terça-feira, 20 de setembro de 2016

O BOM, O RUIM E O PIOR

É impressionante como se costuma comparar pessoas ou coisas. “Isso é melhor que aquilo” ou “fulano é melhor que beltrano” é o lugar comum de nosso dia a dia. A cultura da competitividade, alastrada, plantou em nossas mentes os sinais matemáticos maior e menor. No meio médico ouve-se “doutor fulano de tal, o melhor médico da cidade”. Onde se escreve melhor leia-se maior, muitas vezes empregado também.
            A pergunta que me faço é: quem pode dizer que alguém é maior ou melhor que outro alguém? Há tantos e tantos e tantos bons médicos, assim como há tantos e tantos e tantos bons advogados. Em contrapartida, há médicos e advogados ruins. Mas não há, dentre os bons, o melhor. (Minha intenção é provocar.)
            Tomemos o exemplo, um lamentável exemplo, o do ex-médico Roger Abdelmassih, tido como o maior especialista em reprodução humana do país. O homem, sabe-se hoje, é um estupradorzinho de quinta categoria. Era o maior, o melhor e, súbito, revelou-se o pior. Nem pelo estágio de ruim passou. De bom que era passou a pior. Tão grande a sua fama e tão elitizada a sua clientela que ao final só serviram a engrandecer ainda mais seu crime.
            Tentemos uma explicação. O que é bom pode, eventualmente, agir ou ser melhor, se sair melhor do que o normal. Nem por isso será o melhor absoluto. Se, ao contrário, cometer grave erro, será um pior absoluto. O melhor jamais poderia cometer erros, nem mesmo os menores. Além disso, um pequeno erro do cirurgião – escolhi o cirurgião como exemplo só para puxar a sardinha pro meu lado - pode representar uma catástrofe para o paciente, por exemplo, o que demonstra que um erro não se mede pelo seu tamanho, mas por suas conseqüências.
            Consideremos o Yamandu Costa. Não sei se conhecem o Yamandu Costa. Apresento, aos que não o conhecem, o Yamandu Costa. É um violonista virtuosíssimo. É um gênio do violão de sete cordas. Foi assim reconhecido aos dezenove, vinte anos. Fará trinta e um em janeiro próximo. Quem já viu o Yamandu tocar diz: -“É o melhor!”(Suspeito para falar – sou louco pelo Yamandu -, estou quase a desistir de continuar com essa história de que não há melhor.) Eis que se vê tocar um Marco Pereira, um Raphael Rabelo, um Marcel Baden Powell, um Manassés, um Nonato Luis, e outros, e outros, e outros, e se acaba por concluir que não há melhor. São todos bons. O que se disser acima da categoria de “bom” fica por conta dos superlativos de nossa emoção. (Outro dia alguém escreveu no site oficial do Yamandu que ele acerta até quando erra.)
            Ocorre que, ao errar o violonista, não há conseqüências no resultado, como se vê pelo comentário do fã do Yamandu. (Assevero: não fui eu!) Continua sendo bom o violonista, com os superlativos que lhe queiram acrescentar. Não há possibilidade de que lhe rebaixem a qualidade por causa de um ou outro erro. Afinal, a música é uma arte em que a liberdade de improvisar até permite que o erro pareça tudo menos um erro.
            Percebe-se, ao comparar o cirurgião com o violonista, que há bons violonistas e bons cirurgiões, e que há cirurgiões ruins e violonistas ruins, e que há ainda os piores cirurgiões e os piores violonistas. (Quem quiser saber onde encontrar os piores violonistas vá a uma festinha de aniversário onde apareça um violão.) Não há, contudo, melhores. Felizmente há muitíssimo mais ruins e piores violonistas que ruins e piores cirurgiões. De fato, esses últimos eu não saberia dizer onde encontrar. (E aqui não estou puxando a sardinha pro meu lado.)
            Faço agora uma confissão. Iniciei esse texto sem a menor intenção de falar sobre isso. Eu queria falar sobre a Unicred, nossa cooperativa de crédito, e os juros que se pagam entre ela e seus cooperados. Paga-se a ela mensalmente um valor acima de vinte reais que é depositado na conta capital do cooperado e que vai rendendo a uma taxa xis. Se o cooperado tiver um cheque especial - que cobra uma taxa xis mais muito mais – e a conta estiver sem dinheiro, saca-se automaticamente o valor do cheque especial. A conta fica “negativa”. Você estará devendo aquele valor mais xis mais muito mais ao banco, e o mesmo valor vai render para você módicos xis de juros em sua conta capital. Conclui-se o seguinte. Primeiro, é bom gastar menos do que o que se ganha. Segundo, é ruim tomar dinheiro emprestado. Terceiro, é pior quando se teima desobedecer a essas regras básicas. O melhor? Aqui há, sim, o melhor: desistir de ter. “Vaidade de vaidades, tudo é vaidade.”


Fernando Cavalcanti, 08.12.2010