segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

BALANÇANDO O RABO OU PRENDENDO A RESPIRAÇÃO

          Foi no último sábado. O meu amigo Fábio Motta juntou-se a seus pariceiros mais longínquos, que o conhecem desde que usava cueiros e fraldas, para uma noitada e cantoria. Assim, somos do tempo dos cueiros e das fraldas de pano. As chupetas já existiam como existem até hoje, de modo que a única coisa que não evoluiu com o tempo foram os cueiros. 
          Se querem saber a verdade, não faço a menor idéia de qual seja a diferença entre cueiros e fraldas e, pelo que me consta, as fraldas continuam aí, ao passo que os cueiros tornaram-se peça obsoleta e inexistente aos dias de hoje. O diabo é que, ao que me lembre, cueiros e fraldas são exatamente a mesma coisa. O que mudou foi o material com que se faz esse item do vestuário dos bebês e, com a mudança, sumiu também a sinonímia entre as palavras que o designam. Hoje, as fraldas são feitas de material plástico impermeável e em sua embalagem está escrito "FRALDA DESCARTÁVEL"; jamais "cueiro descartável". É como se a mudança da matéria-prima causasse um rebuliço nos dicionários.
          Mas, que estou eu a fazer? falando sem parar sobre cueiros e fraldas? Voltemos ao último sábado, à noite, quando nos reunimos, os amigos de infância, para uma pilhéria. Foi na casa do Mesquita. O Mesquita, vocês sabem, gosta de receber em seu solar os amigos para uma boa conversa mole, uns acepipes, uns drinques regados às canções que nos embalaram na vida... 
          Dona Rejane, dona da casa e do Mesquita, muitíssimo cuidadosa e zelosa, vai além. Não permite os quitutes mínimos com os quais o marido e os amigos afugentam das línguas o gosto da cerveja, do uísque e até da cachaça. O Bacana, apreciador declarado desta última, que o diga. Afinal, a aguardente tem um forte sabor etílico e necessário é, à sua ingestão, um salgado ou um azedo para limitar o paladar. Por isso, Dona Rejane sempre prepara mais de um prato a serem servidos como ceia, e todos de lá saem com as panças bem fornidas. Isso o diga o Motta, um glutão incorrigível e grato, no que muito se assemelha ao Mesquita, ambos excelentes garfos.
          Nesta noite, especificamente, Dona Rejane nos serviu um delicioso bacalhau, acho que a Gomes de Sá, e um cremoso camarão ao molho branco, ambos guarnecidos por um bem solto  arroz branco. Quase perde os pratos principais o Tomasinho, sempre serodiamente chegado aos compromissos, mas, desta feita, justificadamente atrasado por estar vindo de um casamento pomposo e nababesco, o que foi fácil perceber pelos trajes requintados com que ele e Dona Mércia se vestiam. 
          O amigo Gaudêncio, visivelmente preocupado com as taxas de gordura, antes de se servir de um dos suculentos pratos, encheu até onde pôde uma colher de sopa de azeite extra virgem quero crer – uma vez que Dona Rejane não é dona de casa de se prestar a comprar produto de quinta categoria para seu lar, no que o Mesquita muito a apóia – e a sorveu sofregamente. Em seguida, regateou-se com o camarão e, ato contínuo, com o bacalhau. Não me recorda se repetiu um dos pratos, mas que comeu bem, isso posso garantir. É bem verdade que utilizou-se de um prato menor, desses onde se servem as sobremesas, mas o preencheu tão completamente que vi a hora a comida vazar pelas beiradas. 
          O amigo Motta, lá pelas tantas, relatou-nos o drama. Como retomou a prática do surf, esporte que praticava em tempos adolescentes, tem ido, com certa freqüência, à praia do Titanzinho, conhecida por suas grandes ondas e onde está encravada uma comunidade esquecida pelo mundo e miseravelmente empobrecida. Ao que consta, em tal cenário pululam e prosperam o crime e as gangues. Para lá adentrar, o cidadão precisa se identificar e obter autorização dos “donos” se não quiser ser alvejado por uma bala. Meu amigo Motta, ao que pude entender, tornou-se conhecido por lá e, para garantir a simpatia daqueles, costuma fazer favores aos moradores, levar presentes para as crianças, comprar remédios para os doentes, enfim, bajular os moradores e criminosos. 
          Tendo explicado tudo isso, veio o Motta perguntar aos amigos se algum de nós teria um carro de bebê para doar a um pobre casal cujo filho pequeno estava a encher-se de feridas e úlceras por falta de um leito apropriado. Infelizmente, nenhum dos convivas dispunha de tal apetrecho, de modo que, se o amigo prometeu conseguir com cem por cento de certeza o tal objeto, ver-se-á envolto em maus lençóis por não poder cumprir a promessa, a não ser que o adquira com recursos próprios, o que, com certeza, não deixará de fazer porquanto pretende ir ao Titanzinho surfar até o fim da vida. Ademais, fomos também devidamente informados que o Motta providenciara um emprego para uma jovem moradora do pobre bairro, o que muito agradou a todos pela evidência da presteza com que o amigo atende aos interesses da comunidade, deixando-nos apenas o temor de que esteja de safadezas e más intenções com a pequena, já que seu currículo o credencia a concorrer com Don Juan, um conhecidíssimo, histórico e notório conquistador.
          Após o relato de tão caridosas peripécias, demos por falta de dois outros pariceiros até aquele momento faltosos, o Sérgio Moura e o Joserme. Não deram, até as quase 4 da manhã, quando deixei o solar Sales-Mesquita, o ar de sua graça e, com efeito, tiveram a descortesia e o desplante de faltar ao tão bem preparado regabofe; o primeiro, vim a saber depois, por pura e leniente preguiça; o segundo por pura falta de interesse, ainda que resida em cidade distante e tenha tido todo o tempo do mundo para planejar a viagem de modo a não ser, depois, necessário recorrer a desculpas esfarrapadas e blablablás que não convencem nem mesmo o Berilo, o vira-latas do Bacana que mais parece gente quando quer comer ou arrancar um cafuné de seus donos. 
          Não reclamem nem se queixem os ausentes se alguém morrer antes de dizer adeus e antes de se despedir da vida. Lembro-os que nem mesmo as estrelas vivem eternamente. Espero que o Motta surfe uma Maverick após terminar seu curso de apneia. Na vida só sobrevive quem leva caldo e sabe prender a respiração ou  a balançar o rabo como o Berilo.

domingo, 18 de janeiro de 2015

A NUDEZ OPINIOSA

          Era costume andar nu pela casa. Bem, não era uma casa, de fato. Era um apartamento. Chamamos "casa" ao cantinho onde chegamos diariamente para deitar os ossos, chorar, lucubrar, sonhar até que venha outro dia, e mais outro, e mais outro...
          Morar sozinho permite essa convivência naturista consigo mesmo: – andar nu pela casa. Estava tão acostumado que já nem se importava se as janelas expunham seu despudor. Às vezes, na sala, assistia à televisão sentado nu no sofá. A porta ficava aberta a fim de melhorar a ventilação, em dias quentes. O corredor de acesso estava a cinco ou seis passos. Se alguém, algum vizinho, um hóspede viesse apreciar a paisagem da rua naquele ponto do corredor, veria sua nudez escancarada. Pensava: "estou em minha casa; os olhos de fora aqui chegam, mas nada podem dizer ou reclamar. Que olhem"!... 
          O janelão que dava para os prédios da vizinhança ele o fechava, à noite, sem o menor cuidado. Nu, ia até lá e o fechava. É verdade que a luz era pouca, não permitia que alguém visse a plenitude daquela nudez, mas sabe-se lá!... Um raio de luz mais fraco por trás de si talvez desenhasse aos olhos de todos a silhueta nua de um vizinho despudorado. A verdade é que não se importava. E assim iam e vinham os dias.
          A porta da rua, porta de acesso ao apartamento, precisava ficar presa para não bater, impelida pela força dos ventos que entravam no imóvel. Pusera, há tempos, um segura-porta para evitar esse evento desagradável e até danoso porquanto afetava a moldura do objeto, sendo capaz até de destruir o reboco da parede.
         Quanto mais fazemos algo, mais o repetimos. A repetição é o hábito que se adquire pela impunidade ou pela virtude. Sendo mau, o vício nos domina; sendo bom, a paz nos acalenta o coração. Não tinha o hábito de ir levar o lixo ao coletor da escada sem prender a porta. Por fora, a porta só se podia abrir com chave. Se ela inadvertidamente fechasse e ele estivesse sem as chaves, estaria trancado por fora. 
          Naquela noite, nu, abriu a porta para apagar as luzes do corredor que o incomodavam. Como o interruptor era próximo, não se deu ao trabalho de prender a porta ou segurá-la com o pé, a fim de garantir que não batesse. Eis que, então, ocorreu o improvável. Uma lufada de ar lhe trancou por fora. Nu em pelo, a "trouxa" pendurada sem nada para o cobrir a não ser as mãos, sem um aparelho portátil para chamar alguém, sem nada...! Até hoje não sei como se saiu da inusitada e constrangedora situação de nu desamparado. O que sei é que, ainda hoje, anda cabisbaixo pelos corredores e elevadores. A nudez pública o salvou da empáfia...

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

GENTE BOA

          O país está cheio de gente boa. Sim, basta olhar em torno ou abrir bem os ouvidos. Ouço toda hora: fulano é gente boa; sicrano é pedra 90; beltrano é show de bola... e por aí vai. Em suma, somos um país de gente boa. Nunca vi tanta gente boa junta. Somos o maior ajuntamento de gente boa do mundo.
          Hoje de manhã, pilotando minha moto indo pro hospital, faço a seguinte reflexão. Perguntava-me a mim mesmo como é possível que, abrigando tanta gente boa, esse seja um país que tanto odeia. E nem falo dos nossos mais de 50 mil assassinatos anuais. Como estava no trânsito, sentia o trânsito. E o que sentia era justamente a agressividade do trânsito. Sentia o ódio no trânsito. O trânsito era, naquele momento, um ódio só.
          De carro ou de moto, no trânsito desta cidade o sujeito sofre todas as agressões possíveis e imaginárias. Diria até mais. Diria que, não bastassem as inúmeras, cotidianas e horárias infrações às leis, às vezes – imperioso e vergonhoso admitir –, necessárias por conta da insegurança geral que ronda o cidadão comum, até mesmo nosso pedestre agride o condutor e, ele próprio, o pedestre, infringe regras básicas. Vejam o interessante: – o sujeito acha que, porque é pedestre, tem sempre razão. Esse comportamento recente por parte do pedestre faz parte de um comportamento mais geral, qual seja, o sujeito acha que, por ser "mais fraco", tudo pode. Não importa o que diga a lei, o "mais fraco", no Brasil, acha que sempre terá razão. A prova é que, se for atropelado ao andar em plena pista de rolagem, sentir-se-á cheio de razão ainda que estivesse fora da faixa de pedestre. A coisa é mais ou menos por aí.
          Outro dia vinha eu na moto, voltando do hospital, quando vejo a jovem que acompanhava uma senhora idosa tentando atravessar a pista. Não se utilizava da faixa de pedestre; simplesmente queria atravessar em meio ao trânsito implacável e feroz. Cheguei a pensar: –"Há de ser a sogra"... A jovem, em sua consciência de "mais fraca" – ela e a senhora idosa –, sentia-se repleta de razão e queria porque queria que os carros e caminhões parassem a fim de que elas pudessem alcançar a calçada oposta. A pobre senhora, de tão idosa, não parecia perceber os riscos a que era exposta por sua irresponsável acompanhante. Um dos carros parou, mas a maioria não se deu o trabalho. E seria bem provável que um eventual atropelador fosse, de fato, considerado culpado. As leis, por aqui, só funcionam para punir o "mais forte".
        Falando assim parece que estou delirando, que estou dizendo uma asneira sem tamanho. Alguém há de repreender-me e, esgoelando-se, tentará corrigir-me dizendo: –"A lei protege o mais forte, imbecil"! Afinal, dizem, sempre foi assim. Ou não?
          Ah...! Bons tempos aqueles...! Bons tempos aqueles!... Foram-se os tempos em que a lei protegia o "mais forte"... Hoje ela protege o "mais fraco". Vejam, por exemplo, o caso da jovem que forçava a passagem pela pista tentando atravessá-la com a senhora idosa. Caso fossem atropeladas, o condutor teria uma dor de cabeça tremenda com a lei. Sendo "mais fraco" o pedestre, ninguém procuraria saber se ele está errado. De cara. Afinal de contas, o pedestre tem sempre razão. Estar ou não na faixa teria nunhuma importância. A participação de uma senhora idosa no "acidente", ainda que involuntária, excluiria qualquer possibilidade de leitura dos códigos. Como é possível o sujeito atropelar uma pobre e indefesa senhora e não ter a culpa? Uma senhora idosa é, e sempre será, inocente. Cadeia no condutor que atropela o pedestre! (O diabo é que, hoje, nem o "fraco" nem o "forte" vai para a cadeia.)
          Só agora, com tantas aspas a enfeitar-me a crônica, percebo minha ambiguidade sobre quem seriam os "mais fortes" e os "mais fracos". Definamos, portanto, quem seriam esses senhores. Mas antes confesso que, pilotando a moto pela manhã, pensava também noutro viés do "país de gente boa".
          Todos sabem que o brasileiro é conhecido por ser um "solidário" nato. (Aviso de antemão: – as aspas deste texto vieram para ficar.) Basta que os morros desabem sobre os casebres que nunca deveriam estar ali porque a lei os proíbe e que as enchentes destruam as casas construídas em áreas de risco para que se manifeste o "brasileiro solidário". Milhares de objetos de primeira necessidade e milhares de reais serão doados para atender as necessidades do povo desabrigado. É um evento quase anual. Se não acontecer há de ser porque a estiagem não permitiu. Estamos justamente adentrando a estação chuvosa e até agora nenhum desabrigado, nenhum alagamento, nenhum transbordamento. Desejando ardentemente estar equivocado, há de ser uma questão de tempo e do tempo. Ainda que existam as leis que visam proibir a construção em áreas sujeitas a riscos, elas não surtem efeitos porque quem resolve morar nessas áreas é o "mais fraco" e, como dissemos, nada é mais forte do que o "mais fraco" aos dias de hoje. Assim, é ponto pacífico: – o brasileiro é solidário até debaixo d'água. Literalmente. Diferente do mineiro, um espécime de brasileiro que, segundo o Otto Lara Resende só é solidário no câncer, o brasileiro em geral adora ser solidário com a desgraça de seus conterrâneos.
          E, afinal, quem é o "mais fraco" em toda essa história? Há várias possibilidades. De cara pensei que o "mais fraco" seria o pobre, aquele que tem poucos recursos financeiros. O diabo é que o governo tirou da pobreza, por decreto, um monte de gente que, para efeitos de seus feitos, não mais é pobre, mas que, para a realidade dos fatos, continua terminando o mês sem um tostão na carteira. O pobre no Brasil é uma alucinação, um espectro do passado a assombrar o governo.
          Depois pensei que o "mais fraco" seria o marginal, o criminoso declarado, o assassino, o traficante de drogas ilícitas, que, quando preso, vai cumprir pena em prisão que mais parece um calabouço medieval. Mas de imediato concluí que o difícil é esse povo ir preso e, se for, mais difícil ainda é lá permanecer já que os indultos e frouxidões aí estão para livrá-lo. Isso sem falar que a alguns a prisão é o céu, já que lá ficando recebem pensão do governo para sustentar os filhos.
          Em seguida imaginei que o "mais fraco" é o menor abandonado, o menino de rua que vive debaixo de viadutos e pontes, sem ter o que comer e vestir, largado ao relento da noite e ao calor do dia, sem escola para frequentar e sem família para abrigá-lo; mas logo vi que não, que hoje o menor tem a proteção do Estado, tem o Estatuto que o livra de todos os males e o protege de todas as ameaças e perigos, de modo que tem tudo, dispõe de tudo, é feliz e sadio....
          Já estava me vendo sem opções quando imaginei que o "mais fraco" é o idoso que, depois de passar a vida pagando elevados impostos, o governo acabou por presenteá-lo com um outro Estatuto que o protege do preconceito e maus tratos, além de livrá-lo de filas e das roletas do transporte público, embora ainda lhe pague uma aposentadoria humilhante e aviltante, enquanto lhe oferece serviços de saúde onde ficam mais doentes e acabem por morrer.
         Assim, cheguei a meu destino sem descobrir quem seria o “mais fraco” nessa estória, admitindo a possibilidade de que este pudesse ser eu e os a mim semelhantes, mas aí já seria advogar em causa própria e, além do mais, não gosto de ser “mais fraco” em coisa nenhuma, de modo que estacionei, desliguei a moto e fui trabalhar. Qualquer dia desses, num lampejo de inspiração, lograrei vislumbrar quem é o “mais fraco”. Afinal, ele há de ser muito gente boa...

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

SIM, SOU CHARLIE HEBDO! (JE SUIS CHARLIE HEBDO!)

         Foi o François Marie Arouet, conhecido como Voltaire, quem disse: “Não concordo com nenhuma palavra do que disseste, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-las”. Vejam que ele defende um direito; e até a morte. Não pregou a morte de quem diz o que ele não concorda; defende o direito de se dizer o que se quer e bem entende. 
          Nos Estados Unidos da América, por exemplo, o sujeito pode esculhambar Sua Excelência o Presidente da República. Lá o direito de dizer e de pensar atinge as raias da insanidade. Pode-se dizer e pensar o que se quer, sem que isso represente um risco ao pensante e ao falante. 
          Eis que está a acontecer o seguinte... mas, antes, vamos a um resumo dos fatos.  Dois radicais islãs invadiram a sede da revista – ou será jornal? – Chalie Hebdo, em Paris, e mataram 12 pessoas. O motivo: – a revista – digamos que seja uma revista – publica, com certa freqüência, charges satíricas de líderes muçulmanos. De fato, eles publicam charges satíricas de diversas religiões. As charges, quem viu sabe, são destituídas de qualquer apreço pela crença em qualquer deus. O pessoal lá é ateu indo e voltando, e não somente ateu: – o pessoal considera quem crê um idiota de carteirinha e sindicato. 
            Digamos sem delongas, e lembrando o que disse o Voltaire: – os caras da Charlie Hebdo têm todo o direito de dizer e pensar o que quiserem. E mais: – têm todo o direito de publicar o que quiserem. Pessoalmente, acho algumas das charges de péssimo gosto, mas o que é que se vai fazer? Além disso, dizem aí que eles são, ou eram, marxistas, o que eu detesto. Penso que o marxismo é dos piores males que a humanidade já produziu, mas o que se vai fazer? O marxismo continua aí produzindo, a olhos vistos, seus males, mas não lhe faltam simpatizantes e seguidores. Que nos resta? Deixemos os caras pensarem. Deixemos os caras serem ateus. E publicarem. Quem se incomodar, que faça charges satirizando-os, a eles, os chargistas da Charlie Hebdo. Ideias se combatem com ideias, e estamos conversados.
            Mas, como ia dizendo, está a ocorrer o seguinte. Tão logo surgiram os protestos a rodar o mundo em favor da liberdade de expressão, tão logo surgiram outros – filósofos, escritores, blogueiros – a protestar contra os protestos. O que diziam? Pretendiam “explicar” os assassinatos. Para falar a verdade, queriam que entendêssemos as razões dos assassinos. Em seus textos diziam: –“De antemão afirmo ser contra toda forma de violência, mas”... e saiam a dizer que o islamismo foi aviltado, que os chargistas “pegaram pesado”, que os muçulmanos que vivem em Paris vivem na periferia e não têm oportunidades como os nativos, e um blábláblá de explicações interminável. 
            Ora, o migrante que vai para um país de primeiro mundo precisa estar qualificado para o mercado de trabalho. Muçulmano ou não, há que apresentar credenciais que lhe tornem apto a bons postos. Os “justificadores” da matança alegam que muitos muçulmanos são originários de países africanos, ex-colônias francesas, e que, ao lá chegar, são marginalizados, vivem na periferia de Paris. Pergunto: – são mesmo? A França tem recebido imigrantes de suas ex-colônias para depois excluí-los? para marginalizá-los? Talvez não esteja dando certo o que se pretendia ao início, e, talvez por isso, os ultra-direitistas franceses lutam para barrar esse ingresso. Mas, é essa uma causa concorrente para o atentado ou seus “justificadores” estarão se utilizando de uma evidência anedótica para encher seus textos com lingüiça? Por outro lado, há que se indagar: – por que tantos migrantes de ex-colônias? O que buscam em França? Resposta: – buscam o que não encontram em seus países, onde grassa a miséria e as guerras tribais fratricidas; onde a economia da nação é caótica; onde não há educação e sistema de saúde de qualidade; enfim, de onde querem escapar em busca de uma vida melhor. O que deveriam fazer? Lá ficar e tentar mudar seu país. Entretanto, preferem arriscar a sorte no país de primeiro mundo e, todos sabem, arriscar é correr riscos. Os países, mesmo os mais ricos, têm a sua reserva do possível.     
            Ora, o islã tem sido combatido veementemente por suas vítimas, notadamente as mulheres, saídas de suas próprias entranhas. Quem não conhece a ativista somali-holandesa Ayaan Hirsi Ali? Mutilada sexualmente aos 5 anos de idade, espancada por um pregador do Alcorão que lhe fraturou o crânio e vítima freqüente das surras que sua própria mãe lhe aplicava, Hirsi Ali fugiu para a Holanda e lá tornou-se deputada no parlamento holandês e crítica feroz do fundamentalismo islâmico e da situação da mulher vivente em países onde o islamismo é prevalente. Sua luta resultou no assassinato do cineasta holandês Theo van Gogh, morto e degolado por um marroquino que, ao praticar seu crime, já anunciava sua próxima vítima, a senhora Hirsi Ali. Eles haviam feito um curta-metragem em que denunciavam a situação da mulher no islã. Sua vida está relatada em “Infiel – A história de uma mulher que desafiou o islã”. Jurada de morte, fugiu para os Estados Unidos da América onde hoje mora.
            Assim, pergunto: - como defender ou justificar o ato covarde e violento praticado por esses seguidores de uma religião que prega a “guerra santa” e a morte dos “infiéis”? Para eles, todos os que não seguem o islã são infiéis. Haverá quem diga que não se está a tentar justificar, mas explicar. Não há, a meu ver, o que explicar. A meu ver só há um assassinato justificável e explicável: - aquele para defender a própria vida. A tentativa de explicar qualquer outro tipo de assassinato se confunde, sempre, com sua justificativa. Tais “justificadores” seriam os mesmos que votariam pela absolvição dos réus, caso compusessem o júri.  
            Assim, sem muita conversa, é possível desqualificar os “justificadores” da chacina do Charlie Hebdo. São, acima de tudo, simpatizantes do massacre, ainda que seus textos iniciem negando tal possibilidade. São, de fato, uns canalhas da mais elevada estirpe.

domingo, 11 de janeiro de 2015

TODO BOI É A CARA DO OUTRO

          Encontrei hoje, ali no hospital, o meu amigo Rogério Cruz Saraiva, cirurgião pediátrico da mais elevada estirpe e o centro-avante que mais se posicionou em off-side em toda história do futebol amador. De fato, o Rogério nunca jogou futebol, nem mesmo o amador. Sua passagem pelo esporte das multidões deu-se tão-somente e unicamente na imaginação de seus amigos e, principalmente, na imaginação de nosso grande Mestre em Cirurgia, Doutor João Evangelista Bezerra Filho.
          Certo dia, numa reunião da Clínica Cirúrgica, conversávamos informalmente esperando o início das discussões científicas. Em dado momento, quando coincidentemente todos silenciaram ao mesmo tempo, doutor Evangelista olhou para o Saraiva e fez a seguinte reflexão:
          –"Não poderias, jamais, jogar de centro-avante"...
          (Rogério é dono de um vigoroso  e afilado nariz cuja ponta se projeta para a frente numa extensão considerável, de modo que o homem bem poderia representar o Pinóquio ou o Cirano de Bergerac numa peça teatral, e isso sem a ajuda de qualquer meio para lhe ampliar artificialmente o órgão.)
          Olhando-nos entre si, sem entender o que o Mestre exatamente queria dizer, ficamos tentando captar a mente brilhante do chefe. Poucos segundos depois, alguém quis saber:
          –"E por que diz isso, doutor João"?
          Ele respondeu na bucha: 
          –"Ora... Porque estará sempre em off-side"!
          Assim, permanece até hoje no terreno do que foi sem nunca ter sido a carreira futebolística do querido Rogério. No mundo real ele é, como muitos, um profissional médico zeloso, competente e humilde, atuando nas sombras dos holofotes de um mundo que valoriza estrelas opacas. A cegueira grassante impede que se veja o brilho das verdadeiras Betelgeuses, lamentável admitir...
          O diabo é que o Saraiva fez-me um relato que demonstra que seu nariz não é uma estrutura tão notável quanto dei a entender ao início. Dele concluí que a cegueira que não permite que se enxerguem valores não permite também que se veja um poste a um palmo do nariz, e aqui falo de narizes de tamanho normal e de narizes semelhantes ao do querido Rogério. O que aconteceu foi o seguinte.
          Rogério, há vários anos, prestou concurso para a Prefeitura Municipal de Fortaleza para o cargo de cirurgião geral a ser lotado numa unidade periférica do Instituto Dr. José Frota. Foi aprovado e trabalhou num dos "Frotinhas" por 2 anos e, repito, por 2 anos fazia plantões diurnos e noturnos atendendo casos cirúrgicos de urgência e emergência. Por ter sido aprovado, algum tempo depois, noutro concurso que lhe traria maiores vantagens, demitiu-se do "Frotinha" e foi viver sua nova vida. 
          Recentemente, dias atrás, Saraiva foi a este "Frotinha" onde trabalhou por 2 anos solicitar uma certidão atestando o serviço prestado por ele naquela unidade hospitalar, a fim ajuntá-la para contar como tempo de serviço para fins de aposentadoria. Qual não foi sua surpresa quando a funcionária do Departamento de Pessoal do hospital lhe disse que lá nada constava a seu respeito. Procuraram-se arquivos e pastas, reais e virtuais, e nada foi encontrado. Meu amigo doutor Rogério Cruz Saraiva, constava nos arquivos do "Frotinha", nunca trabalhara lá. Dois anos dedicados ao serviço público simplesmente desapareceram, e nem seu nariz foi capaz de lembrar à funcionária de sua presença semanal, no hospital. Não fossem outras "provas", como crachá, contra-cheques, relatórios cirúrgicos feitos por ele, prontuários de pacientes, etc., Rogério teria jogado ao lixo 2 anos de sua vida profissional. 
          O episódio, hilário e trágico, suscita em nós, que dedicamos a vida ao serviço público, a insegurança típica que ronda os que estão a mercê da incompetência de outros. O que estão fazendo com as informações sobre nós em nossa pasta funcional? Que legítimos direitos estarão subtraindo de nós? Enfim, quem somos nós para o serviço público? 
          Após uma breve reflexão sobre o caso, tomei a única decisão possível para a circunstância que se apresenta: – de hoje em diante irei trabalhar fantasiado de palhaço. Sim, já esta semana irei a uma loja providenciar, para meu guarda-roupas, os apetrechos mais indiscretos possíveis a fim de usá-los no trabalho. Certo de que as câmeras de segurança lá estão gravando e filmando o entra-e-sai do pessoal que vai ao hospital, estarei seguro quanto a que não me esqueçam na hora de provar que sou um dos funcionários da casa. Não fossem somente as câmeras, terei também o testemunho de todos os outros colegas de trabalho e também dos pacientes e seus acompanhantes. Estou certo de que muitos deles pedirão para se deixar fotografar em minha companhia. Afinal, não é todo dia que recebem os cuidados de um médico vestido como artista de circo. As fotos servirão como mais uma prova de que lá estou fazendo o meu papel e cumprindo a missão que escolhi. Assim, facilitarei o trabalho dos funcionários do Departamento de Pessoal na hora de requisitar as informações de minha pasta funcional. 
          De antemão peço perdão aos companheiros de trabalho. Não os aconselho a fazer o mesmo. Se o fizer, como poderão nos distinguir uns dos outros? Passaríamos a ser, novamente, a mesma massa indistinta no local de trabalho. Uma das desvantagens de se fazer parte da manada é justamente a indistintividade. Afinal, todo boi é a cara do outro. 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

PARECERES E PARICEIROS

          Hoje capitulei. 
      Tudo começou quando recebi do Ary, o funcionário encarregado de distribuir os pedidos de parecer nos vários setores, justamente um pedido de parecer para a Cirurgia Vascular. Trouxe-me, da Cirurgia Geral, um papel onde o médico de lá, após identificar o paciente, escreveu exatamente o seguinte:
    “Paciente vítima de PAF abdominal; submetido a LE em 06.01.2015, que evidenciou lesão hepática grau II; segmento VI não sangrante. 06 lesões de jejuno próximas, à 20 cm do Treitz, 02 lesões em ângulo hepático de cólon, 01 lesão tangencial em cólon E. Realizado enterectomia de 15 cm de jejuno”. Datou, carimbou e assinou.
      Há alguns dias, conversando com Bella, concluí, não sem um elevado grau de certeza: – estou ficando completamente doido. Sim, acreditem. Estou louco varrido. Meu diagnóstico sobre mim mesmo é uma dessas raras certezas que se tem na vida, quero crer. E para que os amigos leitores aquilatem o que vai comigo, descrevo alguns de meus sintomas. Para falar a verdade, não são sintomas: – são sinais que podem ser observados por qualquer um que presencie o meu dia-a-dia. (Os sintomas são diferentes dos sinais na medida em que eles são sensações subjetivas, experimentadas apenas e somente pelo paciente.)
      Por exemplo, meus diálogos. Meus diálogos têm sido tormentosos para mim. Obviamente meu interlocutor também passa maus bocados, de modo que ele pensa de mim o seguinte: –”Está doidinho de pedra”...! Eis aí, em curtas linhas, a dimensão de minha tragédia pessoal. Bella, percebendo minha frustração e inconformação, sugeriu, numa tentativa de amainar as nuvens negras que pairavam sobre minha cabeça: –”Estás armado; desarma”... 
      Assumi, incontinenti: –"Estou com um exército inteiro e mais a aeronáutica”! O sujeito que é doido precisa se armar, sob pena de o levarem numa camisa de força a tomar choques elétricos calmantes. E pensava: –”Ora, bolas”!... 
          Mas, voltemos ao pedido de parecer. 
        Afora a péssima redação, repleta de incontáveis equívocos e afrontas à língua madre que até o sujeito que está a passar por um surto de doidice reconhece, jurei que estava diante de um outro grave sinal de minha humilhante condição: – uma cegueira seletiva. Como a redação do documento foi arrematada pelos “15 cm de jejuno”, julguei que o restante do texto estaria oculto para mim, que meus olhos fossem os únicos incapazes de ler o restante. Esse pensamento vinha ao encontro do que ocorria em meus diálogos: – eu não conseguia me entender com meus interlocutores. Agora estava incapaz também de compreender o que lia. 
         Pensei que só havia uma saída para mim, antes que me internassem: – esmiuçar o documento. Entrei, então, a fazer, para mim mesmo, uma espécie de revisão da matéria de modo a me certificar. Quando se está doido, tudo soa irreal e mesmo o que se vê é duvidável, como se fora uma alucinação. Baixinho, de mim para mim, lia: “PAF” significa “perfuração por arma de fogo” e “LE” é “laparotomia exploradora”, consegui decifrar. “Enterectomia” é a retirada do intestino e “Treitz” é uma referência ao “ângulo de Treitz”, a transição entre o duodeno retroperitoneal e o jejuno intraperitoneal, ao passo que segmento hepático VI se refere à porção posterior e inferior do lobo direito do fígado. Meus conhecimentos de anatomia do abdome pareciam estar intactos... Deixemos de lado, portanto, a explicação do que seja o “ângulo hepático do cólon” que o leitor já se exaspera e já o perco para seus afazeres. 
         Contudo, eu sabia: – faltava algo ali. Corri a Bella para que me socorresse. Dei-lhe o papel, as mãos trêmulas de medo, como o sujeito que espera de seu médico o prognóstico sombrio. Ela leu. Releu. Tresleu. Já esfregando uma mão na outra, quis saber: –”Que há aí que não enxergo”? Ela foi categórica: – o texto era aquilo mesmo, exatamente como transcrevi acima. Não havia nem mais uma vírgula, nem mais um ponto além daquele depois do “15 cm de jejuno”. 
          Então, súbito, tudo se fez claro. O médico pediu um parecer sobre... nada! Fez um muito mal feito relato e embananou-se, talvez desviado de seu propósito justo no instante do arremate... quem vai saber...? Pensei cá com meus botões que o homem havia de ser doido de pedra, como eu. Sim, porque o que me faz doido são os meus delírios sobre o clássico modo de se fazer medicina em hospital-escola: – pareceres à beira do leito; a velha “junta médica” onde o profissional especializado emite sua opinião sobre o caso em questão diante de internos, residentes e pares; uma aula teórico-prática que nos deliciava a todos pelo cabedal de informações que recebíamos...
          Em meus delírios, os pareceres de papel sempre me pareceram verdadeiros abortos da prática médica, verdadeiros descompromissos com o aprendizado e competentes fabricantes de médicos compartimentalizados e ignorantes. Não há mais dúvida: – estou doidinho da silva... E, pior! Como hei de defender os pariceiros?...
            Ah! E quem de mim duvidar por louco que estou, carrego cá comigo o papel que o Ary me trouxe como prova material de que existem esses tais assassinos do ensino médico. Posso estar doido, mas não sou besta...