segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Trogloditismos

              O problema com a rede social é que, com ela, nos empanturramos de pessoas. A coisa funciona assim: - quanto mais gente, melhor.  
               Minha querida amiga Alda Carvalho, mulher de meu também querido e amado amigo Ricardo Pereira, ambos dos saudosos e inesquecíveis tempos maristas, escreveu-me o seguinte: "Presidente, você não suportou o grupo, não é? Entra de novo e silencia, pra você olhar somente quando lhe convier, pois você é a célula-mãe. Não podemos ficar órfãos"! 
               O caso é que se criou um grupo de ex-alunos maristas em certa mídia. Súbito, vi-me membro do tal grupo, certamente inscrito à revelia por algum outro amigo. Certas fases de nossa vida não têm direitos autorais, de modo que outros delas de apoderam. Pois sem dúvida foi o que ocorreu.
              Era Natal e os participantes do grupo resolveram enviar as triviais e comuns mensagens que se enviam nessa data. Coisa de paradigma, nada mais, nada menos. Eu, que gastei a noite de Natal a dormir, enfronhado em minhas lucubrações e frustrações, e fugindo justamente desse lugar-comum, já não suportava esse ir e vir de desejos virtuais, dessa vacuidade convivencial, dessa superficialidade circunstancial. Naturalmente passei a me agastar com aquela troca insistente. (De fato, não era uma troca.)
              Que fiz? Simples: - excluí o grupo e suas tolas e entediantes mensagens. Alda percebeu. E, pessoalmente, escreveu-me a mensagem acima transcrita. Eis aí tudo.
              Voltemos ao problema que nos causa a rede social. Eu disse que, com ela, nos empanturramos de pessoas. Eu, que sou um agorafóbico de carteirinha e sindicato, detesto a rede social e todas as suas consequências. Ainda que dela me utilize, para mim ela é tudo o de ruim que o ser humano já idealizou e inventou. 
              Os imbecis, que sempre os há, quererão saber do porquê de minha aversão à rede social, e responderei que ela não é novidade. Muitos dos que me conhecem têm conhecimento de minhas reservas a essa moderna mídia. E admito: - poderia estar equivocado quanto a isso. O tempo, esse senhor da verdade, entretanto, tem demonstrado que o que penso sobre ela é a mais cristalina verdade. A rede social imbeciliza, idiotiza, intranqüiliza. 
              O que importa, no momento, é exteriorizar o que sinto hoje sobre a rede social. Hoje, mais do que nunca, odeio a rede social. Odeio a rede social com todas as minhas forças, com todo o meu ser, com toda a minha energia. Por me empanturrar de pessoas, a rede social me impõe o "efeito manada", um conceito simples sobre "animalização". Não sou animal e, por isso, deploro com minha máxima energia a rede social.
               Pois eis que, de tanto receber a  tralha grupal, resolvi excluir o grupo. Se estivesse a sofrer na intimidade, que me proporcionaria a rede? se ela mascara o homem, a pessoa, o indivíduo? Se assim faz a mídia, que tenho eu que permanecer a receber tanta coisa inútil, tanta coisa tola e vulgar? Meu sofrimento seria meu, somente meu. Que faria o grupo para amenizá-lo? Resposta: - nada! Assim, minha querida Alda há de entender minha ojeriza ao que se pratica na vida social.
                                                                  ***
                           Fiquei tentado a bisbilhotar, na rede mundial de computadores, algo sobre a invenção do carro. Resolvi, então, presumir. E presumi que, logo que o inventaram, venderam-se vários deles. Cada indivíduo quis ter o seu. (Atualmente vivemos, nesta decadente cidade, algo semelhante. Até há pouco queríamos ter um carro; hoje já pensamos em ter dois. O crédito está farto e a festa do endividamento não parece que esteja para acabar.) Henry Ford, o homem que o popularizou, de tanto vendê-lo barato, o vendeu às pampas. Nas ruas, engarrafamentos dificultavam o fluxo e, nos cruzamentos, os abalroamentos eram lugar-comum.
               Depois, e por causa disso, veio não se sabe de onde um sujeito e bolou o semáforo. O semáforo, diferentemente da rede social, foi a engenhoca mais simples e mais útil que o homem já inventou. Que seria de nós se não existisse o semáforo? Ele é, mais do que um dispositivo comum, um salvador de vidas, uma peça fundamental para o ser humano moderno. Em qualquer cidade do mundo, da África à Suécia, da Índia à rica Califórnia, qualquer que seja sua população, há de existir um desses bichos a controlar a ida e vinda de veículos. E – mais espetacular – em todos esses lugares, todos sabem o que significam as luzes vermelha, amarela e verde. Sem a utilidade a que se propõe, o semáforo mais se assemelharia a uma árvore de Natal destituída de qualquer viço.
               Todos sabem o que significam suas luzes. Por convenção elas dizem “Pare”, “Atenção” e “Siga” e, ainda por outra convenção, a imperiosidade da primeira luz se traduz pela cominação de penalidades caso haja desobediência a seu comando. (Convém consultar o Código de Trânsito e se certificar se a desobediência ao verde também impõe sanções.) Pois se conclui que, em todo o mundo, todos conhecem as convenções do semáforo. Bem se vê que a lei, que nada mais é do que uma convenção, é uma necessidade, dadas as possíveis situações e consequências de certas atitudes. No caso do Código, a lei, ao que parece, visa proteger três valores: - a vida humana, a integridade física das pessoas e o patrimônio de cada um. Vê-se que o desprezo a esse instrumento camufla algo muitíssimo mais terrível: - o desprezo da população por aqueles valores. Há uma ressalva a ser feita. Cada cidadão, que nessa situação deveria perder o título de cidadão, valoriza seu próprio patrimônio, sua própria integridade física e sua própria vida. O que ele despreza é justamente o que é do outro, uma circunstância que nos leva a pensar se Hobbes não estaria certíssimo em propor seu Leviatã repressor.
                Todas essas considerações têm-me vindo à mente com muita frequência em meu dia-a-dia. A razão? Simples: - nunca, em toda minha vida, presenciei tanta gente “furar” o semáforo impunemente e irresponsavelmente, como acontece em nossa babélica cidade. A bem da verdade, outra convenção tem sido tão ou mais "esquecida" que a desobediência ao semáforo: - o trafegar na contra-mão. 
               À época em que o senhor Ford produziu pela primeira vez o carro em série, era preciso disciplinar o tráfego em algumas vias. Provavelmente algumas ruas, de tão estreitas que eram, não permitiam o fluxo de carros nos dois sentidos e veio outro sujeito metido a besta e idealizou a via de sentido único. Isso evitaria congestionamentos e regulamentaria o tráfego em determinadas áreas. Em Fortaleza, há muito o conteúdo tornou-se maior que o continente e alguns condutores passaram a questionar a via de mão única como solução para aquele dilema primevo. Desta forma, elas e o semáforo estão em baixa por estas bandas. Quase nada valem. Do jeito que vão as coisas – sem valor a integridade física, a vida, o patrimônio, o semáforo, a via de sentido único, etc. –, em breve evoluiremos de babélicos para sodômicos. 
                                                                       ***
               A grave fratura sofrida, antes de ontem, pelo lutador Anderson da Silva expôs, em minha humílima opinião, o trogloditismo do "esporte" que ele pratica. (Diz o Lobão que vivemos num país que não suporta opinião e qualquer coisa mais contundente que se fale é levada a ferro e fogo para o terreno pessoal.) Seja qual for o nome da modalidade – luta livre, artes marciais, etc. etc. –,  ela se resume numa troca de agressões físicas com um único propósito: - ferir ou machucar o adversário. Não me venham seus defensores fazer apologia a esta prática tentando justificativas tolas. 
               Em favor do que digo estão as imagens gravadas desta sangrenta atividade que as multidões tanto apreciam. Na última luta entre o senhor da Silva e seu oponente do último sábado, ocasião em que ele perdeu seu título de campeão mundial, seu técnico se esgoelava cá de fora porque ele dançava, em provocações, diante do adversário. O que o técnico gritava? Dizia: -"Machuca ele! Machuca ele"! O resultado é que numa daquelas palhaçadas provocativas o senhor da Silva vacilou, recebeu uma série quase ininterrupta de socos na cara e perdeu a contenda. As imagens dos socos evidenciam o que já afirmei. Cada vez mais os animais são mais queridos pelos seres que se dizem humanos. É perfeitamente explicável. 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Contra as dúvidas, os sustos e as mentiras

           Há tempos não falo sobre a Unimed. Houve uma época em que vivia a falar sobre ela. Alguns de meus raros leitores me escreviam: -“Não gosto quando escreves sobre a Unimed”. Entendia que não gostavam porque o assunto era restrito a certo grupo de leitores, os médicos cooperados da Unimed. É compreensível que o tema fosse um pé no saco dos outros. Ademais, descobri que, embora haja obsessões sadias, a minha pela Unimed estava se tornando doentia. Assim, acabei com aquele negócio de falar sobre ela.
            O diabo é que recebi, por esses dias, uma correspondência enviada pelo conselho fiscal da cooperativa e, junto a ela, uma espécie de réplica oriunda da diretoria. Em suma, é o seguinte: - enquanto o conselho fiscal aponta problemas de gestão, o conselho de administração os nega. Mais ainda. O referido conselho diz com todos os efes e erres: “manipular informações é uma estratégia eleitoreira que só serve aos nossos concorrentes”.  
            O conselho fiscal, por sua vez, salienta: “observamos que os esforços não estão sendo utilizados em prol de uma maior saúde econômica, conforme já esboçado em várias Comunicações Internas ao Conselho de Administração”. Este responde nos seguintes termos: “passados dez meses da atual eleição do Conselho Fiscal, não foi solicitada à Diretoria qualquer publicação oficial impressa para os cooperados”. A pergunta que de imediato se quer fazer após afirmações tão divergentes a partir de duas peças importantíssimas de uma empresa como a Unimed Fortaleza é: - quem está a mentir?
            Um detalhe ínfimo, quase imperceptível e que me saltou aos olhos, foi o veículo utilizado por cada um desses oponentes na divulgação de tais informações. Enquanto o Conselho Fiscal se utilizou de um encarte de quatro páginas, o Conselho de Administração se valeu de um de dez; o primeiro era pequenino, o segundo bem maior; o primeiro veio escrito em letrinhas pequeninhinhas, bem pirrototinhas; o segundo em letras de outdoor, garrafais e grifadas em negrito. Haverá nesta apresentação uma exibição de músculos por parte do Conselho de Administração? ou ela vem eivada da boa consultoria de marketing de que dispõe? As duas possibilidades serão mutuamente exclusivas? Não parece ser o caso.
            Vivemos à era da informação e, como é bem sabido, ela está facilmente disponível à esquina, na banca de jornal ou à ponta dos dedos. O problema é que sua disponibilidade não traduz necessariamente sua idoneidade e honestidade. Tudo isso se faz muito claro nessas duas correspondências. É um flagrante exemplo do que afirmo. Destarte, necessário é aprofundar o tema. Para tal uma coisa se mostra absolutamente necessária: - a averiguação dos balanços por parte de empresa especializada, idônea e imparcial, alheia a todo e qualquer interesse.
            O Conselho de Administração diz: “O Conselho Fiscal não sabe manusear fórmulas simples de contabilidade financeira”. Se é assim, pergunto à diretoria da Unimed Fortaleza: - para que serve o Conselho Fiscal? Já serviu para anuir, para avalizar, para consentir. Agora que se opõe ao que diz a diretoria, não serve porque não sabe fazer seu trabalho? E ao atual Conselho Fiscal: - os senhores não se assessoraram? Quero crer que sim. Afinal, os números de uma empresa como esta não são os números de um demonstrativo financeiro familiar. Impõe-se, como já dito, uma consultoria imparcial para dirimir as dúvidas, os sustos e desmascarar o mentiroso.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Mensagem de Natal?

            Escrever sobre o fim do ano é batidíssimo; sobre o início do outro, idem; escrever sobre o Natal nem se fala. Nessa época o que predomina, o que é a tônica, o que prevalece são os clichês pra lá de manjados. Assim, como dizer alguma coisa minimamente diferente? Deve-se tentar? E para quê? Com que intuito?
A razão mais óbvia é a predisposição das pessoas nessa época do ano. Elas parecem mais receptivas, mais reflexivas, mais voltadas para uma auto-avaliação. Estão em busca de algo novo. Estão de saco cheio e entediadas da vida. Querem acreditar que é possível, sim, viver outra vida ou, dito de outra forma, pensam ser possível viver a vida que estão vivendo de forma diferente. Por isso riem e se empanturram de uma pseudo-alegria. Sabem que seu trabalho está infernizando sua vidamas esperam que algo melhore, ou que aquele sucesso que tanto almejam aconteça agora, no ano que começa. Sabem que há pendengas na família que não se resolvem mas, por alguma razão que escapa ao senso óbvio, acreditam piamente que acontecerá qualquer coisa que porá fim aos conflitos. Sabem que o dia de amanhã é o mais incerto já que de fato é uma coisa que não existe mas, por necessidade de crer no melhor, deve ser um dia mais feliz, mais proveitoso, mais calmo, mais tudo de bom. Sabem que o tempo traga a vida como uma sucuri a engolir um hipopótamo, mas querem que passe o tempo. Ali na frente, no próximo ano, estão os projetos e as mudanças. Ali, bem ali na frente, estão as decisões que não tomamos e uma vida nova a esperar. Está ali o casamento, o batizado, o nascimento de uma nova criança, a casa nova, a viagem dos sonhos, o novo ou o primeiro emprego, o carro importado, a formatura, a entrada na universidade, a aposentadoria precoce ou tardia, o aumento no contracheque, o novo governo, a nova vida, enfim.
Pensa-se tudo de bom nessa época. Algo errado nisso? Sim e não, eis a resposta. Não há nada de errado em pensar coisas boas para o futuro. E, sim, está tudo errado quando se pensa somente coisas boas para o futuro. No futuro está a alegria fugidia e as mais cruéis lições da vida. Vejam o meu caso, por exemplo.
          Por essa época, no ano passado, estava tudo uma maravilha. Em que pesem todas as pendências inevitáveis e recalcitrantes, a vida ia na maciota. Voltemos a, digamos, 24 de dezembro de 2009, há exato um ano. Eu pensava no Carnaval da Saudade do clube Náutico. Observem a minha estultice, a minha miopia, a minha ilusão compartilhada e coletiva. Pensava – isso vem a título de exemplo   – numa festa. Há algo melhor do que festas? Essa era apenas uma de minhas inúmeras tolices e expectativas.
         Veio o Carnaval da Saudade do Náutico e me empanturrei de tola alegria. Foi ao fim de fevereiro do corrente ano. A festa tinha a lógica da simbologia, representava aquele futuro próximo de meses antes. Representava também – por que não dizer? – o resto da vida que eu queria. Eu queria uma vida de Carnaval da Saudade. O que mais poderia querer? Cheguei onde quis. Consegui o que quis. (Falta plantar uma árvore.) A vida ia sem trancos nem barrancos. Minha representação do mundo era quase perfeita. Mal sabia o que me aguardava.
       Digamos, com certa empáfia, que, mesmo que não galgasse os paradigmas de sucesso socialmente impostos, chegara onde quisera e rejeitara os padrões por escolha e decisão pessoal. Tudo que se faz por escolha pessoal é algo soberano e realizador. Preenche a vontade de autonomia e autenticidade. Com efeito, é um forte sinal de maturidade plena e quase absoluta.
       Mas não é bem assim. O viver não dá trégua. Só se pode contar com a plenitude do amadurecimento se se aprender a lidar com as perdas. Não falo das perdas comuns, mas das perdas que amputam parte de nós. Anos e anos lidando com a morte (dos parentes e entes queridos dos outros) endurece o coração para nos resguardar do pavor de nossas futuras perdas, sobre as quais nunca pensamos, e da evidência da aniquilação. (Aqui fala o homem sem fé. Por isso é preciso orar e vigiar. Isso é ser humano: incapaz de acrescentar um fio de cabelo que seja à sua cabeça e cuja fé vacila.)
            Pouco mais de sessenta dias depois dos festejos e votos de feliz isso, feliz aquilo, a vida me traz a morte de minha mãe. Uma morte com calvário e tudo, onde as esperanças se findam dia a dia como a própria vida que se vai esvaindo; uma morte em que abandonamos a vida do dia a dia para sofrer todo dia e perceber que a vida segue sem você e que, se fosse você a morrer, seguiria a vida ainda; uma morte para lembrar como são tolas e vãs nossas aspirações e desejos; uma morte para me levar à humilhação de minha pequenez e noção de transitoriedade; uma morte para lembrar uma correspondência a um amigo anos atrás dizendo “felizes somos nós cuja desgraça ainda não  se achegou” com a firme e inabalável certeza de que ela jamais viria.
           Pois veio. Entre o antes e o depois, se espraiando sobre o infindável tecido do tempo, a pulsação da vida pára para dar lugar ao vazio das palavras que de nada servem. Resta a lembrança e um rombo no peito. Resta outro ano para novos desejos e votos. Quem sabe quantos mais virão?

“Pelo que tenho por mais felizes os que já morreram, mais do que os que ainda vivem; porém mais que uns e outros tenho por feliz aquele que ainda não nasceu e não viu as más obras que se fazem debaixo do sol.”(Ecl, 4: 2 e 3)

                                               “On aime la vie, mais le néant ne laisse pás d’avoir du bon.”[Ama-se a vida, mas o nada não deixa de ter o seu lado bom.] (Voltaire)

Fernando Cavalcanti, 24.12.2010

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

A monilíase trivial

                No consultório, sentada à frente da mesa, disse ao médico: -"Tive várias crises, doutor... O ginecologista não sabe mais o que fazer". Empertigou-se na poltrona após breve pausa, e completou: -"Por isso mandou-me ao senhor"... 
               O Infectologista ouvia atento todo o relato. (Era um caso de monilíase recalcitrante.) Fez inúmeras perguntas, e ela respondeu sem rodeios. Com efeito, a paciente – teria seus trinta anos – atinha-se a detalhes que julgava importantes e, por vezes, chegava a uma prolixidade desnecessária.
                Lá pelas tantas sentiu a vontade de confessar. Baixou a voz como se outras pessoas estivessem por perto a ouvir: -"Tenho um amante". O médico, apesar da vasta experiência, sentiu um impacto. Retrucou, involuntariamente: -"Amante?... Como assim"? A pergunta carregava, forçoso dizer, certo tom reprovativo. 
               Ela repetiu, impudicamente: -"Um amante, doutor... É um colega de trabalho"... 
               O médico, deixando-se indignar pelo eventual sofrimento do traído, quis saber: -"E por que a senhora tem um amante"?
               Respondeu sem demora: -"Não sei. Mas tenho"....
              Trazendo a entrevista para o plano profissional, continuou: -"O senhor acha que pode ser isso? o fato de eu ter outro além de meu marido"? 
               Ele não respondeu. Ou, melhor, repetia lutando para dirimir a dúvida que não o largava: -"Mas, a senhora não sabe o porquê? as razões que a levaram a ter um amante"?... Ela insistiu, sincera: -"Não, doutor, não sei... Tenho e pronto". Percebendo o susto no consultor, tentou explicar:
               -"É o seguinte, doutor... Com meu amante eu não gozo. Só gozo com meu marido, entendeu? Saio com meu amante e, quando chego em casa, transo com meu marido e, aí sim, gozo"... Fez uma breve pausa e continuou: -"Acho que faço isso por causa do perigo... Me sinto excitada em transar primeiro com meu amante e, em seguida, com meu marido... Percebeu"?
                Após a entrevista, a muito custo conseguiu examiná-la. Estava impressionadíssimo.
               Ali, na cadeira rotatória, depois que ela saiu, ele ficou pensativo. A explicação da mulher, em seu entendimento, serviu apenas a lhe multiplicar as dúvidas. Estava embasbacado, de queixo caído. 
               Lá fora, o trânsito infernal anunciava a selva do asfalto e das ruas. A monilíase tornara-se, após a estupenda confissão, um mero detalhe sem a menor importância.

"Woman is an animal that micturates once a day, defecates once a week, menstruates once a month, parturates once a year and copulates whenever she has the opportunity". W. Somerset Maugham (1874-1965), escritor e médico britânico.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Relativamente irresponsável

                Preciso mais de meu trabalho do que ele de mim. Certa feita, impunha-me fazer uma viagem. Era uma viagem internacional, e havia certa urgência.
            Fui ao chefe. Disse-lhe: -“Preciso viajar”. Ele, pressionado e protegido pelo ônus do cargo, quis saber os detalhes. E lá fui eu expor os detalhes que me impeliam àquela aventura de última hora. Ao final, autorizou-me a ausentar-me das funções.
            Devo dizer que só a necessidade me pressionava a tal conduta. Interiormente não me sentia confortável. Quem iria me substituir?, era o que me indagava. Como ficaria o Serviço? O senso de responsabilidade falava bem alto.
            No final das contas, fui e voltei. Tudo funcionou sem mim. Concluí que não sou imprescindível. Minha maneira de pensar revelava um pedantismo e uma pretensão de minha parte. Considerava-me insubstituível, ainda que essa consideração resultasse de processos inconscientes. O senso de responsabilidade mascarava minha vaidade. Se morresse, ao dia seguinte haveria alguém em meu lugar, eis a verdade indiscutível. Tudo isso pode parecer incoerente, já que ao início afirmei que preciso mais de meu trabalho do que ele de mim. É apenas uma aparente incoerência.
            Assim, surge uma conclusão inusitada: - se meu trabalho pode viver sem mim mais do que eu sem ele, ainda assim, e exatamente por isso, ele merece meu mais solene e pétreo desprezo. Para mim a experiência funcionou como um ajuste ao modus brasiliensis. Deixem-me explicar.
            É o seguinte. Tudo se aprende. Em tudo e para tudo podemos ser treinados. Meu senso de responsabilidade não representa uma virtude de meu caráter. Com efeito e sem meias delongas, fui treinado para ser responsável, para cumprir à risca e sem falta as obrigações a mim impostas. E, assim como eu, existem outros e outros treinados para ser responsáveis, bem como existem muitos outros que não o foram. A experiência que acabo de relatar não me trouxe a consciência de outra coisa senão de meu treinamento bem sucedido. Cumpria-me, dali em diante, conscientemente escolher quando ser e quando não ser responsável.
            Alguém perguntará se seria isso possível, e direi que sim. Quem sou eu, dentro de uma repartição pública? Resposta: - sou um recurso humano. Estamos à idade da pedra? Outra resposta: - não estamos à idade da pedra. Mesmo os Flintstones, que viveram à idade da pedra polida, tinham lá seus recursos materiais. Os pneus de seus carros não eram exatamente pneus, mas os mesmos rolavam sobre rodas de pedra. Assim, o recurso humano deve dispor do recurso material e tecnológico para bem exercer seu mister. Há de se dispor do mínimo necessário para o funcionamento de qualquer repartição. Destarte, minha responsabilidade resultará limitada pela disponibilidade de recursos outros. Se não reconhecer essa contingência, ver-me-ei frustrado inúmeras vezes. Devo, então, pôr limites a ela sob pena de uma neurose companheira inseparável.
            O modus brasiliensis tem frustrado inúmeros cidadãos bem treinados na arte da responsabilidade. Diria até que tem feito inúmeros neuróticos dentro de nossas fronteiras. (Aos que não se recordam, o neurótico é aquele que tem plena consciência de que dois mais dois são quatro, mas não se conforma com isso.) Ou o sujeito aprende a  escolher o momento de exercer sua responsabilidade ou acabará neurótico de carteirinha e sindicato. Mais recentemente tem-se notado que o modus brasiliensis tem, além de limitado o senso de responsabilidade dos responsáveis, progressivamente avançado na direção da imposição de um estado de anomia. Dirá alguém que as leis estão aí e que vivemos sob a égide de um estado de direito. O modus brasiliensis, todos sabem, tem um princípio fundamental a lhe orientar: - o princípio do faz-de-conta. Como se está fielmente a ele submisso, conclui-se que o estado de direito e as leis são apenas uma aparência, como uma tênue nuvem a embaçar a realidade.
              A descoberta de minha relativa e provisória utilidade, após um breve período de processamento e digestão, fizeram-me mais leve, mais solto e, devo dizer, menos comprometido. Que não me venham de lá os falsos moralistas a ver em minha afirmação uma arrogância ou uma impertinência. Não é nada disso. Da mesma forma que se treinam os homens para a responsabilidade, é também possível treiná-los para a irresponsabilidade relativa. (Não entremos a comentar sobre a irresponsabilidade absoluta que esta não carece de treinamento: - ela é o resultado natural da ausência de treinamento.) Além disso, só aprendem a ser relativamente irresponsáveis os que foram otimamente treinados na dura cartilha da completa responsabilidade. Em outras palavras, só conseguirá ser elegantemente e sedutoramente relativamente irresponsável os muito responsáveis. Não sei se me faço entender. Quem entendeu, entendeu; quem não entendeu, paciência...
              A única conclusão de tudo o que disse é a seguinte. Sou tão prescindível ao meu trabalho que ele em nada precisa de mim. Sou apenas a peça a funcionar no momento, a engrenagem reparável ou não, o elo da vez, e ponto final. O que quero de meu trabalho não é o mesmo que ele quer de mim. Ele quer, dentro do princípio do faz-de-conta, que eu faça de conta que, ao passo que eu quis um dia me realizar. Hoje quero, no contexto da ineficiência pública, ser apenas um responsável relativo.
             "O que posso fazer pelo meu país"? Na escola aprendi que deveria fazer tudo. Nas ruas e repartições desaprendi a lição. Melhor relativamente irresponsável do que inteiramente neurótico.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Bombons e flogoral

              Fumava muito. E bebia. No trabalho, impossibilitado de uns goles, só fumava. Era cardiologista. O peso aumentava. Comia sem controle. Ao término das longas jornadas, ia ao bar. Saía de lá, sempre, em deplorável estado de libação alcoólica.
             Acontecera o seguinte. A mulher, Dora, não queria mais. Ele saiu de casa a muito custo. Os filhos – eram três – nada puderam fazer. Meteu-se num quarto-sala diminuto, pouca mobília, de frente a um parque. Ao início de sua desgraça, lá só ia para dormir, desmaiar de seus porres. A solidão daquele cafofo era o atestado de seu fracasso amoroso, de tantos sonhos sonhados, tantos projetos incompletamente executados...
             Passado certo tempo, quis voltar. A mulher, até certo ponto condoída de seu sofrimento, propôs um jantar. Depois do jantar, tanto fez que levou-a para a cama. Voltar mesmo ela não consentiu. E ele retornou ao dia-a-dia menos abalado com a situação. Afinal, matara as saudades. Um dia, refletindo melhor, talvez ela resolvesse acabar com aquela bobagem de separação. 
            O diabo é que não precisava dele para nada. Filha de família rica, o certo é que por necessidade não reataria. Antes fosse do lar, mulher sem renda, sem profissão. Ainda que não trabalhasse, vivia de renda, investimentos, fundos e aplicações. O pai, rico, sempre a orientara nesses assuntos. Mulher independente é o diabo, pensava. 
             Dali a alguns dias voltaram a se encontrar, agora para um almoço. Pediu para voltar, mais uma vez. A insistência a exasperava. Não, não queria que ele voltasse. Ainda não. E foi sincera: - talvez nunca mais quisesse. Aquilo o feriu profundamente. Pediu outra dose de uísque. O garçon virou-se e ele, elevando um pouco a voz: -"Duplo"! Quando veio o copo com a bebida, meteu a mão e tirou-lhe todo o gelo. 
              Dali em diante a conversa tomou um rumo inesperado, tenso, pouco civilizado. Teimoso, insistia; ela, por sua vez, resistia. E diga-se sem meias palavras: - era sem dificuldade que resistia. Dir-se-ia não mais lhe nutrir sentimento algum. Acabaram agredindo-se verbalmente. Ela livrou-se dele num repelão quando tentou abraçá-la. 
             Aquele segundo encontro esmagou-lhe todas as esperanças. Bebia mais, e mais frequentemente. Fumar nem se fala. Esquecera-se de que era médico. No trabalho, agia sem pensar. Todos os algoritmos lhe estavam na memória. Era um autômato. A excelência de sua formação compensava seu constante estado de embriaguez. Tentava disfarçar o hálito chupando bombons e gargarejando flogoral. Quase não comia ou, melhor, quando comia, comia como se fosse comer toda a comida do mundo. O abdome, que já era volumoso, parecia ainda mais dilatado. 
              Dias depois conseguiu, a muito custo, marcar novo encontro. No semblante ela trazia o tamanho de sua contrariedade e dissabor por estar ali. Ele ensaiara um discurso. Limpou um pigarro; disse-lhe bem menos do que pretendia. A labilidade emocional traía seus hábitos diários. A verdade é que se tornara um trapo de gente, quase um lixo. Era um ser desprezível. O discurso, preparado com tanto zelo e esperança, soou patético. Ao fim, foi taxativa:
              -"Nunca mais me telefone, ouviu"? 
              -"Mas, fulana"... 
              Ela virou-se e saiu, deixando-o ali, plantado, sem ação, sem vida; sem futuro, sem passado... Poucas semanas depois foi internado numa clínica para toxicômanos. Não sei se passara a usar outras drogas, mas está lá até hoje.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Difamando as formiguinhas

               Disseram os jornais que o cumprimento trocado entre o Obama e o Castro foi um "gesto histórico". Eu afirmei em texto anterior: - foi um gesto litúrgico. Cá entre mim e meus pouquíssimos leitores: - sou mais eu. Digo, fico com minha impressão sobre o festejado aperto de mãos. Dirá alguém que isso é assim mesmo. As coisas se processam lentamente. A história não se faz num dia, nem em meses, nem em poucos anos. Séculos são necessários para que a história se faça. O gesto dos dois homens, na minha humílima visão, é apenas uma mudança aparente e, também, uma aceitação aparente. Tudo só na aparência, na superficialidade. De fato, na verdade verdadeira, nada mudou. Ou mudou. O que mudou foram os valores que se davam às coisas, em particular às atitudes e aos gestos. Melhor dizendo, não era o valor que se dava, mas o valor intrínseco que tinham a atitude e o gesto. Como nada mudou, o aperto de mão e os eventuais sorrisos entre esses homens, após vários episódios de frio e odioso silêncio, e levando-se na conta seus antecessores, só pode representar a plena fundação do império do cinismo. Antes as atitudes eram institucionalizadas. Hoje o institucionalizado é o cinismo. Eis aí tudo.
               Por falar em mudança, digo, em não-mudança ou em quase-mudança – poderíamos chamar de mudança mínima ou aparente –, veja-se o que pretendem os legisladores brasileiros numa tentativa de mudar o código penal vigente. (O projeto ora tramita no Senado.) Querem, por exemplo, que, condenado o sujeito por crime de corrupção, 50% da pena seja cumprida em regime fechado. Muitos festejarão, soltarão fogos de artifício, verão nisso uma grande mudança, digna de uma comemoração como em final de copa do mundo. Entretanto, no momento em que encaramos nossa realidade e percebemos que os penitenciários de colarinho branco são mais raros entre nós do que os ursos polares, passamos a entender tudo. Sim, sim, dirão que os do mensalão ampliaram subitamente e inesperadamente seu número, mas não se enfraqueceram as forças que continuam a perseguir o ministro relator do processo que condenou essas "sumidades". Estão a fazer de tudo para incriminá-lo em qualquer coisa. De dois ou três gatos pingados, a população carcerária de corruptos em todo o país foi a quinze ou vinte, pouco mais, pouco menos. (Se o código funcionasse de fato, não haveria espaço para trancafiar tantos corruptos que estão soltos neste vasto rincão.) Pois vejam que querem mudar a lei que, em 124 anos de república... não; em 513 anos de existência desta terra nos livros de história – bem ou mal contada –, querem mudar a lei que pôs quase nenhum corrupto atrás das grades. Aparentemente é para melhor, mas só aparentemente.
              É certo que mudarão a lei. Dirá alguém que a prisão dos mensaleiros e a alteração no código penal são indícios de uma mudança que se pode considerar um marco, por tudo aquilo o que acabei de falar. Vejam bem: - 513 anos e uma mudançazinha mixuruca confirmam minha tese sobre os séculos necessários à escrita histórica. O diabo é que nem o tempo histórico é capaz de mudar, de fato, as coisas que ocorrem dentro desses mais de 8,5 milhões de quilômetros quadrados. Todos viram as dificuldades encontradas para condenar esses senhores. E ainda não desistiram de reverter o quadro. É óbvio que a condenação de outros seguirá não sendo fácil. 
               Vejam os senhores. Até este ponto da crônica, o texto foi escrito ontem. Um sono incoercível apoderou-se de mim, de modo que pensei em concluí-lo outra hora, hoje ou amanhã. Outro dia, talvez. Não trago comigo nenhuma fórmula para escrever. Às vezes o que vem à mente sai num impulso, como os espasmos do diafragma numa crise emética. Outras vezes inicio o texto sem saber se o concluo em um só tempo, ou se em dois ou mais. Pois ontem sentia que não dissera tudo, que ainda havia algo a dizer. 
               Eis que leio há pouco a crônica de hoje do jornalista Fábio Campos. O título "A saúva e os corruptos"(http://www.opovo.com.br/app/colunas/fabiocampos/2013/12/12/noticiasfabiocampos,3175920/as-sauvas-e-os-corruptos.shtml). Diz lá o Fábio: "A grande 'saúva' que deixa o País em seu atávico atraso social permanece entre nós. Incólume. É a corrupção". Vejam como é, de fato, antiga a corrupção brasileira. Ela é quase hereditária e sobreviveu ilesa ao longo desses mais de quinhentos anos. Diz mais o Campos: "Os corruptos se multiplicam no serviço público feito formigas". Ou seja, hoje, nos dias atuais, no momento em que os senhores legisladores – muitos deles corruptos até o semi-eixo e desde as fraldas – estão redigindo um novo código penal mais rígido para o corrupto, o corrupto está a multiplicar-se como se multiplicam as formigas. Não sei qual o tempo necessário à reprodução desses tão simpáticos Formicidae, mas presumo que seja curtíssimo.
              (Descobri depois, na rede mundial de computadores, que as formigas-rainhas podem gerar cerca de 300 mil novos insetos em apenas uma semana. Não terá exagerado o corajoso Fábio Campos em sua comparação? Os corruptos brasileiros hão de superar as formigas em sua taxa de reprodução, sem dúvida.)
               Assim, com tantos corruptos em posições estratégicas, quem haverá de duvidar que a impunidade seguirá, na mesma proporção, incólume como a própria corrupção? e apesar do suposto aumento na rigidez da lei? 
             

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Morféticos apertos de mãos

               Custei a acreditar que têm superfície, também, os fatos, os gestos, o abstrato. Minto. Os fatos, não. Os fatos, já era de meu conhecimento, têm uma profundidade e uma superfície bem conhecidas. Já os gestos... 
               Mas, vejam o que traz a imprensa hoje. Morreu o Nelson Mandela, todos sabem. Nelson Mandela foi um homem incomum, um político com causa, um baluarte e uma excentricidade no mundo da política. Em outras palavras, um Ghandi mais recente. Tão especial era o homem que seus funerais serão – têm sido – dos mais longos. Será sepultado daqui a não sei quantos dias, tendo morrido há quatro ou cinco. Pois uma penca de chefes de estado e chefes de governo foram à África do Sul prestar homenagens ao líder morto. Eis, então, que lá se encontraram o Obama e o Raúl Castro, irmão do Fidel. E se encontraram também o Obama e Dilma, a impostura do Lula. 
               O Obama e o Castro divergem em tudo; simbolizam, cada um, o inverso um do outro. O Obama é o rico, o Castro é o pobre. O irmão do Castro, ao tempo em que existia a União Soviética, quase causa a guerra nuclear ao permitir que os soviéticos instalassem bases de mísseis com ogivas atômicas apontados para o Kennedy. Vê-se, somente pela intenção desses senhores, o que querem e a que custo. Terão mudado? Sabe-se lá. Por aqui têm piorado os que simpatizam com essa corja. 
               Mas, o Obama e o Castro viram-se, subitamente ou talvez não tão subitamente, tête-à-tête. Resultado: - foram obrigados a apertarem-se as mãos. É possível que tenham trocado tapinhas às costas e o Obama, que é um gozador nato, tenha alisado-lhe a face enrugada como fazemos com um querido amigo ao reencontrá-lo. (Os soviéticos tinham o hábito de oscularem-se na boca, selinhos entre homens barrigudos de semblantes austeros como a estampar a rigidez do regime. Parece-me que, aos dias de hoje, abandonaram esse hábito esquisito.) 
               Vejam, então, que os gestos adquiriram, como os fatos, uma superficialidade grotesca e aviltante. Antigamente eles eram, por inteiro, a profundidade em pessoa. Dizia-se que "um gesto vale mais que mil palavras". (Poder-se-ia dizer que vale um milhão e daria no mesmo.) O gesto carregava em si toda uma confissão, tornada pública ou não. Ele valia mais que uma promissória lavrada em cartório. Hoje, o que representa o gesto? a atitude? Resposta: - absolutamente nada. O aperto de mãos entre o Obama e o Castro é um desses eventos semelhantes ao choque de um pingo de chuva ao chão: - natural e sem significado. Os "analistas" políticos, senhores muito cheios de trejeitos e de vocabulário, apressam-se a fazer as mais benignas e malignas previsões e os mais malignos e benignos prognósticos quando diante de uma inusitado gesto. Dir-se-ia que eles, os prognósticos, garantem a venda dos jornais para os quais os "analistas" escrevem. Mas o incontestável está aí às fuças de todo o planeta: - esse foi um aperto de mão absolutamente formal e litúrgico. Não será por esse aperto que os estadunidenses passarão a vender fraldas e fogões em Cuba.
               Não bastasse o Castro, Obama viu-se, ainda nos funerais do Mandela, à frente daquela senhora de olhar fulgurante e frio, a presidente Dilma Roussef. Há pouco tempo ela e seus puxa-sacos diários indignaram-se por descobrir estarem sendo espionados pelas agências do Obama. Foi um fuzuê nas instâncias palacianas e até enviou-se um ministro a Washington para tomar satisfações com o negão. Ele até hoje não sabe da ida do ministro e não deu a mínima para os arroubos da senhora Roussef. O episódio encerrou-se com o cancelamento de uma viagem que ela faria aos Estados Unidos, agendada para dali a um ou dois meses. Melhor para nós, os contribuintes: - economizamos os gastos das sempre populosíssimas comitivas que se fazem para esse turismo oficial pouco produtivo. 
               Que fizeram Obama e Dilma ao se verem frente a frente? Ora, apertaram-se as mãos. A consequência de tal gesto? Forçoso é repetir: - nenhuma. O que ele pode representar? Nada vezes nada. Os súditos do senhor Obama seguem vivendo num país milhões de vezes melhor de se viver, ao passo que os sofridos de Dilma apenas continuam a se condoer das seculares mazelas que os afligem. Mais uma vez em curto espaço de tempo se viu o que significa a superficialidade dos gestos. Antigamente se dizia: - o que se faz fala tão alto que o que se diz ninguém escuta. Ledo engano, lamentável assumir.
               Antes, até há pouco, apenas as palavras haviam perdido sua força, sua capacidade de amenizar e resolver conflitos. Antigamente um "não" era apenas um "não", e o assunto tomava-se como resolvido. Com o tempo, ninguém mais queria aceitar o "não". Enquanto o sujeito não dissesse "sim", perturbavam-lhe o sossego de dia e de noite. Queriam o "sim" de qualquer jeito. Para as questões sem cabimento queriam o "sim". Era o estupro da palavra, da vontade, da liberdade e do amor. Eis que, hoje, mesmo o gesto, o esgar, a atitude e a ação também nenhum valor têm. Perderam todo o seu sublime significado, toda a sua carga axiológica. O aperto de mãos, como o "sim" obrigatório, servem apenas a entojar nosso já tão conturbado espírito.
               

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

O moderno é o câncer

            Ah...! como são tênues as linhas demarcadoras deste mundo! Sim, abunda a imprecisão dos limites. A ponto de induzir ao erro mesmo o mais tarimbado e atento vivente, os sutis e frágeis confins estão em toda parte, são ubíquas as delgadas fronteiras, quase imperceptíveis para todos. Quando um vê o engano, outro nada enxerga senão idiossincrasias normais, variações de qualquer coisa, estados volúveis do humor de cada um...
            Onde estariam as medidas dos sistemas métricos? Se não há o metro, a jarda, a polegada, o pé, como medir os territórios e as áreas? Como calcular as interseções? as distâncias? os limites? Aqui não há engano, não há dúvida, porquanto tantas e tantas ganâncias seriam frustradas, tantas e tantas vidas seriam em risco...
            O mesmo não se pode dizer da medida do intangível. Quando se eliminam todos os princípios, todas as referências, das duas uma: - ou se busca estabelecer novos princípios e novas referências, ou sua eliminação vai pura e simples. Sem referências e princípios, não há o erro nem o acerto; não há o certo nem o errado. “Porque onde não há lei também não há transgressão”, diz o apóstolo. Como medida do intangível, dos comportamentos e condutas, a lei aponta o infrator e o inocente. Sem ela, todos se igualam. Como manada sem rumo, todos se põem a correr sem propósito ou, melhor, em direção ao abismo cuja bocarra apenas aguarda para tragá-los.
            “Porque a lei opera a ira” – ainda no dizer do apóstolo –, eis a razão da eliminação dos limites e dos conceitos, eis a razão da insurgência. A ira de quem odeia a lei e os limites é o juízo do rebelde. Eliminada a lei, tudo é possível, tudo é permitido. Eis o que estamos a ver, eis o que estamos vivendo. Amar a lei tornou-se a nova versão da contravenção e, para ser mais verdadeiro, amá-la ou não a nova versão dos conceitos. Assim, o novo limite se colocou entre o amor e o ódio à lei. Aí estará o novo paradigma, a nova medida com que se mede um a um.
            Sendo isto ainda um abstratíssimo conceito, não se o percebe de imediato. Afinal, ainda estão a viger, bem aparentemente, os códigos. Não se rasgou nenhum em praça pública. Ainda. Sua aparência é a de que vive, é a de que vige. Mesmo o mais tarimbado e atento vivente, repito, não perceberá que, de fato, estão mortos os códigos; sua letra está morta e inútil porquanto suas cominações não se concretizam. Mas, forçoso dizer, é imperioso que existam sem existir, que pareçam que existem e que vigoram. A mentira nunca vem acompanhada de sua denúncia, de sua revelação, de sua própria acusação. Nos códigos cada artigo é uma fraude, um engano, uma falsa esperança que se vê, sempre, irremediavelmente frustrada.
            Fora dos diplomas, cresce o moderno. O moderno é o atual, é o novo, estampando o aval da nova ordem, os novos comportamentos, as novas ideias e os novos conceitos. O “moderno” traz embutido em si mesmo o selo de autenticidade que lhe licencia a ser o “correto”. Ainda que não mais existam o correto e seu oposto, ser moderno já traz implícita uma imperatividade irrevogável e irrefutável. O comando é claro: - deve-se ser moderno! O moderno credencia a aceitação do que o ostenta. Em si, ser moderno é não cultivar limites, é romper as barreiras que detêm o homem em sua sanha irrefreável, suas paixões libertas como monstros a devorar-se a si mesmo. Qual metástase difusa, as paixões invadem caracteres e antigos baluartes, gerando verdadeiras sodomas individuais.
            Em cada lar, em cada esquina, em cada instituição, tudo é moderno, tudo é atual, tudo é a negação de tudo o que antes veio. Antes era o respeito, hoje o desapreço; antes era a deferência, hoje o acinte; antes era a cortesia, hoje a inescrupulosidade; antes era o amor, hoje o ódio.  
            Antes das leis, os princípios; antes destes, os valores. Antigos, os princípios e os valores pereceram. O moderno é o câncer que nos mata todos os dias.                        

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

A sumidade é o antihomem

               Fui, mais uma vez, ao pai dos burros na busca não de um sinônimo, mas de uma definição. Queria uma definição “técnica” do que seria uma “sumidade”. Vejam que essa sumidade que procuro não seria um substantivo ou até o seria; antes de tudo, seria um substantivo que já traria em si uma idéia de valor e de qualidade. Pois eis que lá está que sumidade é a “pessoa que se sobressai entre as de sua classe pelo seu saber”.
               No popular, poder-se-ia dizer que “sumidade” e “pica-grossa” são absolutamente a mesma coisa ou, melhor, a mesma pessoa. Sei, sei, alguém dirá que este último é um termo de baixo calão e não negarei a verdade incontestável: - é, de fato, um termo de baixo calão. Que me desculpem os que facilmente se melindram por pouca coisa, mas garanto: - é inevitável que o tragamos à baila. Já, já verão que estou certo em assim argumentar.
               Devo admitir sem delongas e sem embromação: - houve tempo em que permiti que fatores ambientais interferissem em meus ideais. Sim, fui tolo o bastante para permitir esse deslize. A vergonha que sinto em admitir essa falha só é menor que a serena alegria de vê-la corrigida. Olhando para trás sei que a verdura dos anos seria um álibi, mas os álibis não se prestam a sanar uma dor que ainda dói: - a dor de ter causado dor. Poderia, também, esconder-me por detrás de justificativas óbvias como “é inevitável que aqui e ali causemos dor em alguém; não estamos aqui para satisfazer as expectativas alheias”. Será verdade, mas, ainda assim, a dor permanece. Mesmo o autoperdão, tão necessário a fim de que possamos seguir, não é capaz de sedar aquela dor.
               Há, porém, um excelente bálsamo para essas excruciantes entidades: - o exercício da humildade, do reconhecer-se um nada ou quase isso, para que não me venham de lá os deficientes leitores que enxergariam nisso uma autodepreciação ou autoflagelação. Humilhar-se é sagrado; é revigorante; é cristão e, portanto, agradável aos olhos do Senhor. Humilhar-se tange o ser à lonjura da empáfia, da exaltação própria e, por conseguinte, tange o ser à distância da "sumidade". 
               O que houve foi o seguinte. Uma amiga foi entrevistar-se com certo especialista, um médico. Sujeito, ao que parece, muito conhecido, muito conceituado, muito "festejado". A entrevista, marcada para as 11 da manhã, foi ocorrer somente às três da tarde e – ainda pior – durou apenas e tão-somente, quando finalmente veio a ocorrer, dois reles minutos. (Escrevamos o numeral a fim de que tenhamos a medida exata da duração desta entrevista. Aí vai: - 2 minutos.)
                Outros detalhes do que ocorreu nessas 4 horas de espera merecem uma nota. Por exemplo, o mencionado especialista, que a partir de agora será referido como "a sumidade" ou "o pica-grossa", recebeu, antes de atender minha amiga, o propagandista. Explico melhor. Minha amiga esperou, dentre outras coisas, que um propagandista de laboratório entrasse para falar com a sumidade. Se priorizou um propagandista, bem será possível que tenha dado mais importância a dois, ou três, ou quatro deles. A razão de ser do médico é o doente, mas, ao que tudo indica, para o nosso pica-grossa não é bem assim. Ele preza mais o propagandista do que aquele que sofre e – pior! – aquele que sofre esperando ou, melhor, aquele que espera sofrendo. A conclusão só pode ser uma: - a sumidade não respeita seus doentes.
               Contou-me minha amiga que a sumidade respeitava as prioridades, pessoas idosas que chegavam para ser atendidas. Ainda assim, há mérito no proceder da sumidade? Ora, este elemento é conhecido por ser uma sumidade, pelo número de pessoas que acorrem a seu consultório e por suas curtíssimas entrevistas com seus pacientes. Com os idosos terá ficado somente seus dois minutos. (Vamos dar-lhe o benefício da hipótese de que se tenha demorado mais um pouco com estas pessoas. Digamos que ficasse com elas 3 minutos, um aumento de cinqüenta porcento no tempo da entrevista.) Se ele não está a atender urgências, e de fato não está, pergunta-se: - um idoso não poderia esperar por uma entrevista de 2 minutos? Sim, poderia. 
               Em síntese, a sumidade usa critérios duvidosos e questionáveis. O único item claro no modo de agir da sumidade é sua ganância, sim, sua bocarra aberta para tragar a maior quantidade possível do vil metal. Esta, por sinal, é outra razão pela qual é conhecido o pica-grossa: - seu "sucesso" profissional.  Todos sabem. O sucesso na vida se mede pela quantidade de dinheiro que se ganha. Usando um silogismo aristotélico, se o sucesso na vida se mede pela quantidade de dinheiro que se ganha e o sucesso profissional é igual a sucesso na vida, então o sucesso na vida é igual ao sucesso profissional. Conclusão: na vida, o que importa, de verdade, é a profissão, é o trabalho. Por sua vez, tudo isso gera visibilidade, fama, posses, bens, posição, poder. Isso é o que se está ensinando aos jovens aos dias de hoje.
               A conclusão é uma dessas obviedades pétreas: - a sumidade é, na verdade, um embuste, uma farsa, uma impostura. Tudo o que visa é ver sua desmedida ambição satisfeita. Disse-me minha amiga: -"Nem se senta para ouvir"! Ou seja, ouve em pé, dirigindo-se para a porta de saída a tanger o cliente. 
               Não nos iludamos: - a sumidade não é tão sumidade assim. Ela é o que vejo incipiente nos jovens estudantes da arte de hoje. Querem ser "a sumidade", o bam-bam-bam, o que "se garante", o top... Querem ser médicos porque querem status, "sucesso", visibilidade... Não querem a sujeira, nem o sangue; não querem a necrose, nem a espessa secreção das úlceras, muito menos a fedentina das gangrenas odiosas... Se pudessem, gostariam de ser médicos sem os doentes que incomodam. Imaginem! Médicos sem doentes! Queriam, se possível, que o que sofre fosse uma virtualidade do mundo cibernético e digital, um holograma distante e poroso destituído dos inconvenientes da carne, sem as queixas, sem as dores, sem os males. Em suma, quereriam uma medicina destituída de si mesma, oca, vazia, sem razão de ser, que existisse somente para satisfazer seu desejo de "sucesso". Quero crer que a sumidade foi forjada na fôrma do "moderno", da lição que ora se ensina. 
               A sumidade que nada tem de sumidade é o protótipo do médico do futuro já atuante no presente. Dará diagnósticos e prescreverá tratamentos a partir de dados postos no cérebro digital. As secreções e o sangue enlamearão os braços do robô operador operado à distância pela "sumidade" do futuro. Se ainda demorar o Juízo, veremos o antihomem em toda sua plenitude.
               Usando o mesmo silogismo, se a sumidade é o que opera à distância e se o que opera à distância é o antihomem, então a sumidade é o antihomem. Desde já.