terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O LEGÍTIMO VESTE-CALÇAS


Vejam vocês que certas profissões são ofício de 24 horas. O sujeito que é padre é padre enquanto dorme, mesmo que esteja a sonhar com a mulher melancia. Vamos e venhamos, não somos culpados por sonhar. Ninguém há de condenar alguém, mesmo o pobre sacerdote, por ter sonhos libidinosos. E, no caso, nem será necessário lançar mão de argumentos freudianos para explicar por que cargas d’água um padre sonha com a mulher melancia. É perfeitamente compreensível.
            Da mesma forma o médico. Em que pese o fato de alguns julgarem despir-se do celibato tão logo lança o jaleco ao cesto de roupas sujas, é ainda mais médico quando chega à casa do que no hospital. Lá, no hospital, a função se dilui entre outros da mesma estirpe, e o que um não faz o outro fará. Em casa não. Se o buscam aí, terá que dar uma solução ao caso, nem que seja o atestado de óbito, que Deus o livre. E se o procuram no bar, quando estiver a bebericar com comparsas? O pileque torna-se, para aquele ce-erre-eme, um escândalo de proporções tremendas. Como diz o apóstolo, tudo podemos, mas nem tudo nos convém. Em suma, ser médico é também função de 24 horas. Vê-se por todo o exposto que não convém ao padre dormir nem ao médico bebericar.
            Contudo, somos humanos. E falhamos. E, se falhamos, que no máximo a falha seja uma titica de nada. Até porque há falhas e falhas. A do padre reside nas profundezas do subconsciente onde o id rosna como o leão liberto das amarras do superego que ronca. Que se pode fazer? “Orai e vigiai para não cair em tentação”. Não vigiou...
            O pior não é nem o médico que, se não estiver de serviço como o soldado na guarita do quartel, e se não houver mexido nas entranhas do povo momentos antes, pode até se dar ao luxo de bebericar e consultar. De preferência por telefone, de modo a que não lhe cheirem o bafo de tigre. Ninguém há de merecer. No consultório jamais, que não pega nada bem. E ainda por cima sem excessos para não perder a compostura. Há que se lembrar, como exemplo, um mau exemplo, o último presidente da república, várias vezes flagrado por câmeras fotográficas em visível estado de libação alcoólica. E põe libação naquilo!... Vejam que o sujeito se deixar perceber bêbedo numa fotografia é porque está a deixar Dionísio cheio de inveja e temendo perder-lhe o posto de deidade do descomedimento. Toda uma nação viu. Um pileque testemunhado por quase 200 milhões de expectadores deveria ir parar no livro dos recordes, sob qualquer aspecto de sua grandeza.
            Pois não foi o que me ocorreu outra noite quando estava a bebericar com amigos. Meus pileques não são pileques – são arroubos de felicidade e sorrisos. E aqui perceberão que, muitas vezes, é a consulta que nos fazem, aos médicos, a maior inconveniência. Desde que inventaram a engenhoca que é o telefone portátil que, por medo de perder alguma oportunidade ou qualquer outra coisa que nem sabemos se nos interessa, nos enfronhamos muitas vezes em situações periclitantes.
            Estou ali na Zug e me toca o maldito/bendito telefone portátil. Já eram umas horas de modo que, ou a coisa era muito boa, ou era muito ruim. No display estava escrito: AMORIM. Assim mesmo, em letras garrafais. Não se trata da presbiopia, que esta se compensou com a pouca miopia. Os nomes em letra maiúscula em minha agenda denotam o grau de importância do amigo, ou o grau de perigo que representam. O caso do Amorim se reveste de uma dualidade explicável.
            Atendo. A voz do homem denunciava seu dionisíaco estado. Parecia que a língua se lhe misturava entre os dentes, ou que os dentes estivessem soltos e a língua tentasse mantê-los quietos enquanto falava. Ao início nada entendi, mas em dois tempos a coisa se fez clara. Como o amigo é, além de pau d’água, um hipocondríaco de carteirinha, estava “passando mal”. E dizia: -“Não tô conseguindo... não tô conseguindo...” Eu perguntava: -“O que não estás conseguindo, homem?” Ele apenas dizia: -“Não consigo, Fernando... não consigo...!” (O ponto de exclamação é a minha tentativa de exprimir sua entonação de exaspero, frustração e indignação.) Dali a pouco ele diz: -“Tô aqui com uma menina... ela vai falar... fala aqui com ela...”
            Houve uma pausa mais ou menos breve, preenchida por sussurros ao fundo, como se a mulher hesitasse em falar ainda que o amigo insistisse. Ela disse: -“Oi, aqui é a fulana. Estamos aqui no motel e ele não consegue ter uma ereção... Quer saber de você o que deve fazer.” Percebi o risinho de escárnio da garota por estar falando com outro homem a fim de que ele resolvesse o problema de ereção de seu “cliente”. Ela provavelmente jamais passara por semelhante e hilária proeza.
            Um processo de ira começou a se instalar em mim. Essa o Amorim havia de me pagar, aquele pulha! Falei pra garota: -“Meu amor, faz aí um coquetel de Viagra e boquete nesse filho da puta. Se ele não levantar, amanhã eu amputo esse troço!” E “bati” o telefone na cara dela.
            Pergunto: foi pra isso que me formei? Tenham a santa paciência!

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

A marca da dissensão gratuita

         Uma amiga escreveu para me informar, de forma didática, e como se me fazendo um supremo favor, o seguinte: -"Mulheres não são escatológicas!"
         O caso é que escrevi um texto onde conto dos problemas digestórios de meu antigo amigo Amorim (http://umhomemdescarrado.blogspot.com/2011/11/peidorreiro.html). Sem usar da falsa modéstia, devo dizer que o episódio é por demais hilário para se o desprezar. E por que digo isso? Porque minha amiga, para completar, fuzilou: -"Não lerei!" Vejam que o título do texto, "Peidorreiro", dá bem uma noção de qual seja o mal digestivo a afligir meu querido e atribulado amigo. Alguém esperaria algo mais ou algo menos? 
        Devo dizer, assumindo desde já minha colossal ignorância, que pensei a princípio que a amiga estivesse a se referir a um suposto fim próximo de meu amigo. Imaginei que quisesse externar, falando por todas as mulheres do mundo, o elevadíssimo senso de otimismo do mulherio quanto ao fim da vida. Foi somente no segundo seguinte, quando disparou a frase que denotava sua indignação, que percebi que ela se referia à escatologia sinônimo de coprologia, o estudo científico das fezes para fins diagnósticos.
          Ela, presumi, dizia que o mulherio não se presta a este estudo, ou a conversar sobre ele, ou a ler qualquer coisa que lhes faça lembrar minimamente a sebosa matéria. Quando têm filhos não mais lhes trocam as fraldas e cueiros (Sou do tempo dos cueiros). Os pequeninos são trocados pelas babás ou pelo pai. É provável que não haja, no mundo inteiro,  uma única e solitária mulher a trabalhar em laboratório de análises clínicas, a examinar material fecal de quem quer que seja. Presumo que só homens estejam sendo contratados para essa tão ignóbil função. Há uma abjeta escassez de mulheres no laboratório, e ainda mais – há uma escassez de mulheres na Proctologia, a área da medicina que trata das doenças da parte baixa do tubo digestivo. A bem da verdade, em toda a minha vida de médico só conheci três mulheres na área da especialidade. Duas conheci pessoalmente e a terceira é uma sumidade na matéria, a doutora Angelita Habr-Gama, conhecidíssima até em além-mar. E por que tudo isso? Porque as mulheres não são escatológicas, como fez questão de frisar minha amiga.
         O que é necessário que seja dito é de uma obviedade que beira o desnecessário, e que a amiga não percebeu: o texto não foi escrito para as mulheres. O texto foi escrito para quem tem senso de humor, para quem aprecia o riso e galhofa após uma boa história, para quem aprecia banhar-se em endorfinas e exorciza a carranca. Em suma, o texto não tem outra intenção que não seja o prazer do divertimento, para os que se comprazem em se divertir com uma boa história. Acima de tudo, e numa única palavra – o texto foi escrito para o ser humano normal, sem distinção de raça, gênero, ou religião. 
       O que é provável que tenha ocorrido é que o texto foi postado em página de rede social onde abundam mulheres. Minha amiga julgou, e talvez tentasse me dizer exatamente isso, que ele não convinha bem ao "lugar". Mas... Será que todas as mulheres que o leram – se é que houve alguma destoante – pensam também que as mulheres não são escatológicas? Se for o caso estaremos diante de uma rebelião de mulheres contra um reles texto de humor. Seria a primeira revolta contra a pilhéria de salão. 
          Após sua intervenção, e ainda temendo ser mal interpretado, respondi-lhe com uma pergunta: "-E nem senso de humor têm as mulheres?" Dizem lá os entendidos da personalidade que o senso de humor é a marca de uma inteligência privilegiada. Não se fala do humor grotesco, do humor que humilha, do humor que constrange, mas do humor que se tira daquilo que de outra forma seria um fato ou um elemento natural ou até aborrecedor.  "Basta observar: quanto mais fino o humor, mais relações soube a pessoa captar entre os nomes e as coisas, os nomes e os outros nomes, as coisas e as demais coisas". Se assim for, que dizer de quem não o tem? 
           Não é uma questão de gênero, minha amiga. É uma questão de cérebro.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Uma ficção repleta de realidade


Não pude deixar de assistir, mais uma vez, ao filme de José Padilha "Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora É Outro", de 2010. É, agora, o filme brasileiro mais visto de todos os tempos, com mais de 11 milhões de espectadores. Já devo tê-lo visto uma dezena de vezes, por inteiro ou a partir do momento em que o surpreendo na televisão a cabo. Pessoalmente me interessa a parte do filme que trata das milícias, sua origem, sua relação com a política, com os políticos e com o poder constituído. Pois acabo de vê-lo novamente, e justamente ao término da leitura da entrevista, numa revista de grande circulação nacional, com o senhor Cláudio Beato.
O que faz mesmo o senhor Beato? Lembrei: ele é sociólogo e hoje "tem se dedicado a entender as milícias". Ora, de um lado o filme, uma obra de ficção, com sua milícia; do outro o respeitado sociólogo a dissertar sobre as milícias nada irreais de nosso dia a dia, mormente as do Rio de Janeiro. O filme mostra as milícias do Rio, o senhor Beato fala justamente delas. Em comum entre a ficção e a realidade a milícia e a cidade onde atua. Haverá mais alguma coincidência? Perguntando de outra forma, haverá algo mais em comum entre a fita e o mundo real?
Vamos a ambos numa tentativa de nos extrair dessa dúvida cruel e preocupante.
Diz o senhor Beato o seguinte, sobre o mundo real: "É preciso empreender uma faxina na polícia do estado [do Rio de Janeiro], que figura entre as mais corruptas do país. A podridão não se limita às bases da corporação, mas está entranhada nos mais altos escalões". Para exemplificar cita o fato de um tenente-coronel, envolvido com grupos de extermínio, ter sido descoberto como o mentor do assassinato de uma juíza, evento amplamente divulgado na mídia e de conhecimento da sociedade brasileira. Diz ainda mais o senhor Beato: "Torturam, matam e expulsam as pessoas de suas casas. Infiltram-se também no dia a dia dos cidadãos, explorando serviços essenciais como transporte coletivo, água e gás". E – vamos logo ao pior: "... seus líderes operam de dentro da polícia e se mantêm ali quanto podem, galgando postos na hierarquia e evitando que os próprios crimes sejam investigados. Eles têm poder no mundo formal. Desfrutam de ampla inserção no meio político".
Ora, mas o senhor Beato está falando do filme do José Padilha! A película mostra tudo isso! Não foi dito na entrevista/reportagem que ele fosse crítico de cinema. Mas não – o senhor Beato fala do mundo real, onde as coisas acontecem de fato. No filme, o coronel Nascimento, após uma manobra desastrada de seus comandados numa rebelião em certo presídio, passa a funcionar como subsecretário de Inteligência da Secretaria Estadual de Segurança Pública do Rio de Janeiro. A certa altura ele relata: "A Secretaria é o coração do 'sistema'". O "sistema" a que ele se refere é a organização criminosa oficial, institucionalizada. Os bandidos da rua funcionam apenas para serem mortos e/ou presos em operações militares de invasões e estouros de morros repletos deles, no intuito de produzir dividendos políticos para o mesmo "sistema". A milícia realiza operações criminosas no morro ou na favela apenas com o objetivo de justificar a invasão e a matança de traficantes que a sociedade exige. Em troca, chuva de votos para o "sistema".
Ao final, Nascimento pergunta ao espectador quando a cena muda e nos desnuda a esplanada dos ministérios em Brasília: "Me diz uma coisa: quem você acha que mantém tudo isso (o 'sistema')?" E a câmera avança a mostrar a Praça dos Três Poderes (ou seria "Praça dos Três Podres"? Basta suprimir uma vogal.) Após uma CPI impensável no mundo real, Nascimento levara, através de seu depoimento, vários políticos à cadeia e a um rearranjo do "sistema" – uma queima geral de arquivo, uma reorganização dentro da organização criminosa, um troca de mãos geral e conveniente à sua sobrevivência. E conclui, enfaticamente e em tom de lamento: "O sistema é foda. Ainda vai morrer muito inocente".
Não me lembra que após os créditos finais tenha aparecido o célebre lembrete "essa é uma obra de ficção; qualquer semelhança com a realidade terá sido mera coincidência". Se apareceu, há que se lhe retirar. Seria a única mentira deslavada da película irretocável.
Pobres de nós que ficamos a nos debater em nossas vidinhas virtuais e enganosos caprichos reais. O real está repleto do horror que teimamos em não enxergar. Reprimimos diuturnamente seu conhecimento a fim de que seu fardo não esmague nossas consciências.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Crime e querela na rede social


Sei que sabes, Casoba, de minhas reservas às redes sociais. E parece que as razões delas estão a se deixar revelar através de fatos gritantes e assustadores.  
Por exemplo, no último sábado uma querida amiga me relatava o que lhe ocorreu na rede social mais badalada do momento. Alguém, não se sabe quem e é provável que nunca se chegue a saber, "montou" uma falsa página com um falso perfil de minha amiga. Esse(a) criminoso(a) virtual lá posta o que quer e bem entende e – pior! – está a postar as mais esdrúxulas e pavorosas aberrações sobre minha amiga. Ela, impotente diante de tudo, apenas observa com o coração aos solavancos e a alma em frangalhos. Eu mesmo tive o desprazer de visualizar a tal página, cujo link ela me enviou depois, e pude aquilatar o tamanho do estrago que isso pode fazer na vida de uma pessoa de bem. Que fazer?, ela se perguntava em minha presença. E concluímos – no curto prazo talvez pouco se possa fazer. Ela tenta, desesperadamente, junto aos administradores da rede, tirar a falsa página do ar o mais rápido possível. Eis aí uma confirmação do porquê de minhas reservas a essas redes. Um outro fato, Casoba, obterá menos unanimidade quanto à geração de reservas às redes.
Senão, vejamos.
Tenho usado a badalada rede para divulgar os textos que escrevo em meus blogs. E ontem, creio, postei um texto de meu blog "O Desocupado" (fecavalcanti.facilblog.com) intitulado "Vergonha sobre mim" (http://fecavalcanti.facilblog.com/Primeiro-blog-b1/Vergonha-sobre-mim-b1-p29.htm). Divulguei-o em certo grupo e qual não foi minha surpresa ao perceber que o texto suscitava, entre as mulheres do grupo, uma reação que beirava a hostilidade. Elas interpretaram a minha indignação como uma aversão, de minha parte, ao que elas denominavam "crítica".
O interessante foi a resposta que o mesmo texto obteve fora desse grupo, mesmo entre as mulheres. Uma amiga escreveu, se referindo ao conteúdo do texto: -"Vixe... acabei de te elogiar! Mas entendi muito bem o que quis dizer... ô povinho falso!" Enquanto uma amiga que me conhece pessoalmente entendeu o que escrevi nas entrelinhas, as amigas virtuais nada entenderam ou, por outra, entenderam justamente o oposto. E aí está uma outra das razões de minhas reservas – nada substitui uma amizade real, mesmo que uma virtual possa vir a sê-lo.
Uma amizade virtual é amputada de todos os elementos que possui a amizade real. Nela falta o conhecimento da essência do outro, da história do outro, do caráter do outro. Cícero afirmou que só é possível a amizade entre os de bom caráter, e talvez ela até seja possível na virtualidade das redes. Algo me diz que, sim, é possível. Desde que os recentes amigos virtuais se esforcem por descobrir o outro, anelem em algum momento a realidade e a presença do outro, seria possível a cristalização de uma amizade de fato. Até lá, ao que me parece, impõe-se ainda mais zelo e cuidados ao amigo virtual de forma a não feri-lo naquilo que ainda não sabe do outro. Isso seria demonstração do caráter necessário à amizade. Seria o mínimo a ser feito.
As amigas virtuais entenderam que não tolero críticas por lhes acusar a obtusidade na interpretação de meu texto. Os amigos reais, de fato e de direito, sabem que nada está mais distante da verdade. Por que iria eu entrar a me enfronhar numa querela internáutica com quem jamais vi na vida? Lamentei a oportunidade perdida de nos conhecer melhor e pessoalmente a fim de levar a cabo papos literários ou não, usando do mínimo de inteligência que a maturidade exige.
Eis então, caro amigo, dois exemplos das mazelas maiores das redes sociais, sem esquecermos outra de igual tamanho – sua propensão à disseminação da informação peito de homem, aquela que para nada serve.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O ônus da amizade


Vejam vocês como o sujeito está vulnerável a todo tipo de impropério por parte dos amigos. Inda mais hoje em dia, ao tempo das redes sociais, onde tudo se publica e tudo se divulga, o sujeito em casa nem sabe o que se está a ventilar a seu respeito. Se não se ligar às redes ficará mais alienado que cachorro com dor de dente. (Suponho que já tenham visto um cachorro com dor de dente.)
Dito isso, passo a relatar o que me ocorreu em espaço de tempo menor que a prenhez de uma Escherichia coli. Foi precisamente o seguinte, tudo escancarado na rede social. Antes, porém, um breve comentário referente a uma curiosidade vernacular no ambiente da rede social, e envolvendo seu próprio nome. Outro dia eu comentava que nós brasileiros somos, em tese, uma nulidade em matéria de ciência. Nada descobrimos, nada inventamos, nenhuma descoberta científica fizemos que mudasse a face do planeta. Os ufanistas, discípulos do já antigo Policarpo Quaresma, hão de me jogar enormes paralelepípedos citando Santos Dumont e seu 14 Bis e direi que há controvérsias. Vide a história dos irmãos Wright. Não minto. Pois também a rede social não é invenção de brasileiro, e por isso mesmo seu nome não se pronuncia em português. Há até o filme a contar a história dos garotos que a criaram. Eles são brancos, loiros e falam inglês. Dito isso, e sem saber por que o disse, relato o fato.
Uma querida amiga escancarou na rede social a sua cruel e implacável insônia. Não conseguia dormir. Há sei lá quantas noites não dormia. Sua frustração era tão intensa que não lhe restou outro remédio que não fosse difamar seu algoz, a insônia. Tornou-se, naquele exato momento, a insônia mais difamada de que se tem notícia. Tão execrada foi a insônia de minha amiga que temo que ela, a insônia, a processe por calúnia. Mas o fato é que estava lá na rede social a mais pública insônia de todos os tempos.
Minto. Houve na rede social, recentemente, uma outra exposição pública ainda mais notória e excrescente: a de uma cólica menstrual. Melhor dizendo, não foi uma cólica menstrual – foi uma tensão pré-menstrual, a conhecida TPM. Uma outra amiga a levou a público tamanho o sofrimento que a tal cólica – fiquemos com esta por ser, ao que parece no caso de minha amiga, o sintoma cardinal de sua TPM – lhe trazia. Queria, como a primeira amiga, caluniar a miserável da cólica. E fez pior – fotografou a cólica. Imaginem os senhores a foto de uma cólica. Muitos a viram. Estava, na rede social, como o cadáver do gato à beira da estrada após o atropelamento. E, se querem mais detalhes, lhes adianto – foram, na verdade, inúmeras fotografias a compor um desses painéis que muitos adolescentes têm em seu quarto de dormir. A cólica foi fotografada em todas as posições – em pé, em decúbito dorsal, em decúbito ventral, de lado, com o travesseiro entre as pernas, com o travesseiro na barriga, com um lenço a cobrir-lhe os olhos, e assim por diante. O quadro era tão dantesco que cheguei, eu mesmo, a sentir a cólica a me importunar. Ela ganhou até nome – alcunharam-na de "amostra grátis de parto". Por aí se tem uma idéia do drama.
Mas – ainda sobre a cólica, que a esta hora deve estar a consultar seus advogados – há pior, como diria o Nelson. Quase duzentas outras cólicas se apressaram a comentar a de minha amiga. Foi uma tempestade de cólicas a se solidarizar com aquela, fato que me faz supor que um eventual processo por difamação e calúnia há de ser considerado como um "mau direito" da parte da cólica ultrajada em sua privacidade violada.
Voltemos à insônia caluniada de minha primeira amiga. Um amigo, na tentativa de ajudá-la, sugeriu escancaradamente na rede social, e já armando o bote pra mexer comigo, que ela procurasse a minha ajuda. Ela respondeu: -"Esse aí tá mais pra causa que pra cura de insônia!" Confesso: pus-me a gargalhar na rede social. Sim!, hoje é possível se gargalhar na virtualidade e na rede social! Foi realmente muito divertida e espirituosa a tirada de minha amiga, própria dos de inteligência aguda e digna de elogio, não fosse por um detalhe: expôs-me na rede social. Fiquei tal qual sua insônia e tal qual a cólica da outra donzela – difamado e caluniado.
Minha amiga, que exerce a nobre profissão dos causídicos, bem sabe que eu poderia levá–la às barras da justiça por tão engenhosa e gostosa pilhéria. Entretanto, como me bem conhece e sabe que me dou melhor com o falso vitupério que com o falso elogio, presume acertadamente que nem de longe teria a intenção de agir nesse sentido. Afinal, aos amigos tudo é permitido. É o "ônus" que se paga para tê-los.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

O mais abençoado dos seres


"Mulher, mulher
Na escola em que você foi ensinada
Jamais tirei um dez
Sou forte mas não chego aos seus pés”


Uma amiga escreveu-me para me comunicar uma constatação – eu não devo gostar de mulheres. E justificou-se: os meus textos, segundo ela, sempre depreciam a figura da mulher. O que ela evidentemente não percebeu é que, baseando-se no que escrevo, também não enalteço em nada a figura masculina. Não faço apologia à figura masculina e, com efeito, deprecio ainda mais a figura do homem. Em que pese ter-lhe escapado esse detalhe singular, prometi-lhe uma retratação na forma de um texto sublimador sobre a mulher. E fui direto; disse-lhe: -"Adoro as mulheres!"
E, se querem saber, é fato – adoro as mulheres. Tudo o que se faz na vida, desde colher o lixo na rua até colocar pontes de safena, é mais prazeroso se for feito na companhia da mulher, de uma mulher no mínimo. Se for possível contar com mais de uma delas, tanto melhor. Se você é o único homem em meio a um time de mulheres, considero que você, meu chapa, é um homem abençoadíssimo. Estar sozinho de homem em meio a tantas mulheres é, sem dúvida, um privilégio para poucos que invejo com todas as minhas energias e vísceras vitais. Feliz o homem a quem se achega o mulherio.
Sei que essa confissão seria muito pouco para levar ao convencimento de minha amiga. Afinal, uma mentira bem engendrada é sempre uma possibilidade, inda mais partindo de um homem. É cediço que o homem se julga um ás no quesito "como enganar uma mulher". Assim, não me tentarei defender excluindo-me desse grupo pouco ético. Até porque a falta da ética do universo masculino no referido quesito lhe é retribuída com a sagacidade e inteligência femininas a desvendar-lhes as marmotas e subterfúgios. Então, humildemente confirmo e afirmo já ter sido uma vítima recalcitrante da agudez da inteligência da mulher. Resta-me, após tantos e repetidos insucessos, a despretensiosa solicitação de um voto de credulidade quanto a este assunto.
Atente-se para um detalhe inolvidável e incontestável: todos os seres humanos nasceram de uma mulher, sem uma única e mísera exceção. Mesmo o Filho do Deus vivo, Jesus, nasceu de uma mulher, Maria. Àqueles que tomam as formas e rituais do culto e adoração a Deus como machistas fica a gritante demonstração do papel angular da mulher na obra da redenção. Nela o divino mesclou-se ao humano para conceber o Salvador. E ainda que venham de lá os inexplicáveis ateus a considerar que tudo isso seja balela e invencionice do gênio humano, ainda assim o suposto machismo é retumbantemente pisoteado pelo exemplo de Maria.
Recentemente fui impelido à leitura despretensiosa de certo livro de uma senhora chamada Ayaan Hirsi Ali, "Minha Vida". A cada página uma sensação de terror me invadia para se deixar substituir, ao final, por profundo sentimento de respeito e admiração pela autora. Minha exultação foi tão grande que me vi impelido a visitar-lhe a página na rede mundial de computadores e me pôr à sua disposição para ajudar-lhe a levar a cabo sua luta contra a opressão da mulher no mundo islâmico. Ela me respondeu com um deferente agradecimento e votos de estima. Em seu primoroso texto ela teve a coragem de expor as vísceras do fundamentalismo islâmico em seu viés opressivo ao sexo feminino. Hoje vive na América do Norte em local desconhecido. Foi jurada de morte por seus denunciados.
Não sei o que dirão aqueles cuja criação, no sentido de "educação", não se tenha devido à presença maciça da mãe. Pois lhes direi em alto e bom som: fui criado por minha mãe. Comigo ela esteve nos momentos mais críticos da vida de uma criança. Castigou-me quando se impunha e silenciou sobre meus sucessos, um silêncio que transbordava de genuíno orgulho materno ante os indícios do crescente preparo da cria para as vicissitudes e dissabores da vida. No ano que antecedeu o de sua morte, telefonou-me ao dia de meu aniversário de 48 anos e, chorando, disse: -"Você é um vencedor, meu filho!" Seu elogio era o inconsciente elogio de si mesma. Sobre ela e outras guerreiras de minha numerosa família repousavam os alicerces mais enraizados de cada subfamília. Sem cada uma delas não teria sido possível. É sobre a mulher que se assentam e se cravam em solo pétreo seus alicerces.
É o universo mulheril o responsável pelo milagre diário do amor, da sensibilidade, da compreensão, da cordialidade, da humildade, da nobreza, da coragem e da doação, ausentes tanto quanto possível da selva da truculência masculina e suas mais funestas conseqüências. E, de fato, tal truculência vem bem a esconder a imensurável e vergonhosa fraqueza masculina, como bem cantou Erasmo Carlos.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Cretinas escolhas

          Outro dia comentei o artigo de certo articulista do The New York Times, o senhor Neal Gabler. Lá ele dizia do inexplicável interesse das pessoas, aos nossos dias, por informação sem qualidade, sem conteúdo, sem importância. E até alcunhei tal informação de "informação peito de homem" — a que para nada serve. O excelente resenhista se referia à boa parte das informações postadas nas redes sociais.
          Ontem eu conversava com o meu amigo Padilha, e me parecia que algo o abatia; era uma inquietação que me chamou a atenção posto que bastante incomum para seu temperamento resignado. Dali a pouco me relatou seu drama: almoçava com uma amiga, que não parava de consultar o telefone. A intervalos muito próximos ela mexia no aparelho portátil e sorria ou fazia,  a esmo, um comentário sobre algo ou alguém, como se nem ali ele estivesse. Estavam a prosear e não concluíam nenhum assunto devido às freqüentes interrupções por parte do telefone da jovem mulher, que sequer tomava algum cuidado em lhe pedir licença para ler as múltiplas e constantes mensagens que lhe chegavam. Eis aí toda a angústia do amigo, que fez das tripas coração para não ser grosseiro com sua companhia.
          Pois não foi outra pessoa que não o próprio Padilha quem me relatou o seguinte fato do qual muito se tem a lamentar, já que selou o fim de uma amizade. Duas amigas estavam a conversar enquanto faziam um leve repasto ao final de uma linda tarde de verão, quando o telefone de uma delas, desses que fazem de tudo, iniciou a anunciar uma série de mensagens postadas para ela na rede social. Dali em diante o diálogo se tornou uma dessas impossibilidades irremediáveis. A outra se conteve o quanto pôde. Dentro em pouco iniciou uma ladainha de queixas contra o que considerava um falatório inconveniente e inapropriado da amiga. Não mais podendo se controlar em sua indignação, ergueu-se e se retirou pedindo-lhe que não mais a procurasse, e decretando entre elas o rompimento perpétuo.
          Padilha me punha a par da outra história como que para embasar sua argumentação. Sua tese que, por sinal, mostrar-se-á, como logo verão, possivelmente verdadeira, é que esse frenesi das pessoas em participar continuamente do que se escreve e se publica nas redes sociais se deve a um sentimento de medo — o medo de estar perdendo alguma coisa caso delas se ausentem.
          A rede social engendra em cada um uma sensação de deidade até então insuspeita e impensável. O sujeito tem a sensação de que pode estar em toda parte ao fazer uso da rede social. Ele ganha uma dimensão múltipla da qual não cogita, nem quer, abdicar. Mesmo que nenhuma informação fundamental ou diferencial  lhe chegue através da rede, não aceita se desvincular daquela teia de blá-blá-blá, ti-ri-ti-ti. Em seguida, o pior — a vida real e a realidade das relações já nem tanta importância têm. Pode-se ser "amigo" de quem quer que seja sem se conhecer de fato aquela pessoa. Assim, o amigo real que está ao lado é relegado a um papel secundário nas interações do dia a dia. Tire-se pelos fatos relatados acima. São fatos. E tantos outros semelhantes hão de ter ocorrido mundo afora. Até seja provável que ninguém esteja em busca de informação — o que se quer mesmo é a segurança da relações superficiais. É isso tão possível que há indivíduos comuns que ostentam a marca de mais de 5 mil amigos! É ou não isso uma China de amigos? Cada um pense o que bem entender, mas este é um número altamente suspeito no caso de o indivíduo não já ser uma figura pública, como um político ou um artista. 
          Há mais. Hoje, nas redes sociais, surge a figura do amigo "pessoa jurídica". Esse tipo não é um indivíduo — é uma loja, ou empresa, ou escritório, ou repartição pública ou privada. Tornamo-nos "amigos" dessas instituições, que obviamente usam a rede como ferramenta de marketing. Em todo caso, e para todos os efeitos "reticulares", são amigos e assim devem entrar para a contabilidade. Afinal, a popularidade de um indivíduo, hoje em dia, tornou-se uma característica de peso em seu caráter. O sujeito pode ser um cretino de carteirinha, mas, se obter uma excrescente popularidade na rede, pode se considerar redimido de sua cretinice. Recordemos que essas são relações cuja profundidade uma formiguinha atravessaria com água pelas canelas, no dizer de Nelson Rodrigues. Aqui é possível ser amigo de tantos cretinos quanto se queira.
          Só agora me dou conta do que me incumbiu o Padilha: traçar um perfil psicológico da rede social, ou do sujeito ferrenhamente afeito aos seus encantos e possibilidades inúteis. Falando assim parece até que estou a propagar que nada há que se possa tirar proveito nas redes, o que seria uma estupidez de minha parte. Na rede se pode incrementar o repasse de informação útil, necessária e pertinente. Ademais, é inegável que também é possível que nela se estreitem laços de amizades da vida real, e que lá se tenha a oportunidade de fazer novas e boas amizades.  Não será tão difícil assim separar o joio do trigo. O que não parece salutar é se ter uma China de amigos enquanto se está trancado a sete chaves, ou desdenhar da presença dos amigos de carne e osso enquanto se dá atenção ao virtual. Isso seria inadmissível.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Boca do lixo

          Hoje, no hospital, fui surpreendido por fato inusitado. Dirão que não, que tal não deve ser considerado inusitado, posto que é o que se espera em tais casos, notadamente em se tratando desse hospital. O que aconteceu foi o seguinte — a casa de saúde cheirava mal em todos os aposentos onde estive. Julguei que havia, comigo mesmo, algo errado. Pensei para mim uma dessas rinites ozenosas que atacam alguns pobres indivíduos. Em contrapartida, imaginei que a crise do hospital tivesse atingido níveis tão elevados que nem mais material de limpeza houvesse para dissipar seus odores e sujeira.
          Todos sabemos que nossas crises são infindáveis e eternas. A única a ser debelada foi a antiga "crise inflacionária" que esteve a nos atacar após o chamado milagre brasileiro. Fora essa, desconheço a resolução de qualquer outra de nossas crises. Com efeito, todas as nossas crises só se aprofundam. Somos campeões em criar e perenizar crises. E mais — é já conhecida a ameaça que paira sobre aquilo que se considerava resolvido. Os novos do poder, cuja farra com o erário beira um "gang bang" dirigido por Buttman, estão prestes a trazer de volta o monstro que assolou o país por décadas.
        E, assim, já me acomodava na covardia natural do brasileiro quando diante de mais uma crise, e dizia em meu pensamento: -"É isso mesmo..." Para que se ensimesmar por coisas que ninguém tem interesse em mudar? A angústia é a do que infarta. Retardemo-na, portanto. Em particular, no caso desse hospital, o usuário não se presta ao mínimo de dignidade. Ele próprio é causa de seus males e perfídias.
          E nem nego que me tenha lembrado da anedota do português que viajava em certo trem no Brasil, e vítima de jovens e nativos gozadores. Que fizeram os garotos? Enquanto o pobre homem dormia, passaram-lhe merda nos vastos e densos bigodes. Ao despertar daquele sono que só as viagens proporcionam, o luso já sentia o olor bem próximo a si, e cafungava pra cima, pra baixo, pros lados, tentando identificar a fonte da fedentina, e nada. Dali a pouco abre a janela, põe a cabeça para fora, inspira forte pelo nariz e conclui, decepcionado, com as mãos à cabeça: -"Ai, Deus meu! é o mundo inteiro!"
          Mas voltemos à podridão que parecia inundar o hospital. Acudiu-me a idéia de uma halitose generalizada que houvesse atingido a todos. Seria uma epidemia de bocas fétidas.  Já vislumbrava as variadas causas que explicassem individualmente a inusitada e odorífera peste. De repente, em menos de um minuto, veio a explicação — o colega com quem eu conversava apresentava, de fato, uma dessas halitoses imperdoáveis e hediondas, que impede que a conversa prossiga um à frente do outro. É imperativo, em determinado momento, que nos viremos de lado para continuar o diálogo sem que o interlocutor perceba-nos a eloqüente razão
          Dali a pouco, já livre do indesejável conversador, um amigo me puxa e, quase me encostando os lábios à orelha, quis saber -"Sentiste o péssimo cheiro da boca do fulano?" Eu, verdadeiramente apreensivo com a situação do colega, emendei: -"Quem terá a coragem de o avisar?" Sem obter resposta, nos afastamos e fomos cada um cuidar de nossos afazeres. A dúvida que me assaltava então era a seguinte: e nos outros aposentos?  Estavam todos com a boca podre também nos outros aposentos? Parecia que minha hipótese se confirmava —uma epidemia se instalara. Em breve, como na história do português, seria o mundo todo. De lá fui direto pra casa escovar os dentes e embrocar a garganta.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Quem há de punir o Estado?



“Quando não se pode fazer o que se deve, deve-se fazer o que se pode.”

Devem saber da fábula – nem mesmo estou certo de sua existência – que conta o que acontece ao se pôr o lobo a tomar conta das ovelhas. Se tal fábula existir somente em minha alvissareira mente, ainda assim ela seria perfeitamente verossímil. Ainda havendo quem duvide, troquemos o lobo por um tigre faminto ou qualquer outro carnívoro de dentadura fenomenal. O resultado seria a certeza do destino cruel e sanguinolento dos pobres e indefesos bovídeos.
            Da mesma forma, não tenho certeza se os conselhos regionais de medicina, e mesmo o conselho federal, seriam entidades ligadas ao governo. Parece-me que são de fato, tendo em vista que os inadimplentes para com eles correm o risco de terem suas dívidas passadas à dívida ativa da União. Então, os conselhos são um braço do governo. E para que servem os conselhos regionais de medicina em cada estado da federação? Estou completamente desinformado, mas, ao que me consta, uma de suas funções é fiscalizar o exercício da medicina.
            Deixemos a ignorância de lado. Os conselhos regionais são autarquias e têm responsabilidade jurídica de direito público tal qual a União e os Estados da federação. São órgãos fiscalizadores, disciplinadores e julgadores da classe médica. Eis aí tudo.
            Eles fiscalizam, julgam e eventualmente punem médicos que cometem erros. A mídia adora quando surge um caso de suposto erro médico. As audiências aumentam nos horários nobres e elas faturam um bocado com os anunciantes. Os conselhos ficam lá, quietinhos, enquanto o médico acusado sofre um pré-julgamento implacável. Em silêncio o julgam e, se são inocentados, o dano midiático permanece indelével e perene. Se os conselhos ratificam a condenação da mídia, uma se soma à outra e o profissional com justiça e corretamente paga por seu erro.
            Estou aqui a ler o Jornal do Conselho Regional de Medicina do Estado do Ceará, em sua edição nº 89, ao mesmo tempo em que leio a Constituição Federal. A Constituição, em seu artigo 6º, diz o seguinte: “São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.” Já o artigo 30 diz: “Compete aos municípios: VII - prestar, com a cooperação técnica e financeira da União e do Estado, serviços de atendimento à saúde da população.” No capítulo II Seção II – Da Saúde, artigo 196, está determinado: “A saúde é direito de todos e dever do Estado,...” E o artigo 197 diz: “São de relevância pública as ações e serviços de saúde, cabendo ao Poder Público dispor, nos termos da lei, sobre sua regulamentação, fiscalização e controle, devendo sua execução ser feita diretamente ou através de terceiros e, também, por pessoa física ou jurídica de direito privado.”
            A conclusão a que cheguei foi a seguinte: se a saúde é um direito de todos e um dever do Estado, e se o Estado executa as ações de saúde diretamente ou através de terceiros e também por pessoa física (os médicos), então também o Estado deveria estar sujeito à fiscalização, disciplinação e julgamento pelo Conselho Federal de Medicina. Por quê? Vejamos.
            Diz o jornal, em seu editorial escrito por seu Presidente, que a Prefeitura de Fortaleza deve a seus médicos, só em gratificações atrasadas, a importância de onze milhões de reais. Até aí nada demais, num Estado em que seu governador tem a firme convicção de que o funcionalismo público deve trabalhar por amor, e somente por amor, não importando se tem ou não contas a pagar. Pior é o outro lado do palco – faltam médicos em número e de especialidades necessárias ao bom funcionamento dos serviços de emergência. O resultado é que muitos pacientes não são atendidos ou são atendidos quando seu quadro já se agravou. Como escreveu o editorialista, “surgem dilemas quanto a quem atender primeiro e o que fazer com os que ficam à espera, além da percepção de que tal cenário é propício à ocorrência de atitudes hostis e até mesmo agressões”. E mais: “o retardo no atendimento a alguns pacientes pode resultar em prejuízos graves para a saúde dos mesmos”. Além disso, faz menção ao sucateamento do equipamento necessário ao atendimento. Finaliza garantindo que “o Conselho Regional de Medicina do Ceará continuará atento e participativo na luta para que os médicos etc. etc. etc...”
            Poderia o Conselho punir o Estado do Ceará e/ou o município de Fortaleza por sua irresponsabilidade e péssima prestação de atendimento à saúde da população, ao contrário do que manda a Constituição Federal?
            Em brilhante e esclarecedor artigo publicado na mesma edição, o ilustríssimo conselheiro e Professor Dalgimar Beserra de Menezes diz tudo de forma clara e concisa: “tudo o que se tem (na prestação de serviço médico ao paciente do sistema único de saúde do governo), em todos os níveis, é precário, o que nos coloca muito aquém da expectativa, distantes do ideal. O paciente, usuário do sistema, adota a perspectiva do ideal inalcançável. Tudo o que se faz, sem quase exceção, está distante dessa perfeição. Defasagem óbvia entre o real e o imaginado, o proposto e o prometido, engendrando, em parte, o que se chama de erro médico.” E deixa entendido entre as linhas o médico como vítima de um sistema caótico e instituições sucateadas, quando diz: “... o médico sairá limpo se fizer tudo o que puder , com o que dispuser para fazer, em termos de atendimento, diagnóstico e tratamento.”
            Eis que se faz novamente necessária a pergunta: poderia o Conselho punir o Estado e o município por não cumprir o que manda a Constituição? Resposta: não – o Conselho fiscaliza, disciplina e julga médicos pessoas físicas. Mas o Estado não “exerce” a medicina, como reza a Constituição? Quem há de fiscalizar, disciplinar, julgar e eventualmente punir o Estado?

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A morte e 1 ano a menos

Faleceu Claudinha Viot.
     Assusta-nos quando a inexorabilidade do fim da vida se nos mostra tão precocemente e tão implacavelmente. De fato, não me assusto. Apodera-se de mim ou, melhor, deixo-me, entrego-me a essa sensação de que minha vida está suspensa a alguns centímetros do chão, como se isso indicasse a leveza e imponderabilidade de tudo.
E me permito a isso por um capricho que só os de coração empedernido podem se dar. É como se ali, a alguns centímetros do chão, se desvalessem todas as leis que regem o sofrimento humano. Não há ali dor – só uma perplexidade muda; não há ali choro – só uma leve confusão de ideias; não há ali medo – só a constatação de tudo e a dúvida do nada.
Nada direi de Cláudia. Minto. Direi apenas que foi das mais doces criaturas que tive o prazer e a alegria de conhecer. Nada mais direi. Minto novamente. Direi também que sua doçura foi de sempre, de desde que a conheci, e até de antes, e até depois. Nada houve nela ou que para ela fizessem que a levassem a perder sua constante e terna doçura. E note-se que há doçuras que enjoam, que entojam, que entediam. Não era essa a dela. Sua doçura foi a moldura e a tela de sua vida. E até seu corpo sem vida transpirava – só os vivos transpiram – aquela sua inconfundível ternura.
Não resisti à tentação de acariciar a moradia de sua alma, seu corpo agora sem vida. Não fosse o véu rendado que o cobria e ter-lhe-ia feito um cafuné. Deslizei a mão sobre sua fronte, como fazemos em nossos filhos quando estão para dormir, e toquei-lhe a mão esfregando-lhe com as unhas, como fazemos com os amigos que amamos em seus momentos difíceis.
Confessei antes a visita que lhe tentei fazer no hospital. Não sei se seu prognóstico ou a certeza de constatar sua distanásia me acovardaram no momento – saí de defronte ao CTI e dali para fora do hospital como um raio. Não quis vê-la ali. Repudiei aquela visão. Vê-la sem vida na paz dos que dormem me deixou na lembrança sua eterna doçura, sua face sempre plácida, seu ar sempre franco. Terei sido egoísta? Não sei.
Lembrei-me da sensação de perpetuidade que nos assalta numa azul e iluminada manhã de sol; de como nesses instantes nos deixamos iludir pela beleza da natureza; de como permitimos que esta ilusão perpetue nossos sonhos; de como nossos sonhos são fúteis...; de como não mudamos o modo como vivemos porque a ilusão da clara e luminosa manhã banha também aqueles sonhos. E quando os realizamos não dispomos à mão do corpo sem vida de alguém que amamos para nos lembrar que o sonho, mesmo e principalmente o realizado, é apenas mais uma volátil quimera.
Depois dos funerais, o aniversário do amigo, outro amigo. À hora dos parabéns puxou-me a um canto, após os “muitos anos de vida”, e segredou-me: -“É menos um ano, meu chapa...”
No alto, um céu repleto de estrelas, ofuscadas pelas luzes da metrópole, desafiava nossa compreensão de tão dúbias manifestações do pulsar da vida e nos humilhava em nossa pequenez e questiúnculas. Em silêncio entornei a dose do uísque do qual me servira há pouco.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Peidorreiro


Sei que não acreditarão – ligou-me hoje o Amorim. Muitos de vocês não o conhecem posto que me leiam há pouquíssimo tempo. Se quiserem conhecê-lo, poderão ver suas inúmeras histórias e peripécias em meu blog “O Desocupado” (fecavalcanti.facilblog.com).
Há vários meses o amigo não aparece. Julguei que as estradas da vida estavam a levá-lo para longe de mim como sói acontecer nessa fase. Todos estão muito ocupados com as bobagens e superficialidades de sempre. Hoje, por exemplo, fazia eu uma refeição matinal com todas as janelas e portas abertas. Entravam o sol e os ventos por todos os lados, dando, ao início da manhã, aquela sensação de nossa perpetuidade individual. Porém, entravam também os sons de britadeiras, de perfuradoras, de máquinas a trabalhar em construções próximas, anunciando a obstinação dos homens em eternizar o efêmero em seus sonhos menores. Lutamos por muito pouco, quase nada. Assim, ao momento dessas reflexões contraditórias, bateu-me o telefone o amigo.
Estava apreensivíssimo. Trazia-me um problema que, de tão inusitado, de tão original, deixou-me deveras preocupado. Confesso: jamais havia passado por minhas idéias semelhante possibilidade de contrariedades, como verão a seguir.
O que ocorreu foi precisamente o seguinte. Amorim, um solteirão convicto descoberto ao final de três casamentos, sentira-se, antecedendo a cada um deles, como o Tomas do Milan Kundera. Como o personagem do escritor tcheco, a cada uma das mulheres que Amorim conheceu, antes de levar cada uma de suas “Terezas” ao altar – notem que “levar ao altar” aqui não passa de uma figura de linguagem – se perguntava, numa cava angústia: -“Mas seria amor?” E seguia alimentando-se da dúvida kunderiana: -“Seria melhor ficar com ‘Tereza’ ou continuar sozinho?” E mais. Assumia-se cada vez mais um Tomas reencarnado a refletir: “não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação”.  
Deu no que deu, e achava-se Amorim tendo vivido todas as possibilidades com as três mulheres com quem contraiu matrimônio. Para completar o quadro de tantas e tantas semelhanças com o personagem, em sua solteirice encheu-se Amorim de amantes. Aquele diferia de Amorim em único aspecto: casara-se somente uma vez. No mais, seriam idênticos. Dir-se-ia que o amigo via no romance a enciclopédia para sua vida amorosa. Até a regra que Tomas ensinava aos amigos ele seguia à risca: “É preciso observar a regra de três. Pode-se ver a mesma mulher em intervalos bem próximos, mas nunca mais de três vezes. Ou então vê-la durante longos anos, mas com a condição de deixar passar pelo menos três semanas entre cada encontro”. Eis aí o pano de fundo sobre o qual veio se depositar o inusitado.
Amorim envelhecera e, sabem lá os proctologistas, às vezes alterações digestivas ou mudanças de estilo de vida, da alimentação, ou seja lá do que for, levam ao aparecimento de molestos sintomas, de menor importância no prognóstico, mas bastante tormentosos ao dia a dia – Amorim adquirira uma flatulência de grau, digamos, importante. E me dizia aflito: -“Sabes que as esposas toleram essas coisas, mas não as mulheres com quem ainda não temos intimidade...” Fui obrigado a concordar e a me solidarizar com o amigo. Sobre o pano de fundo da insustentável leveza dos relacionamentos de meu amigo pairava a insustentável leveza de seus gases intestinais a terrificá-lo a cada momento em que desfrutava da companhia de uma nova namorada.
Que fiz eu? Que poderia fazer? Sugeri duas, ou melhor, três abordagens: que doravante em hipótese nenhuma ingerisse qualquer alimento ou bebida gaseificada por pelo menos três horas antes de estar com a pequena; que descobrisse de imediato qual, dos alimentos que ingeria, aquele responsável por sua situação desconcertante; que ficasse íntimo das pequenas o mais rápido possível. Das três não lhe agradou a última que, segundo ele, quebrava a regra central de sua vida “sentimental”. Restou-me, então, a prescrição do Luftal como abordagem de urgência, já que um novo encontro se desenhava para breve.
Vejam vocês que o amigo me procurou apesar de sabedor de meu fracasso como proctologista, confissão que fiz com prazer já há algum tempo (http://fecavalcanti.facilblog.com/Primeiro-blog-b1/Proctologista-fracassado-b1-p4.htm). Como escrevi lá, odeia-se, desde sempre e para sempre, o proctologista. Talvez para o amigo seja melhor odiar a quem já se ama. Melhor isso do que exposições desnecessárias a um desconhecido cutucador das partes pudendas.

domingo, 6 de novembro de 2011

Emily Brontë no Facebook

Emily Jane Brontë era, segundo consta, tímida e solitária e, por isso, reclusa. Aguda, era capaz de descrever muito do íntimo das pessoas sem com elas se relacionar. Tentou lecionar, não conseguiu – sua timidez a impedia. Morreu de tuberculose aos trinta anos, tendo escrito uma única obra em prosa. Escondia as poesias que escrevia. O diabo é que ela viveu no século XIX, quando ainda não havia computadores nem internet.
Imaginemos agora a senhorita Brontë vivendo aos dias de hoje. Em primeiro lugar, não teria morrido de tuberculose. A menos que vivesse num país miserável, ela teria uma chance próxima a 100% de ter sobrevivido. Em segundo lugar, faria psicoterapia e teria sua inadaptabilidade sob controle ou, no mínimo, aprenderia a lidar com ela, seja lá o que isso queira dizer. Em terceiro lugar, estaria em pelo menos um site de relacionamento ou rede social.
Em que a rede social ajudaria esta pobre, solitária e sensível senhorita? A medicina e a psicoterapia teriam dado a sua contribuição. A rede social teria algo a lhe oferecer? Uma coisa é certa. Os fatores que se combinaram para levá-la a escrever seu único romance, cuja tensa atmosfera nos faz conjeturar sobre as tempestades que assolavam aquela criatura, não o teriam feito, e hoje não estaríamos a ler “Wuthering Hights” (O Morro dos Ventos Uivantes). Mas, e as redes sociais na vida de Emily Brontë?
Imaginem aí os senhores e as senhoras o seguinte – a senhorita Brontë no Facebook. Escreveria lá, em seu perfil, que teria seis irmãos, deles um único homem que, por sinal, seria alcoólatra. Mas esse último dado ela omitiria, que a ninguém interessa as mazelas de sua família. Nem confessaria os maus tratos de sua austera tia, que com a família veio morar após a morte de sua mãe. Escreveria diariamente recadinhos curtos para suas queridas irmãs, Charlotte e Anne, ambas escritoras e poetisas,  e perguntar-lhes-ia sobre os novos poemas que teriam escrito. Trocariam publicamente, nesse Facebook hipotético e surreal, carinhos e elogios desmedidos, cuja desproporção causaria reservas a uma criancinha pequena. E diariamente exporia as saudades que ainda sentia da velha e boa Thaby, a mais doce secretária do lar que já existiu.
Enfim, é bastante provável que a jovem Emily Brontë gastasse boa parte das horas de seu dia espantando e exorcizando sua imbatível e ininterrupta solidão nesse onírico Facebook. Para ela, ainda que suas sessões de psicoterapia estivessem ajudando bastante com sabe-se lá o quê, sua presença diuturna na rede social a ajudaria mais ainda. Lá ela poderia impressionar, falar, ser quem era e quem não era, poderia se reinventar, se promover, amar, odiar, informar, se informar, enfim, sair de si mesma e da prisão de si mesma. Poderia, na rede social, ter uma vida diferente daquela que vivia. Ou, melhor, da que não vivia. De fato, lá viveria, como muitos dirão.
A conclusão óbvia seria a de que a rede social tem lá a sua importância como palco de algumas vidas e, quem sabe, seria um coadjuvante de peso no tratamento de muitas e várias inadaptabilidades da vida moderna. O que seria dessas almas feridas se não pudessem viver n’algum lugar onde pudessem ser e não ser, fazer e não fazer, amar e não amar? Por outro lado a tal rede estará sufocando e reprimindo uma penca de talentos. A arte é a catarse do sofrimento. Cessado este, cessa aquela.
Quem seria Emily Brontë ao tempo deste Facebook?

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Paleozóica obtusidade

ESCREVEU-ME o Motta para me lembrar a frase de Bernard Shaw que diz que “é perigoso ser sincero, a menos que seja também estúpido”. Não sei por que cargas d’água ele me veio com essa, e já começo a suspeitar que tenha o Motta cometido o pecado de desobedecer ao que manda a frase. Terá, talvez, sofrido as conseqüências de ter sido estúpido. A verdade não é uma faca de dois gumes – ela tem um só, mas é afiadíssimo.
            O diabo é que me espicaçava o espírito uma idéia semelhante, a saber, a de ser sincero sobre determinado assunto. O tema me tem sido recidivante, ou me tem sido oferecido com demasiada freqüência para que o despreze.
Somos amiúde escravizados por idéias ou por pessoas. De fato, são sempre as pessoas a nos pretender escravizar. Idéias não nascem das rochas ou do asfalto quente – elas nascem nas mentes de pessoas. São geradas com uma infinidade de propósitos, e mesmo espontaneamente. Com muita freqüência já nascem para escravizar. As pessoas têm inteligência e a inteligência não é nada santa.
Há também os sistemas e os paradigmas escravizantes. Eles têm uma aparência inocentíssima, mas suas correntes e algemas não se desamarram facilmente. Uma vez em suas garras o sujeito estará embrulhado com lacres e tudo. O pior é que muito de tudo isso é perfeitamente evitável, e mesmo os sistemas que escravizam funcionariam melhor se se utilizassem de pessoas livres.
Não sei se já ouviram falar do senhor Ricardo Semler. Ele é chefe-executivo e sócio majoritário da empresa SEMCO S/A, “empresa brasileira conhecida por sua implementação radical dos conceitos de democracia industrial e reengenharia corporativa”. Além disso, ressalte-se que “sob sua gestão os rendimentos da empresa cresceram de quatro milhões de dólares em 1982 para 212 milhões de dólares em 2003”. O senhor Semler libertou sua empresa para crescer por ter libertado seus colaboradores. Em suma, o senhor Semler mostrou o que se pode realizar quando as pessoas são livres no trabalho.
Outro dia falei do ponto do IJF. Uma engenhoca eletrônica é lá utilizada para registrar a hora de entrada e saída dos funcionários do hospital, dentre eles os médicos diaristas. O que fazem os médicos diaristas daquele hospital? Depende da clínica a que     pertencem, mas, no geral, promovem a complementação do tratamento definitivo dos pacientes atendidos na emergência, vítimas da violência descabida em nosso meio ou de acidentes. Em algumas clínicas os pacientes recebem tratamento definitivo, provido pelos médicos diaristas, de doenças crônicas, mas a missão maior do hospital é o atendimento de urgência e emergência.
    Antes de seguir adiante, relembro – estou para ser sincero e, portanto, estúpido. A certa idade não é elegante o ser, uma vez que a sabedoria manda o contrário. Contudo, deixar de ser sincero a esta mesma idade fere o espírito de destemor que se achega nessa fase da vida. Assim, há aqui um aparente dilema inconciliável. Há aqui ideias mutuamente exclusivas.
O que quero dizer é que cobrar do médico não plantonista horas rígidas de permanência no hospital no intento de fazê-lo cumprir uma “carga horária” é tão colegial quanto – aqui sim! – estúpido. Médico não é mecânico de linha de montagem nem vendedor de loja de varejo. Médico não produz, uma vez que o doente não é um item. Nem mesmo saúde produz o médico. Saúde se produz com educação em massa e de boa qualidade. O que faz o médico, afinal? Resposta: cuida. O que se pode cobrar do médico, então? Resposta: que cuide.
Há lá, no IJF, médicos cuja folha de ponto é um primor, mas de ninguém cuidam. São a esses que se está pagando tributo ao se aceitar a “carga horária” como a medida de trabalho do médico. Estúpido sou eu em minha sinceridade ou os gestores em sua paleozóica obtusidade?

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O remodelador de certezas

Eu dizia de minha afeição às frases, desde que marcantes, significativas, essenciais. Pois vejam que me saiu minha amada amiga Joana, a louca, com a seguinte: “me encanto com o tempo e o seu poder de remodelar nossas certezas”. Vamos e venhamos, nem o Bandeira, nem o Quintana, nem o Pessoa, nem o Quental, nem o Drummond, e nem ninguém... Uma frase lapidar, dessas que se demora a remoer e a esquecer, sem dela se desfazer. Serviria de epitáfio, de epigrama, de arremate, de frase de fim de romance como aquele curto poema de Florbela que diz:
                        “Por aquela tão doce
                        E tão breve ilusão,
                        Embora nunca mais
                        Depois que a vi desfeita
                        Eu volte a ser quem fui,
                        Sem ironia aceita
                        A minha gratidão”
            Talvez até se inserisse no poema lusitano a frase de minha amiga, uma vez que as ilusões e as certezas são idéias antônimas, e a poetisa expõe corajosamente a perda ou o “remodelar de sua certeza” de amor – sua ilusão – em seu belo poema.
            Não nos apressemos a esmiuçar a frase. Tal tentativa só serviria a lhe destruir a beleza, como quando se abre o corpo do vivente após a morte numa violação horrenda. Ademais, para quê? Se ele muito diz, não há razão para explorá-lo. Ainda assim falemos das certezas, as que guardamos ou as que escolhemos ter, não importa.
            Há alguns meses gastei um texto inteiro falando das incertezas para, ao final, falar uma titica de nada das certezas (http://umhomemdescarrado.blogspot.com/2011/06/resiliencia-e-incertezas.html). E agora vem Joana, a louca, decretar que o tempo remodela nossas certezas.
                  Ora, é precisamente isso o que acontece entre os de mens sana. Esses não tão raros espécimes aprendem que suas “certezas”, ainda que necessárias, devem ser mutáveis, ou flexíveis, ou maleáveis, sob pena de se ver crescer uma tralha de frustrações e mágoas.
                  Dizia o Casoba que, depois dos 40, qualquer ¼ de hora faz falta. Ele queria dizer que não há tempo a perder depois da idade divisora de águas. Por que aos 40 e não aos 30, ou aos 50, não se sabe. A vida humana nem de perto se assemelha à das estrelas, que sempre morrem de velhice. A vida humana acaba a qualquer hora e em qualquer lugar. Nenhum de nós vai virar anã branca ou supernova.
Se queria o Casoba tirar maior proveito do tempo que se esvai, pergunto: temos tempo a que o tempo renove nossas certezas? Resposta: depois dos 30, dos 40, dos 50 ou de que idade for, é imperativo fazer também bom uso do tempo – que inexoravelmente passa – sem movermos um único pedregulho que seja. Dito de outra maneira, segue-se a viver enquanto o tempo se encarrega de mostrar a melhor solução para um ou outro dilema; e ainda de outra forma, não temos sempre as respostas no momento exato em que são feitas as perguntas, ou no instante em que se apresentam as dúvidas quanto ao melhor encaminhamento para determinada situação.
Assim, a frase de minha amiga aponta o tempo, esse inimigo mortal – literalmente, ressalte-se – como um poderoso aliado. Com ele se aprende. Com ele crescemos. Com ele amadurecemos. Com ele temos a chance de exorcizar a cegueira que nos fere desde o primeiro dia de nossas vidas.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Os "mala"

A mais completa definição de idiota diz o seguinte: idiota é aquela pessoa que concorda com tudo ou discorda de tudo que digo. Pois vejam vocês que, de uns tempos pra cá, apareceram um ou dois leitores(as) que classificam como “RUIM” todos os textos que escrevo no “Um homem descarrado”. Não sei se essas duas pessoas consideram ruim o estilo, o vocabulário, o tema, ou se querem berrar aos quatro ventos quão ruim sou como escritor, tamanha a obsessão de ambos.
            Devo admitir que seja uma presunção de minha parte imaginar que esses dois leitores são sempre os mesmos. É possível que, nos diferentes textos, leitores diferentes os classifiquem como “RUIM”. Entretanto, e não me perguntem por que, tenho um pressentimento de que sejam sempre os mesmos – dois indivíduos que discordam de tudo o que escrevo. Se for o caso, estará aí o exemplo mais límpido, visível e atualíssimo do que seja um idiota. No caso, dois.
            Notem que não me importa que de mim discordem, que tenham opinião diversa da minha sobre qualquer coisa. É salubérrimo que as pessoas pensem diferente. Quem deu o maior exemplo de tolerância para com os discordantes foi o Criador. Quem sou eu para me melindrar com pessoas cujos pensamentos diferem dos meus? Nada sou. Assim, afirmo que meu comentário vem apenas divulgar o que ninguém, além de mim e meus dois ferrenhos críticos, sabe. É minha obrigação.
            Vejam que não os taxo como idiotas – é a definição quem o faz. É possível que nem o sejam. É possível que sejam apenas pessoas um pouco voluntariosas e nada mais. Há dias, para algumas pessoas, em que não se quer ver a luz do sol. O que me intriga nessa dupla fantástica é precisamente o seguinte: se já sabem que o que escrevo não presta, por que razão ainda se dão o trabalho de ler? Sei que aqui vai uma outra pretensão de minha parte – é possível que essas pessoas nem leiam os textos que classificam como ruins. Há a possibilidade de que elas venham mostrar a cara apenas para dizer: -“Teu texto não vale uma Cibazol!” Dirão mais: -“E nem vou perder meu tempo em lê-lo!”
            Caso a última possibilidade fosse aceitável, por que perderiam seu tempo com algo que para elas nada vale? Assim, sou tentado a acreditar noutra possibilidade – a de que me amem doentiamente. Cada um como um Mark David Chapman, nutrem por mim uma obsessão, uma tara, uma atração psicopática. Sou para eles, de repente, um fetiche, um ícone, um foco doentio, um símbolo fálico desmedido e descomunal. Quem dá trela e cabimento àquilo que diz desprezar está incorrendo em evidente incoerência, e provavelmente está prestes a deixar cair a máscara da mentira. 

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Frases

Sou um homem de frases.
Nada me impressiona mais do que uma boa frase. A frase inicia e termina, constrói e destrói, aproxima e afasta – a frase tudo faz, tudo realiza, tudo transmite. A frase comunica.  
Há frases e frases, diga-se. Quem não há de gostar de um fraseado melódico, tirado de um instrumento que sofre? que devaneia? que paira? A frase musical tudo diz sem dizer uma mísera palavra. A palavra solta, isolada, nada é, exceção feita à palavra-frase, ela própria a frase a tudo dizer. Assim, anelo a frase vital, essencial, pedra-de-toque do que vai na alma, quer seja bom, quer seja mau. E, vejam, não há frase mais pungente do que a sem palavras – o silêncio. O silêncio responde a altura as mais rasteiras palavras, as mais estapafúrdias idéias, os mais grotescos assaltos à nobreza de sentimentos vários.
A frase imprime na alma do ouvinte ou leitor, como marcador de gado, idéias indeléveis, sentimentos inextinguíveis e perenes. Após ela saímos doridos e mudos como as vacas de pasto, a ruminar a frase tão estupenda, tão lancinante, tão... A frase que nos tatua a alma é uma nódoa, indestrutível como uma lembrança marcante.
Outro dia – não faz tempo – ouvi uma, dirigida a mim. Era assim, imperativa e seca: -“Joga limpo!” Eu não estava a jogar jogo algum.
Deixemos de lado o contexto. As frases não requerem o contexto ou, melhor, nelas ele já vem embrulhado, como um pacote completo. As doces frases são doces desde a origem, e emanam mel dos lábios que as pronunciam. E, vamos e venhamos, há lábios de mel e lábios de fel; e há também lábios aquosos, cujo neutro sabor não fecha portas nem corações, diferentemente da frase de fel sabor.
A frase que ouvi beira o imperativo categórico exemplificado na ordem do Deus Único, -“Não matarás!”. Há nela uma nota por demais repleta de arrogância ou de incredulidade, se se levar em conta o que ela diz. “Joga limpo!” é o que se diz a quem presumidamente está a jogar sujo, ou, dito de outro modo, a quem está usando de subterfúgios e estratagemas. Mais ainda. “Joga limpo!” se diz, quando não há ludismo evidente, a quem está jogando com a vida, ela como uma partida em que se vêem as pessoas como adversários a serem vencidos ou derrotados.
Em suma: “Joga limpo!” é uma acusação, quase uma condenação.
Não me lembra que tenha dito algo. Se falei, errei. A muda frase teria sido a melhor resposta, tamanha minha indignação.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Psicoterapeutas com a palavra

     Já se vão meses que Claudinha Viot vive sem viver. Está numa espécie de coma vigil. Sua vida, de fato, e é muito duro dizer, acabou. Restou a nós que a amamos, e a seus mais íntimos e chegados que a amam mais ainda, o vazio de sua doce e densa presença. Seu corpinho frágil jaz sobre leito frio e requer cuidados de terceiros todo o dia, todos os dias. Hoje uma imensa melancolia se me achegou, e não pude deixar de dela me lembrar.
     Vive-se a vida e nunca são lembrados os ensinamentos e alertas de Salomão. Um deles diz da alegria da morte, ou de ser melhor o dia da morte do que o do nascimento, porquanto é na vida onde se sofre.  Não há dor na morte. Nós, os que vivos permanecem, somos os que sofrem, ao passo que os que dormem no sono da morte já de nada lembram, já nada realizam, já nenhuma ambição lhes acossa a vontade, já nenhuma dor experimentam. Diz ainda o rei que de nada lhe serviram as riquezas e o poder que acumulou na vida e que o levaram a esquecer Aquele a Quem tudo devia. A confissão de sua apostasia é das mais belas orações que já se ouviram, sua humilhação perante o Altíssimo das mais angustiosas de que se tem notícia. Eis o que me espicaçava  o espírito — a lembrança do estado de Claudia Viot.
     Depois, e a propósito, a lembrança de uma vida de "sucesso". Chega-se onde se pretende apenas para se descobrir que o vaso ainda não foi preenchido. E, pior! — ainda que se ponham mais e mais desafios, ainda assim se estará longe da repleção de tão valioso, insaciável  e inextinguível vaso.  O sucesso, esse "bem" tão atual e desejado, o maior sonho de consumo do momento cujo significado, mesmo material, hesita aos ventos que lhe sacodem as entranhas, está nu. Assim como o rei. O sucesso — tiremos-lhe as aspas a fim de que se entenda seu real significado — está sob suspeita. Ao que parece sua face é outra, e outro o seu caráter. Numa única palavra: o sucesso é uma ilusão, a maior de nossos tempos.  
     Mas, segundo Nelson Rodrigues, há pior e, repito, há pior — seguimos ensinando o sucesso- ilusão. Por tudo, para todos. Parece que nada está a acontecer. Nossos filhos são poliglotas que não entendem a língua pela qual a realidade lhes fala nem compreendem a linguagem e os hieróglifos por onde fala a verdadeira ciência. Antes, e não somente eles mas todos nós, perdem-se nas cachaças das idéias nefastas e vazias, destituídas do conteúdo da verdade e repletas da malícia de uma outra inteligência. Estamos demais preocupados em que aprendam o tecnicismo que embasa a ilusão, antes de nos apercebermos que estão sendo tragados por tão sedutora mentira. Os meninos vêem em cada um de nós ou uma coisa ou outra; em cada um há a marca do homem de sucesso ou não. Somos ou não somos. Criamos ou compramos a fantasia que lhes embala os sonhos sem lhes esclarecer que o principal não são eles  mas a realidade, e que aqueles somente nos servem a amenizar minimamente as dores desta.
     E ainda se gradua a tão deslavada mentira. Há o "maior" e o "menor" sucesso, tudo a depender da quantidade da pecúnia ou bens acumulados. E dizemos que fulano está bem, ou muito bem, ou ainda ótimo na proporção de seu acúmulo. Estar bem não se refere, a princípio, ao estado de saúde do sujeito a quem se está a reportar.  O modelo está em xeque, mas ninguém parece perceber, mergulhados que estamos nessa química vigorosa e poderosa.
     Se é assim tão inebriante a lorota, não suscitará ela uma ressaca? Não será ela em breve seguida das rebordosas tão comuns às drogas de efeito central? Quanto tempo há de se esperar até que a vergonha nos abata e desejemos jamais experimentar nova libação? Ninguém há de saber. É até possível que nunca nos  desintoxiquemos de seus efeitos duradouros, delirantes, regozijantes. Ainda não se descobriu o tratamento para esse "sucessismo" vigente, uma pandemia incontrolável; mas já se conhecem suas principais seqüelas: trogloditismo emocional, insegurança, solidão, isolamento e frágeis laços afetivos. Com a palavra os digníssimos psicoterapeutas.

sábado, 8 de outubro de 2011

A guerra contra o Piauí


            Hoje abro o jornal e o que vejo? O Piauí quer tomar terras do Ceará. Outro dia escrevi aqui mesmo – ou terá sido noutra parte? – que o magnífico vizinho estaria a invadir o Ceará dada a quantidade de imigrantes, temporários ou definitivos, aqui vivendo. Pois hoje, em matéria estampada à primeira página, a certeza.
            O Piauí entrou na justiça contra nós querendo reaver sabe-se lá quantos milhares de quilômetros quadrados que reclama serem seus. Acusa-nos de tê-los tomado ou deles nos apropriado indevidamente.
            Já me decidi: segunda-feira próxima, ao encontrar amigos e conhecidos piauienses por aí, onde quer que seja, lhes avisarei que estamos em guerra e que, doravante, qualquer ato suspeito da parte deles será considerado hostil. Como bom soldado que sou, não posso permitir ao inimigo vantagens indevidas. Minhas suspeitas prévias se confirmaram sem a menor sombra de dúvida. Se meu blog fosse mais lido, ou lido por maior número de pessoas, teriam me dado ouvidos e não estaríamos passando tamanho vexame. Eis aí tudo. Paciência. Creio ser ainda possível uma eficaz defesa.
            Também, no mesmo periódico, outras notícias de interesse supremo, mas que minha memória teima em não lembrar. O interesse não é meu, é óbvio; se fosse, lembraria. A propósito, havia um bom tempo que os jornais não despertavam meu interesse. Com efeito, hoje o fez de forma puramente casual, quando passei defronte a uma banca de revistas. Não fosse isso e a importante nova sobre a guerra que se avizinha seria por mim ignorada. Estou, desde então, tão logo fiquei ciente, a limpar meus fuzis, metralhadoras, pistolas e bazucas. Guardo comigo verdadeiro arsenal desde os tempos da caserna. Os piauienses não perdem por esperar...
            Sei, sei, dirão que ainda não existe uma declaração de guerra, e é verdade. Porém, todos sabem o que acontece quando um estado é assaltado por ímpetos imperialistas e desejos expansionistas. Assim bem ensina Churchill nos primeiros capítulos de seu “Memórias da segunda guerra mundial”. E não só ele, mas qualquer autor de capítulo que trate da história das guerras. Assim, urge o armamento geral e irrestrito.
            Serão também necessários os espiões, milhares deles. Há piauienses insuspeitos entre nós e é preciso desmascará-los. Se deixados livres a agir podem representar nossa derrota. Tenho cá comigo alguma idéia de quem seriam esses infiltrados, e já a estratégia para capturá-los. E devo alertar aos cearenses que hoje habitam território inimigo que se acautelem – devem estar sendo, da mesma forma, considerados olheiros indesejáveis e alvo fácil do serviço de contra-espionagem piauiense. Devem retornar, numa retirada heróica, o mais rápido possível!
        (Lendo a matéria vem-nos a enorme, quase incontrolável, vontade de rir.)

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O filho e a arte


A esterilidade de temas foi o estopim para preocupações comigo por parte de amigos. Vejam vocês.
            Eu estava a passear à Beira-Mar e me toca o telefone portátil. Era o Chico. Foi direto ao ponto. Contou-me que acabara de receber telefonema de sua filha, minha leitora, alarmada com o texto que eu escrevera. Queria saber se eu estava bem. Segundo ela, o texto estaria repleto de notas tristes e, talvez, de choroso lamento pré-suicida. Ele, por sua vez, e já contaminado pelas preocupações da jovem, também se mostrava hesitante ainda que profundo sabedor de minha alegria e afeição à vida.
            Sexta, ao chegar a certo boteco para tomar uns drinques, fui abordado por um grupo de amigos que se sentavam a uma mesa. De onde estavam me chamavam, acenando freneticamente e aos gritos. E indagavam se eu estava bem. E mais: sofri repreensões qual um menino levado após sua estripulia. Horas depois, sob efeito de leve libação alcoólica, me ardia a orelha. Passava-lhe suavemente os dedos a examinar se o puxão teria sido forte o bastante para causar tal sensação. Não conseguia me lembrar de ter sido vítima dessa antiga forma de punir garotos travessos. Eis o que se pode causar ao se escrever texto mais intimista.
A essência do homem é rica em tristeza e é precisamente ela o que nos torna homens. Não há homem sem essência nem há homem sem tristeza. Dir-se-ia ser essa a sua maior penalidade por se ter afastado do Criador. Não fosse isso, o que seria? Não me parece haver outra explicação para essa ubíqua melancolia. Faltou aos queridos amigos o conhecimento da possibilidade menos aventada, porém mais provável.
E o que escrevi, afinal? Nada demais. Como diz o título – “A espera” – falo de uma espera. Ou melhor, não falo de uma espera, mas em que pensava durante ela. E o que durante ela pensei foi devaneio incompreensível e enigmático para muitos ou pura prosa poética para outros. Que importa? Justamente o tema principal no qual pensava durante tão interminável espera era a falta de temas sobre os quais escrever. Das profundezas da ausência de temas surgiu o devaneio que a muitos pareceu um chororô pré-fatal, uma conclusão sem pé nem cabeça com nítidos sinais da leitura feita ao açodamento da vida.
Sobre o que mais falo? Faço uma confissão que, presumo, não foi percebida – tinha um assunto a discorrer, mas o considerei impróprio em demasia, e me saí com o ditado das três coisas que não voltam mais. Há que se considerar a palavra escrita ainda mais irrecuperável que a pronunciada, e isso deixei bem claro. Escrever já é uma exposição severa e inolvidável de si mesmo. Melhor refletir com esmero se se deve ir ao mais íntimo da essência do ser antes de lhe dissecar as entranhas aos lobos. Ademais há a questão da idade. Certos assuntos não caem bem a certa altura da vida, se expostos fragorosamente. Então, o devaneio era sobre assunto da intimidade mais íntima do autor.
Os amigos perceberam a tentativa, mas julgaram errado o assunto, pressupondo uma tragédia shakespeareiana ao desfecho. Ora, havia angústia, é verdade, mas a angústia da obrigação de permanecer quieto. A quem escreve não interessa a quietude do silêncio nem o sufocar os sentimentos. Essa é a dor maior de quem faz arte. O artista é um masoquista incorrigível, posto que somente a dor lhe possa inspirar os mais idílicos temas; adora o momento em que aquela o abate porquanto sabe que dela colherá a matéria prima de seu poema, de seu quadro, de sua música, de seu texto; que, por sua vez, lhe alivia aquela que o faz sofrer.
Não é o masoquismo diminuidor aquele que solapa quem cria arte – ele é conseqüência do processo sofrer-criar. Depois, o descanso e o alívio qual o da prenha que dá à luz. A dor do parto em muito se assemelha à do artista ao criar e, quiçá, este em muito se assemelhe à pejada que se regozija em seu sofrimento de trazer à vida o seu amor mais profundo e mais sagrado. De onde viriam tais sublimes obras, o filho e a arte, se não do Senhor?

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A espera


Por dias me abateu uma esterilidade de temas. Ainda me abate. Não me arreda o pé. Como uma saudade que tive – e ainda tenho – a escassez persiste. A mim me parecia ser justamente este o momento de algo. Não há artista sem dor. A dor, o abandono, a rejeição e as saudades fertilizam nossos jardins da alma como adubo excelente e viçoso. Não é o que me está a ocorrer. Há dias que passo sozinho, sem trocar única palavra com semelhante. Obrigo-me a pensar, a refletir. Como um Crusoé da selva de pedra, gasto as horas vendo o sol passar do lado direito ao lado esquerdo de meus muros. Leio algo, ouço a música, me meto nas sombras do crepúsculo que anuncia o fim de mais um dia. Tanto a dizer, não sei como. Não acho as palavras; não encontro metáforas, metonímias, hipérboles ou quaisquer figuras que me ajudem.
            Aproxima-se a hora.
Minha vida me passa como uma película enodoada. As decisões, os erros, os enganos, as ilusões, as transições, as feridas, as perdas, tudo num instante.
Aproxima-se o momento.
Memórias do que foi bom persistem enquanto esqueço o que foi mau. Um esforço não seria o bastante para lembrá-los, nem seria sensato tentar fazê-lo. Para quê? Por quê?
Aproxima-se o instante que tanto espero.
Sinto um leve incômodo a me alvoroçar e não me agrado dele. Não tentarei explicá-lo a mim mesmo. Na hora certa a resposta virá, as razões virão. O tempo sempre deve ser utilizado a favor da resolução da dúvida ou do que ainda não se revelou plenamente. Por que exasperações gratuitas? Muitas vezes, sem nenhuma razão, nos invadem maus sentimentos ou pruridos mal definidos, cujos motivos nos fogem ao entendimento.
Espero. Ainda restam 3 horas. Até lá espero.
O que me incomoda se revela – as palavras que um dia falei. “És senhor do que cala e escravo do que fala”, diz o velho ditado. Eis o pecado. Falei. Não devia, mas o fiz, e o que está feito está feito. “Três coisas não voltam mais: a pedra lançada, a oportunidade perdida, a palavra emitida”, o outro ditado. De ditado em ditado vou me angustiando. Nada a fazer, nada a dizer; quanto menos dizer, melhor.
Se escrevo, pior. E estou cá a escrever, em que pese toda uma esterilidade inexplicável. Falo coisas sem nexo, traduzo idéias mastigadas e não digeridas, tudo uma minúscula parte de meu imenso e único universo. Quem entenderá? Ninguém, sem dúvida. Ou alguém, quem também está a esperar. Ou talvez também não entenda, a não ser quando digo da espera. Esperamos, ambos, a hora que ainda tarda.
O escrever não deve escravizar. Não se escreve para se tornar escravo, mas para se libertar das amarras da gravidade e dos aguilhões da alma. Escreve-se em tributo à liberdade. Palavra falada carrega consigo, muitas vezes, o tempero da intemperança, ao passo que palavra escrita, ainda que se possa apimentá-la, vem lastreada da certeza de seu alvo e de seu nascedouro.
Ainda espero.
Ia escrever dos que morrem para dar vida ou curar alguém; ia falar dos que adoecem de doenças evitáveis e preveníveis, e que não se previnem devido ao nosso desprezo pela vida alheia, ao nosso pouco caso com o outro. Ia dizer que não há o que comemorar quando os que morrem não deveriam morrer, e quando os que adoecem não deveriam adoecer. Não há o que comemorar em omissões tão criminosas. Não há o que comemorar na solução complexa quando a simples se mostra tão fragorosamente em sua pragmática e econômica simplicidade. Os números que se divulgam não deveriam ser motivos de regozijo, mas de vergonha. Chega a ser ridículo, mas não é – é criminoso mesmo.
Ia escrever, mas não consegui, a não ser por essas poucas e diáfanas linhas. E queria dizer o seguinte: tudo não passa de falácia, e nada mais. Alguém entenderá? Alguns. De fato não estou a escrever – é o mais puro devaneio à ponta dos dedos.
É chegada a hora.
Vou.