quarta-feira, 21 de novembro de 2012

É amor?

         É amor? quando tudo importa exceto o amor?
         É amor? quando o medo tudo supera e tudo vence, e até o amor?
         É amor? quando sua história é calcada aos pés como apenas uma estória?
         É amor? quando o passado importa mais que o presente, e o futuro é uma inviabilidade distorcida?
          É amor? quando os atos e os sacrifícios lhe são cobrados, como se seu ônus fosse um fardo demasiado pesado para suportar?
          É amor? quando a prova de sua existência brota da amargura e da responsabilização?
          É amor? quando sua existência é omitida pelas mesmas razões que lhe trouxeram à existência?
          Será o amor um mito? apenas um mito? Será mito o que me oprime o peito e que sufoco às custas de tudo o que foi a minha vida? 
          É amor? quando nunca se diz: - "Eu te amo!"?
          De nada sei... meu coração apenas chora.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Uma desculpa esfarrapada


          Brasinha é o amigo dos fetiches. Outro dia relatei episódio em que protagonizou a quase realização de uma tara, uma fantasia. Não a levou a cabo por uma simples razão: a namorada passou mal ao vê-lo fantasiado de Brasinha. Daí seu apelido. Para quem é desconhecedor do fato, resumi-lo-ei ao máximo a fim de adentrar na pauta.
          Meu amigo queria um sexo diferente e, para tanto, nutria uma fantasia que o torturava: - queria sexo fantasiado de diabinho, vestido com chifres, máscara, cauda, e tudo o que tinha direito. No motel com a namorada que, desavisada de tudo, o aguardava sob os lençóis no quarto frio e seco, vestia no toalete a indumentária própria do ser maligno. Dali a pouco, na escuridão do cafofo, aproxima-se da mulher que, vendo aquela presepada, é acometida de dispnéias e precordialgias ferozes. Acabaram na emergência d'algum hospital da cidade, ela quase morta do susto.
           Pois sucedeu o que seria de esperar a um mancebo dado a esses arroubos incontroláveis e inconfessáveis: - contraiu núpcias. De tão velho que era, sua solteirice já incomodava a alguns familiares e amigos mais distantes. Chamavam-no "rapaz velho", que por estas paragens abrevia-se por pura preguiça na expressão "rapai véi". Meu querido Brasinha era um "rapai véi". 
          Não sei se era o caso, mas quero crer que meu amigo esperava no casamento realizar todas as suas indizíveis peripécias sexuais. É lógico se acreditar que a mulher seria sua parceira em tais aventuras, e um alívio geral tomou conta de todos os que se achavam de alguma forma apreensivos com tão prolongada solteirice. 
          O que ocorreu, entretanto, leva-nos a concluir que a senhora Brasinha jamais tomou ciência dos desejos do marido; não dos desejos que se enumeram abaixo dos limites de uma curva de Gauss. Por isso Brasinha via-se impelido a procurar fora do lar o que já determinara lá ser impossível achar. 
          Certo dia, a mulher pejada de sete meses, logrou marcar encontro com uma dona cuja origem permanece a mim desconhecida. Brasinha, como todo elemento dado à caça do esporte sexual, tinha lá, é bem possível, as fontes donde brotam as pequenas que se permitem alinhar com tal jogo, de modo que, o que importa para nós que aqui estamos a relatar o drama, é que se conheça o desfecho do projeto de meu amigo.
          Também não me foi dado a conhecer as razões que levavam sua mulher a estar, nos últimos tempos, a segui-lo aonde quer que fosse. É bem provável que ela já sentisse ou percebesse o que lhe reservava aquele marido de aparência séria e compenetrada, formal e respeitador, um cínico de marca maior.
           Foi à saída de um grande shopping da cidade. Estava dentro do carro com a referida dona, uma mulher de aparência duvidosa, parado ao estacionamento esperando sabe-se lá o quê. Ao que parecia, esperavam o melhor momento para dali saírem em segurança no rumo d'algum tugúrio onde pudessem ficar à vontade. 
          Eis que, repentinamente, a um dos lados a mulher, ao outro a sogra, vê-se cercado e apupado por todos os piores adjetivos de que se tem notícia. A sogra, percebendo o crescente desvario da filha, contornou o veículo para segurá-la antes que fizesse uma besteira, ela gritando a plenos e limpos pulmões: -"Ai, meu pai! que vou parir esse menino aqui mesmo!" E emendava: -"É muita decepção! É muita decepção!" Foi preciso que ele subisse os vidros para não ser atingido por todos os socos e tapas que a buchuda desferia em sua direção. A mãe, há pouco contribuindo ao coro de impropérios ao femeeiro genro, tudo fazia a arrastar dali a filha, já arrependendo-se de a ter acoitado em semelhante e tresloucada missão. 
           Não me recorda agora como o episódio findou, mas o que se sabe é que a mulher passou os dois últimos meses de gestação em casa de seus pais. E se voltou à convivência do fulano nem mesmo sei eu. 
           Outro dia ele me bateu o telefone portátil a intimar-me a "beber o mijo" do pequerrucho. Não fui por receio de me rir ao lembrar da cena descrita acima. Além disso, estava louco para conhecer a fantasia de diabinho que o amigo guarda n'algum baú de seu sótão. Se trouxesse à baila mais essa perversão, seria de lá expulso sumariamente. Optei por uma desculpa esfarrapada. 

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Opiniosos e opiniões: a sutil diferença


          Ainda agora – estou horrorizado – me espanta e me entristece o que acabo de ver e saber. 
          Primeiramente, soube de uma espécie de arrastão no centro da cidade; pouco depois, alguns minutos apenas, vi, na rede social, outro. Era um arrastão "verbal", um arrastão do deboche, um arrastão do menosprezo. O do Centro, pelo que soube, foi um arrastão da violência, desses que até então somente bandidos praticavam.  
          Refiro-me, ao que parece, a um fato ocorrido; ao que parece, um fato ocorrido há pouco; ao que parece, um fato ocorrido n'algum campo de futebol desta decadente cidade. Repeti "ao que parece" várias vezes porque posso estar completamente equivocado – o que me parece pouco provável, ainda que seja um telespectador bissexto dos noticiários televisivos. O que me parece é que o Fortaleza Esporte Clube, time de futebol da capital, perdeu, dentro de seus próprios muros, uma partida imperdível, o que o faz permanecer na terceira divisão do campeonato brasileiro de futebol. Eis o fato-pivô de toda a loucura.
          Diria, em resumo, que espalhou-se na cidade se Fortaleza, e em seu espaço virtual, uma onda de violência e uma onda de alegria debochada. A violência foi proporcionada por frustrados torcedores do Fortaleza; a alegria debochada e virtual foi alimentada por torcedores do arquirrival time do Ceará. Devo ressaltar que apenas presumo que a alegria tenha sido virtual. Ela bem pode ter sido real e, agora, acabo de lembrar-me da passagem de carros tocando buzinas e motores roncantes e barulhentos, provavelmente torcedores do Ceará felicíssimos com o fracasso tricolor. 
          Não dou conta da violência sem rosto; ela me indigna da mesma maneira fria que indignou Rubem Braga – ou terá sido o Rubem Alves?. O homem solitário tende à virtude completa, ao passo que sua associação tende a torná-lo monstro mascarado. Quem quer que tenha participado dos atos de vandalismo, ela, esta pessoa, não existe. Ela não é uma pessoa. Ela é uma turba, uma súcia, uma malta. Assim como na guerra não há o assassino, na choldra não há identidade, não há o José, o Francisco, o Manoel... Ainda que na atualidade se pretenda a gravação que revele as faces, os atos, as culpas e inocências, ainda estamos vivendo a era do canalha sem rosto. Ele tem família, filhos, paga as contas e vai ao trabalho. 
          O mesmo não se pode dizer do gozador virtual. Aqui faço uma pausa para explicar que a gozação sempre existiu no esporte, qualquer esporte, e principalmente no futebol. Antigamente se gozava o perdedor; os torcedores do arquirrival sempre que podiam gozavam seus adversários com uma boa dose de humor inteligente e, arrisco dizer, apaziguador. (Lembra-me a época em que o Corinthians passou vinte e tantos anos sem ganhar um mísero campeonato. Os próprios corintianos gozavam-se entre si, e o Jô Soares até criou um quadro do torcedor alvinegro que chorava dizendo: -"Corinthians!... esse time só me dá alegria..."!) 
          Não foi o que vi hoje à rede social. O que lá vi hoje foi a vontade de morte, a morte do outro, a morte simbólica e a morte real, aquela que proporciona a aniquilação e o sumiço. Sei, sei, alguém dirá que exagero, que não é bem assim, que não é nada disso. Dir-se-á; mas o que se diz, se diz; não há como ter certeza da completa semântica de uma frase, de um muxoxo, de uma entonação. 
          Pois eu digo que, sim, o que se queria hoje era a uma espécie de vingança; o que se queria e se bradava era o prazer mórbido na derrota alheia, coisa que antigamente não existia. Antigamente se torcia por um time de futebol, e ponto final. Hoje não. Ficou bastante claro, na rede social, que o torcedor, hoje, torce para a frente e para trás; ele torce não somente pelo time que ama, mas também torce com toda a força de seu ódio para que o time rival vá de mal a pior. Hoje não basta amar; também é premente odiar. 
          O pior foi ver amados e queridos amigos destilar seu sinistro prazer; homens esclarecidos, honrados, íntegros, pais de família, profissionais sérios e competentes fazendo o coro que denunciava seu sentimento menor. Sei, sei; alguém novamente dirá que exagero, que nada entendi, que estou a esticar a baladeira, etc. etc. Pois vos garanto: nada está mais distante da verdade. O que vi está visto e também estampado na rede social. Quem quiser poderá constatar o que afirmo. É fato, e contra fatos não há argumentos. 
          Vê-se, então, que há o vândalo sem rosto nas ruas e o com fuças bem à mostra na rede social, fazendo absoluta questão de ser visto, identificado, e qualificado. Não teme nem temerá essa crítica porquanto, em sua opinião, o tolo sou eu mesmo e não ele. Sou eu quem está perdendo a emoção dos estádios, das torcidas, do gol pró e do contra, enfim, tudo o suposto de bom que tem esse admirável e apaixonante esporte que é o futebol. 
          A conclusão a que chego, não a primeira vez, mas já a segunda (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2011/02/torco-por-quem-ganha.html), é que o futebol se aviltou dentro e fora do gramado. Contra a minha opinião – que duvido seja apenas uma opinião – estarão todos os "guerreiros" da tarde-noite de ontem, os reais e os virtuais, todos uníssonos a bradar apupos e xingamentos também contra mim e minha opinião. Esta baseia-se em fatos; a deles não, já que sua paixão os cegou faz tempo. Eles não têm opinião – são opiniosos.  
          Não dou a mínima; cada qual com seu cada qual.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Encruzilhada


          Nunca estive tão necessitado da poesia do meu efêmero e intenso amigo Chico Passeata. Não falo de toda a sua poesia, que essa a história um dia há de lhe pagar o devido tributo. Falo da poesia que escreveu ao dia em que fortuitamente o encontrei; falo da poesia que escreveu ali, ao meu lado, bem perto de mim, naquele que seria o último dia que o veria com vida; falo da poesia que o vi parir e transbordar do poeta como a lava que o vulcão expele em convulsões truculentas como cólicas que suscitam sofrimento inabrandável... Escreveu ele, à mesa ao lado, sem que eu ainda houvesse me dado conta de sua presença (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2011/08/menos-um-poeta.html):
          “...eis o dilema:
           (com)parar,
           ou (con)seguir.”
          Nunca estive tão vítima da essência poética de meu saudoso e efêmero amigo: "...eis o dilema:..." Essa é a poesia da qual estou necessitado; essa, a mesma de nem sei mais quando, ainda me sussurra: "...eis o dilema..."; e me instiga: (...)parar, ou (...)seguir."? 
          Que faço? Não sei. Há pouco sabia; agora já não sei... Por isso a poesia do Chico fala por mim; por isso o amigo, ao me chamar a atenção para a sua presença num leve toque às costas, parecia profetizar de mim, de meu destino, de meu breve futuro: "(...)parar, ou (...)seguir."?
          Lembra-me o dia em que procurava a letra do Chico em meio a meus livros e rascunhos, e papéis, e borrões; em meio à bagunça de tudo, anelava sentir entre as mãos a matéria original que o amigo, ao que parecia, escrevera para mim, especialmente para mim... seguramente uma pretensão tola de minha parte (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2011/08/tormenta-e-o-poema.html). 
          Ah... tudo em vão... Guardei tão bem guardada a jóia que quis o meu desatino punir-me exemplarmente: não a achei. Ainda hoje não a acho. Sei que ali está, envolta em minhas memórias, em meus devaneios, em escritos bissextos e jurássicos, do tempo em que minhas tormentas mentais apenas iniciavam, formavam-se ao longe como procelas vindouras a se anunciarem precocemente. 
          E até hoje nem sei porque deitei ao papel o que escrevi outro dia, coisa sem rumo e sem nexo (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2012/02/ilusao-de-amor_08.html), uma quase poesia que suscitou noutro amigo, outro poeta, a idéia de que eu seria o poeta que escrevia prosas... Ledo engano... tola pretensão, mais uma, desta feita não minha. 
          E agora a belíssima poesia do Chico que, quero tanto acreditar, escreveu especialmente para mim... Sinto agora, passados vários meses, a poesia para mim, uma encruzilhada, dois caminhos, dois destinos, dois rumos... Eu, que dei uma volta na vida, que vivi uma e posso outra viver, me deparo com a decisão: inicio outra ou não? faço outro destino? escrevo outra história? 
          Ainda que a vida, a nova vida, me espicace a vontade de si mesma, que tem ela de novo para mim que não já tenha visto? Que novos resultados me propõe? se eu mesmo sou ou tornei-me a incógnita que julgam, que observam, que testam, da qual duvidam, que temem, que rejeitam e da qual se envergonham? Tornei-me, involuntariamente, um ponto de interrogação, um buraco negro, um algo a ser evitado... 
         Ainda que já tenha vivido uma vida e nela já tenha morrido, posto que na morte vão-se inexoravelmente as eventuais pendências e dívidas, insistem em me julgar sobre o que nela realizei ou deixei de realizar. Fui marcado com a marca dos condenados, o 666 da besta, a cicatriz dos aguilhoados. Tornei-me um natimorto de minha nova vida... 
         Vem então o Chico e me admoesta: 
         “...eis o dilema:
         (com)parar,
         ou (con)seguir.”
          Seguir é o que escolho; custe o que custar. De uma forma ou de outra.