segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

CRENTES NUM dEUS NATIMORTO

          Outro dia escrevi que a verdade anda nua. Um amigo quis saber, dada a ambigüidade da frase, se a nudez da verdade seria uma característica temporária, sazonal, ou se, ao contrário, ela lhe é inata e inerente. Ao amigo devo dizer, sem medo de errar: – a verdade é permanentemente nua e sempre nua; nasceu nua e há de morrer nua. 
          Ora, os vestidos mudaram-nos a estética. De nus passamos a cobertos. Nossa nudez terá sido nossa última felicidade. A cobertura nos tirou a felicidade. E nos removeu também a inocência. Vejam os bebês. Em sua nudez são felizes e castos. Não sabem que estão nus. Na verdade, nada sabem. São puros como os pássaros que cantam à aurora. 
          Não vou escrever sobre a verdade e a mentira posto que choverão protestos a imputar-lhes uma eterna relatividade, e não me sinto capaz de tantas e tão complicadas incursões em tema tão espinhoso. O que eu queria contar aos leitores é que também uma amiga me escreveu para dizer que nosso complexo de vira-latas, descrito por Nelson Rodrigues em sua crônica intitulada “Complexo de Vira-Latas”, é-nos atávico. Ora, há uns caras aí da “esquerda” que estão a se utilizar politicamente do tal complexo para, talvez, imputar à “direita” certas falas e discursos e, tomando para si a posse da verdade, dão a entender que o Brasil e o brasileiro são capazes e grandiosos. (Escrevo direita e esquerda entre aspas porque no Brasil não há, de fato, direita e esquerda. Mas isso é outra história.) 
          O diabo é que, ao se utilizar do que escreveu o Nelson, esquecem de levar em conta o contexto de seu texto. Pois bem. Contextualizemos.
          “Complexo de Vira-Latas” foi publicada na revista Manchete Esportiva ao dia 31 de maio de 1958, às vésperas do início da Copa do Mundo na Suécia. De fato, foi a última crônica escrita por Nelson  antes da estréia do escrete naquela competição. A Seleção Brasileira de futebol já havia deixado o solo pátrio e reinava uma descrença e um negativismo geral na nação quanto às nossas possibilidades de sucesso naquele certame. Diz lá o Nelson, duvidando que pudéssemos ser tão pessimistas: -“Não será essa atitude negativa o disfarce de um otimismo inconfesso e desavergonhado”? 
          Tamanho pessimismo teria sido cria da derrota para os uruguaios em 1950, em pleno Maracanã lotado, na final. Diz lá ele: –“Dizem que tudo passa, mas eu vos digo: menos a dor-de-cotovelo que nos ficou dos 2X1... O tempo passou em vão sobre a derrota”. E conclui claramente: –“E, hoje, se negamos o escrete de 58, não tenhamos dúvida: – é ainda a frustração de 50 que funciona”.
          Então, estavam os 60 milhões de brasileiros da época descrentes de que pudéssemos trazer a taça. Por sua vez, o Nelson concluía e, por que não dizer, demonstrava que tínhamos todas as condições de sermos campeões. Descrevia o que acontece com o jogador brasileiro em estado de graça: criativo, habilidoso, genial, superior a todo e qualquer outro craque de qualquer outra seleção. O que atrapalharia o jogador brasileiro seria justamente o que chamou de complexo de vira-latas, “a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo”. E ressalta: –“Isto em todos os setores e, particularmente, no futebol... É um problema de fé em si mesmo”. O conselho do cronista vem ao final: –“O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender, lá na Suécia”.  
          "Complexo de Vira-Latas" compõe uma coletânea de crônicas de futebol organizada por Ruy Castro e publicada em livro, "À Sombra das Chuteiras Imortais", em 1993 (http://www.faroldoconhecimento.com.br/livros/Educação%20f%C3%ADsica/Metodologia%20do%20futebol%20e%20do%20futsal/À_Sombra_das_Chuteiras_Imortais_-_Crônicas_de_Futebol_-_Nelson_Rodrigues.pdf). Tempos depois Nelson admitiu: -"O brasileiro não está preparado para ser o maior do mundo em coisa nenhuma. Ser o maior do mundo em qualquer coisa, mesmo em cuspe à distância, implica uma grave, pesada e sufocante responsabilidade". Vejam que após a visão de que o brasileiro se coloca inferior aos outros povos por falta de fé em si mesmo foi, depois, substituída por uma outra visão, a de que não estamos preparados para as graves e pesadas responsabilidades que outros povos assumiram e que, por isso mesmo, os tornaram grandes.
          Quem sabe o que diria Nelson Rodrigues ao ver o futebol praticado por nossa Seleção na última Copa do Mundo em terras tupiniquins... O que diria ele sobre a qualidade de nossos jogadores... De "algo único em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção", nos tornamos engessados e medíocres, nada criativos, nada patriotas... O que diria ele, enfim, de nossa humilhante derrota para a Alemanha por 7x1? A verdade é que ela não nos causou tanta humilhação assim. (Em 1950 éramos os franco favoritos e jogávamos pelo empate contra o Uruguay. Perdemos de virada, o Maracanã lotado: – 199.854 pessoas estavam lá àquele dia, o maior público que o Estádio Mário Filho viu até hoje.) 
          E que será que diria o Nelson?, um descarado anticomunista, um deslavado reacionário, um ferrenho defensor da liberdade de expressão, um homem de imprensa livre, patriota convicto e atento em suas crônicas à constante ameaça comunista que nos ronda desde que a revolução bolchevique eclodiu e saiu vitoriosa na Rússia e depois na China? ao ver o estado lamentável em que nos encontramos? Um país sem justiça, sem segurança, sem saúde, sem educação, sem livre concorrência, sem meritocracia, onde a corrupção nas altas esferas atingiu patamares intoleráveis e repugnantes... 
          Ah, minha cara amiga simpatizante!, o atavismo que nos prende ao atraso vem da colônia, vem da Matriz, de fato, como todo bom atavismo. Há quase um século nos persegue o comunismo, tentando nos incrustar de vez as suas garras mortais, dadas as nossas tendências primevas, herdadas de nossas proibições primevas, de nossas explorações primevas, de nossa improdutividade primeva, de nossos primevos assistencialismo e paternalismo... Tornamos-nos perfeitos, um primor de nação, um primor de consciência social da necessidade do falido comunismo. Ele está morto, mas nós ainda estamos aqui. Sabe-se lá por quanto tempo. Hoje nossas tragédias demonstram que, de fato, não temos vocação para sermos sérios. Seria até legítimo dizer que, de fato, voluntariamente nos posicionamos inferiormente face o resto do mundo. Não por falta de fé em nós mesmos, mas por adorarmos um deus natimorto. Mais de 54 milhões de adoradores.   

domingo, 21 de dezembro de 2014

A VERDADE ANDA NUA

          Veio à mesa onde eu estava com amigos. Disse: 
          –"Quero falar contigo... Vem aqui um bocadinho"?...
          Assenti num gesto com a cabeça e o acompanhei. 
          Sentamos-nos um defronte o outro. A mim era uma situação no mínimo engraçada, eu ali com aquele deplorável e petulante sujeito. Metido a besta, seguramente tinha de si a mais elevada expectativa, os mais elevados conceitos. Tudo muito diferente do que eu pensava. Digamos que não seja correto julgar-se alguém, mas esse sujeito tornava isso bem difícil, posso garantir.
          Foi direto ao ponto: 
          –"Ouvi dizer que escreveste um texto falando mal de mim"... 
          Fez uma breve pausa e completou: 
          –"É verdade"?
          Devo fazer uma confissão. Com efeito, devo fazer mais de uma confissão. A primeira é a de que não sou indivíduo dado a conflitos corporais, mas reconheço que o chavão que diz que quando um não quer dois não brigam é a mais cristalina mentira. Se um quiser meter a mão nas fuças do outro, nada impedirá. Assim, é preciso se utilizar de alguma paciência e sobretudo inteligência se quiser evitar ser esbofeteado, inda mais quando se está diante de um sujeito que mede o dobro do seu tamanho. 
          A segunda é que não, não escrevi nenhum texto falando mal do referido elemento. A verdade é que havia escrito, algum tempo antes, um texto onde assumo ter para com ele todas as reservas do mundo. Nada mais, nada menos. Não o taxei de idiota, ou desonesto, ou qualquer coisa semelhante. Disse apenas que não gostava dele, e ponto final. 
          Por isso respondi-lhe na bucha, e muito tranquilo: 
          –"De forma alguma". 
          Ele insistiu. Alegou que alguém havia lhe informado que, de fato, o texto não mencionava o nome de ninguém mas que, assegurou-lhe esse alguém, todos sabiam que o sujeito em questão, a quem eu me referia e de quem não gostava, era ele mesmo. 
          Numa fração de segundo ponderei que não havia porque eu lhe confessar meu desgosto por ele, e por uma simples e óbvia razão: – ele seguramente sabia o que eu sentia,   ou melhor, o que eu não sentia por ele. Alguém quererá saber como ele poderia saber, e direi que qualquer pessoa sabe, e sente, quando alguém não gosta dela. 
          Não satisfeito, retornou:
          –"E sobre quem escreveste? quem é essa pessoa sobre quem escreveste"?
          Respondi-lhe olhando-o firme nos olhos:
          –"Rapaz, essa é uma questão extremamente pessoal e me resguardo o direito de não revelar o que não foi revelado no texto". 
          Bebi um gole da cerveja que trazia à mão e finalizei:
          –"Era só isso"?
          O homem, então, passou a "encher linguiça". ("Encher linguiça", cá no Ceará, significa conversar assunto sem importância, conversar conversa tola ou absolutamente desinteressante.) Uma sensação de infinito tédio passou a se apoderar de mim, de modo que já nem prestava atenção ao que dizia. Dali a pouco nos despedimos.
          Relatei o episódio acima apenas para me referir à rede social. A rede social, ao menos avisado, é uma armadilha tentadora. Enquanto na vida real somos, vez ou outra, impelidos ou obrigados a situações adversas como a que acabo de me referir, na rede social a armadilha é a exposição desmesurada e – pior! – a exposição necessária ou, dito de melhor forma, a incontida necessidade da exposição. 
          Há de existir pelo menos um psicólogo a estudar as razões que nos causam essa necessidade e aguardamos ansiosamente a conclusão de tão esclarecedor estudo. Por hora, apenas a constatação há, a menos que esteja desinformado, o que não seria uma surpresa visto que, hoje, sou um sujeito que foge da  informação como o demo foge da cruz. Alguém dirá que vivemos à era da informação e que informação é tudo, e direi que sim, é verdade. Vivemos, com efeito, à época em que informação representa a diferença entre o bem e o mal, entre a abundância e a escassez e até entre a vida e a morte. O problema é que, justamente por ser de importância capital, a informação virou produto semelhante a qualquer outro produto na vitrine ou na banca do supermercado. Há a informação classe A, que traduz a verdade e, por isso mesmo, útil, e há a informação classe Z, que nos conduz ao equívoco e ao erro. 
          Os amigos a essas alturas hão de estar de cabelo em pé, temendo por mim. Por isso, em alto e bom som declaro: – não é para tanto e, garanto, não é para tanto. Rejeito a informação sim, mas a informação que me trazem sem pedir, que me oferecem gratuitamente ou que me trazem por uma pechincha. Essa informação, grosso modo, é como o produto exposto à vitrine. A informação útil, para mim, no meu melhor entendimento, é a que busco, a que pago caro por ela, a que não está tão na vista assim. A informação "consensual", a informação "popular" está, toda ela, contaminada e mais que contaminada, está infectada com o cancro do ideologismo e da ignorância. 
          Pode parecer incoerente que uma informação traga ignorância, mas é exatamente isto que está a ocorrer. Não há de ser a primeira vez que isto acontece na história do mundo. Basta lembrar do Goebbels e sua máquina de propaganda. De fato, o Goebbels montou um rolo compressor destruidor de úteis e boas informações e construtor de um castelo de mentiras e equívocos cujo caráter se expôs ao final. É justamente algo semelhante o que estamos assistindo no momento. 
          Sim, sim, a rede social propaga a informação-exposição absolutamente inútil, mas também propaga a informação ideológico-ignorante. Sejamos justos: – eventualmente, não raramente, nos deparamos, na rede social, com a informação boa e útil, mas essa lá é rara. O que abunda na rede social é a informação-exposição e a informação ideológico-ignorante e, diria até mais; diria que a rede social está, cada vez mais, produzindo informação semelhante àquela fornecida por nossos jornais. Como sabemos, a informação de nossos jornais é podre e superficial, ideológico-alinhada e absolutamente incrível. Eis aí, verdadeiramente, o que nos proporciona a rede social em matéria de informação. 
          Alguém dirá que muito estranho é que justo eu esteja a fazer tais considerações; justo eu que me exponho as entranhas em textos que mais se assemelham a um corpo submetido a vivisseção ou a um cadáver semidecomposto à margem da estrada... Direi que minha exposição é a da catarse, necessária à minha saúde mental e física, um processo fisiológico inerente à mente e ao coração... Diria que, ademais, os textos não são informativos, não pretendem informar. (Há em mim a arraigada consciência sobre o quão grave e sério é informar. Por isso e por necessitar submeter toda informação ao crivo dos fatos e das provas, não me permito informar. Os jornais, órgãos cuja missão principal é informar, o fazem sob fortíssimas suspeitas de subserviência, favorecimentos e, o mais grave, omissões.)
           Imaginem se eu, inutilmente e levianamente, revelasse meu desgosto e reservas pelo fulano de tal do qual falei ao início? Seria, talvez, alvo de um processo ou de uns bons sopapos e solavancos. É preciso manter-se à parte de litígios inúteis assim como das informações de semelhante caráter. Ambos nada acrescentam e em nada ajudam. Sua existência deve ser admitida, mas a compulsão para declará-los deve ser controlada. Não devemos tentar convencer ninguém de que estão no mau caminho. Eles, por sua vez, pensam o mesmo dos que estão ao lado da informação correta. 
          Quem quiser saber se está baseando suas decisões e sua vida em informações corretas que espere. O futuro dirá. A mentira tem pernas curtas, muitas facetas e vestidos, ao passo que a verdade anda nua. Por isso mesmo ela escandaliza.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

MENTES HERMÉTICAS

Quando muito se pensa, muito se pensa. E pensar não é lá uma tarefa fácil. Pensa muito quem muito está consigo mesmo, em silêncio, sem as intromissões frequentes ou ocasionais d’algum intruso. Por isso não é fácil pensar – há sempre intrusos a nos desviar a atenção. Cuidem lá não se pensar que me refiro a alguém. Muitas e muitas vezes o intruso é um objeto ou um aparelho – um telefone, um rádio, uma televisão. Conheço uma penca de gente admiradora e espectadora da novela; exemplifica da vida o que ocorre na novela; marca o compromisso para depois da novela; chega à casa a tempo de e correndo para ver a novela. Eis, então, a novela a servir de intruso.
            Eu queria escrever e não conseguia. Não tinha sobre o que escrever ou, melhor, tinha tanto para dizer que já nem sabia por onde começar. Tantas coisas estão a acontecer, e tantos estarrecimentos a me impactar que não sabia por onde começar. Nem sabia se devia começar. Os sinais que capto me dizem que seria um bom momento a ficar calado. Só pensar. Não tenho intrusos a me distrair. Não os permito. Os dois monitores de televisão que tenho ficam calados quase todo o tempo. Escolho não ouvi-los. Nem permito que a novela exista para mim. Alguns amigos e amigas se referem, quando saio a encontrá-los, a algum personagem da novela e minha ignorância fica patente em minha cara de imbecil.
            Já bati em tantas e tantas teclas que, mesmo assumindo minha obsessão para justificar-me, desisti momentaneamente de voltar a trazê-las à baila. Muitos desses temas requerem o tempo a lhes emprestar a força do argumento com o qual argumentei. Ainda assim, temo que este mesmo tempo de nada sirva. Ora, percebi inúmeras vezes que muita gente não entendeu bulhufas do que escrevi; ou entendeu o sentido oposto. Ou – pior! – entendeu o que nitidamente seu pré-conhecimento lhes ordenava entender. Percebi, então, a verdade contundente: não se lê com a mente aberta. Não generalizemos: muitos não leem com a mente aberta. Dizendo de outra forma: muitos leem com a mente da pré-conceituação e do dogmatismo. Por isso, o que quer que esteja escrito, será lido sob a lente de tais amarras.
Ainda hoje, no hospital, me dizia o meu querido Ciro Ciarlini: -“Nenhum de nós presta!” Queria ele informar da constatação antiga: todos os seres humanos estão em falta. Todos nós erramos. Dito assim, parece que o amigo estava a ventilar o óbvio. Falávamos dos que vivem a pelejar no mesmo erro. Ora, há os que erraram e mudaram. Há os que cometeram injustiças e cujo sono lhes fugiu ao peso do remorso e da ânsia do perdão. Há estes que experimentaram o fel de praticar o mal. Meu amigo falava daqueles cujo mau ato causa-lhes gozo e deleite. Há também daqueles. E há também a imensa maioria dos que se amoldaram desde o princípio. Nada questionaram. Não se refizeram. Não se reconstruíram. Encontraram nos dogmas seculares seu regozijo e felicidade. Aceitaram-lhes sem um rabisco de correção ou dúvida. São destituídos da prazerosa curiosidade, mesmo com as evidências a lhes esmagar as ideias; mesmo com os gritantes e eloquentes sinais dos malefícios de seus acalentados dogmas.
São tempos difíceis. Ou talvez nem o sejam tanto assim, não diferente de algo que tenha ocorrido tantas vezes no passado. O que se pode aprender em setenta ou oitenta anos? Quem, em sã consciência, se habilitaria a remover de cima de si mesmo um entulho de toneladas de dias e anos? É preciso ter coragem ou não dar tanto valor assim à vida. É preciso ter coragem.
Eu não sabia sobre o que escrever. E escrevi sobre nada. Quem puder entender talvez diga que escrevi sobre tudo.

Fernando Cavalcanti, 23.09.2010          

BANANAS

     O que está havendo com as bananas, alguém pode me dizer? 
Estou seriamente comprometido em descobrir o mistério. Estou pensando em consultar o Bacana, profundo conhecedor da fruta e propagador de seus benefícios, ainda que não seja biólogo ou engenheiro agrônomo. Não importa. Quem conhece a fruta é quem a aprecia, como o Bacana. 
Devo lançar mão da opinião de outros. Por exemplo, tenho uma amiga que pediu uma graça e fez promessa ao santo – se a recebesse, passaria um ano sem comer... bananas! Isso bem demonstra como bananas são frutas desejadíssimas. Ela nada tem reclamado. Vai completar um ano sem comer uma mísera e única banana – o santo providenciou-lhe a graça.
Devo, antes de continuar, e para que não pensem que estou de chacotas e folguedos, explicar a razão de minha angústia sobre as bananas. O caso é que já vão aí umas três ou quatro semanas que só compro bananas de má qualidade. Mudei de supermercado e – crau! – bananas de má qualidade novamente. Conclusão: os supermercados não têm culpa no cartório dessa vez. Só por ser um chato resolvi visitar três ou quatro supermercados diferentes. Querem adivinhar o resultado? Nem precisa.
Então, a única coisa que se pode deduzir de toda essa história das bananas é que alguma praga atacou todas as plantações da fruta no país. Somos um país sem bananas. Já estou me programando para maio, quando irei à Europa – lá matarei meu desejo de comer bananas. Sei de um lugar nos Países Baixos, um supermercado, onde comprei, na última vez em que lá estive, suculentas e roliças bananas-prata. Sobre elas, amarelíssimas na casca e com aquele talo esverdeado, a etiqueta “Brazilian Bananas”. O sabor não era esses balaios todos, mas há de ser melhor do que comer banana estragada.
Vamos começar pelo começo. Comprei bananas estragadas e pensei: o Alzheimer me pegou. Tão novo e abatido na flor dos quase cinqüenta por distúrbio tão degradante. Sim, porque quem escolhe não há de escolher o estragado. Escolhe o estragado quem perde a capacidade de escolher. Até então só escolhia bananas perfeitas, de vez, para não estragar logo. Elas amadureciam ali, na fruteira, bem amarelas, até ficarem prontas ao abate. De repente, as cascas amarelas, se observadas melhor, apresentavam pontos escurecidos, e a consistência já não era tão firme. Ao descascar, a surpresa: banana estragada. Não toda ela, mas parte. Tinha de dissecar a fruta, extirpar áreas feias e amolecidas, como se fora um tumor maligno.
A repetição do fato em vários supermercados me livrou do diagnóstico funesto. Doente mesmo só as bananas. Do país inteiro, do Oiapoque ao Chuí, do Xapuri a Cabedelo, um país inteiro de bananas doentes e podres. Outro dia – terei sonhado? – li que a safra havia sido perdida. Se foi perdida a safra, de onde vieram as bananas podres? A safra está sendo vendida assim mesmo?
Alguém pode me dizer o que acontece com as bananas?

Fernando Cavalcanti, 11.03.2011

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

A IGNORÂNCIA INERCIAL

          Hesito justamente porque não sei bem por onde começar. Todo começo é difícil e este não poderia ser diferente. Vejam que poderia começar definindo o que chamo de ignorância inercial. 
          Ora, ignorância inercial remonta-nos aos bancos do ginasial, onde aprendíamos os conceitos da física newtoniana. Os que não gostavam do tema que me perdoem, mas a compreensão da expressão requer um mínimo de entendimento da matéria da qual não gostavam. E para que se não diga que sou um sujeito petulante e metido a besta, dou uma ajudinha. É o seguinte.
          Inércia, no contexto da física, é a tendência de todo corpo a permanecer como está, na ausência de uma influência externa. Assim, inercial é aquilo que se refere a essa inércia. Ignorância inercial seria, então, uma tendência a permanecer ignorante, uma vez que já se o foi um dia.
          Com efeito, todos já fomos ignorantes um dia, no sentido mais puro e nada pejorativo do termo. Também já fomos imbecis, idiotas, estúpidos, trogloditas e o que quer que se queira mais dizer do ser humano quando na verdura dos anos e, insisto, ainda muito longe do sentido pejorativo. À medida que passa o tempo, entretanto, o pejorativo passa a fazer parte de nossas possibilidades e probabilidades porquanto se nos achegam os vícios e os maus pensamentos. Tornamos-nos, de puros e inocentes imbecis, nos mais hediondos idiotas.  A pureza e a castidade nos abandonam em algum momento, o mais provável paulatinamente, e passamos, qual o híbrido da égua com o jumento, a azurrar e relinchar. A partir de então saímos a ornejar nos púlpitos, nas páginas dos jornais, nos palácios governamentais e nas câmaras legislativas, e até em livros considerados, depois, obras de arte de cunho elevadíssimo que se tornam best-sellers mundo afora. Mas a coisa não para por aí. 
          Os ignorantes inerciais mais legítimos, aqueles que padecem da ignorância inercial que acabamos de definir e descrever, não se encontram na categoria dos que escrevem livros ou dos que compõem músicas que ganham festivais, mas entre os que se perdem nas plagas comuns da vida, entre aqueles que estão correndo a toda velocidade no match que Robert Kiyosaki chamou de "a corrida dos ratos". Estes aí são também os mais vulneráveis a sofrer sob a influência angustiante e enervante do "efeito manada". São médicos, professores – esses principalmente! –, advogados, enfermeiros, dentistas, engenheiros e, os campeões da ignorância inercial e do corporativismo, os funcionários públicos. Para bem caracterizar a liderança incontestável do funcionário público no quesito ignorância inercial, lembro aos poucos e minguados leitores o que me cobrou certo dia o meu amigo Ciro Cialini. Aos que não se lembram, faço um sumário do episódio.
          Outro dia, estávamos ali no hospital meu amigo Ciro e eu a prosear durante uma  pausa para um café, quando ele me interpela e afirma categórico:
          –"Mas, olha, és funcionário público e funcionário público tem que ser 'de esquerda'"!
          Eis aí, numa única reprimenda, toda uma concepção, toda uma idéia e, mais que uma idéia, toda uma lição sobre ignorância inercial. O Ciro, expoente da Cirurgia Cardíaca deste glorioso Ceará, alimenta com lagosta e camarão a noção de que todo funcionário público tem que, obrigatoriamente, ser "de esquerda". O diabo é que há uma claríssima explicação para o modo de pensar de meu amigo, ele próprio funcionário público ao mesmo tempo que é dono de seu próprio negócio.
          É do conhecimento geral que o Brasil é o país do funcionário público. Verdade seja dita. Em que pese o discurso muitas vezes propalado em nossa marrom e bairrista imprensa de que somos um país de empreendedores, sabe-se que o país tem um dos piores ambientes de negócios do mundo. O sujeito que se aventura a montar o negócio próprio por aqui é, antes de mais nada, um sonhador inveterado e renitente para depois se tornar, dentre os poucos vencedores, um teimoso e, quando perdedor, um nostálgico arrependido, esses a esmagadora maioria. Por isso ensinamos nossos filhos a estudar, tirar boas notas, ir para a faculdade e fazer um concurso público. 
          Como um salutar, competitivo e pujante ambiente de negócios representa a alma do capitalismo, e como não estamos dispostos a competir perenemente, preferimos concorrer apenas uma vez na hora da prova para a repartição pública onde pretendemos trabalhar. Competir a vida inteira, renovar idéias, criar e recriar novos sistemas é coisa que não faz parte de nossa "tradição" e cultura laborativa. Assim, fica bem explicadinho o porquê de não sermos, nem por decreto nem por vontade de qualquer ditadura, um país capitalista. Por isso somos uma massa de funcionários públicos que vive a reivindicar melhorias salariais em greves intermináveis e entediantes onde discursam aqueles que um dia pretendem se candidatar a alguma função política. Eis aí porque funcionário público e esquerdista se tornaram, no Brasil, sinônimos. Ao Ciro, sendo empresário e funcionário público, pesa bem mais ser o último, posto que aí reivindique vantagens perenes ao seu contra-cheque enquanto dia após dia, todos os dias, vai ao caixa do banco pagar as intermináveis e cumulativas obrigações tributárias que o governo lhe exige. Conclui, sem dificuldade, que o bom mesmo é ser o assalariado, posição que dói apenas pelo diminuto e injusto provento ao fim do mês, enquanto como empresário as dores são diárias e nada compensadoras.
          Dito isso, fácil fica demonstrar que somos um país de ignorantes inerciais. Dizem lá os estudiosos que "cultura é o modo como fazemos as coisas por aqui". Pois bem. O modo como fazemos as coisas por aqui traduz a nossa maneira de pensar, resultado de nossa ignorância primeva. Pensamos o país como um grande feudo onde o poder central toma conta de todos. Qualquer coisa diferente disso é taxada de "capitalismo" e deve ser repudiada. 
          Há mais. Por conta do pensamento inerente ao funcionalismo público, só pensamos em nossos direitos. Ato contínuo, pensamos o país como o provedor de todos os direitos a que nos convencemos serem nossos. Como ganhamos uma miséria, vingamos-nos do governo e de nossos concidadãos decretando, irrevogavelmente, o fim de todos os nossos deveres. Somos direitos e mais direitos, e somente direitos. Não falamos em deveres. Chegamos ao cúmulo de subverter e inverter o que disse John Kennedy. "Não pergunte o que seu país pode fazer por você, mas o que você pode fazer pelo seu país", eis o que ele disse. 
          Vivemos a indagar e a cobrar por nossos direitos, precisamente por o que o país pode fazer por nós. Em contrapartida, nada queremos fazer pelo país. Às favas o país. Que o digam os cerca de 30 milhões de brasileiros aptos a votar no último pleito e que se abstiveram, ou anularam seu voto, ou votaram em branco. Com o país soçobrando na mediocridade educacional, no caos econômico e social, na barbárie da ausência de leis, esse mar de gente deu-se ao luxo de ignorar a importância de seu voto diante de um momento divisor de águas. Nem falemos naqueles mais de 52 milhões que disseram "sim" a toda essa desordem, a toda essa parafernália "cultural". Sim, porque o partido do governo não é um partido; ele representa uma cultura, tal qual a definição acima. Ele representa "um modo de fazer as coisas" absolutamente subversivo para a ordem, como bem demonstram todos os números e índices e, mais que os números e índices, como bem demonstram as mudanças para pior na vida das pessoas.
          Somos um país sem deveres. Em nome de uma "dívida histórica", herdamos um país de direitos, e de direitos somente. Podemos matar, roubar, prevaricar, corromper porque é nosso direito fazê-lo. Não temos nenhum dever. Nossa ignorância inercial exige, manda, determina que somos um povo condenado a suprimir nossos deveres e exaltar nossos direitos. Por isso nosso contrato social promove o caos e a desordem. Rousseau diria que o brasileiro foi o único povo que renegou suas idéias por pensar e levar a cabo o primeiro e único "distrato social" de que se tem notícia. 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

DESPEDAÇAR-SE SEMPRE...

          Vejam os amigos o que acontece ou, melhor, o que não acontece quando o indivíduo se recolhe em si mesmo. De fato, o que acontece, nessas circunstâncias, só acontece no universo interior do indivíduo. Esse universo único é povoado de pensamentos, sentimentos, impressões, anseios, dúvidas... O universo interior de cada um é o palco das idiossincrasias e incoerências, das especulações, das certezas e incertezas... Tudo o que lá acontece afeta nossa vida interior e o modo como sentimos, pensamos e vemos o mundo. Nenhum fato lá ocorre. Assim, fácil é perceber que, se se pretende escrever sobre fatos do mundo real, não se o conseguirá vivendo uma vida inteiramente interior. 
         Por exemplo, comigo. Pouco antes do segundo turno das eleições presidenciais deste lamentável país, tomei a firme decisão de não acessar informações veiculadas pela mídia. Ora, façamos a pergunta inevitável e cuja resposta tem a aparência do óbvio: – o que é a mídia? Resposta: – tudo hoje é mídia. Até um amigo que traz uma informação pode ser considerado uma "mídia". 
          Estava eu a conversar com amigos ali no hospital e um deles disse: –"O Pelé melhorou"? Longe de toda e qualquer "nuvem" de informação, perguntei: –"Pelé está doente"? E foi assim que soube que o rei do futebol estava internado no CTI. Imagino que toda a imprensa escrita, falada e televisada esteja dando conta da doença que acometeu o Pelé. Ontem Bella me contou, tristinha: –"Morreu o Chaves"... Disse-me que o assunto está estampado na rede social e é uma choradeira só. Assim, a rede social é também uma "mídia". 
          Agora, vejam a impressão que causaram em mim a doença do Pelé e a morte do Chaves. Ademais, a informação dando conta de determinado fato ou evento nunca preenche todo o nosso continente de conhecimento. Não satisfeito, perguntei: -"Quantos anos tem o Pelé"? Disseram: -"Setenta e cinco". Dei-me conta, então, de como está velho o rei do futebol. A Bella perguntei: -"Mas... já não havia morrido o Chaves"? Ela respondeu: -"Essa é a primeira e única vez que ele morre"... Assim, a conclusão a que cheguei, para minha tristeza e alerta, é que o Pelé é hoje um idoso e que o Chaves é hoje um cadáver. Triste e humilhante sina é a do ser humano, mesmo o mais famoso, mesmo o mais endinheirado... Não pude deixar de pensar em como estaria melhor se houvesse permanecido em minha cava e profunda ignorância. Poupar-me-ia a ciência de verdades tão contundentes e irremediáveis.
          Bem se vê que os fatos estão fora do indivíduo, ao passo que, no mundo insondável de cada um, não há fatos, nada "acontece". Assim, um sujeito como eu, que escreve sobre fatos e comenta sobre eles, fica num mato sem cachorro quando resolve se enclausurar em si mesmo. A única alternativa que resta é escrever sobre seu mundo interior que, a partir de então, de insondável nada tem. Há que tomar uns comprimidos com doses cavalares de coragem e de destemor. 
          Entretanto, após uma breve reflexão chega-se a uma conclusão inexorável, qual seja, a de que não há como separar os fatos exteriores de nosso universo interior. A não ser que gastasse o tempo inteiro a dormir, o ser humano está permanentemente a cotejar uma vida e outra, um universo e outro; está continuamente a comparar o que sente e o que pensa com os acontecimentos da vida, como se se medisse em tempo integral, como a comparar o que crê com os fatos do mundo "real". Assim, dessa forma, o máximo que se pode conseguir ao bloquear as informações provenientes das mídias é, na verdade, bloquear uma pequena parte dela. Nunca, enquanto vivo for e se não estiver em coma, o ser conseguirá fugir à esmagadora presença dos fatos, à inexorável realidade que nos rodeia e que não arreda pé. 
          Mas... Por que incorri nessa divagação aparentemente destituída de nexo? Garanto: – foi absolutamente involuntário. Ou, talvez, não tão involuntário assim, posto que aí estão descritos os freudian slips, os atos falhos, definidos como verdadeiras "traições" que o indivíduo perpetra contra si mesmo, permitindo que venha ao conhecimento de outros aquilo que quer, de fato, manter em sigilo, como a avalanche que desce a montanha arrastando o que encontra pela frente. Talvez quisesse autoexplicar a mim mesmo o porquê de tão pouca inspiração para escrever quando, no mundo real e, principalmente, no universo interior permanece tanto a ser dito. Ora, há escritores que não se intimidam frente às próprias repetições. A elas retornam sem medo e sem dissimulações apenas para revisitar aquilo que para eles é, digamos, cláusula pétrea e, como tal, devem ser sempre expostas a fim de que não esqueçam a sua razão de escrever. Devo confessar que a mim me escapou, a princípio, essa clara e cristalina verdade. 
          Entretanto, assumo que possa ter-me confundido, levado justamente pela mesmice dos fatos do mundo real. Sim, o mundo real – fácil é perceber que mesmo o mundo real de alguns é inteiramente diverso do de outros – é de uma mesmice entediante. Da mesma forma, o mundo real ou os mesmos fatos impactam de forma diferente diferentes pessoas. O que a mim parece ser uma repetição torturante do mesmo, a outro parecerá uma melodia de variações diversas tocada em tonalidades diferentes. 
          Em todo caso, digamos a verdade: – não me importa o que o outro vê ou sente quando estou para deitar ao papel o que eu vejo e sinto. O que escrevo é como um pedaço de mim que se desprende de meu "eu"; é como um fragmento do meu ser que deixo para trás imorredouramente. Assim, importa o que eu vejo e sinto, e só. Cada um que dê vazão ou guarida ao que é seu. De mim sei eu, e ainda que dissesse que de mim não sei, ainda seria eu quem deveria buscar-me e achar-me ou, ainda, deixar-me ir de vez. Certa dia disse-me o amigo Glauco Kleming: –"Só a arte transcende a vida". Num contexto de vida humana condenada a se perder para a morte caso não haja ressurreição, de fato só a arte transcende a vida. De algum modo será verdade a afirmação do amigo. O tempo dirá. Enquanto não chega o tempo, "só a arte transcende a vida", e vou me despedaçando de mim mesmo nessa estrada, como os restos de minhas células mortas que abundam sobre meu leito e sobre o chão onde habito. 
          Se não escrevo, me empanturro de meu mundo insondável e não me "despedaço" como devo, correndo o risco de carregar às costas e – pior! – na alma a tralha que o mundo defeca, incorrendo-me no perigo de me contaminar e me putrefazer como a maioria dos homens. As repetições que porventura repita são inexoráveis porquanto as fezes do mundo hão de ser sempre as mesmas dia após dia, todos os anos de uma vida, e mesmo que diferentes seres sintam de diferentes modos o mau cheiro que daí exala.