quinta-feira, 20 de novembro de 2014

SÓ OS QUEIXOS!

          Seu Honorato foi logo dizendo:
          –“Doutor, tô só os queixos"...
          Aqui no Ceará, “estar só os queixos” tem um sem número de significados, a maioria deles relacionada ao estado físico da pessoa. Por exemplo, ela pode estar muito cansada; ou muito doente; ou muito abatida. Às vezes a pessoa diz “estar só os queixos” numa forma de brincadeira, como um chiste, ou para quebrar o gelo. Seu Honorato, apesar da idade e de estar de volta para uma consulta médica, queria fazer pilhéria.
          Emendei:
          –"O cabra que tem 90 anos tem mesmo que estar só os queixos”...
          Ele riu-se e concordou. Examinei-lhe e perguntei, como sempre faço quando ele vem:
          –“E como vão as menininhas do bairro? Ainda dando mole”?
          Ele riu-se a valer. Quando veio a primeira vez, perguntei-lhe se ainda namorava. Para minha surpresa, admitiu convicto:
          –"Quase toda semana, doutor!" A filha, que sempre o acompanha, diverte-se um bocado com nossa facécia. Presumo que veja no pai, nesses momentos, uma vitalidade insuspeita. O amor que dura uma vida há de durar para além da morte.
          Dali a pouco ele retruca:
          –“Isso aí num pode parar nunca; a gente só para quando morre”...
          Quando concluí a prescrição, ele disse, assumindo suas inexoráveis alterações fisiológicas:
          –"Doutor, o homem só é gente até os 50”...
          Mesmo assim, voltei a perguntar:
          –“E as menininhas”?...
          Rindo novamente, passou de um lado ao outro nos lábios as pontas dos dedos unidos no conhecido gesto que significa “estou com todo mundo no papo”. E saiu pela porta andando lentamente, o corpo recurvado, combalido mas não entregue à desistência.
          Agendei-lhe o retorno para daqui a um ano. Voltará?, pensei. E concluí: – sem dúvida aqui estará em um ano. Não é à toa que se chega aos 90.

domingo, 16 de novembro de 2014

UM BRINDE DE MENTIRINHA

          Entra ano e sai ano, e é sempre a mesma coisa. Amanhã, por exemplo, faz mais um ano o meu amigo Sérgio Moura. Se me perguntarem quantos anos faz o homem, nada direi. E não direi por uma simples razão: – não saberia a resposta. E direi mais ao incauto questionador: – não tenho como saber. 
          Os amigos quererão ver uma má vontade em minha atitude. Afinal, o que custaria para mim bater o telefone ao amigo e lhe fazer a  pergunta? Diria primeiramente ao amigo, para não espantá-lo: –"Como estás, ó Sérgio"? Ele, que muito gosta de falar de política e de seus tempos baianos, entabularia uma conversa qualquer ao final da qual eu, pegando-o de surpresa, diria: –"Ó, Sérgio, quantos anos completas amanhã"? (O confabulatório havia de ser hoje, impreterivelmente.) E havia de ser justamente neste ponto da conversa onde os problemas começariam.
          Uma parte dos leitores há de se lembrar que o Sérgio detesta fazer aniversário. E não falo somente do aniversário-festa, mas também do aniversário-envelhecer. Sim, acreditem os que ainda não haviam tomado conhecimento desta singularidade do amigo, mas é verdade. O Sérgio não conta o aniversário como um ano a mais, mas como um anos a menos. Ao se comportar dessa maneira, o amigo deixa de invocar a vida e passa a invocar a morte. É uma consequência inevitável. 
           Fácil perceber, após o esclareciemento do assunto, a razão da impossibilidade de se conseguir a informação pretendida, qual seja, a nova idade do amigo: – ele não a revelará nem a tiro. Para ele, o simples ato de dizer, por exemplo, "56" – não saiam por aí a ventilar que estou afirmando ser esta a nova idade do amigo –, já levaria o homem a ter cólicas desidratantes e dispnéias cianosantes. 
          Sei que haverá alguém mais esperto que se apressará a sugerir que, ao invés de tentar obter a informação diretamente do aniversariante, corramos a obtê-la de sua mulher. É possível, é possível. Contudo, há, desde já, a forte suspeita de que nem ela o saiba. Sim, porque o homem atormentado por esse tipo de fantasma torna-se, com o tempo, cada vez mais lacônico sobre o tema. Como o Moura casou-se já maduro, quase podre, supõe-se que nem mesmo a mulher tenha conhecimento da idade do homem. Por outro lado, e como fosse bastante discreta, sua mulher seria a cúmplice perfeita para guardar o segredo, e mais que segredo, o assunto mais indesejado de sua vida. 
           Há ainda outra questão, digamos, de etiqueta social. Não se deve, mesmo aos mais íntimos, estar a fazer perguntas consideradas de foro estritamente pessoal. É rude, é inconveniente, é deplorável. E, na verdade, não tenho o menor interesse na idade do amigo. Quero mesmo é beber de seu uísque! Até o ano passado eu costumava ligar para o amigo na véspera para cobrar-lhe o regabofe, mesmo sabendo de suas idiossincrasias e temores. O resultado invariável de minha intervenção era a promessa que jamais seria cumprida.(A festa pelo aniversário do ano passado ainda não aconteceu. Por aí se vê...) Tanto fez o homem que aprendi. Este ano nada cobrarei, nada direi, nenhum suspiro darei. 
          Confesso: – escrevi todo o trecho acima à véspera do dia do natalício do Sérgio. Subitamente fui, ao momento em que escrevia, acometido de um sono incontrolável e renitente, de modo que o deixei de lado e fui aos braços de Morfeu. Tencionava concluí-lo ainda ao mesmo dia, de modo que houvesse uma coerência temporal entre ele e a vida. Mas, não me perguntem por quê, o fato é que deixei o texto para lá, talvez influenciado pela certeza da indiferença com a qual meu amigo trata o passar de seu tempo. Pensava cá com meus botões que um dia haveria de concluí-lo. Ou não. Não seria a primeira vez que começaria a desenvolver idéias que poucos dias depois ganhariam um sabor amargo ou insosso, sendo por mim abandonadas sem a menor cerimônia.
         Contudo, vejam como a vida é cheia de surpresas e repleta de alternâncias. Hoje, ou melhor, ontem abro a rede social e me deparo com o que para mim foi um susto. O meu amigo Sérgio Moura estava se expondo àquela rede! Sim, o homem estava sendo parabenizado por uma China de amigos! Ao que me conste, ele lá não divulgara a data de seu nascimento de modo que, presumo, os que o parabenizaram já deviam ser conhecedores da mesma. Como na rede tudo se espalha como o caminho de pólvora progressivamente carcomido pela chama que avança, outros, e outros, e outros, e mais outros passaram a tomar conhecimento da festividade da data e vinham, também, felicitá-lo. Seria para mim a prova de uma mudança radical e definitiva se o meu amigo houvesse resolvido publicar a data de seu aniversário. Ainda assim, concluí que, sim, houve uma mudança digna de nota na maneira como ele está a encarar a data. Vejam o que ele diz lá: "Parabéns pelo tempo dos meus 55 anos". Ou seja, o homem confessou a idade com todos os efes e erres! Ora, vivas! 
          A coisa não parou por aí. Para meu espanto e respiração suspirosa, o Sérgio escreveu, bem ali na rede social, um texto onde se declara passado na casca do alho e – já o assumi – um homem maduro mas ainda não apodrecido, talvez apenas em vias daquilo que a inexorabilidade do tempo não perdoe. Fala de suas cãs e de suas linhas, de seu ventre um pouco abaulado, e de seu descaso para com a opinião alheia sobre si mesmo. Foi, com efeito, um texto típico de gente entrada em anos, estafada da lengalenga alheia, de saco entupido da conversa pra boi dormir. Conclusão: – foi um bom e oportuno desabafo. Nada mau para quem trancafiava-se a sete chaves por anos a fio ao dia de seu natalício.
          Entretanto, faltou o lado prático do manifesto. O amigo em nenhum momento de seu texto convocou os comparsas a juntarem-se a ele para o velho, desejável e desejado regabofe. Donos de um solar provido de deque e piscina, o amigo e a mulher bem poderiam ter dividido com os mais chegados os momentos de descontração tão agradáveis nesses momentos da vida. Até porque o dia foi um sábado, excelente para tais regalórios. Em vez disso, que fez o Sérgio quando lhe bati o telefone, tão logo lhe li a lauda? Resposta: – fez o que sempre faz, ou seja, não me atendeu a ligação. 
          E então percebi a verdade contundente e cruel: – Sérgio mudou um mísero e pseudoperceptível angstrom. Escondeu-se, como todos, na rede social, na nuvem da virtualidade onde o abstrato mais habita do que existe. Na concretude da realidade preferiu virar fumaça e, mais uma vez, sumir. Desconfio que o fez com receio de que eu, também mais uma vez, cobrasse o regabofe como faço todos os anos. Enganou-se o amigo. Liguei apenas para informar-lhe que estava a preparar mais um texto por ocasião de seu aniversário. Um texto resignado sobre o regabofe que, tenho certeza, jamais realizar-se-á. E aí ficaria a pergunta? Cadê o brinde que o Sérgio propôs em seu texto? Só agora me ocorre: – o brinde foi tão virtual quanto a mudança do Sérgio...

sábado, 8 de novembro de 2014

AQUI NÃO SE USAM CASACOS

          Aqui não se usam casacos, ou sobrevestes, ou botas. Certa vez presenciei a gozação de alguém por alguém usar essas botas que só se usam em lugares de clima frio. Riam-se da outra, pobre mulher.
Somos pobres. Mas agora, ou melhor, já há algum tempo, temos como conseguir dinheiro mais facilmente – mas não menos barato - para financiar certos sonhos. Os sonhos são, via de regra, uma demanda por aquisição material, de modo que o dinheiro consegue realizá-los com alguma facilidade. Certas felicidades só se concretizam com esses caprichos evanescentes.
        Ainda que se escrevessem bilhões e bilhões de Eclesiastes, ainda assim não seriam lidos. O único que foi escrito até hoje quase ninguém lê. É uma questão muito simples – a verdade é pessimamente recebida. Detesta-se a verdade. Não há um único e mísero ser humano que dela goste. Mesmo que esteja ali, cristalizada, desenhada no espelho, marcada nos lençóis, a verdade é abominável, deplorável, algo parecido a um animal desprezível e peçonhento.
          Deixemos o Eclesiastes que há muita gente a jogar suas Bíblias ao lixo. Usemos outra fonte, o A Doutrina de Buda, do Siddharta Gautama. Lá as verdades, digo, os ensinamentos são em tudo semelhantes aos do Eclesiastes, exceto pelo fato de Salomão confessar seus erros e insensatezes ao Deus que abandonara. Talvez devêssemos ir também ao escritos de Aristocles, vulgo Platão, que acreditava na perenidade de uma essência do homem, numa alma sobrevivente, numa vida no além e, sobretudo, nas verdades que ensinam que as virtudes e o desprendimento nesta vida são as verdadeiras fontes da sabedoria e felicidade; ou ainda aos de Sêneca em cartas enviadas ao seu (fictício?) amigo Lucílio, onde pregava o viver uma vida virtuosa e reta como a chave para a paz interior e acesso à admiração e respeito dos homens.
          E o que dizem as verdades, digo, os ensinamentos? Dizem que o estúpido e o insensato buscam os prazeres da carne e as riquezas materiais. Os gregos iam além. Achavam que a atividade política era o meio de que os homens deviam se servir para alcançar a sociedade justa e ideal através do exercício da virtude na função pública e em seu dia a dia.
          Voltemos às botas, aos casacos e aos sonhos. A mulher, uma linda e desavisada mulher, usava botas em plenos pouco mais de três graus de latitude sul, aos vinte e oito graus à noite. Que faziam as outras? Mangavam. Debochavam. E – cá entre nós – o conjunto era lindo e faziam a mulher exalar uma sensualidade incomum. Pensei: é seu sonho. Entre comprar uma passagem para a América do Norte ou Europa, preferiu realizar seu sonho aqui mesmo, com as botas até os joelhos, mesmo com o suor a lhe descer por todos os poros.
          Uma mulher esperta, sem dúvida. Fosse outra teria feito a viagem que não podia com o dinheiro que não era seu. Os outros pobres não dariam a mínima. Afinal, todos estão fazendo o mesmo. O sucesso é ter, numa flagrante afronta a todas as verdades e ensinamentos dos antigos e sábios. E não é apenas uma afronta; chega a ser um pisoteio e um completo desprezo, denotando a aversão àquelas verdades. De fato, nem se ensinam mais essas coisas ou, se ensinam, parece que se está falando de coisas que aconteceram e foram escritas e ensinadas em outro mundo. Fala-se como que de uma terra do nunca, uma espécie de quimera, de loucura a que não se deve prestar muita atenção. Discuti-las serve ao propósito pouco útil de fazer parte do cabedal de conhecimentos de alguém que se interesse um pouco mais.
          Eu não ia escrever nada disso, mas me perdi. Eu ia falar de como nós aqui no Ceará somos pouco criativos e que justamente por causa de nossa pobreza devíamos ser muitíssimo mais inventivos. Se o clima é quente, devíamos usar indumentária própria. Onde estão os estilistas? Criar algo realmente novo para aqui se vestir seria um excelente feito. Ao contrário, vivemos imitando os que moram em regiões mais frias, com seus paletós e roupas pesadas. A linda mulher de botas foi a única vítima da chacota, mas, de fato, todos nós o somos – queremos ter e usar o que não nos é próprio e apropriado.
          Ia falar que não deveríamos ter carros. Somos pobres, carros são caros. Mesmo o dinheiro mais fácil tem um custo elevadíssimo. Comprar carros nos torna mais pobres já que a maioria lança mão do empréstimo, enricando as instituições financeiras e empobrecendo sua família. Devíamos usar motocicletas e bicicletas. Seriamos mais limpos, mais rápidos e menos pobres. Com o tempo teríamos dinheiro sobrando. Até os assaltantes teriam menos o que assaltar e, dentro da pressão por ter o que não podem ter, a possibilidade agora real de também poder ter a motocicleta ou a bicicleta os deixaria menos tentados a recorrer ao crime para consegui-lo. (No fundo a opção pelo crime é uma questão de maus bofes, mas angariemos para nós os arautos dessa – mais uma – insensatez.) Nossas ruas não teriam asfalto; seriaum calçamento perfeito e bem nivelado. (A Companhia de Água e Esgotos poderia cavar e tapar seus buracos com mais rapidez, evitando, assim, deixar os gestores municipais de cabelo em pé por questiúnculas ridículas.) O calor seria menor. Em suma, seríamos mais felizes.
          Enquanto não brota a nossa criatividade, penamos. O cearense está absolutamente convicto de que é o povo mais empreendedor do mundo. Setores da imprensa local, refletindo o que propagam nossos políticos medíocres a quem bajulam, vez ou outra escrevem nos jornais locais essa mentira descarada. Mal sabem – na verdade bem sabem – que empreendedor, por definição, é aquele cuja ideia resolve o problema de muita gente de forma barata e factível. Exemplo: Muhammad Yunus, o bengali que bolou uma forma barata de financiar os pobres. Mas essa é uma história à parte.

A POBREZA DE QUEM TEM

Outro dia falei dos dias modorrentos que se seguem a noites insossas e repletas de tudo o que não se aproveita. Ouve-se de tudo às noites vazias, e a única excelente exceção é a música. De fato, muita vez é a música que nos impele a esses arroubos solitários noite adentro. Não fosse por ela, que razão nos levaria aos riscos dessas noites inseguras? Ainda que às vezes se busque a emoção de encontrar um amigo distante, descobre-se, com imenso pesar, que o amigo está, de fato, mais distante do que se supunha. É cada vez mais reconhecido o distanciamento inexorável daqueles que se dizem amigos. Criam-se primeiramente as necessidades para só depois buscarem-se os meios. Daí estarem todos a correr para longe de si mesmos. Em breve estarão tão distantes que não mais encontrarão o caminho de volta.
Resta a música.
Nesta terra temos grandes e virtuosos músicos, para a sorte dos aventureiros da noite.Chego a pensar que faz parte de nossa pobreza a maneira como encaramos e vemos a arte em geral, e a música em particular. Somos pobres de espírito, acima de tudo; somos pobres de ambição, a boa ambição, motor que impulsiona aqueles que querem uma vida de liberdade; somos pobres por desamor àquilo que o dinheiro não compra. A pergunta que faço é: por quanto tempo perdurará nossa abjeta pobreza? Nossa pobreza não é a mera secura de recursos. Ela é, sobretudo, nossa aridez sentimental, nossa esterilidade de sensibilidade.
          Não se cura pobreza com esmola. Só a abundância de bons sentimentos há de afastar essa chaga que carregamos incrustada na genética de nossa alma. O anjo não disse “paz na Terra aos homens de boa vontade”; mas, sim, “paz na Terra e boa vontade para com os homens”.
Os excelentes músicos desta terra haviam de ser agraciados com um mínimo da terrena boa vontade. Não é o que se vê. O que se vê, e se ouve, é a mais torpe pobreza de desamor à arte. E não falo da tentativa de fazer arte; falo da boa arte, da qualidade superior de arte. Não vai aqui uma defesa vazia e bairrista. Estendamos a crítica à pobreza e o elogio à boa arte também às terras vizinhas, ao país, que seja. Há que pressupor tudo isso porquanto há, com efeito, uma quantidade infindável de boas e belas porcarias em todos os lugares.
O que acontece? Ouvi outro dia, tendo uma boa música ao fundo, o seguinte: –“Não pago couvert artístico!” Eu, que ainda sou dado a indignações tolas e démodé, perguntei: –“Mas...” – fugiam-me as palavras, tamanha a minha perplexidade – “por quê não paga?” Meu interlocutor – na verdade uma interlocutora – explicou que havia uma lei que desobrigava quem quer que não quisesse pagar. “Mas os músicos estão ali, trabalhando, tocando pra você!” Ela tentou me explicar que sempre pagava a conta, onde se cobra também o couvert, com o cartão; e que tinha absoluta certeza de que essa quantia não seria repassada aos músicos.
Eis aí em minúcias a explicação que não explica. Eis aí o primor de idéia que viceja na mente de um raro espécime brasileiro com curso superior, que ganha o suficiente e muito mais, e que se nega a pagar seis ou sete reais para os músicos. Tudo porque tem absoluta certeza de que o empresário da noite não repassa a eles o que recebe. Eis a pobreza de idéia que faz músicos valorosos vítimas do descaso e desprezo de quem deles recebe o melhor. Imagina se todos os que estão ouvindo sua música resolvem fazer o mesmo.
Fernando Cavalcanti, 17.05.2010   

A FORÇA DE UMA VONTADE

        Hoje, relendo alguns textos, descobri como é tênue a linha que separa o que se quer dizer do que não se quer dizer. Aconteceu comigo. Quis dizer branco e disse preto. Ao precipitado fica parecendo que seria um sintoma, um sinal de debilidade mental, de uma fraqueza ou distúrbio na concatenação das idéias. Digamos que essa possibilidade exista. Assumamos, por que não? Existe. Ocorreu comigo, devo repetir.
Eu dizia que os deprimidos são, antes de tudo, oprimidos pelo inconformismo. Não era o que queria dizer. Queria dizer justamente o contrário! De fato, os deprimidos rendem-se ao conformismo, derrotam-se de véspera. Era precisamente isso o que eu tencionava dizer. Essa era minha vontade. No entanto, pus à pena o oposto.
Que lição se pode tirar dessa exuberante traição da vontade do ser pelo próprio ser? A princípio pensei em culpar a vontade em si. Ora, a vontade tem sentidos e querer que se põem em conflito já no pai dos burros. Eis o Aulete sobre a vontade: capacidade de querer e de escolher, de se impelir para a ação, afirmação ou recusa, subjetiva ou objetiva; propensão, tendência. Por outro lado, no mesmo Aulete sobre a vontade: capricho, impulso. Vejam que o exercer de uma escolha presume ação pensada e refletida à luz das razões que movem o indivíduo, ao passo que o impulso e o capricho são escravos do temperamento, da índole e do gênio do ser. Uma é a vontade proativa, aquela que pondera, analisa e só então decide; a outra, a vontade reativa, é automática e, por isso, leviana. São noções opostas sobre a mesma entidade. Conclui-se, então, que a vontade pode, às vezes, guiar o ser aonde não quer ir. Teria sido o caso comigo. O impulso, tamanha a ânsia de dizer, me fez falar o contrário.
         Que outro responsável seria senão a intensidade do sentimento de vontade? Que outro culpado? Digamos que o ser dono da vontade, eu, no caso. Mas, o que sou senão a soma de todas as minhas vontades? Também está no Aulete a vontade arbítrio, que seria aquela que faz uso da capacidade de escolher, “sentimento que leva as pessoas a se comportarem conforme essa capacidade”. Tudo em mim é vontade. Toda minha vida, meus atos e desatinos são produto da vontade. Enquanto respiro, escolho e decido. Se não decido já decidi, se não escolho já escolhi.
Ou, ainda o objeto da vontade, o dizer a ideia e a própria ideia seriam os culpados de meu engodo semântico? É possível que, sim, também o objeto é culpado. Não é ele, afinal, o que queria que vissem, que soubessem, que apreciassem? Queria que soubessem que os deprimidos são oprimidos pelo conformismo. Talvez; e aí surge a avalanche da vontade de também dizer de meu inconformismo com o aparente determinismo da vida. Sai tudo junto numa mesma frase, parecendo a mesma ideia sem o ser de fato.
Então, agora, venho em alto e bom som explicar porque às vezes se escreve o inexplicável. Às vezes dizemos coisas que não queremos dizer e acabamos por dizer o que queremos de forma velada e incompreensível. E tudo por obra de uma enorme vontade que nos aperta o peito. É preciso tê-la subjugada se quiser ser compreendido. Caso contrário, dirão que escrevemos o que não escrevemos, tendo de fato escrito.

Fernando Cavalcanti, 16.11.2010  

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

OS "SÓCIOS"

          Amorim tem um sócio. Não pensem que falo de seu comércio, aquele em que labuta com sua mulher, que ele queria demitir por conta de certa futura e frustrada aventura extraconjugal. Aliás, neste seu comércio não há sociedade: – é autônomo. A mulher é como a mulher do general: – manda mais que o próprio dono, embora não traga seu nome à razão social. A frustração que abateu o meu amigo acabou por abrir-lhe na alma uma espécie de lacuna, de vazio a ser preenchido. Tanto que, mais tarde, depois do episódio que resultou na castração de seu plano, tal vazio foi ocupado da forma mais inesperada e mais inusitada possível.
          Afinal, que raios de sociedade é esta outra onde meu amigo se meteu? Devo ir aos poucos de forma a não chocar meus queridos leitores, sobretudo porque o conservadorismo é ainda prevalente em nosso meio. Tem-se muita dificuldade com o despudor. Dizia o Nelson Rodrigues que o mais forte afrodisíaco é o pudor. Nem a nudez ou a quase nudez, nem a vestimenta sensual, nem uma ou outra droga ou alimento pode ser mais estimulante ao apetite do amor do que o pudor. Daí a nossa dificuldade com o despudor. É compreensível. Mesmo ao Amorim, que esteve solteiro por uns breves e fugazes dias, e que se empanturrou com uma pornografia importada em certa noite de primavera tropical, as cobertas de todas as partes sensuais do corpo são o maior estímulo à caça do sexo oposto. Acredite quem quiser. 
          Deixemos de léria e voltemos ao sócio. Devo acrescentar que o objeto de sociedade que os une deixou de existir há anos. É que este tipo de sociedade não se dissolve jamais, nunca, em tempo algum. Ainda que se evapore a razão de ser da sociedade, os sócios hão de ser eternamente sócios. Quando mortos, serão sócios póstumos. Tal sociedade transcende a vida. O casamento, por exemplo, se desfaz automaticamente com a morte de um dos sócios. Não é assim com a sociedade da qual falo. Não se a lavra em cartório, nem se requerem testemunhas para seu estabelecimento. Sendo o mais franco possível, devo dizer que nesta sociedade não são bem-vindas as testemunhas, como logo se verá. Percebe-se, então, que em tal sociedade não importam os sócios, mas os termos e elos de ligação entre eles.
          Amorim e seu sócio são amicíssimos. E, para acalmar os afoitos e esbaforidos que já antevejo a me olhar de olhos atravessados a querer que eu revele o nome do santo, afirmo peremptoriamente: – não o farei. Sua identidade deve seguir em segredo de Estado, dadas as implicações que podem advir. Afinal, suas mulheres são amigas e labutam no mesmo ramo de seus maridos. A mínima suspeita da existência, ainda que no passado, de tal sociedade, seria motivo suficiente para divórcios conturbados e desgastantes. Por outro lado, é bem verdade que, já tendo deixado de existir o objeto da sociedade, como já afirmei, e dado que os episódios que ora descrevo tenham ocorrido há muitos anos, é também possível que tal revelação tivesse pouco ou nenhum impacto no transcurso da vida de alguém. Em todo caso, e pelo sim e pelo não, a prudência e o sigilo nunca fizeram mal a ninguém, razão pela qual insisto na justa discrição. 
          A prova cabal e gritante da indissolubilidade desse tipo de sociedade é a notória maior aproximação e bem querer mútuo de seus envolvidos. Sim, sabendo-se sócios passam a nutrir um pelo outro uma espécie de respeito maior, que beira a veneração; andam a cochichar pelos cantos, a trocar segredinhos ao pé do ouvido, a fazerem-se confidências indizíveis... Os de fora custam a entender o motivo que os une e se escandalizam ao constatar que, mesmo passados anos a fio, ainda seguem a falar baixinho entre si e com tal e qual languidez que afronta e causa inveja. Olham-se tão ternamente que os mais maldosos se erguem em suspeitas infundadas. Com efeito, estão absortos em sua cumplicidade indissolúvel. Quando se põem a conversar, dir-se-ia que se esquecem do mundo em volta, e se alguém lhes aborda é notória a pressa em se desfazer do incauto e intruso. 
          Ora, tudo começou há anos quando ambos eram plantonistas da mesma equipe, um cirurgião, o outro mais ainda. Os tempos eram românticos e, embora usassem alianças, não se sentiam ligados por laços tão fortes quanto pretendessem os outros. Até que travaram conhecimento com aquela que seria o verdadeiro elo entre ambos: – Amanda, uma linda e estonteante acadêmica do último ano de medicina. Serei o mais sucinto possível. Ambos se viram enamorados da pequena. E passaram, cada um sem se dar conta do outro, a flertar-lhe o quanto lhes era possível em meio aos plantões turbulentos e estafantes. Devo dizer que ela era a catarse de ambos em meio àquele cenário de sangue, urina, fezes e outros odores degradantes. A gente feia do entorno exacerbava-a como a uma Vênus fora de seu altar. E sonhavam, cada um na intimidade, com o dia em que a teriam nos braços. Cada um percebia o galanteio do outro, mas não se consideravam rivais nem concorrentes. Antes desprezavam um ao outro por duvidarem que ela cedesse às investidas, e ao mesmo tempo crescia em cada um a admiração e respeito mútuos, por serem cúmplices declarados naquela paixão espontânea por espécime tão raro do gênero feminino. Esse aparente paradoxo não lhes passava despercebido, e vieram a prevalecer os sentimentos mais nobres. Com o tempo, cada um percebia a crescente intimidade do outro com a beldade, mas a atribuíam à sua refinada e austera educação. Era filha de um militar de altíssima patente que, sabia-se, primava pelo rigor na educação das filhas. Por isso ela se mostrava tão expansiva e segura de si à frente daqueles dois gigantes filhos de Esculápio. 
          A cada turno de plantão nenhuma novidade surgia, de modo que a ideia reinante era a de que ninguém lograra êxito em seu intento principal. A verdade, porém, é que ambos estavam saindo com a Vênus sem o conhecimento do outro. Assumamos sem rodeios: – ela de tola e austera nada tinha. Estava mais para Sylvia Saint do que para Letícia Sabatella. Em suma: – estava a enamorar-se de ambos, que se sentiam tão envaidecidos por serem objetos “únicos” da escolha daquela beldade raríssima. Quando tomaram conhecimento do fato, não se pense que houve alvoroço ou constrangimentos. Firmaram, com efeito e em silêncio, uma espécie de pacto. Diferentemente dos clássicos triângulos amorosos cujo destino está fadado à tragédia, fechou-se o cerco do triunvirato e ambos, Amorim e o outro, se queriam ainda mais entre si numa amizade sincera: – eram sócios usando chapéu de touro e nariz de palhaço. Sócios dos e nos prazeres de uma beldade ímpar. Como não se puderam excluir mutuamente, ganharam forças em sua sociedade enamorada. E ficaram ainda mais amigos no correr dos anos, mesmo e até depois da partida de seu objeto de desejo.
          Faltou-lhes descobrir, entretanto, se houve mais alguém, dentro ou fora do hospital, que também tenha se servido, sincronicamente, das carnes da pequena. Se houve, pedem-me os sócios, que avise-me com discrição. Eles me cederam procuração a fim de formar um ou dois times de futebol society a se enfrentarem numa confraternização de Natal nos campos da Rogaciano Leite. Tudo muito sigiloso e com direito a duas cervejas ao final do embate. E sem nenhum ressentimento por parte de ninguém.   

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

DEMISSÕES

          O sujeito que sofre uma frustração pode, finalmente, ir dormir sem medo. Ainda mais quando é a mulher a causa e, por que não dizer, o efeito do episódio. Sim, porque não sei se sabem, mas a causa e o efeito podem residir num ente único, num fator solitário e singular. Prova disso nos deu a mulher do Amorim. Que fez ela? Simples: – previu a tragédia e a evitou. Ainda que o efeito desejado por meu amigo tivesse tudo para ocorrer, e daí a sua frustração, o efeito oposto resultou, na verdade, em sua redenção e sua paz. Se suas artimanhas viessem ao êxito, talvez eu estivesse aqui fazendo um discurso de velório, finalizado com o epitáfio a ser escrito mais tardiamente na laje. Sim, porque o crime passional existe desde que o mundo é mundo, embora fosse, até há pouco, uma atitude tipicamente masculina. Aos dias de hoje, entretanto, também a mulher mata, também a mulher trucida. E como mata bem a mulher! Mata tão bem que o sujeito fica mortinho da silva, sem possibilidade de reanimação. Com efeito, a mulher, aos dias de hoje, não somente mata mas também mutila. Os amigos hão de se lembrar do caso ocorrido em 1994, com o norte-americano John W. Bobbit, que teve suas partes íntimas decepadas por sua mulher Lorena. O fato rodou o mundo sabe-se lá quantas vezes antes que o homem se submetesse a um procedimento cirúrgico para a reimplantação do membro. Sem rodeios, no final a senhor Bobbit teve alguma sorte. A mulher, após lhe cortar fora o pênis, lançou-o a um gramado em local ermo. Para sua felicidade, não apareceu, até o término das buscas, um animal faminto que transformasse o órgão do rapaz em refeição. Bastava-lhe isso para a amputação inexorável e definitiva. Em todo caso, faltam informações abalizadas que confirmem o sucesso funcional da delicada operação.
          ​O que ocorreu foi o seguinte. Amorim, que é homem conhecido por sua irremediável fidelidade – seu apelido é “ferrolho” -, foi convidado a participar, com outros profissionais de seu ramo de negócios, de um ciclo de palestras no Sul do país. O evento seria promovido por empresa que fornece produtos ao seu comércio. O diabo é que o convite partiu da linda e estonteante representante comercial da empresa, que o visitava com regularidade no escritório. Verdade seja dita: – as visitas são de praxe, dentro dos conformes, fazem parte da rotina. Até aí nada digno de nota. O entrevero começou quando a beldade, segundo o próprio Amorim, passou a ser nitidamente enfática da necessidade imperiosa de seu comparecimento ao evento. Tão insistente foi a moça que a secretária do amigo não pôde deixar de estranhar e, todos sabem, uma mulher vê a intenção da outra a quilômetros de distância. A jovem não poupava indiscrição e dava a entender, sem a menor sombra de dúvida, que lá, durante o conclave, ela estaria sempre a seu lado e que ele nada teria com que se preocupar. E, até onde entendi, os olhares da pequena deviam ser brilhantes e lascivos. Ele precisava ir! Percebem?
​          Tomou conhecimento do fato dona Fulana, mulher de meu amigo, acho que por intermédio da referida secretária. Digamos que a funcionária fosse dessas senhoras conservadoras e zelosas, que não permite que uma pouca vergonha ocorra diante de seus olhos sem que se tome uma atitude condizente. Dona Fulana trabalhava com o marido na empresa, mas se ausentava com frequência para ir a bancos ou resolver outras pendengas. A secretária se perguntava por que a jovem sirigaita não estendia o convite à sócia de meu amigo, justamente a esposa. E concluía de si para si que naquele mato estava para sair coelho. Por outro lado, dona Fulana sabia muitíssimo bem que Amorim é ferrolho, mas não um ferrolho legítimo, feito de ferro fundido moldado e preso na porta a fim de correr pelo mesmo trilho e a entrar e sair da mesma fechadura. O "ferrolho" Amorim é de carne e osso, de modo que "o espírito está pronto, mas a carne é fraca" e o ferrolho de carne perde, assim, toda confiabilidade de um ferrolho propriamente dito. O apelido, se descobre, é só uma aproximação da similaridade, nunca uma medida exata daquela. Por tudo isso, dona Fulana pouco ponderou antes de agir. Nem era preciso.
          Amorim, após consumada a frustração, relatou-ma em evidente pesar. Tal reação nos permite concluir, sem muita dificuldade, que o homem estaria ansiosíssimo para subir no avião com a beldade e que, por conta desse desejo insaciável, revelou-se um safado e enrustido ferrolho. Assim que soube, pela secretária do marido, do que estava a ocorrer bem debaixo de seu nariz, dona Fulana chamou-o a um canto e disse-lhe: 
          –“Não vai viajar coisa nenhuma"!... Foi sumária assim, sem meias palavras. Ele ainda quis redargüir, argumentar, negociar, que o evento era importante, que não podia faltar, que perderia uma grande oportunidade... mas não teve jeito. E em mais uma única frase a mulher expediu o decreto-lei: 
          –“Não vai, e estamos conversados!” Ele, que além de ferrolho é um barriga-branca de carteira e sindicato, baixou a cabeça e assentiu. Se fez beicinho e esgar de choro não se sabe, mas a ordem da mulher caiu-lhe como balde d'água gelada. 
          Porém, a mente humana não descansa, não sossega... Desde o passa-fora da mulher, o homem entrou a imaginar e a lucubrar sobre fatos que ocorreriam no futuro do pretérito e em todos e noutros tempos verbais. E perguntava de si para si: –"E se minha mulher não trabalhasse comigo"? "E se não tivesse tomado conhecimento da viagem"? E se perguntava, numa obstinação doentia, o que teria acontecido se houvesse viajado de fato... E, perdido em si mesmo e absorto no desejo e na magia perpetrada por uma jovem e bela mulher, deixava-se ficar, o olhar perdido no horizonte escuro e ilimitado... O sonho e a tentação quase se faziam matéria real, objeto palpável e concreto, como qualquer sensação tátil que se percebe ao usar as mãos e a pele... A sensação de frustração era a única em toda sua vida. Pelo menos que se lembrasse.
          No dia e na hora marcada para o embarque, ainda envolto nas fantasias de sua mente sonhadora, pensava: –"Deve estar embarcando nesse minuto"... e o olhar se perdia na etérea imagem só vista por sua imaginação. 
          Ao encerrar o relato do drama, regado a choros e protestos por tamanha fofoca disseminada pela incauta funcionária, chamei-o à responsabilidade. Disse-lhe que parasse de se torturar imediatamente, já que a falta do ato não o eximia da culpa. A traição estava na intenção, ficasse bem claro. Tinha era muita sorte, já que a mulher não mais quis remexer no assunto, contentando-se apenas em lhe abortar as maliciosas ações que estava para praticar. Fosse mulher de outro tipo, ia fazer e acontecer até ele contar-lhe em detalhes o que sua cabeça maldosa estava tramando. Imagine ele sendo obrigado a admitir que estava de olho na pequena e que lá longe, onde a vista da mulher não alcançasse, iria traí-la como nunca fizera até então!... E se tivesse por fim realizado seus sonhos e saciado seus desejos, quem poderia imaginar onde isso iria parar? Ao final, provavelmente levaria um pé na bunda da mulher e da amante. Ajudei o amigo a concluir que a secretária fizera-lhe, na verdade, um grande e inestimável favor. 
          Ao ouvir-me citar a secretária, o amigo encheu-se de furor, levantou-se colérico e, dando um murro na mesa, fuzilou: –"Pois agora mesmo vou demitir essa bruaca"! 
          De lá saí com a nítida impressão de que ele cogitava demitir também a mulher. Não sei é se vai ter coragem...