segunda-feira, 27 de junho de 2011

Comelão

Não tinha boa reputação entre as mulheres. Diziam todas que era um mulherento, um casanova. Uma de suas pequenas teria dito, certa vez, numa discussão entre outras possíveis vítimas: -“Não respeita nem vaca atolada”!
Um dia conheceu Rosane e se apaixonou. Sem outra saída, casou. Foi um alívio para a família dele, e uma preocupação para a dela. Ainda assim tinham esperanças de que se aquietasse.
O trabalho o absorvia em demasia. Não sobrava tempo para muita coisa. Mesmo assim pulava a cerca vez ou outra. Coisa sem importância, casos de uma noite, nada mais. Entre os amigos desabafava e contava sobre seus rabos de saia, de modo que sua fama continuava, ainda que de forma mais discreta.
Ao longo dos anos a mulher foi vendo os indícios que apontavam as safadezas do marido. Certa vez ligou para o escritório em pleno horário de trabalho e ele não estava. Ninguém soube dizer para onde fora. Ela descobriu depois que ele tinha estado com uma dona. Soube do endereço e tudo mais.
De outra vez, à guisa de esticar o serviço em serão, foi flagrado em óbvia mentira. A mulher o seguiu e viu tudinho. Pela manhã ia entrando em casa quando ela indagou do trabalho; respondeu: -“Puxado, minha filha, puxado...” Ela nem vacilou: -“Deixa de mentira, cabra safado, que eu te vi assim, assim...”!
Mesmo ciente de tudo, a mulher procurava fazer vista grossa. Afinal, havia certa discrição da parte dele. Já não era tão descarado quanto antes, quando eram noivos. Ela julgava que, assim, não era negócio fazer escândalo, que só contribuiria para os mais diversos comentários. Além do mais, quem mais queria saber das estripulias do Amorim? Pau que nasce torto morre torto, diziam. O escândalo só serviria a pôr lenha na fogueira.
                                         ***
Liminha era um sujeito baixinho, menor, inclusive, do que a própria mulher. Com efeito, a mulher do Liminha era uma senhora alta e corpulenta. Ele, mofino e franzino, quase desaparecia sob a axila da mulher. Dir-se-ia haver uma desproporção total.
Contudo, enquanto a mulher era delicada no falar e nos modos, Liminha não era de levar desaforo para casa. A vida toda fora objeto de gozação dos outros, e muito cedo aprendera a dar o troco em quem se metesse a besta. Não direi que era rude, mas se lhe tirassem do sério a coisa ficava preta. Conta-se que, uma vez, botou um sujeito para fora do escritório a bolachas e tabefes só porque estava bêbado e fora grosseiro com uma das secretárias. Não seria o fato inusitado se o indivíduo não fosse um homenzarrão de proporções descomunais. Liminha saiu cobrindo o sujeito de tapas até a rua. Não se sabe até hoje como o homúnculo foi capaz de uma proeza daquelas. Fora isso era um sujeito boa praça, prestativo e amoroso.
O diabo é que Liminha adquirira um péssimo hábito. Mesmo a mulher não conseguira, após inúmeras admoestações, fazê-lo perder aquele tão inconveniente costume. Ele, a princípio querendo agradar amigos e conhecidos de quem gostava, e depois estendendo a todos os homens que cumprimentava, saudava o povo assim: -“Fala, comelão!”  E onde quer que estivesse só se ouvia o Liminha: -“Fala, comelão!” Mesmo se o sujeito não fosse lá muito homem, o Liminha bradava: -“Fala, comelão!”
                                           ***
Iam entrando no clube, Amorim e a mulher, para a festa de fim de ano do pessoal do escritório. Gente a dar no tornozelo, abraços aqui e ali, eis que dão de cara com o Liminha e sua enorme esposa. Vendo chegar o Amorim e já sob o efeito de uns tragos, gritou a plenos pulmões: -“Fala, comelão!”
Em casa, mais tarde, Rosane quis saber que história era aquela de “comelão”. O pior é que naquela noite Liminha reservou o embaraçoso cumprimento ao Amorim somente. Foi a noite inteira, cumprimentando o pobre Amorim, para cima e para baixo: -“Fala, comelão!”

sábado, 25 de junho de 2011

O recado do Paulão

Será o Paulão meu parente? Uns dirão que, sim, o homem é meu parente. Afinal é um Cavalcante. Bem, é um Cavalcante com “e”, mas ainda assim um Cavalcante. Existem lá as explicações para a grafia diversa, mas o senso comum ensina que todos os Cavalcant(e)(i) são aparentados.
            Pois me escreveu o meu querido amigo Paulão para sugerir que ainda disserte sobre motociclistas e motoqueiros. Recomenda ele que há aspectos psicológicos nesses cidadãos, e não somente neles, mas em todos que dirigem um veículo, qualquer veículo. Com efeito, tudo o que envolve o ser humano há de ter o seu viés psicológico. Há gente que leva tão a fundo essa idéia que não dá um passo na vida sem consultar o psicólogo. Vejam o Mesquita, por exemplo. Se for viajar, vai antes ao psicólogo. Se estivar a ponto de fechar um negócio, quer antes saber a opinião do psicólogo.
Na América há uma verdadeira obsessão advocatória. Tudo que lá se faz, tudo o que lá se diz, das relações interpessoais à posse do cachorro, tudo, sem exceção, tem um viés legal. Se cometer o disparate de se escorar ao carro do vizinho enquanto atende ao telefone portátil, o indivíduo estará sujeito a responder processo por sabe-se lá que razão. Não se deve, portanto, na América, recostar-se ou escorar-se sobre o carro de quem quer que seja. Lá o advogado é o sujeito mais incomodado do mundo, e as ações que movem nunca envolvem pouco dinheiro. Faz parte da cultura do lucro. Portanto, lá se teme o prejuízo no bolso ao passo que aqui se teme a insanidade mental, a inadaptabilidade.
Mas o que Paulão queria, e que de fato suprimi do texto sobre motociclistas e motoqueiros, era que eu lhes apontasse as diferenças. Creio já tê-lo feito em parte, mas muito faltou. Por exemplo, tentemos responder à seguinte questão: que razão(ões) leva(m) o indivíduo a ter um comportamento, digamos, suicida ao pilotar sua motocicleta? Dissemos que ele se julga inatingível posto que saiba que o poder público o protege da forma mais torpe possível; mas, seria isso o bastante para credenciá-lo a arriscar sua vida em manobras absolutamente temerárias e insanas? Deve haver, no fundo da alma desse ser humano, um desejo oculto de morte, um desprezo enojado e entojado por sua vida. Dir-se-ia que não mais tolera a vida.
Já em certos condutores, notadamente os de veículos maiores – carros, ônibus, vans, etc. – predomina o desejo de matar, e aqui formularíamos a questão pertinente a esses elementos: o que faz um sujeito aparentemente normal transformar-se, subitamente, em um assassino frio e sádico? São essas questões que Paulão queria ver abordadas.
Ora, de psicólogo nada tenho. Como poderia, então, me aventurar a discorrer sobre tão complicado tema? Diz o Schopenhauer que o homem carrega em si o desejo vital de preservação individual, que se manifesta pela fome e o medo da morte, e o desejo vital de preservação da espécie, maior que o primeiro, e que se manifesta pelo impulso sexual e na proteção ferrenha à prole. Não me consta que os motoqueiros vivam sem comer, numa greve de fome irremediável que os mate antes do desastre no trânsito. Então, persiste a dúvida: por que se comportam como se quisessem morrer? Dirá alguém que o desastre mata mais rápido, e eu direi que se assim fosse lançar-se-iam sobre o primeiro poste a toda velocidade. Como nenhum dos acidentados manifesta após o desastre o desejo consciente de morrer, podemos supor um desejo inconsciente?
E o que dizer dos assassinos do volante? A vontade de matar deve ter sido descrita por uma montanha de estudiosos de psicopatas. Eu não saberia nem mesmo começar a tentar explicar o que ocorre com esses indivíduos. Entre eles deve haver alguns que nem chegam a padecer de tal gravidade de comprometimento da saúde mental. Serão pessoas, homens em sua maioria talvez, que levaram chifres, ou que perderam o emprego, ou cujos chefes estão a pressioná-los ao limite, e que, em momento de desvario e “privação dos sentidos” – esse argumento já livrou alguns assassinos em tribunais – avançam sobre alguém e lhe tiram a vida.
Quaisquer que sejam as possibilidades, há, sem dúvida, toda uma bagagem de personalidade, toda uma bagagem educacional, afetiva, emocional e religiosa em indivíduos que arriscam suas vidas e naqueles que tiram a alheia ao conduzir qualquer tipo de veículo.
Alguns órgãos de trânsito de alguns estados já se mobilizam para ampliar a educação sobre ele, também procurando entender e conhecer a personalidade de cada novo candidato a condutor a fim de identificar quais os mais propensos aos desvios. Seria de grande ajuda se essa prospecção atingisse o resultado que se propõe: impedir suicidas e assassinos de dirigir.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Mais saraus e menos redes sociais

Acho que foi o Rubem Alves quem disse, numa crônica repleta de verdades contundentes, que o povo não presta. Disse mais. Disse que o indivíduo sozinho, extraído do povo, isolado do povo, busca a virtude e age segundo régios e rígidos princípios morais. Concluiu o Rubem que o sujeito, quando faz parte da massa, quando é povo, passa a ser movido por não se sabe quais forças malignas.
            Uma querida amiga, em resposta ao meu texto de ontem De flozô nas redes sociais, escreveu o seguinte – que o Facebook possui 700 milhões de usuários e que se tem a opção de ficar de fora, mas quem o fizer muito tem a perder.
            Com efeito, tal elasticidade numérica é algo digno de notar, e me fez lembrar uma do Nelson, que disse que toda unanimidade é burra. Não é o caso com o Facebook, cuja multidão de apreciadores pouco passa de dez por cento da população do globo. Não diríamos, portanto, que essa rede social seja uma pretensa unanimidade, mas há que se reconhecer que estão aí mais de três Brasis a se empanturrar de exibições e mexericos diversos.
            Ainda que não seja a unanimidade que o saudoso Nelson Rodrigues taxou de burra, possa ser que a multidão aventada venha a preencher os critérios do grande Rubem Alves. Afinal, 700 milhões de pessoas é um povaréu, uma quantidade imensa de gente.
            Assim, a pergunta que me faço após essa inquietante reflexão é sobre se fico ou não de fora delas. Não estou fora, já que uso as redes sociais para divulgar os textos que escrevo, e a isso elas me parecem uma poderosa ferramenta. Também, vez ou outra, lanço às redes sociais uma e outra música que julgo bela a fim de levar aos amigos que lá estão o prazer de ouvir uma boa canção. No mais elas me parecem de uma inutilidade definitiva e inamovível. Foi sobre essa redundante e insistente inutilidade que escrevi no De flozô nas redes sociais.
            Concluo o seguinte – nem todos estão a fomentar a imprestabilidade nas redes sociais, e muitos as utilizam naquilo que elas mais são úteis. Fácil é concluir também que ficar de fora, absolutamente de fora, não é muito inteligente porquanto se deixa de utilizar a poderosa ferramenta. Por outro lado, e ratificando o que disse, incitar e estimular a béstia às redes sociais me parece uma excrescência despropositada.
            Vejam lá que não digam que conspiro e critico de forma leviana. Sugiro, para provar o contrário, que os amigos se encontrem mais vezes, promovam mais saraus – convidando através de um telefonema –; que quando saírem a viajar façam, ao retorno, em casa, uma sessão de fotos comentadas a relatar os episódios inusitados e divertidos; que quando nascer o bebê que se chamem os amigos para beber seu “mijo”; que se acheguem mais frequentemente, enfim. Afinal o que é mais prazeroso na amizade é estar junto, próximo, pelo simples prazer da convivência. Não se convive na virtualidade. Esse é o engano contra o qual estou e me esgoelar.

De flozô nas redes sociais

Sempre me impressionaram as figuras espectrais e ao mesmo tempo densas na presença. Mais recentemente passou a me impressionar a vida virtual. Vejam bem. Não falo da facilidade das comunicações advinda do uso da rede mundial de computadores. Lembro do início de seu uso, creio que em meados dos anos 90, quando levou-me a sua casa o meu amigo Casoba e navegou ali, na tela do computador, por uns poucos minutos para eu ver como a coisa funcionava. Confesso não ter me impressionado tanto quanto agora, ainda que tenha me sentido démodé quanto a alguma coisa.
            Isso só me leva a pensar o seguinte: - a rede mundial de computadores mudou a maneira como as pessoas se relacionam e a maneira como moram. Ao início ela era usada preferencialmente e basicamente para se obter informação de forma rápida e barata. Hoje ela é usada como um verdadeiro lar aberto para o mundo, uma casa com quarto, sala, cozinha e banheiro. Explico. Hoje o sujeito dorme, acorda, escova os dentes, almoça e janta nas redes sociais da rede mundial de computadores. Explico novamente. O sujeito passa o dia com o computador pessoal, que pode ser um telefone que funcione como computador, ligado à sua frente. Onde quer que esteja, o que quer que esteja a fazer, estará lá, ligado à rede social, dando conta de sua vida ao mundo. Diria minha avó que aquela seria uma casa com a “porta da feira” aberta.
            Outro dia uma amiga escreveu numa dessas redes sociais, já tarde da noite: “estou indo dormir”, e os que estavam conectados quase foram cobertos por seu edredom. Uma outra anunciou na rede, a mesma rede: “estou há três dias numa gripe tremenda!” Os que estavam conectados desligaram suas máquinas de imediato temendo a contagiosidade da virose da outra.
            Ontem, ao encontrar amigos e amigas, uma delas me indagou o porquê de minha ausência em certo sarau ocorrido dias antes em determinado restaurante. Respondi-lhe, numa ingenuidade imprópria para minha idade, que minha ausência se deveu única e exclusivamente ao meu desconhecimento do evento. Todos se mostraram abismados, já que o anúncio fora feito na rede social. Conclui-se que nem mesmo o correio eletrônico é mais usado como forma de comunicação. Quem quiser se atualizar e se comunicar mais modernamente deve participar ativamente e diariamente das redes sociais. Fora delas o indivíduo não é mais que uma pedra a jazer à beira da estrada.
            Tenho amigos que são médicos e, nos raros momentos em que a rede social entra em meu computador pessoal – é a rede que nele entra, e não o contrário –, lá estão eles. Seja a que hora for, eles estão sempre lá. Como alguns são cirurgiões, presumo que estejam a operar seus pacientes ao mesmo tempo em que estão conectados à rede social. Se estiverem no consultório acredito que nem olham para as fuças de seus pacientes, já que estão papeando na rede social. E assim, outros amigos e amigas, das mais diversas e ecléticas atividades laborativas, todos passam o dia de flozô nas redes sociais.
            Há mais e, repito, há mais. Os frenéticos participantes das redes sociais não se contentaram em apenas sepultar o correio eletrônico como forma de comunicação. Encontraram nelas, também, a forma perfeita de expor seus méritos, seus amores, suas realizações, seus familiares, sua vida, enfim, tudo o que estão a fazer e sentir. Há, nas redes sociais, toda uma psicologia, toda uma temática psicossocial, um verdadeiro laboratório para estudo do comportamento humano em seus mais diversos matizes e nuances. Nas redes sociais há o lar e a rua de cada um; há nelas implícita e explícita a necessidade de ser visto, de participar, de se autopropagandear.
            Assim, sinto-me quase fora da vida quando encontro os amigos que são ferrenhos participantes das redes sociais. Sinto a mesma sensação de que algo em mim é démodé, como quando vi pela primeira vez o Casoba navegar na rede mundial de computadores. Lá, há mais de quinze anos, sentia algo passageiro, quase uma sombra que eu sabia se desfaria em breve.
Agora, contudo, me paira a sombra do intransponível. Vai-me mais bela a vida com o mistério de si mesmo, sem as exposições desnecessárias e banais, sem os diálogos sumários que não se aprofundam, sem os amores virtuais que me levam à solidão do não-ser; vai-me melhor o olho no olho e os sorrisos francos que não disfarçam os esgares mínimos do contato direto e pessoal. Como disse o Pessoa, “morrer é apenas não ser visto”. Estariam mortos os meus amigos das redes sociais? Alguns talvez, outros nem tanto.
Se aceitá-las tão alastradamente temo necessitar, doravante, de meu notebook para amar. 

domingo, 19 de junho de 2011

Motociclistas e motoqueiros


Escreveu-me o querido amigo Roberto Jorge, numa genuína exortação: “Cuidado com o trânsito!” Referia-se ao perigo de se andar sobre uma motocicleta.
            De fato há, na motocicleta, perigos e perigos, e o maior deles reside justamente em quem a pilota. Direi de outra forma. Há motociclistas e há motoqueiros. Ainda que sejam sinônimos no Aulete, estão longe de o serem de fato, na vida real e ainda mais nas ruas de nossa capital. Direi mais: nas ruas, avenidas e estradas desses mais de cento e quarenta e seis mil quilômetros quadrados há uma diferença diametral entre uns e outros.
            Quem quiser confirmar o que digo que dê uma passadinha rápida ali no Instituto Dr. José Frota (LJF). Lá encontrará o visitante a maior população de acidentados de motocicletas do mundo. (Será que estou a exagerar?) Levemos o discurso para a idéia matemática de proporcionalidade. Se não for a maior em termos absolutos, o será em termos relativos ou proporcionais.
            Razões para isso temos de sobra, incluídas as relacionadas com a conivência do poder público. Não há postos do departamento de trânsito em mais de noventa por cento dos municípios cearenses. Não há fiscalização. Segundo o jornalista Fábio Campos, tudo isso vem a reboque do que ele denominou de “pobrismo” e “coitadismo”.  Expliquemos.
            Segundo o jornalista, políticos influentes do executivo têm “pregado” que o sujeito, sendo pobre e coitado e não podendo cumprir a lei – dirigir ou pilotar com habilitação e usar um capacete e outros itens de segurança – , deve ficar “isento” de cumpri-la. A lei obriga a todos os cidadãos estarem habilitados para dirigir e, no caso dos motociclistas, usarem capacete ao pilotar uma motocicleta. Em suma: rasgaram a constituição os nossos políticos populistas. Para eles, nem todos são iguais perante a lei. Há casos “especiais”: os dos pobres e dos coitados. Pregam a “vista grossa” para eles.
            Por outro lado, e se não bastasse a vista grossa, é conhecida no país a leniência e brandura das leis para os criminosos do trânsito. Os legisladores, não se sabe por que, não estão nem um pouco preocupados em mudar esse estado de coisas. Veio a lei seca, aumentando a multa para os que dirigem alcoolizados. Logo após a sua promulgação as blitze abundavam. Passado algum tempo, sumiram. Conclui-se que, sendo a lei muito dura e sendo o brasileiro muito pobre, todos foram taxados de coitados, e não se deveria fiscalizar. Seguimos, assim, a cultivar nossa vocação para a incivilidade. Continuamos a ver os assassinos do trânsito sair impunes como a criança que quebrou o abajur da sala.
            A Revista Central, que veicula notícias de nosso sertão central traz, neste domingo, as seguintes manchetes, apenas para constatar o que digo:
            “Motorista atropela motociclista em Pedra Branca” (http://www.revistacentral.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=2422:caminhaoatropelamotociclistaempedrabranca&catid=138:policia&Itemid=516) O motociclista, no caso o motoqueiro, estava alcoolizado ao momento do “acidente”.
  “Acidentes de trânsito no Sertão Central matam dois motociclistas” (http://www.revistacentral.com.br/index.phpoption=com_content&view=article&id=2426:acidentesdetransitonosertaocentralmatamdoismotociclistas&catid=137:policia&Itemid=51) Em um dos sinistros o motoqueiro estava na contramão quando foi colhido e, no outro, a motocicleta não tinha placa.
            As medidas do governo do estado que interessam o Sertão Central no que tange ao trânsito foram anunciadas na matéria “Detran e PRE realizam ‘operação capacete’ em Solonópole” (http://www.revistacentral.com.br/index.phpoption=com_content&view=article&id=2417:detraneprerealizamoperacaocapaceteemsolonopole&catid=121:outrascidades&Itemid=499) Na “operação” apreenderam doze motocicletas e as recolheram para a regional do Detran de Morada Nova. Os proprietários têm 48 horas para retirá-las ao pagar uma multa de R$ 173. Ao que conste ninguém foi preso na incrível operação.
            Bem se vê que a atuação do executivo limita-se a manter dez postos do órgão para cobrir 184 municípios e a fazer “operações” pontuais. Visitando-se o IJF descobrir-se-á a completa ineficácia dessas atividades e seu pífio resultado.
            No IJF há quase tão-somente motoqueiros, gente que não tem amor à vida, nem à sua nem à do outro, porquanto pilotam embriagados, sem capacete e muitas vezes sem habilitação. Não fossem apenas essas tais constatações irrefutáveis, já que o que está no hospital é perfeitamente contável e mensurável, basta ir às ruas da capital para observar a maneira irresponsável e reprovável com que os esses motoqueiros pilotam suas motocicletas. Não respeitam semáforos; “costuram” entre filas de carros como um enxame de abelhas malucas; ultrapassam pela direita; permanecem em pontos cegos dos carros que lhes estão próximos; pilotam em alta velocidade em ruas e avenidas esburacadas; enfim, comportam-se como se inatingíveis fossem e como se, por serem mais fracos ante os veículos de maior porte, tivessem sempre a razão e o julgamento a seu favor. Esperam, em caso de “acidente”, serem tratados como “coitados” e “pobres”. No interior? Mostrei acima apenas as notícias de hoje do Sertão Central. Estou aqui a imaginar o que ocorreu no resto do estado.
            Ao meu amado amigo digo que me comporto como um bom motociclista. Tenho sempre em mente um princípio: jamais cometer um erro por menor que seja, tanto quanto mais consciente for. Negociar e transigir com o erro é abrir-lhe a porta à sua banalização e minimização, e daí à sua repetição é um pulo. Todo mau hábito tem o seu pulo inicial. Essa é a razão para não me permitir a ele.

sábado, 18 de junho de 2011

De motocicleta sobre o abismo

Uma parte de meus amigos sabe que, desde março, ando motorizado. Alguns, de imediato, tiveram a torpe idéia de me amputar o auto-infligido epíteto de “descarrado”. Ora, “descarrado” não está nos dicionários, não é uma palavra que exista na língua madre. É, de fato, um neologismo por mim criado que significa “sem carro”, ou “aquele que não possui carro”, ou ainda “aquele que se desfez do hábito de usar o próprio carro”.
            Assim, ter adquirido a motocicleta não me descredencia da alcunha. Continuo “descarrado”, continuo sem ter o carro. Há quase sete anos percebi que o carro é uma abjeção completa e irremediável. Hoje, vejam nossas ruas e avenidas. Outro dia uma amiga escreveu o que se revelava o alívio de toda uma cidade, de todo um povo. Escreveu: “finalmente parou de chover em Fortaleza”. Podia ter escrito: “finalmente sumiram de Fortaleza todos os carros”, e teria, da mesma forma, estampado na frase o desejo unânime. E, diga-se de passagem, chuva e carro não combinam nesta desengonçada cidade.
            Pois era precisamente isso que minha doce amiga tentava dizer. Na frase estava implícito o carro que deveria desaparecer da cidade, milhares de carros na verdade. Em Fortaleza a todo instante se tenta desafiar a propriedade da impenetrabilidade da matéria. Diz ela que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço. Em Fortaleza o espaço é pouco, ao passo que a matéria é muita. O que se está tentando fazer, e em breve se perceberá que é literalmente impossível, é desafiar a lei da física (ou será da química?).
            O que minha amiga também não disse, e que nenhum proprietário de carro como ela diria, é que iria se desfazer do seu. Todos a concordar com este ponto querem ver menos carros nas ruas, querem que as pessoas se desfaçam de seus carros, mas nenhum deles quer se livrar do seu. A medida é excelente... para os outros, nunca para si mesmo.
            Dirão mil e uma justificativas. Explicarão que o transporte público é insuficiente e caótico, que é a malha viária sucateada muito contribui para o caos no trânsito, que o calor inviabiliza a renúncia ao carro, que a motocicleta é perigosa, que a insegurança não permite, etc.etc. Numa aparente solidez da argumentação e da retórica concluirão, ao fim do discurso, com uma dessas certezas convictas e inapeláveis, que é impossível se viver sem carro nesta pobre cidade, quando, de fato, é justamente o contrário. É impossível se viver com carro em Fortaleza. Farei apenas, em defesa de minha tese, um pedido: que me dêem cinco anos. Sim, esperemos apenas cinco anos, a permanecer tudo como está, para vermos o que virá.
            Dirão também das inevitáveis melhorias da cidade com o advento da Copa. (Um longo suspiro) Com um mordaz desânimo vejo essa história sobre a Copa. Mas esse não é o tema da prosa. Voltemos ao carro ou, melhor, à apologia contra o carro.
            Se as paradas de ônibus estivessem abarrotadas de gente – vejam bem: abarrotadas de verdade, todas elas – haveria bem mais e melhores transportes públicos. Nos primeiros dias seria o caos instalado. Os chefes e os empregos que esperassem. Ninguém é obrigado a ter carro para chegar no horário ao expediente. Os empresários do transporte público, ao servir a elite com a qual se preocupam – sim, porque não dão a mínima para a arraia miúda – passariam a investir mais no setor; e novas empresas, do local ou de outros estados, surgiriam melhorando a concorrência que beneficia o usuário.
            Com isso, o poder público se veria na obrigação de fazer a sua parte – o poder público não gosta de desagradar empresários infligindo-lhes prejuízos contínuos e vultosos pela quebra de seus veículos. Investimentos sérios e maciços na estrutura da malha viária fariam desaparecer os buracos e o asfalto “sonrisal”.
            A insegurança – entenda-se a falta de educação, fiscalização e cumprimento das leis civis e do trânsito – seriam resolvidas com o que se sabe já dar resultados em países ricos. Não queremos ser desenvolvidos? Ajamos como um povo desenvolvido e civilizado. Então seríamos, de fato, desenvolvidos e civilizados. E também nos outros mais de cinco mil e quinhentos municípios brasileiros se faria da mesma forma.
            (Outro mais longo suspiro e meneando a cabeça)
            O abismo que vislumbro não cabe em minha mente, mas é grande o bastante para ser visto. Estamos condenados.

sábado, 4 de junho de 2011

A guerra covarde

Falava eu das incertezas.
            Não há nada mais repleto do óbvio do que o falar das incertezas. Certas obviedades são tão intensas que dissertar sobre elas seria uma repetição de tautologias concatenadas. Seria esse o caso da dissertação sobre as incertezas. Seria?
            Incertezas são sempre adversas. Mesmo a certeza do que não se deseja é menos adversa do que a completa incerteza sobre algo. Eu dizia que as incertezas testam a resiliência, tamanha a adversidade que elas impõem.
            Imaginemos na guerra.
            Paremos antes de seguir, visto que me assalta o pensamento absurdo. Há dois tipos de guerra. A guerra que é mesmo guerra, e a guerra que não parece guerra; ou melhor, é exatamente como a verdadeira guerra, posto que se mate e se morra através da violência do ser humano contra o ser humano, mas nela não se usam uniformes. Essa última é a guerra urbana, que ocorre em países onde a lei não coíbe, onde a justiça não funciona. Ainda assim, imaginemos na guerra, aquela em que se mata de uniforme.
            As cidades são arrasadas e o povo que não morre nos ataques fica sem comida, transporte, hospitais, escolas, água, roupas, e tudo o de mais básico. Há aqui uma certeza na mente desse povo: está instalado o caos, o completo caos. Haverá quem deseje ter morrido nos bombardeios. Mas há também a esperança, e com ela a incerteza. Sua incerteza maior refere-se ao quando. Quando se verá novamente a paz e tudo o que a acompanha?
            Por isso falava eu de nossas poucas e necessárias certezas. Seriam as certezas básicas do atendimento de nossas mais primárias necessidades. Na guerra de bombas e uniformes perde-se tudo isso. Daí haver quem preferisse morrer a viver sem elas. Na morte cessa todo e qualquer sofrimento.
            É provável que na guerra suscite-se no povo o crescimento de resiliências individuais e coletivas, além da aversão àqueles efeitos da guerra e o desejo ardente de impedir uma nova a todo custo.
            Na guerra urbana, que chamaremos de “a guerra covarde”, um dos lados não está armado. Sua única arma, a lei, não dispara um só tiro mortal contra o inimigo. Resta ao “soldado” desarmado esconder-se, esquivar-se, não se embrenhar, seguir certas normas que cerceiam o que ele imagina ter – a liberdade. Assim, nessa guerra, maior ainda é a incerteza. O sujeito sai de casa para o trabalho, mas não sabe se voltará. O aluno vai à escola, mas não sabe se de lá regressará vivo. A senhora sai com o bebê e não sabe se ele será arrastado pelas ruas preso ao cinto de segurança por “soldados” fortemente armados e ferozes de ira.
            Contudo, ao contrário da guerra de uniformes, a guerra covarde não parece implicar no aumento da resiliência do povo nem da aversão a ela. Em que pese a constatação fragorosa da falência das instituições como uma causa preponderante dessa guerra, o povo não se dispõe a amar as instituições e a lei. Ele segue como povo, cada um por si, embasado nas esperanças individuais de melhores dias; embrenha-se na falta de identidade das multidões a esconder-se de seus algozes; alimenta a esperança de que jamais verá a sua vez de ser a vítima; acovarda-se, de modo que essa guerra, a guerra urbana, não lhe serve a refinar o caráter; troca a resiliência pela resignação covarde, o que acaba por lhe piorar mais ainda as entranhas já podres.
            A guerra covarde é covarde por nela dar-se o enfrentamento do armado com o desarmado e por nela moldar-se o povo covarde, sem caráter, sem amor à lei, sem ânsias da glória dos bons combates, sem o heroísmo dos que põem em risco a vida para libertar sua nação e seus concidadãos das pragas que lhe acometem. Esse povo deixa de aprender no dia a dia que a nação é uma congregação de homens que buscam o mesmo bem e que não há felicidades individuais que sobrevivam à ausência de felicidade coletiva. A guerra covarde é também a guerra dos covardes. 

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Resiliência e incertezas

Estive, por dois longos dias, pensando em demasia nas vaquinhas de meu amigo Feitosinha. Desde que se iniciou meu torturante périplo elas se tornaram a minha mais recente, mais intensa, mais premente obsessão.
Os amigos sabem de minha ojeriza pela psicoterapia. Outro dia recebi de uma amiga psicóloga um puxão de orelha. Ela dizia não entender como eu, um médico, um escritor, um sujeito “de nível”, podia pregar tal asneira. Minha resposta foi o silêncio dos que amam. Não pretendia entrar a argumentar contra quem é a favor. Se respondesse, diria que justamente por ser médico é que sou contra. Diria também da minha principal razão: os pacientes não melhoram com psicoterapia. Como médico não posso apoiar tratamento que não cura ou não alivia a dor do que sofre.
Pois dirão que minha obsessão bovina merecia sessões de psicoterapia, e direi que não, absolutamente não. E por quê? Porque o problema não é a obsessão, mas o que a suscita. Quem precisa de um remédio é seu causador, da mesma forma que o fármaco é administrado para a doença e não para o doente.
Direi do meu caso.
            Há dois longos e intermináveis dias viajo. No exato momento em que escrevo estas notas estou dentro de um avião, o terceiro desses dias. Serão vinte horas de vôo somadas a outras vinte e oito dentro de aeroportos, num total de quarenta e oito horas. Se somar as horas que antecederam o início da empreitada mas que foram de preparação à mesma – cerca de duas horas – teremos cinqüenta horas. Direi de outra forma: - há cinqüenta horas tomei meu último banho; há cinqüenta horas estou a vestir a mesma roupa; há cinqüenta horas não durmo numa cama; há cinqüenta horas não vejo um carro, uma rua, uma praça, um burburinho de vizinhança; há cinqüenta horas não vejo uma cidade que não seja do alto.
Não sei se me faço entender. Tentarei uma explanação sucinta.
            Imagine que o sujeito saia a subir numa aeronave para viajar. Ele sai, mas a certa altura percebe que já não sabe se chegará e, caso chegue, quando isso se dará. Pois é o que está a ocorrer comigo neste exato momento. Estou aqui em cima escrevendo estas notas, após ter escrito outras ao dia de ontem. Quando escrevia as de ontem não sabia eu o que ainda me reservava o destino.
            Pausa.
            Não foi o destino que me reservou tamanho caos: - foi a empresa aérea que contratei e seus funcionários. Direi que todos os males do aeroporto se complementam perfeitamente na empresa aérea que lá opera, qualquer que seja ela. Direi mais. Nunca vi duas entidades tão harmonicamente ligadas no propósito de torturar o ser humano como o aeroporto e a empresa aérea. Elas são tão complementares, tão similares, tão perfeitamente embrenhadas que difícil é dissecar uma da outra. Não há empresa aérea que preste. Todas visam tão-somente seus interesses e lucros à custa do pobre viajante.
            Eu dizia dos maravilhosos e enormes aeroportos do primeiro mundo. São fantásticos. Têm de tudo, de tudo mesmo, para elevar ao grau mais elevado de tortura a espera. O aeroporto é um local de espera. Não foi construído para o sujeito lá dormir, nem tomar banho, nem namorar, nem mesmo para o sujeito se aliviar. A água das torneiras do aeroporto do primeiro mundo – no primeiro mundo há torneiras – é liberada a muito custo. Tudo no toillete do aeroporto do primeiro mundo é feito para o sujeito que está nas últimas, pela hora da morte, quase se esvaindo. As torneiras são automáticas para desligar. E desligam rapidamente. A economia de água, esse bem precioso, é, diferente da minha, a sua obsessão. E não há papel-toalha; só o higiênico. Por quê? Porque para lavar as partes íntimas se gasta infinitamente muito mais água do que para lavar o rosto ou as mãos. Para enxugar as mãos usam-se aquelas máquinas de ar quente. Ainda estão para inventar a máquina de vento quente que não queime as partes pudendas do sujeito. Chuveiros? Aeroporto não é vestiário de campo de futebol. O sujeito pode lá ficar horas a fio e não vai tomar banho nem a tiro.
            Assim, o aeroporto é construído para esperas rápidas, ao passo que a empresa aérea impõe esperas demoradíssimas. Como conciliar tal disparate? Impossível. Dirão que as empresas oferecem hotéis e alimentação nesses casos, e é verdade. Mas, quando se espera estar em casa em determinado dia e determinada hora e esta chegada é atrasada por mais de 30 horas, tais ofertas aliviam a angústia, necessidades e compromissos do que quer chegar? E se numa mesma jornada for necessário hospedar o viajante mais de uma vez? Hotéis ofertados por empresas aéreas que não cumprem o seu contrato com o viajante não resolvem, inda mais quando há várias e várias falhas na mesma viagem.
            Voando agora, ao que parece pela última vez nesta jornada, sinto o alívio da certeza. Há cerca de quinze horas meu destino era incerto e – pior! – desenhava-se ainda mais negro com as soluções propostas.
            O alívio de uma certeza me pôs a refletir sobre elas, as certezas. Queremos as certezas, ainda que sejam algumas poucas. E quando elas nos faltam, testa-se nossa resiliência. Somos testados na capacidade de responder positivamente quando se apresenta uma situação adversa, em que a impotência é nossa maior companheira. As situações adversas não requerem psicoterapia. Elas  requerem o exercício da paciência, do autocontrole, da capacidade de dialogar e negociar e, por fim, da maturidade necessária  para suportar uma perda inexplicável.   
            O piloto anuncia o pouso. Lembro o que me ensinou meu amado amigo Rachid: “pousar é imperativo; decolar é opcional”. Estamos pousando. É imperativo voltar para casa. 

Aeroporto

Tenho que admitir: meu amigo Ciro Ciarlini está certíssimo.
Creio já ter-lhes contado antes. Ciro detesta viagens internacionais. Para ser ainda mais verdadeiro, direi que o homem detesta também as nacionais. Para ele aeroportos são lugares a serem evitados, os nacionais pela precariedade de suas estruturas e serviços, os internacionais pelo excesso de tudo.
Em aeroportos que são verdadeiros mundos em países onde a segurança é a neurose preponderante, o sujeito é mais humilhado do que as vacas de meu querido Feitosinha.  Não sei se sabem, mas o Feitosinha cria umas vaquinhas ali, numa humilde propriedade a alguns quilômetros da cidade, no caminho do Iguape. Pois bem.  Quando vão lá umas horas, Feitosinha põe os bichos numa fila indiana para que bebam água em enorme tanque. Um a um eles saem do mato onde pastam e entram por caminho cercado de madeira em direção do reservatório, ao grito de comando de meu amigo ou de seu capataz. O boi é um animal manso e submisso, mas ainda assim é espantosa a sua inteligência e instinto de organização para o ritual do Feitosinha.
Em grandes aeroportos se dá o mesmo conosco. (Estou subestimando a coisa. O que acontece lá conosco é pior, bem pior.) Filas enormes são transformadas em ziguezagues que dão náuseas; depois quase despem os miseráveis viajantes em busca de bombas, armas, explosivos, ou qualquer troço que possa ser usado para seqüestrar um avião. Isso sem falar em nossas bagagens de mão que são, muitas vezes, abertas em busca desses bagulhos.
E as esperas? As esperas são um exercício de paciência para qualquer mortal que adentre esse ambiente impessoal que é o aeroporto. Tão impessoal ele é que a polidez fria e modorrenta de seus funcionários espanta pelo cinismo. Ainda assim há sorrisos. Um tanto quanto amarelos, mas ainda assim os há, e são suscitados quando o vendedor de uma de suas inúmeras lojas vende algo.
Eu disse que aeroportos são verdadeiros mundos? No último onde estive a jornada até o portão de embarque durou pouco mais de meia hora. Conclui-se que, ainda que se chegue no horário, sempre se está a um segundo de se atrasar e perder o vôo. Em resumo: os gigantescos aeroportos do primeiro mundo padecem de excesso de gente, de distâncias, de cinismo, de lojas, de espera e o que mais se queira enumerar. As vantagens de sua perfeita operacionalidade – eles funcionam impecavelmente – são pagas com os tais excessos. E daí o pior: não há do que reclamar. Meu desabafo é o desabafo do brasileiro não dado ao funcionamento perfeito do que quer que seja.
Sei o que incomoda o Ciro. É o mesmo que a mim – no gigantesco aeroporto do primeiro mundo o sujeito perde o sossego e é tratado como as vacas do Feitosinha. Tudo funciona perfeitamente, nada dá errado, mas ainda assim a sensação de ser uma vaca do Feitosinha não pára de se abater sobre o cristão. Fico cá me perguntando sobre o pessoal da primeira classe, o povo que tem status de very important person. Quero crer que a eles não se impõe o triátlon do aeroporto. Ou estarei equivocado? É bem provável quem sim.

                                                               ***

Terminara de escrever as notas acima poucos minutos antes de o piloto anunciar nossa aproximação do aeroporto de Madrid, onde faria a conexão que me levaria de volta ao Brasil. Atentei para a hora e percebi o problema – a conexão partiria em pouco mais de trinta minutos depois da parada completa do avião no finger de desembarque de passageiros.
O aeroporto Madrid-Barajas é um monstrengo com dois enormes terminais distantes cerca de 1,5 quilômetro um do outro. Se você tem uma conexão neste aeroporto, ela partirá do terminal diferente do de chegada. Entre os dois há um metrô a interligá-los. É quase certo que meia hora não seja tempo suficiente nem para que os passageiros alcancem o portão de embarque, nem para que a bagagem seja transportada de um avião a outro.
Conclusão: após uma correria maluca dentro daquele antro de ferro, alumínio, concreto, vidro, madeira e fibra de vários materiais, chegamos ao portão de embarque apenas para descobrir que perdêramos o vôo. A partir daquele instante se iniciou a saga de cerca de quarenta pessoas para voltar para casa.
Durante a espera, algumas constatações improváveis. Aeroporto de primeiro mundo tem papel higiênico e privada. Por dedução podemos afirmar categoricamente: no primeiro mundo também se faz cocô. Isso é de uma dimensão inusitada, visto que muitos bons brasileiros já perdiam as esperanças por achar que só no Brasil se caga e se faz cagada. Outro exemplo esclarecedor: no primeiro mundo as pessoas xingam as outras quando com elas se irritam. Não é somente o brasileiro a mandar o funcionário mal educado da companhia aérea se foder quando flagrado em evidente delito da descortesia e prepotência. Outras pessoas de nacionalidade diversa, muitas nascidas e criadas no primeiro mundo, também o fazem. E com que ira, e com que esgares e trejeitos! Não fosse apenas isso, diríamos que também no primeiro mundo a polícia é usada para intimidar o cidadão de bem, exatamente como se faz em terras tupiniquins. É um alívio descobrir que muito do que fazemos aí se faz aqui também. O homem é o mesmo em sua essência, e no aeroporto essa essência única se expõe como os bofes do gato morto à beira da estrada.
Aqui estou eu, agora, no aeroporto de Madrid, onde não queria estar, após almoço patrocinado pela fajuta companhia aérea de primeiro mundo, escrevendo as linhas que comprovam o que disse ao início e esperando voar em seis horas por mais doze. Penso nas caras que fará o meu querido Ciro Ciarlini quando lhe contar este episódio fatídico. Dirá, segurando e subindo as calças frouxas pelos lados: -“Eu não te digo, rapaz? Desse jeito é melhor ficar em casa!”

Madrid, 31.05.2011