quinta-feira, 28 de junho de 2012

Os camaradas do "Kamarada"

          Os amigos me conhecem; sabem que vez ou outra sou assaltado por obsessões tremendas e recalcitrantes. Vê-se aqui o emprego proposital de uma tautologia. A intenção é essa mesmo: teimar, não inutilmente, tanto quanto possível. 
          Ontem dediquei-me ao "Kamarada" de meu amigo Mauro Oliveira. Hoje quero me ater aos camaradas daquele. O tema teve início com a história da aliança política entre Lula e o famigerado Paulo Salim Maluf. Hão de se lembrar que ela foi coroada com abraços e tapinhas às costas entre ambos. Pareciam amigos de anos, companheiros de lutas, comparsas revolucionários. É bem possível que em defesa do "Kamarada" saiam em seu socorro irado séquito que bradará aos quatro cantos do mundo que a aliança não é pessoal – é institucional. 
          Mas voltemos ao meu amigo Oliveira e seu artigo de antes de ontem no jornal O Povo de Fortaleza(http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2012/06/26/noticiasjornalopiniao,2866315/o-kamarada-e-os-camaradas.shtml). Mauro queria explicações de Lula a fim de "não o confundirmos com alguns de seus camaradas". 
          Um dos camaradas do "Kamarada" é a senhora Luíza Erundina, que seria o vice na chapa de Fernando Haddad, do PT, a concorrer à prefeitura da maior cidade do país. Apesar de não mais integrar o quadro de militantes petistas desde 1997, ela permaneceu nas fileiras da esquerda brasileira ao se ligar ao PSB em 1998. Disse ela que o "Kamarada" passou dos limites ao tirar fotografia no jardim da casa do senhor Maluf, e se negou a permanecer na chapa. Saiu. Foi coerente. Afinal, ela e Maluf são adversários históricos, o que nem de longe parecia ser o caso com o "Kamarada".
          Voltemos a 1992, quando Erundina foi convidada pelo então presidente Itamar Franco para ser a ministra-chefe da Secretaria da Administração Federal, e aceitou o cargo. Que fez o PT de Lula e Erundina? Suspendeu por um ano seus deveres e direitos partidários. Segundo a nota divulgada pelo partido, ela teria rompido com a disciplina partidária ao não consultar a legenda sobre o assunto, e ao desrespeitar a decisão do partido de fazer oposição a Itamar. 
          Antes disso, em 1988, ela se elegeu prefeita de São Paulo após vencer as prévias de seu partido sem o apoio de seus maiores cacifes, o "Kamarada" e os camaradas José Genoíno e José Dirceu, que apoiavam o deputado constituinte Plínio de Arruda Sampaio. Sua administração foi marcada com importantes medidas na área educacional, saúde, educação, esportes e transporte público. Atualmente exerce seu quarto mandato consecutivo como deputada federal por São Paulo. E nem falemos de sua origem humilde no nordeste brasileiro, natural do interior da Paraíba e filha de um artesão de selas e arreios de couro. 
          Quanta semelhança e quanta diferença entre esta valorosa brasileira também perseguida do regime militar e seu "Kamarada"! Quanta distância os separa na coerência, na frugalidade das ambições, na persistência em seus ideais, na realização por competência! Quanta diferença em tudo entre ela e os outros camaradas do "Kamarada", José Dirceu e José Genoíno! estes desde o começo unha e carne com o mesmo "Kamarada" a quem meu amigo Mauro pede explicações e teme por sua semelhança com aqueles!
          As notícias de hoje dos maiores jornais do país dão conta de uma substituta para Erundina, a senhora Nádia Campeão, do PC do B, ex-secretária municipal de Esportes na gestão da senhora Marta Suplicy, outra conhecida camarada cuja língua é bem conhecida em seus rompantes de insensatez. Detalhe: antes de escolher a candidata o PT consultou o senhor Paulo Maluf sobre sua aprovação, e ele anuiu positivamente. Vede a que ponto chegou o único partido praticante da ética da virtude no país! 
          A mensagem que enviaria hoje a meu querido Mauro, homem de bem, homem culto, inteligente além da conta, sensível, abnegado, lúdico, alegre, quimérico, enfim, um ser humano de primeira linha, seria: "querido Mauro, é urgente que mais brasileiros exijam as mesmas explicações que tu demandas. Somente essa tua dúvida, uma vez grassada, será capaz de lobrigar em meio à cegueira da paixão que ainda resta por tão decepcionante 'Kamarada' uma nesga de luz a aguilhoar a razão. Forte abraço do amigo qua ainda mais te admira".

quarta-feira, 27 de junho de 2012

O "Kamarada", nosso Benedict Arnold

          A  marcação de pista é traçada ao longo do pavimento da piscina em cada raia. E vede como é esquisito o que sucede a ela. Quando nenhum nadador está a usar a piscina, suas águas permanecem calmas e sua superfície assemelha-se a um espelho plano. Se nenhum vento estiver a soprar, mais quietas ainda ficam as águas e mais plana sua superfície. Nesse estado, olhando em sua profundidade através das águas, podemos ver a marcação de pista em cada raia, uma linha reta escura desenhada ao chão. Se, entretanto, agita-se a água, a marcação de pista de retilínea passa a mover-se como um réptil a rastejar ao solo, envergando-se e contorcendo-se em curvas e serpenteados, ziguezagueando tanto mais freneticamente quanto maior a inquietação das águas. Esvaziando-se todo o conteúdo do tanque olímpico ver-se-á que aquela linha escura desenhada ao seu fundo é, de fato, fixamente e permanentemente imóvel; é ladrilho de cor negra construído em linha reta ao longo de seu maior eixo; não está sujeito ao movimento das águas. 
          Conclui-se que o que vemos é pura ilusão visual. Se as águas não movem os negros azulejos, o que os faz parecer mover-se? A física da luz explica que ela sofre alteração da direção e da velocidade ao se alterar o meio onde se propaga. Assim, é provável que a luz que chega aos olhos do observador que está a contemplar o fundo da piscina de águas revoltas venha alterada em sua direção e velocidade e cause a percepção óptica de movimento do objeto refletido. Quem está em movimento é o meio onde ela se propaga. Eis aí toda a explicação do fenômeno.
          Eu observava aquela visão enganadora e pensava de mim para mim – será possível que outras ilusões nos afetem os sentidos tão perfeitamente quanto aquela? A imagem qu'eu via não era real, eu sabia; mas eu a via. Os sentidos são sensores por onde nos entram as informações do e sobre o meio ambiente que nos cerca. As sensações que se sentem são informações que chegam ao cérebro, e não dependem da vontade. Queira-se ou não elas são percebidas, exceto por estados mórbidos que alterem a função dos órgãos dos sentidos. Presumindo-os normais, a informação é fidedigna. A informação sobre a marcação de pista ziguezagueante era fidedigna, embora não traduzisse a realidade. Em outras palavras, era fidedigna mas não real, donde se conclui que a informação trazida pela luz que chega aos olhos daquele desocupado observador era uma informação influenciada pelas características da própria luz. 
          Eis que ontem, num desses rompantes que impelem o desavisado de volta às razões de seus males, abro o jornal e me deparo com artigo escrito por meu querido amigo Mauro Oliveira, ex-diretor do IFCE  e PhD em Informática, intitulado "O 'Kamarada' e os camaradas" (http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2012/06/26/noticiasjornalopiniao,2866315/o-kamarada-e-os-camaradas.shtml). Já me delonguei em demasia e irei direto ao ponto.
          O "Kamarada" a quem o querido amigo se refere no artigo é o senhor Lula, ex-presidente da república, ao passo que "os camaradas" seriam seus asseclas e correligionários. Diz lá ele o seguinte, após tecer loas e madrigais à origem humilde do ex-presidente e seus supostos vultosos feitos à frente do Executivo da Nação: "O tempo passa. E ficamos nós, voluntários de outrora, constrangidos com uma tal de 'flexibilização', uma perigosa zona cinzenta entre o ético e o amoral praticado por certos camaradas do 'Kamarada'”. E se justifica: "O abraço recente entre Lula e Maluf, o imoral, nos distancia do Brasil de Freire. Faz-nos sentir na 'república de Nicolau' onde os fins justificam os meios." O Brasil de Freire é o idealizado e anelado por Gilberto Freire – um Brasil melhor para os pobres, em suma, ao passo que na "república de Nicolau" estaria o senhor Lula a ler na cartilha do que ensina o Maquiavel em seu "O Príncipe". Lá os fins justificariam os meios.
          Finaliza meu amigo seu artigo com um verdadeiro apelo ao "Kamarada"; pede ele: "O 'Kamarada' fica a nos dever essa... para não o confundirmos com alguns de seus camaradas!" 
          O irônico é que na mesma edição do jornal onde o amigo escreveu seu artigo está uma matéria   (http://www.opovo.com.br/app/opovo/politica/2012/06/26/noticiasjornalpolitica,2866190/lula-diz-nao-se-arrepender-de-ter-feito-alianca-com-maluf.shtml) que diz em seus meandros: "O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou não se arrepender 'nem um pouco' da aliança eleitoral costurada com o deputado Paulo Maluf (PP-SP) em torno da candidatura do petista Fernando Haddad". Parece que, de fato, o senhor Lula lê mesmo na cartilha de Nicolau Maquiavel e, se bem me lembro, certa vez publicaram na imprensa golpista uma fotografia de Sua Excelência o então presidente da república sentado à sua mesa de trabalho onde repousava um exemplar do famoso livro daquele autor. 
          Tão logo li ambas as matérias saquei do telefone portátil e escrevi uma mensagem ao amigo; disse-lhe: "Querido Mauro, poupaste em demasia o senhor Lula. Custa-me acreditar que julgues que ele nos deve 'apenas' essa! Deve-nos muito mais, de mensalões a outros escândalos. A aliança com Maluf é apenas mais um. Ou achas que só agora, serodiamente, nos apunhalou? Comentarei em meu blog teu texto. Forte abraço do amigo que te admira". 
          Aqui estou a cumprir a palavra. Todo o preâmbulo sobre a ilusão há de ter um lugar no que parece ser o início da desilusão de meu amigo. Como a linha bruxuleante  ilusória, Lula nos passa a informação fidedigna; muitos é que estão demorando a ver a sua irrealidade.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Laissez faire, laissez aller, laissez passer – o jeito cearense de ser

          Deveis ver o que postou uma amiga na página da rede social. Escreveu assim: "Não dá pra negar a capacidade do cearense de ser gaiato. Já ri muito com essas fotos e comentários sobre a chuva de hoje". Conclui-se que na rede social se fez a maior papagaiada sobre a estrondosa chuva que caiu sobre nossa Fortaleza à última sexta-feira. Digamos melhor; não foi sobre a chuva que se falou – falou-se sobre seus efeitos e consequências, e sobre a aflição do povo.
          Disse o jornal que abriram-se buracos, caíram imóveis, muros, árvores e tudo o mais cuja estrutura não fosse forte o bastante para resistir à força das águas e correntezas que delas se formaram em alguns logradouros; carros foram arrastados e largados ao deus-dará por proprietários apavorados de serem tragados pela força das águas; pedestres se amotinaram em lugares altos e até em árvores temerosos de se verem achados afogados mais tarde. Enfim, sobre tudo isso se fez piada na rede social.
          Se bem observastes, a chuva da sexta passada – hoje é terça – já foi quase esquecida. Não, não – já o foi totalmente e plenamente. Somente dela estão a lembrar-vos agora porque estou a ventilar-vos a memória sobre a matéria. Não fosse isso e ela estaria já bem guardadinha em vossos subconscientes, quiçá em vossa lixeira mental. Deixem-me, pois, lembrar-vos um ou outro detalhe que julgo premente ser trazido à baila ainda que a essas alturas.
          Haveis de lembrar que aquela precipitação bem pode ser dividida em duas fases: a primeira e a segunda. A primeira, ainda que mais impetuosa que o ordinário, terá sido bem menos que a segunda, cuja força e volume foram infinitamente maiores. Entre ambas, um intervalo de calmaria que creio ter iludido a todos quanto ao seu fim. Pareceu que ali tudo se esvaía e o sol abraçaria o restante do dia após evanescente período nebuloso. Mas qual! Em uma hora pouco mais ou menos eis que novamente abriram-se as comportas dos céus e caiu sobre nós aquele aguaceiro medonho, em cúmulos-nimbos e nimbos-estratos vistos pouco antes ali, da Praia do Futuro, em alto mar a se aproximar. Ali na Avenida Beira-Mar, à altura de Tereza Hinko, as eternas sarjetas – três ou quatro em série, se não me engano – que sempre se rompem e cospem de seus canos podres e junturas milenares suas águas pútridas ricas em matéria orgânica em decomposição, já estavam a drenar em jato seu conteúdo fétido, sempiterna falta de vergonha de nossa companhia de águas e esgotos, a dar suas dolorosas e descaradas explicações que aceitamos com nossas também sempiternas  leniência e pusilanimidade. Assim, o temporal se esgueirou por toda a tarde e só amainou ao início da noite, quando o céu antes encanecido se enegreceu destituído da luz da lua e das estrelas.
          Mais tarde, hora em que se sai em busca de um lazer – um bar, um restaurant, uma boite –, quase ninguém se arriscou. Fosse por medo de uma possível insistência do temporal que já nos havia pregado uma peça tendo deixado após si seu rastro de destruição e danos, fosse por uma espécie de hang over que houvesse colhido a quase todos num torpor pós-traumático, quase nenhum cidadão se aventurou a deixar seu lar àquela noite. Novo engano: não houve chuva além. 
          Fácil demais entender as avaliações incorretas de nossos concidadãos. A Funceme, Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos, dava, em sua página da internet e à hora mais estrepitosa do temporal, uma previsão up-to-date mais – muitíssimas vezes mais! – amena. Falava que teríamos tempo nublado com chuvas esparsas, e expunha uma fotografia tirada a partir do satélite que demostrava com clareza uma enorme massa de pesadas nuvens sobre nossa região.  Vede como estamos mesmo muito mal informados e mal assessorados em termos de informação meteorológica, e talvez em termos de muitas outras coisas, vale lucubrar. É possível que a mesma Funceme tenha dado mais tarde, após o início da noite, a informação, atrasada, de que uma chuva torrencial se aproximava, e as pessoas hajam se recolhido temerosas de se expor a seus perigos. 
          Pois foi isso tudo o que açulou a veia cômica do fortalezense. Sabeis sobejamente e fartamente que os cearenses somos um povo dado ao cômico, à pilhéria, à galhofa. Vede que não me refiro ao chiste comum, inteligente, mordaz. Gostamos da facécia espalhafatosa e estrepitosa, como foi a chuva; nossa maior criação é a vaia, forma estrondosa e ruidosa de chacota mesclada a ao largo e debochado sorriso, de preferência em coro, em grupo numeroso de pessoas. Uma vaia solitária não é uma vaia: é um grito destituído de sentido. Uma verdadeira vaia cearense há de ser ouvida ao estádio de futebol lotado, o Castelão, quando, por exemplo, um jogador do Ceará aplica um drible desconcertante a um jogador do Fortaleza, ou o contrário. Duas enormes torcidas, cada uma a espera de um desses momentos aprazíveis para entoar sua maior galhofa: a vaia pelo "traço" monumental e humilhante. Eu diria, talvez mal comparando, que as péssimas consequências da chuva de sexta tenham levado uma fenomenal e estridulante vaia. Ou isso ou a vaia foi ao povo delas vítima. 
          Cearense não vaia objetos, exceto por uma exceção: o sol. Para quem não sabe o sol já foi vaiado por estas paragens cearenses. Consta que havia tempos não chovia, e eis que veio uma chuva  maviosa, melíflua e apaziguadora da canícula infernal habitual, regadora do solo e dos açudes sedentos e enxutos. Dali a pouco – foi na Praça do Ferreira – abre-se sorrateiramente uma brecha entre as nuvens por onde vem o astro-rei se embrenhar e se enxerir como menino travesso. A turba que lotava a praça não perdoou: apupou-o freneticamente com tal e qual ira de quem se vê frustrado e decepcionado. Teria sido agora a chuva o motivo da vaia virtual e internética? Seria agora a chuva a razão da vaia virtual?
          Os comentários e fotografias postados à rede social davam conta de carros revirados; pessoas em barcos salva-vidas, encharcadas em paradas de lotação, subindo em postes de luz e muros; enfim, pessoas sofrendo por sua visível vulnerabilidade perante fenômeno comum, como uma chuva mais forte, numa cidade de quase 3 milhões de almas, cuja "obrigação" seria já ter obtido e construído a infra-estrutura necessária para resistir-lhe. Se as postagens estivessem a dar conta do drama das pessoas, teríamos presenciado um momento do lamento solidário de seus concidadãos. 
          Mas eram apupos. Sou tentado a concluir que o fortalezense vaiou a si mesmo. O sol permanece solitário como o único objeto inanimado vítima da nossa comicidade e desdém. No mais são as pessoas, nós mesmos, que nos embrenhamos a escarnecer de nossas próprias mazelas, criadas em nosso estilo laissez faire, laissez aller, laissez passer de viver. Nós gostamos mesmo é de vaiar o outro.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Merde jolie


Amorim a conheceu n'algum desses lugares de relacionamento virtual. Lá se exibem fotografias em ângulos convenientes e résumés suspeitos. Em tese. Nenhuma suposição pode ser estendida a tudo e a todos de modo a que não haja exceções. No caso daquela pequena havia a suspeita de se tratar de um desvio da regra.
Era belíssima; magra, fausse maigre, uma magreza repleta de músculos femininos a tornear a pele alva e sedosa, cuja penugem delicada e dourada realçava sua brancura estonteante. Tudo nela era fibonácico, em proporções perfeitas e meticulosas. Era esguia de alto a baixo. O rosto desenhava-se por traços fortes: a linha de implantação dos cabelos tornava a fronte, quase quadrilátera e plana, suave e harmônica; lábios carnudos e pletóricos encimavam o conjunto triangular da parte inferior da face; ao se abrirem os lábios, lindos dentes palidamente amarelos e fortes se deixavam ver em sorrisos abertos e francos, cheios de vitalidade e força; o nariz adunco sobre aquela coleção de perfeitas e nobres estruturas arrematava a composição daquele viságe venusiano.  Os cabelos loiros ela os tinha em quantidade e tamanho, semiondulados e repartidos em duas metades iguais ao alto da cabeça.
Tudo isso ele pôde apreciar nas fotografias que ela mesma se permitiu expor. Seria impossível imaginar que tamanha beleza virtual não se confirmasse na realidade da vida.
Dali a poucos dias ele o confirmou: era, de fato, uma linda mulher.

Ela escrevera no item "Procuro" o seguinte: "cuidados..." Assim mesmo, sucintamente e reticentemente. Amorim se perguntava o que seria que viria após as reticências hesitantes e incertas. Deixou-lhe uma mensagem bem a propósito; escreveu: "eu cuido", e completou com as mesmas e lucubratórias reticências. Dias depois veio a resposta da pequena. Respondeu com uma pergunta; queria saber: "julga-se capaz?" Acordaram um encontro não sei onde, e conversaram um pouco, não muito. Amorim saiu com a leve mas nítida impressão de que ela não se agradara de sua pessoa. Fosse porque fosse um homem um pouco mais baixo que ela, fosse porque a conversa não se prolongasse o bastante, o fato é que sentiu mau presságio. Um detalhe teria lhe chamado a atenção – ela fizera questão de tentar intimidá-lo e constrangê-lo de alguma forma, usando para tal a pilhéria desarrazoada e imprópria entre quase desconhecidos. Tentando sempre demonstrar simpatia e desprendimento acabou por lhe deixar a certeza de sua inconveniência e destempero. Em suma, Amorim de lá saiu sentindo sutil desconforto. Se a pequena sentia o mesmo em relação a ele, jamais o saberá.
Não se sentia frustrado pelas óbvias razões da conquista possivelmente malograda, nem por uma suposta rejeição. O que o incomodava era a percepção de um sentimento de enorme esforço para lavar a cabo uma mera conversação. Com efeito, havia ali algo inusitado. Em que pesasse a formosura, algo nela lhe desagradava imensamente. Ele sentia como se lhe tivesse deitado um peso às costas, talvez ela própria, caso viessem ao flerte ou à amizade. Ele, um sujeito de têmpera leve e alvissareira, iniciava a sentir n’alma algo de repugnante sobre aquela jovem e bela mulher. Perguntava-se o que seria, e nem de longe atinava.

O que começou mal piorou ainda mais em poucos dias. A má impressão de Amorim sobre suas inconvenientes colocações e chistes só crescia. Ele passou a confrontá-la com seu mesmo tipo de facécia, o que acabou por demonstrar que para ela havia apenas uma via para as chacotas de mau gosto – de lá para cá. Ela tinha permissão a dizer o que quisesse e bem entendesse; ele não. Se o fizesse ela o repreendia acusando-o de indelicado e grosseiro, sem se aperceber de suas próprias e primevas impudicícias e negligências.  
Sobre nada substancial conversaram. Nenhum assunto agradável houve entre eles e era precisamente isso o que o incomodava cada vez mais. Nunca se habituara a amizades sem conteúdo. Com ela havia sempre uma farpa escondida sob o falso sorriso, sob a falsa pilhéria, sob o falso prazer do encontro fortuito. Perguntava-se por que cargas d'água ela ainda lhe dirigia a palavra. O jovem se sentia descaracterizar. Dizia o que não queria por ouvir o que não gostava. Sentia-se uma carta em seu baralho fútil e maçante. Queria fugir, nunca mais lhe falar, nunca mais vê-la.

Queria dela sumir. Quem dá importância ao que pensam os outros? Os muito jovens, os muito verdes; não ele. A ela, principalmente a ela, permitiria pensar o que bem entendesse. A pequena gastava seu tempo a tentar lhe passar uma mensagem misteriosa sobre si mesma: -"Sou diferente de tudo o que você já viu na vida!" E cobria-se, durante o pouco que conversavam, em manto negro e impenetrável. De si nada falava, nenhuma emoção exprimia, e na única vez que o fez pareceu a Amorim que se tratava de um desdém, mais um. Gastava esse pouco tempo em risotas e quebra-cabeças infantiloides, destinados a lhe passar a idéia de pessoa fleumática e segura. Mal sabia ela que a atitude surtia no espírito do rapaz o efeito oposto. Para ele, entre outras pretensões, ela estava a testá-lo, e de alguma forma sentia que ela de tudo fazia para aborrecê-lo na intenção de experimentar sua tolerância. Pior: tudo sem a menor razão, sem o mínimo e razoável propósito. A superficialidade que ela impunha seria sua proteção ou desgraçadamente a sua essência. Prolongando-a sempre só o levava a pensar na segunda hipótese. 

Um dia, dali a pouco, como no romance de Wilde, aquela bela pintura de carne e suas linhas harmoniosas, em sua mente e a seus olhos, se entrecortavam entre si como garatujas hediondas que agora desenhavam uma caricatura brutal. Basil Hallward odiaria tingir semelhante criatura sobre seu écran como o fez, o coração repleto de paixão e alegria, com Dorian Gray. Celeremente sua imagem se tornava grotesca e bruxuleante e, como na pintura de Hallward, degenerava e se decompunha como um cadáver velho e monstruoso, a acompanhar o decaimento das potenciais virtudes e traços de caráter do indivíduo real.
Na tela mental do rapaz tudo se esvaiu, enquanto os ventos de seu autêntico espírito lhe tangiam os pensamentos...  

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Um desfecho rodriguiano

           Não faria diferença perguntar o porquê de hoje ter sido assaltado por pensamentos destituídos de aparente razão. Eis que pus-me a lembrar o querido e saudoso amigo Henrique Telmo. Repito – de que adianta pensar em por quais razões minha memória me impôs tão doce e saudosa lembrança? Mas me veio bem, a propósito. 
          Há muitos anos partiu, ainda, ou melhor, tão logo atingisse o vigor que o viver reserva aos homens aguerridos, corajosos, inteligentes e de bom coração. Em verdade, ao partir desta vida já se o poderia considerar um vitorioso porquanto viera de classe social inferior àquelas que obtêm recursos mais facilmente por lhes terem sido oferecidas melhores e mais promissoras oportunidades. Henrique era o menino pobre vencedor à idade de jovem adulto; fustigara a indigência por méritos próprios e com o auxílio inestimável de pais zelosos e abnegados. 
          Era então pai de um lindo garoto, "acidente" que acomete os mancebos apaixonados e descuidados. Não menos o amava por essa razão. Com sua mãe, a do garoto, mantinha aparentemente uma relação amena e cordial. Colara grau em Medicina e estava no interlúdio entre a formatura e a Residência Médica, muitas vezes preenchido, mormente entre os estudantes de infância pobre, por empregos e biscates que se vão tão avidamente quanto vêm, algumas vezes a durar por mais do que o ideal porquanto os até então frugais proventos súbito se avolumam e vêm trazer fartura onde sempre reinaram a penúria e a escassez. Parecia o caso com o querido Henrique Telmo.
          Já ia pelo quarto ou quinto ano após a formatura e ainda não entrara para a Residência. Consta que a esse tempo namorava uma mulher, uma causídica. O romance durava seus dois ou três anos, e parecia daqueles repletos de arranca-rabos estrepitosos e cenas novelescas e prosaicas. A razão: Henrique estaria sendo infiel. Seria pura conjectura ou seria a mais ardilosa verdade, não o sei até hoje. A mãe do rapaz já interviera para acalmar os ânimos da namorada ciumosa, sem sucesso. Os apelos da inóxia mãe de meu amigo viriam, quero crer, repletos da angústia própria dos experientes que antevêem as tragédias que se desenham ao horizonte, como o versado marinheiro que enxerga a procela à mínima mudança dos ventos. 
          Naquele domingo o casal fora à praia, e libaram além da conta. Cediço é que a libação alcoólica deveras contribui para a exposição e manifestação do ânimo recôndito do espírito, redobrado em exaltações e em poluções do íntimo, das frustrações e iras, dos desejos reprimidos, das vontades inconcebíveis mas infladas ao extremo, das más inclinações sequer suspeitas... 
          No apartamento, mais tarde, o sol teimando em se pôr, deitou-se ele à rede na varanda, exausto talvez de tantas e tantas inconsistências, de tantas altercações tolas e passageiras. Ela veio, então, arma branca em punho, e o alvejou várias vezes. O primeiro golpe ao pescoço atingiu-lhe a carótida e talvez a jugular. O sangue se esvaía célere e pulsátil, com rajadas de metros à distância apesar de com a mão a vítima indefesa e perplexa tentar controlar o jorro mortal; ergueu-se cambaleante e já sentindo lhe fugirem as forças e a energia vital, tentando ainda se proteger do algoz que avançava implacável e resoluto. Outros golpes se seguiram; várias partes de seu corpo foram atingidas por inúmeros ferimentos cortantes e profundos. O sangue não se detinha e a vítima, o indefeso amigo, se esgueirava pelas paredes como o animal que quer daquele lugar fugir por já se saber incapaz de dar cabo de seu agressor; sua única chance de escapar, talvez, mas já mortalmente ferido.
          Ao final seu corpo jazia sobre toda a sua volemia; nas paredes seus dedos e mãos se desenharam por inteiro e traçaram garatujas terríveis, como um artista moribundo a publicar seus últimos momentos de uma vida que se apagava lentamente... conscientemente... ruidosamente...
          Ela, sabe-se lá por quem possuída, em seu transe satânico abriu a gaveta repleta de comprimidos e de um único gole ingeriu vários deles após lhes abrir as embalagens com golpes de tesoura; outros tantos rolaram pelo chão. Abriu a porta e subiu a escadaria para os andares mais altos. Chegando ao terraço, no topo do prédio, lançou-se para a morte sem demora. Seu corpo espatifou-se ao solo produzindo um som seco e curto.
          Dirão alguns que a lembrança de meu amigo em seus últimos instantes de vida é por demais mórbida e aventarão para mim algum distúrbio mórbido-fóbico. Dir-lhes-ei: nada estará mais distante da verdade do que tal pensamento. 
          O evento se deu há mais de vinte anos; e ainda me choca. O que choca é a contraposição do mal ou do maligno diante do bem ou do bom; é a capacidade que certas atitudes têm de causar terror  por vitimar pessoas cujo caráter não condiz com a natureza e violência do que se lhes sucede, como aconteceu com Cristo; é a incapacidade de compreender tais atos, enfim. Que Raskólnikov tenha nutrido asco por uma velha usurária que explorava a pobreza e a quisesse matar por julgá-la uma parasita social inútil e abjeta, até se explica e se entende, ainda que se não justifique e se aprove o ato finalmente perpetrado. Contudo, que entendimento se pode dar ao ato vil que se dirige ao homem de bem? que vontade satânica se esconde ou, melhor, não se esconde por detrás do que mata e se mata a seguir? Que tipo de vivente nega tão veementemente a vida, tirando a do outro e em seguida a sua própria? 
          Nem pretendia fazer tais dolorosas reflexões, mas o lembrar-se do amigo me as trouxe também. A violência e a inocência chocam quando se vêem frente a frente. Vejam que eu disse "chocam" e não "se chocam". É bem diferente.