sexta-feira, 14 de outubro de 2016

BRASILEIRO INDO E VOLTANDO

Não sei se sabem da última do Amorim. Pois vos conto.
                Após perder a empresa que havia montado há anos, principal fonte de renda de sua família, dilapidou o patrimônio que acumulara em sua previdência privada. Ainda que tenha diploma de curso superior, é, além de homem de negócios, funcionário público nível médio e foi justamente isso o que sobrou de tudo o que chegou a construir um dia. Resultado: está na quase completa penúria financeira. Faliu. Quebrou em banda, como se diz por aqui.
                Dirá alguém que o pobre homem foi vítima de uma desgraça, ou que a má sorte achegou-se a ele como se ela, a má sorte, andasse por aí, a esmo, a escolher vítimas indefesas e pueris. Uma certa dose de romantismo sempre paira sobre as tragédias pessoais do brasileiro.
                Digamos sem delongas que o leitor já anseia um esclarecimento: Amorim foi, sem sombra de dúvidas, o grande causador de seu próprio infortúnio. Tempo houve, já que seus maus atos foram praticados ao longo de uns poucos anos, em que os amigos tudo fizeram para salvá-lo de si mesmo, sem sucesso. Conselhos não faltaram; alertas foram dados; evidências brilharam e saltaram aos olhos como luzes vermelhas a indicar o perigo... Tudo em vão. Amorim caminhou para o abismo sem dar a mínima atenção. Agora, no presente, o arrependimento. O diabo é que o arrependimento é um sentimento estúpido porquanto denuncia a estupidez de quem o experimenta. Eis aí tudo. De fato, eis aí tudo sobre a tragédia pessoal de um mísero brasileiro inconsequente e irresponsável. Imaginemos, agora, a tragédia de toda uma nação de irresponsáveis.
                Antes de tudo, assumamos a irresponsabilidade do brasileiro como um traço inato e irremediável. Se assim não o for, é bem provável que cedo, ainda na mais tenra infância, o brasileiro aprenda por seus pais a como ser irresponsável ou por rejeitar-lhes os ensinamentos. É uma coisa ou outra. E por que digo isso? É muito simples. Tudo guarda a mais irretocável semelhança com o que Amorim providenciou a si mesmo. Senão, vejamos.
                O brasileiro nasce e cresce longe de uma adequada e cada vez mais necessária educação financeira. Neste aspecto, salta aos olhos outra ignorância – a ignorância fiscal. (Seria uma ignorância dentro da outra.) O que seria ela? O brasileiro cresce, vai à escola e à universidade sem que lhe ensinem que ele paga impostos desde o dia em que comprou a primeira goma de mascar com o dinheiro que lhe deu sua mãe. Um pouco mais à frente, quando começa a ganhar dinheiro, percebe que ali, bem ao seu lado, está um sócio que em breve se mostrará indesejável e não menos implacável – o governo. Assim, na experiência inolvidável da vida prática, aprende o brasileiro que parte do que ele ganha vai diretamente para o governo sem que ele nada possa fazer para impedir, e que essa associação indesejável durará enquanto viver.
                (Óbvio é que impostos não existem apenas no Brasil. Todas as grandes nações do mundo são governadas por governos que arrecadam bem. A única e abissal diferença é que arrecadam com mais justiça e os devolvem com mais justiça ainda. Com efeito, nas nações mais desenvolvidas do mundo o crime de sonegação é considerado um crime que traz vergonha e execração ao seu praticante, além de punição exemplar.)
            Ora, para que arrecada o governo? Como bem disse a senhora Thatcher, não existe o dinheiro do contribuinte. O que existe são os impostos, que é a parte do que ganha o cidadão devida ao governo para que ele o use naquilo que prevê a sua Constituição. O governo financia serviços de educação, saúde, infra-estrutura, etc. etc. etc.
            E o que ocorre se o dinheiro do caixa do governo for utilizado em outros “setores”? Resposta: não haverá ou faltará dinheiro para aqueles serviços. Os serviços públicos serão penalizados. Faltarão serviços de saúde e educação, e a infra-estrutura resultará precária. Quem tem família e gere seus recursos sabe bem do que estamos falando. 
            Apesar de todos saberem do que estamos falando, o brasileiro insiste em não entender a necessidade do governo em controlar seus gastos quando suas despesas estiverem bem acima de suas receitas. O brasileiro recalcitrante e irresponsável acha que o governo é obrigado a gastar o que não tem indefinidamente somente porque está escrito que ele é detentor de todos os direitos possíveis e imaginários. Acha que isso pode ser feito inconsequentemente, justamente como fez o Amorim. 
            Todos nós sabemos que não é assim. Nada é gratuito. Essa história de que a prefeitura está oferecendo cursos grátis de culinária e de corte e costura é a grande balela de governos falaciosos e populistas. Para promover e oferecer qualquer serviço o governo paga, e paga com os recursos vindos dos impostos. Se promover curso de corte e costura para o povo é mais importante do que promover os serviços essenciais, a população há de decidir, mas essa população há de se conscientizar que há dinheiro envolvido e que esse dinheiro veio dos impostos pagos por todos. Se gasta aqui, pode faltar acolá.
            O diabo é que o Amorim, além de um irresponsável de marca maior, é um refinado esquerdista que perdeu o bonde da história. (Todo esquerdista é, antes de tudo, um atrasado do bonde da história.) Ainda que em sua vida privada venha sentindo na carne o preço de sua irresponsabilidade para com os recursos de sua família, pensa ele que na vida pública ele tem direitos inalienáveis e “garantias” inamovíveis. 
            Não devemos nos assustar – todo bom e irresponsável brasileiro se acha o sujeito mais cheio de direitos do universo. Sim, o brasileiro tem incontáveis direitos. Mesmo que os recursos sejam limitados – o governo sempre pode imprimir mais dinheiro, ainda que as consequências sejam catastróficas –, o brasileiro há de exigir do governo todos os direitos que lhe dá a Constituição “cidadã”.  Afinal, ela foi concebida para dar-lhe tudo aquilo que ele imaginava não ter e mais um pouco. Os que a conceberam esqueceram-se de providenciar a mina de ouro inesgotável. O resultado está aí para quem quiser ver. Amorim é o exemplar mais fiel do bom e repleto-de-direitos brasileiro da atualidade.
            Fiz todas essas considerações e relatei a tragédia do amigo apenas e unicamente para sugerir a todos que façam, antes de seguir exigindo a miríade de direitos que julgam ter, um curso de obrigações e deveres. Outro dia vi ali, na livraria, um compêndio de Direito. Estão aí os espessos tratados de direito versando sobre todas os campos desta ciência tão especial. Pois me veio à ideia propor que se escreva um “Tratado de Deveres e Obrigações” especialmente dirigido ao bom e irresponsável brasileiro médio. Não havia de ser um livro grosso, mas um volume fininho e tímido cujo denso conteúdo servisse a equilibrar essa balança tão mal aferida. Sim, o brasileiro esqueceu-se de que as obrigações vêm primeiro e que os direitos são a contrapartida daquelas. Para se ter direitos há que se cumprir, primeiramente, as obrigações. Liberdade é um direito, um direito natural de todo ser humano, incluídos aí os brasileiros. Para mantê-la como um direito, contudo, o indivíduo há que cumprir, pelo resto da vida, certas obrigações inarredáveis. Caso contrário, irá perdê-la. Mesmo isso, mesmo a liberdade, se tornou, para o brasileiro, um direito irreversível e inexorável, independente de que cumpra ou não com suas obrigações. Quer ele agir como homem das cavernas e seguir gozando do direito e de ir e vir e a sociedade civilizada que imploda.
            Daí porque não é difícil entender a pretensão de meu amigo a que o governo, como ele, continue a gastar ainda que suas contas não permitam à luz da sensatez e da responsabilidade.  Por tudo isso não é difícil entender como pensa o tipo de gente que ataca um governo que quer a responsabilidade fiscal. São brasileiros natos, indo e voltando.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

O PIOR SUICIDA É O QUE NÃO MORRE

Há os amigos que reprovam a motocicleta. Quero dizer, reprovam seu uso como meio de transporte. Agora, vejam como é interessante notar que, de uma forma geral, o ser humano é um bicho dotado de todas as possíveis miopias. A miopia, todos sabem, é uma condição que dificulta a visão para longe. O sujeito enxerga tudo a um palmo do nariz; porém, além disso, tudo é nebuloso, tudo é indiscernível, tudo é confuso. E não somente os amigos, mas uma China inteira de gente considera a motocicleta uma ferramenta absolutamente reprovável, como se a pobre motocicleta, um ser absolutamente inanimado, fosse capaz de se esculachar ao chão porque acordou de mau humor.
          Por outro lado, há aqueles que não veem na motocicleta o menor perigo, a menor necessidade de maiores cuidados ao seu uso. Por exemplo, não sei se já perceberam, mas o motoqueiro fortalezense é o sujeito mais ocupado da cidade. Sim, não há uma classe de pessoas, de trabalhadores, mais ocupada que a classe dos motoqueiros. Têm tantos e tantos afazeres que estão sempre atrasados para o próximo compromisso. Por isso, presumo, estão sempre a correr, a ziguezaguear, a furar o sinal, a subir a calçada de pedestres, a trafegar na contra-mão, enfim, a se utilizar de toda possível artimanha que encurte seu trajeto e seu tempo nas ruas. É notável, em consequência desse comportamento, o desamor do motoqueiro fortalezense por sua própria vida. Se se detesta tanto a si mesmo, que dirá a seu semelhante. Se menospreza tanto a própria vida, que dirá do sentimento que nutre pelas leis e pela autoridade.
          Assim, eis que acabam por se contrapor o míope e o irresponsável. O míope se torna míope porque se utiliza da lente de visão utilizada por essa súcia de motoqueiros que perambula pela cidade como uma chuva  de mosquitos tóxicos. Eles, os míopes, não percebem que a motocicleta é mortal porque o motoqueiro assim o é. E ponto final. Eis aí a constatação da miopia de toda uma China: o problema não é a máquina, mas o seu operador.
          Entre míopes e irresponsáveis está justamente o motociclista consciente, aquele que se utiliza daquilo que a motocicleta oferece de melhor: economia, ecoamizade, rapidez responsável, geração de maior espaço nas vias, menor custo do estacionamento... Dentre eles fico com os primeiros dado que sua miopia não contribui para o aumento das contas públicas em gastos com saúde, nem com o pagamento de seguros utilizados em ausências evitáveis no trabalho ou em mortes, nem em concessões de aposentadorias precoces para inválidos. A miopia do míope apenas e tão-somente prejudica sua visão da inteireza da realidade. Ele culpa o objeto ao invés de culpar o verdadeiro (ir)responsável: o motoqueiro suicida-homicida-autoflagelador-lesionador corporal. 
          Nada disso teria a mínima importância se o motoqueiro troglodita fosse única e exclusivamente um suicida. A parte suicida de sua irresponsabilidade seria a única desejável do ponto vista da sociedade. Dirá alguém que menosprezo o suicida, já que o brasileiro confessou-se, durante os últimos catorze anos, o cidadão campeão de justiça social em todo o globo, dado a interpretar a irresponsabilidade alheia como uma mera resposta à sua exclusão social ou uma consequência de sua falta de oportunidades. O suicida seria, aos olhos do bom brasileiro, uma vítima de todos. Eu, que não sigo a manada em sua correria ao abismo, penso que o suicida é, antes de tudo, um corajoso, um desesperado, um sofredor incurável... Acima de tudo, o suicida anseia por terminar aquilo que já não tolera: a própria vida.
          Mas, vejam que coisa interessante. Numa visão schonpenhaueriana, ao suicida parece faltar apenas um dos instintos básicos da preservação da vida: o medo da morte. Tudo indica que a coragem de causar a própria morte, o desespero em viver, ou o sofrimento que sofre na vida são maiores, bem maiores nesses indivíduos que o medo de morrer. O motoqueiro suicida ou, melhor, o motoqueiro fortalezense, ao contrário, não se sabe suicida. A princípio, em nada se assemelha ao sujeito que sobe quinze a vinte andares de um prédio na intenção precípua de dar cabo da própria vida. Não, a princípio não. O motoqueiro fortalezense assemelhar-se-ia ao suicida do edifício apenas à hora do salto irreversível. As manobras irresponsáveis do motoqueiro são o equivalente ao salto daquele. A única diferença entre o salto do suicida consciente e o passeio do suicida inconsciente é que este último apenas flerta com a morte. Sim, cada vez mais perigosamente o motoqueiro irresponsável flerta a morte como a desafia-la. O salto é 100% mortal, ao passo que as peripécias do motoqueiro nem tanto. A volição do motoqueiro torna-se, assim, a medida de sua timidez, de seu acanhamento em morrer. É exatamente neste momento que o motoqueiro mostra-se um canalha de marca maior.
          Se morresse logo, antes de se fazer vítima mutilada a dar despesas e trabalho para a sociedade; se logo morresse antes de matar ou mutilar terceiros; se morresse de imediato antes de danificar o patrimônio público ou privado, o motoqueiro irresponsável seria o mais perfeito e o mais venerável suicida. Traria dor apenas àqueles que o amam. (Sim, não somente os brutos, mas também os idiotas amam.) Pouparia o resto de nós de sua frustrada utopia com a campa. Eis aí as razões que me levam a afirmar que o lado suicida do motoqueiro irresponsável é o único desejável. Mesmo sua mutilação pessoal é execrável e digna de forte reprimenda, na medida em que traz ônus social. Daí porque as autoridades constituídas deveriam providenciar imediatamente um meio de proteger a sociedade da ação nefasta e deletéria desses pusilânimes fracassados do suicídio, protegendo-os de si mesmos ao trancafiar-lhes em prisões de segurança máxima.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

MINHA INTUIÇÃO ME DIZ QUE NÃO...

            Confesso: procurei exaustivamente – escrutinando currículos, histórias e estórias – um candidato a prefeito que preenchesse aquilo que considero o mínimo necessário para exercer o cargo. Ora, mas quem sou eu? Nada sou, eis a verdade. Sou apenas mais um mísero eleitor em meio a esse caos de ideias e de pretensões individuais e, quem sabe, de pretensões coletivas.
            Confesso ainda mais: não assisto à propaganda política de nenhuma espécie. Perguntar-me-ão, então, como teria sido essa procura. Diria que me utilizo, principalmente, dos fatos e da intuição nesta penosa busca. Haverá alguém que dirá que a intuição não é uma boa conselheira, ou que a intuição não se vale de dados concretos, ou o que quer que seja que tente diminuí-la como ferramenta de escolha e decisão. Alguém já disse, acho que um financista, que “a intuição é, na verdade, um monte de conhecimento acumulado que fica escondido”. Então, eis aí tudo: utilizo-me do conhecimento escondido que tenho. (Se bem me lembro, disse também o financista que esse conhecimento nos fica escondido no subconsciente, ou onde quer que nos caiba na mente, ou sabe-se lá onde. Entretanto, não há que duvidar – ele está lá.)
            Ainda assim, não nos prendamos tanto a ela. Fiquemos com os fatos contra os quais, como diz o chavão, não há argumentos. Há contra os fatos apenas uma, e somente uma, inconveniência – sua abundância. Sim, abundam os malditos fatos. São tantos, e tantos, e tantos que quase desisto de continuar. Escolhamos, assim, uns poucos deles para seguir nessa tentativa de explicar meus critérios na procura deste ser etéreo que é o candidato a político. (Notem que alguns candidatos, a maioria quero crer, já são políticos, ao passo que outros estão se candidatando precisamente a isto – a ser político. Este último estará se aventurando pela primeira vez. Evitemos entrar a falar do que dizia Aristóteles sobre ser o homem um animal eminentemente político, que a coisa pode ficar muito complicada.)
            Há, nesta cidade, uma penca de fatos... ou melhor, uma penca de absurdos a vicejar em seu dia-a-dia e que passaram ao largo das discussões e discursos dos senhores candidatos a prefeito. Por exemplo, a ocupação diária indiscriminada e criminosa dos espaços públicos por vendedores ambulantes; por exemplo, o caos no trânsito ocasionado por motoristas e motociclistas que minuto a minuto fazem das ruas estacionamentos ou praças de guerra onde a lei do trânsito não vigora, simplesmente não vigora; por exemplo, a realização semanal e criminosa de feiras públicas que obstruem ruas, avenidas, praças e qualquer logradouro que se preste a espaço de negociação e vendas, como verdadeiras lojas a céu aberto.
            Taxei de criminosas as supracitadas realidades fortalezenses porque, segundo consta, tais práticas são proibidas por lei municipal. Corro o risco de passar um atestado de ignorância com esta afirmação porquanto a lei possa ter sido modificada em tempo recente e isso não ter chegado ao meu conhecimento. Contudo, afirmo, com certa petulância, que, se tal ocorreu, estará a nova lei institucionalizando a barbárie e a injustiça fiscal.
            Antigamente havia o rapa. E o que era o rapa? Resposta: o rapa eram os fiscais da prefeitura que chegavam sorrateiramente para confiscar os produtos vendidos nas calçadas e nas ruas das cidades, munidos de completo aparato policial para fazer valer a lei. Estava-se na rua quando, de repente, ouvia-se o brado inconfundível: –“Olha o rapa!” Era, então, o pandemônio, uma correria geral com gente arrastando as bancadas e a muamba pelas ruas secundárias em meio ao povaréu que ia e vinha. Então, pergunto aos meus raríssimos leitores: – onde, em nome de santo Epitácio, foi parar o rapa? Novamente respondo: o rapa não existe mais. E o que significa o sumiço do rapa? Ora, significa exatamente a barbárie e a injustiça para com os comerciantes que andam dentro da lei. E nem estou a falar das feiras onde se vendem produtos roubados!
            Eis, então, que pergunto: – qual candidato falou sobre a intenção de fazer cumprir a lei? Repito, não assisti a nenhum debate, a nenhuma propaganda política no horário reservado na televisão, a nenhum comício. (Houve comício?) Mas, arrisco sem medo de errar – nenhum deles falou sobre o tema. E por que não falou? Porque o político brasileiro é um pilantra que só pensa em sua carreira. E estamos conversados. Ele evita temas “antipopulares” receoso de perder votos. Ora, há aqui um evidente pacto de mediocridade entre o povo que detesta a lei e o político que quer se tornar prefeito. As obras conquistam o povo medíocre enquanto a lei...
            Falou-se que iriam melhorar a saúde do município. Vejam bem – prometeram melhorar a saúde do município! A doença mais prevalente nesta decadente cidade é a violência. Pois o senhor atual prefeito, candidato à reeleição, está a erigir um hospital anexo ao maior centro médico de atendimento ao traumatizado do Nordeste, o Instituto Dr. José Frota (IJF). A violência grassa solta, célere, incontida, irrefreável... Que se ideou fazer? Outro hospital, outra obra. Não sei se percebem. O povo talvez veja nisso uma grande realização, mas... e a violência? Não seria mais barato e mais humano conter a violência? Parece que não. Está aí o pacto medíocre. E sejamos francos – nenhum dos candidatos pode fazer algo para conter essa praga que se alastra entre nós. Digo isso e percebo que estou enganado. Eles podem fazer algo: cobrar com seriedade das instâncias competentes a que tomem medidas urgentes para tal. Não cobram. Não querem se indispor com seus comparsas, digo, aliados. Seu discurso é evasivo quanto ao ponto nevrálgico da questão. Estão lucrando com a violência, eis a verdade.
             Dessa pobre e tendenciosa reflexão lastreada em fatos gritantes do dia-a-dia de uma cidade miserável cujo povo se vendeu faz tempo, concluí o inexorável – não há um que preste. Sim, nenhum tem moral, estão todos vendidos, exatamente como o povo que há de elegê-los. Enquanto isso, as ruas repletas de bandeiras, as carreatas, os “santinhos”, os debates vazios que só se prestam a discussões inúteis e infrutíferas, tudo uma encenação patética, uma pantomima cruel. Educação, escola, emprego, trabalho... sobre tudo se fala, sobre tudo se promete uma medida salvadora, enquanto não têm coragem de fazer cumprir uma única e mísera lei, a título de exemplo. Dá para acreditar em alguma coisa que saia dessa fornalha maldita? Minha intuição me diz que não...