sábado, 20 de junho de 2015

UM CONGO COM CARROS E AVIÕES

          Hoje tive a certeza de que nada mudará a face do Brasil nos próximos mil anos. Poderia estar a me referir ao fato de o país estar encravado em solo firme da crosta terrestre, numa distância segura das falhas entre suas placas, o que torna a hecatombe sísmica nacional uma virtual impossibilidade. Mas não. Refiro-me a seu cenário político-sócio-econômico-educacional-cultural. 
          Vejam vocês como muitas vezes temos esses insights a partir de acontecimentos pífios, desses que de tão rotineiros em nada nos chamam a atenção. De fato, e pensando melhor, é justamente essa rotina o grande indicador de certas imutabilidades. Se um fenômeno se repete inúmeras vezes, há nele algo de basal, como o fenômeno da natureza que é explicado pelos arranjos que o deflagram. O fenômeno natural ocorre devido à persistência de suas causas as quais, por sua vez, se manifestam através do efeito produzido, o fenômeno. As estações do ano são um notável exemplo de causas sazonais a levar a alterações no clima e na paisagem dos hemisférios terrestres. Se não há mudança na causa, seguirá a ocorrer o efeito. Ainda bem, para nós humanos que habitamos este belíssimo e aconchegante planeta. Valendo-me ainda do exemplo das estações, ainda bem que nada ainda foi capaz de mudar substancialmente o eixo de inclinação do Terra. Se isso viesse a ocorrer, sabe-se lá – eu não sei, mas os cientistas sabem e coisa boa é que não seria – o que poderia resultar. Concluímos, então, que é muito bom que não haja nada, até o momento, capaz de mexer em mecanismo tão perfeito e delicado. Tal mudança havia de ser catastrófica.
          O mesmo não se pode dizer do ato e da atitude do ser humano. O bicho homem pode, ao longo da vida, mudar ou não mudar. Há no homem mudanças inexoráveis, sobre as quais ele nada pode fazer porquanto independentes de sua vontade, ao passo que outras, ao contrário, só ocorrerão a partir de atitudes diferentes e de maneiras diferentes no agir. Poder-se-ia dizer que das primeiras ele é vítima. A vontade do ser humano é sua e somente sua, inalienavelmente sua. Ela é a mãe do livre arbítrio e a única causa capaz de provocar uma mudança na atitude. Sem ela, ou na ausência dela, o indivíduo será o que outros quiserem que ele seja; na ausência da vontade o indivíduo não será, jamais, causa de algo diferente. 
          Por outro lado, falar em ausência da vontade remete ao ser que não tem vida, ao ser que está morto, donde se conclui que a vontade é inerente e imanente ao ser que vive. Não há ser humano vivente sem vontade. Assim, como podemos admitir ser a ausência de vontade a causa da imutabilidade? Há aqui uma hedionda e intransponível incoerência. Para solucioná-la há apenas uma saída – concluir que a imutabilidade decorre da vontade de não mudar. 
          Assim, chego ao ponto: – não mudar o que urge ser mudado é o grande mistério do brasileiro. Se algo precisa se mudado, qual a razão para não o fazer? Sim, porque é difícil entender que o sujeito caia a sentar-se sobre o prego pontiagudo que lhe penetra a carne, apenas diga “há um prego a me penetrar”, e permaneça sentado sobre ele. Explica tal atitude a preguiça? masoquismo? 
          O que aconteceu foi o seguinte. 
        Justamente na semana em que uma revista de grande circulação nacional traz matéria dando conta da megalomania do recém saído governador do Estado, o senhor Cid Ferreira Gomes, por ter iniciado e deixado inacabadas obras faraônicas em Fortaleza onde foram gastos, até agora, algo em torno de 582 milhões de reais, vem o prefeito da capital, o senhor Roberto Cláudio – que pertence à mesma legenda partidária do ex-governador – anunciar a construção de um anexo ao hospital Instituto Dr. José Frota. 
          A obra está orçada em 74,6 milhões de reais, mas, a julgar pelo histórico de outras obras que se anunciaram no país em geral e no Ceará em particular, ela acabará por custar duas ou três vezes mais. (Minha estimativa é absurdamente aleatória; custará mais, bem mais, mas nunca o que é estimado ao início) Abramos, então, uma banca de apostas para conferir qual será a cifra final, isso sabe-se lá quando. Sim, porque a construção do IJF II, nome que se deu ao novo anexo, tem previsão de início em dezembro do corrente, daqui a seis meses portanto, e prazo de 2 anos para terminar. 
        Cabe aqui outra rodada de apostas – os que aceitarão a previsão de um lado, e os que dela duvidarão do outro. A julgar pelo calendário das obras dos estádios de futebol na última Copa do Mundo, é até possível que elas comecem dentro do previsto, mas a dúvida razoável e inexorável novamente se impõe. Afinal, Brasil é Brasil, o país onde o relógio é apenas um detalhe desagradável na maioria das vezes. O diabo é se levarmos em conta que as obras dos estádios para a Copa quase não terminam a tempo dos jogos. Quanto mais se aproximava o dia da abertura do certame, maior era a velocidade das obras, tudo por conta do atraso em que se encontravam. Para a alegria da torcida brasileira, tudo ficou pronto no devido tempo e a Copa foi um sucesso ou quase isso. 
          (Sucesso é um termo cujo significado, aqui, fica por conta do parâmetro que o usuário está a utilizar para comparação. Sob uma infinidade de aspectos a Copa do Mundo no Brasil foi um estrondoso e retumbante fracasso, o maior deles a ausência completa dos benefícios perenes de infraestrutura que as cidades que sediaram os jogos herdariam. Por outro lado, a vergonhosa derrota, e não só isso, a vergonhosa campanha da Seleção Brasileira pôs por terra o mito de que somos inatamente dotados do melhor futebol do mundo. Ficou claro que, mesmo no esporte, é importante para se obter resultados a seriedade, o comprometimento, o financiamento, o planejamento, o preparo e o mérito. O futebol brasileiro, quem diria, está a adotar as mais nefastas práticas de nossa vida civil e por isso mesmo encontra-se em franca e vertiginosa decadência.) 
          O senhor prefeito afirmou que a construção terá uma duração de 24 meses, como já dissemos, e que pretende entregar a “primeira etapa da obra” até o fim de seu mandato, em dezembro de 2016. Vejam aí que o senhor prefeito já antecipou: – deixará a prefeitura “inaugurando” o que ainda não estará concluído, como estão cansados de fazer os chefes de executivo por este rincão afora. O perigo é o homem não fazer o sucessor e este resolver “embargar” o projeto a meio caminho, outra das características de nossos administradores. Vejam como o que se fazia antes com um certo constrangimento e sem muito alarde hoje se faz desavergonhadamente com antecedência e ao som dos trombones mais estardalhosos de nossa marrom imprensa. 
        Mais uma vez, abramos outra rodada de apostas para ver quem acerta: – o hospital estará pronto, de fato, em dezembro de 2017, 2 anos depois de iniciados os trabalhos como avisou o prefeito? Paremos por aqui um instante. O chefe do executivo municipal nada prometeu; foi claro quando disse que era uma previsão. Critiquemos, mas sem recorrermos a injustiças. Obras públicas são como o mercado financeiro – impossível de se prever. Com efeito, de tão imprevisíveis as obras públicas adquiriram a certeza de sua incerteza... Portanto, após ocorrer o que sabemos irá ocorrer, criticaremos com toda a justiça da crítica lastreada na irremediável e incômoda realidade do momento.
          Eu queria dizer é que, caso se construam mais 10 hospitais em Fortaleza ou, numa manobra mais barata e honesta, se se reformarem e se ampliarem os já existentes de modo a duplicar o número de leitos hospitalares disponíveis na capital cearense, ainda não será suficiente para receber as incontáveis vítimas de nossa guerra urbana e de nossa incompetente medicina primária, aquela em que as ações do Estado são prementes e fundamentais, seja aqui, na China, em Nova Iorque, Tóquio ou Londres. Enquanto o Estado for um ente que existe para si mesmo e ausente de onde sua presença é determinante, seguiremos sendo esse Brasil aí; e enquanto os robertos cláudios seguirem a conseguir votos e se elegerem por se utilizarem de obras feitas com recursos que não são seus para fazerem de conta que estão fazendo o que é necessário, continuaremos a ser um Congo com carros e aviões.