sexta-feira, 13 de maio de 2016

PINTO ENVELHECIDO

Ontem encontrei o meu amigo Pinto Pantoja. Para muitos, simplesmente Pinto. Dizem ser um tratamento mais carinhoso, mais simples. Um nome duplo é sempre mais formal. Sou dos que o chamam de Pinto. Desde o nosso tempo de faculdade lhe tenho esse carinho especial. Então, no meu caso é o carinho que por ele nutro. Assim, quando estou a lhe falar, é Pinto pra lá, é Pinto pra cá, é Pinto que não acaba mais. Quando ele vem à sala e estou no recinto, saúdo-o quase aos gritos: -“Olha o Pinto entrando!” Antigamente, quando discutíamos algum assunto de maior reserva e havia mulheres na roda, dizíamos: -“Deixa o Pinto sair.” E assim nossa amizade crescia com o Pinto.
Pois - pasmem! - quase não o reconheci ontem. Vocês sabem, a velhice é uma merda, como dizia o saudoso Jorge Amado. De fato, é uma merda a velhice. No sujeito habita o espírito jovem, livre, cheio de vida e viço, e o corpo, combalido, não acompanha. Pior: nada se há de fazer, nada se pode fazer. A velhice é uma merda, de fato. Quando falo a frase do Amado, encho a boca no “merrrrda”, ainda prolongando um erre bem afetado. Por isso não me canso e não me importo de repeti-la quantas vezes for.
Voltando ao meu amigo, chocou-me muito a visão de um Pinto mais delgado, mais encolhido, mais flácido. Seus fios de cabelo, que eram brancos e sedosos, deram lugar a uma cabeça acaju. Um Pinto emoldurado em acaju é de chocar qualquer cristão, há de se convir. Dir-se-ia ser outra pessoa, ou melhor, outro Pinto. Para disfarçar meu evidente desconcerto, elogiei-lhe a mudança de stilu. Dei a entender que percebi, na verdade, sua busca por uma melhor aparência, e que meu susto se deveu a isso. Não sei se ele entendeu, mas redarguiu à típica maneira cearense: -“É pra ver se fico parecido com você!” E devolvi-lhe minha sonora gargalhada.
Após esse encontro inédito, concluí que certas magrezas são degradantes, em que pese a noção vigente de que vem sempre a bem do indivíduo. Alguns sujeitos, quando cheios, prestam-se melhor à estética do que secos, como o Pinto. Ninguém que o conheça há de discordar: o Pinto rechonchudo é mais notável. A magreza vem muito bem aos jovens, eis a verdade. Após os quarenta, contudo, traduz sinal ominoso. Não que o sujeito tenha de ser gordo, que não é bom, mas que seja cheinho, roliço, tenso - como foi outrora o Pinto. Aos jovens a gordura, aí sim, é degradante. Lembro o Pinto quando jovem: de uma magreza vertical, incondicional, latejante. Hoje um Pinto em estética hética: uma quase atrofia. Se for para minimizar fatores de risco, como as taxas elevadas de gordura ou pressão, até se entende. A pergunta que se faz é: por que tinha que tingir os cabelos? Um Pinto acaju seria mais agradável aos olhos que um Pinto grisalho? Só as diferentes predileções dirão. Mas, vamos e venhamos, um Pinto seco, chocho, flácido e, ainda por cima, grisalho é algo deplorável e detestável.
          Em todo caso, fiquei feliz ao desanuviar minha primeira impressão. Suas palavras fortes e o passo firme vieram me assegurar que a velhice pode ser uma merda dura e consistente.

terça-feira, 10 de maio de 2016

VICISSITUDES DO AMORIM

Outro dia um amigo me relatou episódios de sua vida particular que me deixaram impressionadíssimo. Na verdade, queixava-se. Reclamava mais do que jumento embarcado. Não estava nadinha satisfeito com a namorada. Ela o tratava como a um pano de chão. Já estava a sentir-se desfiado, gasto, descolorido, encardido como um pano de chão. Cheirava a QuiBoa, segundo ele mesmo.
            Chamava-o de curubal. Imagine! Curubal! Qualquer coisa era motivo para essas desfeitas. Podia estar onde estivesse, na presença de qualquer um, quantos fossem a observar, era a mesma coisa:
–“Curubal”!
            A pequena tivera um namorado em cidade próxima, uma capital vizinha. Sujeito alto, moreno, forte, olhos verdes, um deus grego tupiniquim. Era a descrição feita por ela própria. O homem gostava de farras, noitadas, festas e diversões. Nada de trabalho, responsabilidades, enfim, um borra-botas. Leitura, só de gibi. Artes? Só a de amar. Resumindo: uma quimera feminina do mundo pós-moderno. Coisa de louco!
            Contudo, jovem, bonita, estudiosa, bem empregada, passou a ter acessos de orgulho de matrona. Não era da estirpe que se presta a sustentar latagões desocupados. Merecia homem com pedigree, de genealogia honrada, faltoso como qualquer outro, mas de índole nobre. Aquela situação não podia continuar. Precisava botar ponto final naquela mazela.
            Esbarrava, não obstante, em grave problema de ordem, digamos, biológica. Alguns diriam um problema “de pele”: o cabra era, além de tudo, muito gostoso, um vício. E essas coisas, nós sabemos, não se resolvem. Nunca é possível resolver. Como se diz por aí – é mais fácil o mar secar.
            É justo neste ponto desta trágica história que aparece o nosso Amorim. Dirão os mais afoitos:
–“Entrou de gaiato”!
E direi que não é o caso. Sim, seguramente não é o caso, repito. Amorim a conheceu. O que ele viu nela, ela não viu nele. Eis aí tudo. Ele foi muitíssimo gentil e prestativo. Deu-lhe a mão em situação difícil. Foi quase um pai.
            E o que aconteceu? Ora, todos sabem que Amorim é aquele sujeito honesto, trabalhador, independente – um guerreiro, segundo ele mesmo – e tudo o mais que uma mulher possa apreciar em um homem. Tudo bem, tudo bem, não se compara ao deus de carne que a namorada amava, mas um espírito elevado. Amorim gamou, caiu de quatro. Apaixonadíssimo. Mais atencioso que gerente de hotel cinco estrelas. Arriado. Essa, então, era sua situação.
            Acontece que – como disse o sábio dos sábios – o espírito está pronto, mas a carne é fraca. A namorada estava em presença com o nosso amigo, mas as carnes e o espírito clamavam pelo morenão. Talvez ela culpasse Amorim pelos olhos castanhos, ou pelo seu metro e sessenta, ou ainda por outras medidas mais, quem sabe? E a partir daí começaram os maus tratos. Mensais. Semanais. Diários. Amorim levava uma baita sola.
            Lembro-me do amigo ao início de seu romance: alegre, dono de si, conquistador, encantado de si mesmo. Outras fêmeas arrastavam-lhe a asa. Hoje um farrapo, quiçá um pano de chão. Ninguém mais olha para ele com olhos de desejo. Não brilha mais a sua luz, ofuscado pela aura de certo garanhão olhos cor de esmeralda; derrotado pelo desejo que consome a carne; apagado pelo sopro de um gemido de gozo interminável...