de seu papel, fiquei aqui a pensar na minha enorme necessidade de revisitar Hobbes, Locke e Rousseau. As teorias do Estado jamais foram tão necessitadas de entendimento por parte nós, pobres ignaros, que passamos o tempo inteiro a sofrer nas mãos deste ente tão distante e tão etéreo. Vejam, por exemplo o que o Juiz Manuel Clístenes, titular da 5a. Vara da Infância e da Juventude, pensa sobre o Estado, segundo matéria do jornal O Povo de 10/10/2013:
               "A ausência do Estado e a ineficiência da escola pública são os principais responsáveis pelo envolvimento de jovens com o tráfico e outros atos infracionais. Clístenes defendeu a necessidade de cuidar das famílias e dar mais atenção às políticas públicas voltadas para a boa educação das crianças. 'Não adianta muitos policiais e cadeias. É preciso investir na educação, no lazer, no esporte, na cultura para a juventude'".
               Tudo bem, tudo certo. Sua Excelência, como titular na defesa dos inimputáveis, não poderia se expressar de outra forma. Espera-se que o noivo diga "sim", senão o casamento vai pro beleléu. O problema, um enorme problema, um problema que expõe o caráter da sociedade, é a questão da vítima. Dirá Sua Excelência e os que pensam como ele que a vítima não é o esfaqueado, o baleado, o assaltado. Dirão todos eles em coro: -"A vítima é o menor, é o incapaz"! Mas, então, seria legitíssimo que a sociedade indagasse a esses senhores: -"Então o esfaqueado, o baleado, o assaltado, o estuprado não são vítimas? E, se não são vítimas, são o quê"? 
               Sua Excelência deu uma aula de piedade e de entendimento do problema do menor incapaz. Disse: -"“A gente tem de cuidar dessas crianças. Se elas serão cidadãos de bem ou bandidos, depende de nós”. E mais: -"Não adianta muitos policiais e cadeias. É preciso investir na educação, no lazer, no esporte, na cultura para a juventude". A aula do senhor Juiz ensinou claramente: - se não educar, não adianta prender. Ora, mas é exatamente o que está a ocorrer, meritíssimo! 
               Vejam que nas palavras do magistrado está dito tudo. Ele, como servidor de um poder estatal, o Judiciário, diz que não prende quem não foi educado, mas, como representante do Estado na esfera da Justiça, sabe, melhor do que ninguém, que esse mesmo Estado não educa porque é omisso. Eis aí o buraco negro onde jazem todos as outras vítimas. Se é obrigação do Estado prover educação pública de qualidade e se ele não a provê, o não educado é vítima de quem? Sabemos que o cidadão comum e o Estado não são a mesma coisa, não se confundem. A chamada democracia representativa é um conto do vigário, uma mentira, um embuste. O cidadão comum e honesto, pagador incondicional e recalcitrante de elevados impostos, faz a sua parte, enquanto o Estado não faz a sua. 
               É aí que começa a farsa do Judiciário e dos poderes independentes. O Judiciário sabe  – foi o próprio Juiz quem o disse – que o Estado – entenda-se o poder executivo – é ausente e ineficiente. E que a vítima dessa ausência e dessa ineficiência é aquele a quem ele julga proteger, o menor que está à margem. Pergunta-se, então: - por que o Judiciário não pune ou obriga o Executivo a fazer o que não tem feito e que é de sua alçada? Os menores são vítimas do Estado na pessoa do Executivo. Por sua vez, as vítimas dos menores – que também são vítimas, sim senhor! – são vítimas do Estado. As vítimas dos menores criminosos são vítimas do Estado em pelo menos duas esferas de Poder! 
               O que esses senhores precisam entender é que ao cidadão vítima de um jovem criminoso deve-se, no mínimo, uma resposta que convença, por parte do Estado. Febens que só funcionam como fábrica de marginais e critérios aleatórios e puramente políticos para caracterizar um "incapaz" penal não satisfazem. O sangue das vítimas dos menores está nas mãos do Estado. De uma forma ou de outra.
               Além de tudo isso, senhor juiz, sabemos qual o destino da maioria desses menores. Viram bandidos. Só não os vemos mais vezes por uma simples razão: - bandido morre cedo. É o que os fatos têm demonstrado claramente. 

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Dia das crianças macabro

               "O idílio do homem com a morte é tão nítido, tão evidente. Dirá qualquer um de vocês: -'Eu não quero morrer'. E, no entanto, o medo da morte é o mais falso dos medos. O que se esconde ou, por outra, o que não se esconde por trás de pequenas imprudências acumuladas"? 
               Em que data esse texto foi escrito? Ah, aqui está, ao seu final: 17 de fevereiro de 1970. Que fazia eu por essa época? Antes devo dizer que tinha 8, quase 9 anos de idade. Ainda não completara os 9. Por uma simples associação de idéias, posso quase dizer o que eu estaria fazendo. 
                Morávamos no Centro de Fortaleza, à rua Tristão Gonçalves, numa casa antiga que pertencia a uma tia-avó. O número era 815. Sim, Tristão Gonçalves, 815. O telefone era 1.13.84. Até o dia 31 de dezembro de 1969 vivíamos naquele casarão de seus 18 de frente por, sei lá, quase 60 de fundos. Lembro-me do pé de sirigüela no quintal. Aquele 31 de dezembro de 1969 foi o último dia em que lá dormimos, porque no dia seguinte estaríamos mudando de vez para a nova casa que meu pai construíra no que naquele tempo se chamava "bairro da Aldeota". 
               Assim, em 17 de fevereiro de 1970 eu, muito provavelmente, estava em férias escolares, correndo pelos terrenos baldios da Aldeota, matando lagartixas e comendo castanholas. É possível também, como alternativa, que estivesse jogando futebol nos terrenos desmatados. Para nós, crianças livres e destemidas, a morte não existia. Já o Nelson, lá no Rio de Janeiro, escrevia essas coisas. Nós, obviamente, de nada disso entendíamos ou sabíamos.
               E éramos destemidos não porque fôssemos afoitos ou prematuramente pedantes. Nosso destemor advinha de nossa felicidade, de nossos terrenos baldios, de nossas arraias, de nossos muros baixíssimos ou inexistentes, da abundância de nossos brinquedos e bolas de futebol, dos times de botão, de nossas goiabeiras (no Centro eram os oitis)... Enfim, não tínhamos medo, não sabíamos o que era ter medo.
               Passados mais de quarenta anos, não pude deixar de lembrar essas deliciosas memórias ao encerrar a leitura do texto do Nelson. Contudo, o trecho extraído foi o gancho que me prendeu aos dias de hoje e, consequentemente, aos diferentes momentos no tempo. Deixem-me ver se me faço entender pois admito que estou sendo vago. 
               O caso é que tem sido cada vez mais notório, no trânsito desta cidade, o desprendimento dos cidadãos para avançar o farol vermelho. Isso tem ocorrido em todos os momentos do dia e em todos os momentos da noite. Os que aqui vivem, sabem: - aguardar o farol verde à noite pode significar a entrada do pacato e honesto cidadão para as estatísticas da violência grassante. Assim, pelo sim, pelo não, não há um motorista ou motociclista completamente  honesto por aqui. Não que se não queira. É uma questão de impossibilidade. 
               O que chama a atenção, no entanto, são os motociclistas os que mais frequentemente avançam o sinal vermelho. E já não falo da tentativa de sobreviver aos assaltos, mas durante o dia, em plena luz do sol, o trânsito tinindo de movimento, e o sujeito sobre um veículo motorizado de duas rodas a passar e trespassar o sinal vermelho. O caso, então, toma os ares do que o Nelson chamou de "idílio com a morte" por conta dessas "pequenas imprudências acumuladas". Sim, porque não há outra explicação. 
               Hoje um de nossos periódicos anunciou que a cada três dias morre um motociclista em Fortaleza (http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=1326807). Observem, então, que a hipótese do idílio não pode ser descartada. E o pior: - se o sujeito não zela pela própria vida, que dirá pela vida do outro. Está-se quase a provar que, por aqui, a vida perdeu completamente seu status de bem supremo e sublime. Esses suicidas não são somente suicidas: - são também homicidas porquanto igualmente assumem o risco de matar alguém. 
               Falei em crianças e lembrei: - amanhã é o dia delas. Amanhã lembrarei mais uma vez os meus dias de criança. Não direi "parece que foi ontem" porque de fato o foi. Foi tão ontem que quase posso tocá-los. Guardo aquele tempo como fazem os que foram felizes ao tempo lembrado. Sei que existem muitos que querem esquecê-los porque nada há de bom em seus dias de criança. Isso me faz valorizar ainda mais a minha infância e a me encher de gratidão a meus pais por terem me proporcionado o melhor em amor, proteção, zelo e educação sobre princípios imutáveis. Eles me deram uma família de bem, a fonte de onde brotam e vicejam os alicerces de um ser humano. 
               Por tudo isso, paradoxalmente, é que amanhã, para nós desta terra alencarina, é um dia de tristeza. Tristeza por nossas crianças que estão a crescer numa terra sem esperanças, onde o futuro se desenha tenebroso e negro; onde a vida é nada; onde seu abandono pretérito está se manifestando hoje através de jovens sem rumo e sem perspectivas, vítimas de nossos pensamentos mais fúteis e inúteis, e de nossos piores homens. Tiraram-lhes tudo, das doces ilusões próprias de seu tempo à paz que tanto precisam para uma adultícia produtiva, saudável e espiritual. Sua infância suprimida os transformou precocemente em "adultos" violentos e atormentados, o coração repleto de ódio e de desvalor, a vida sem o colorido da esperança por dias melhores. 
               Façamos amanhã não um minuto, mas um dia inteiro de silêncio em pesar por todas as crianças dessa terra. Não pensam os abastados que seus filhos não são ou não serão vítimas, que sobre eles não paira a mesma nuvem negra que encobre os filhos da miséria. Não se pode ser feliz habitando o mesmo espaço que habita o infeliz. Portanto, o lamento é para todas as crianças, indistintamente.
               Ontem fui levado, por dever de ofício, a amputar a perna de um garoto de apenas quinze anos. Vejam bem: - quinze anos. Tem nome de evangelista. Tão jovem, envolveu-se com quem pratica o mal, com outros menores que odeiam e que matam. Eis, pois, que tentaram matá-lo. Debalde foram os avisos, as admoestações, as súplicas e as lágrimas de sua jovem mãe, resignada em sua impotência de pobre de bens diante da força da mais maligna ambição desenfreada. Em sua dor de ter que aceitar forçosamente a nova situação – o filho mutilado –, disse-me: -"Quem sabe, doutor, o mal não tenha vindo para bem? Prefiro sepultar-lhe a perna a enterrá-lo inteiro..." E uma espessa lágrima – mais uma – desceu-lhe pela face abatida e consternada. Amanhã, pelo menos essa mãe há de chorar. Copiosamente.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Matéria e energia escura para corações sem luz

Deliciei-me ao ler, hoje, dois artigos do astrofísico carioca Marcelo Gleiser, publicados na Folha de São Paulo. Ele é aquele cujo pai perguntou, mais ou menos assim, ao tomar conhecimento de suas pretensões profissionais: -“Mas você acha, meu filho, que contar estrelas dá dinheiro”? O título dos artigos: “Sobre o propósito da vida” (http://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcelogleiser/2013/06/1295616-sobre-o-proposito-da-vida.shtml) e “As 20 ou 10 questões mais importantes da ciência” (http://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcelogleiser/2013/09/1338383-as-20-ou-10-mais-importantes-questoes-da-ciencia.shtml).
               Diz ele o seguinte sobre o propósito da vida: “Todas as formas vivas têm o propósito de preservar sua existência. Essa é a diferença essencial entre o vivo e o não vivo. (...) Dada tanta riqueza, tanta criatividade, fica difícil de aceitar que tudo surgiu sem um propósito maior, sem a intenção de criar criaturas cada vez mais complexas”. E conclui: “O que a vida quer é se preservar”.
               O que a vida quer é se preservar. (Estou repetindo não somente a frase, mas o pensamento. E não vejo como não fazer um juízo de valor do pensamento do senhor Gleiser.) Vejam que a vida, que no mesmo artigo ele define como “essa estranha organização da matéria dotada de autonomia, capaz de absorver energia do ambiente à sua volta e de se preservar por meio da reprodução”, é, apenas, uma estranha organização da matéria. Segundo o “pai dos burros” do qual, diga-se de passagem, sou perene e fiel inquiridor, toda organização é uma estrutura, uma composição. Pois, segundo o senhor astrofísico, uma estrutura ou composição, no caso a vida, é dotada de uma vontade, qual seja, a de se preservar. A vida, diferente da não-vida, escolhendo entre perecer e subsistir, escolhe a segunda alternativa. Os objetos dotados de não-vida não têm escolha. As pedras, a água e o fogão de minha cozinha não são seres vivos; são dotados de não-vida e, por conseguinte, de não-vontade e de não-escolha. (Observem que a vontade pressupõe uma inteligência, e as escolhas são o pleno e livre exercício daquela.)
               Dizendo tudo de outra forma, a vida é o conjunto de processos “autônomos”, que envolvem geração e gasto energético, capaz de se reproduzir. Então, esse conjunto de processos é dotado de uma volição que escolhe se perenizar. Mesmo os seres primitivos, as chamadas formas primitivas de vida como as amebas e os vírus, se reproduzem independente de sua vontade e, portanto, alheios à sua escolha. Estão, coitadinhos, fadados a essa programação incômoda e tediosa, a reprodução. Nós, os humanos, é que evoluímos tanto que adquirimos inteligência, um tipo complexo de abstração que nos dota de vontade e capacidade de escolher. (O diabo é que, por mais que escolhamos viver, está ali, sempre à espreita, a finitude inexorável. É a vida que há em nós – aquele conjunto de processos autônomos – quem escolhe a reprodução antes que morramos para que ela própria não pereça. Antes de dar cabo de nós, a vida criou o impulso que nos leva a nos reproduzir.) Assim, nós morremos, cada um de nós, mas a vida não morre. Não sei se percebem o ponto de vista. 
               Lá para trás, bem antes de nosso Gleiser, Schopenheuer afirmava que somos dotados de dois instintos essenciais: o de sobrevivência ou preservação individual, e o de preservação da espécie. O primeiro é manifestado na fome e no medo da morte; o segundo no impulso sexual e na defesa ferrenha de nossas crias. O filósofo não esclareceu, entretanto, quais instintos levam a Escherichia coli a se dividir em duas filhinhas nem para que lado correm quando avistam uma molécula de gentamicina ou outra substância que para elas seja um veneno letal. Pode-se concluir, então, que os instintos ficaram reservados aos seres de maior porte, inteligentes ou não. Os cervos sempre pastam bem distante dos tigres, que eles não são bobos. E não tem a menor importância que não saibam a tabuada de 8. 
               Marcelo Gleiser conclui que "fica difícil aceitar que tudo surgiu sem um propósito maior" e arremata, quase postulando: a vida quer se preservar. (Minha obsessão na frase há de manifestar já, já minha indignação com a mesma. Paciência...) 
               Por outro lado ou, melhor, por outro artigo, nosso eminente cientista comenta sobre livro recentemente lançado na Inglaterra, "Big Questions in Science", que lista os 20 desafios mais importantes da ciência moderna. De sua própria escolha ele citou 10 das vinte. As duas primeiras ("Do que é feito o Universo"? e "Como surgiu a vida"?) demonstram o drama dos homens da ciência: eles não deram um passo em direção às respostas. São questões não da ciência "moderna", mas da ciência em todos os tempos. Mas minto. Essas questões têm, de fato, ficado mais distantes de suas respostas à medida que segue a busca. Descobriram, por exemplo, que só conhecemos 5% da composição do Universo. Dos outros 95%, a matéria escura e a energia escura, não se tem a menor idéia de sua constituição. 
               O problema da vida, aqueles processos autônomos que "querem" se perpetuar, é ainda pior. Esses senhores – me refiro ao senhor Gleiser e seus colegas – continuam se perguntando o seguinte: "Como que átomos, combinados em moléculas, atingiram um nível de complexidade em que essas moléculas formaram o primeiro sistema 'vivo'"? A mim a resposta seria de uma simplicidade franciscana: se aquele conjunto de processos autônomos é dotado de vontade e poder de fazer escolhas, é provável que eles sejam fruto da vontade de seus átomos e moléculas. (As demais perguntas ficam ao gosto do mais interessado dos leitores ao acessar os links em anexo.)
               Um detalhe escapou ao próprio autor dos textos. (Sou obrigado a rescrever o diminuto trecho.) Disse ele que "dada tanta riqueza, tanta criatividade... fica difícil aceitar que tudo surgiu... sem a intenção de criar..." Duas vezes citou "creare", do latim, que significa "produzir, erguer", a primeira se referindo à capacidade de criar, a segunda ao ato em si. Será que o senhor Gleiser cometeu um ato falho? ou será que o simples falar em "criar" e em "criatividade", no sentido de produzir toda a excelência da vida observável e não somente ela mas tudo o mais e todo o resto leva-nos, inexoravelmente, a nos referir ao resultado da ação de Alguém? Pergunto-me se algum dia lhes será permitido "enxergar" o que chamam de matéria e energia "escura".