quinta-feira, 6 de novembro de 2014

DEMISSÕES

          O sujeito que sofre uma frustração pode, finalmente, ir dormir sem medo. Ainda mais quando é a mulher a causa e, por que não dizer, o efeito do episódio. Sim, porque não sei se sabem, mas a causa e o efeito podem residir num ente único, num fator solitário e singular. Prova disso nos deu a mulher do Amorim. Que fez ela? Simples: – previu a tragédia e a evitou. Ainda que o efeito desejado por meu amigo tivesse tudo para ocorrer, e daí a sua frustração, o efeito oposto resultou, na verdade, em sua redenção e sua paz. Se suas artimanhas viessem ao êxito, talvez eu estivesse aqui fazendo um discurso de velório, finalizado com o epitáfio a ser escrito mais tardiamente na laje. Sim, porque o crime passional existe desde que o mundo é mundo, embora fosse, até há pouco, uma atitude tipicamente masculina. Aos dias de hoje, entretanto, também a mulher mata, também a mulher trucida. E como mata bem a mulher! Mata tão bem que o sujeito fica mortinho da silva, sem possibilidade de reanimação. Com efeito, a mulher, aos dias de hoje, não somente mata mas também mutila. Os amigos hão de se lembrar do caso ocorrido em 1994, com o norte-americano John W. Bobbit, que teve suas partes íntimas decepadas por sua mulher Lorena. O fato rodou o mundo sabe-se lá quantas vezes antes que o homem se submetesse a um procedimento cirúrgico para a reimplantação do membro. Sem rodeios, no final a senhor Bobbit teve alguma sorte. A mulher, após lhe cortar fora o pênis, lançou-o a um gramado em local ermo. Para sua felicidade, não apareceu, até o término das buscas, um animal faminto que transformasse o órgão do rapaz em refeição. Bastava-lhe isso para a amputação inexorável e definitiva. Em todo caso, faltam informações abalizadas que confirmem o sucesso funcional da delicada operação.
          ​O que ocorreu foi o seguinte. Amorim, que é homem conhecido por sua irremediável fidelidade – seu apelido é “ferrolho” -, foi convidado a participar, com outros profissionais de seu ramo de negócios, de um ciclo de palestras no Sul do país. O evento seria promovido por empresa que fornece produtos ao seu comércio. O diabo é que o convite partiu da linda e estonteante representante comercial da empresa, que o visitava com regularidade no escritório. Verdade seja dita: – as visitas são de praxe, dentro dos conformes, fazem parte da rotina. Até aí nada digno de nota. O entrevero começou quando a beldade, segundo o próprio Amorim, passou a ser nitidamente enfática da necessidade imperiosa de seu comparecimento ao evento. Tão insistente foi a moça que a secretária do amigo não pôde deixar de estranhar e, todos sabem, uma mulher vê a intenção da outra a quilômetros de distância. A jovem não poupava indiscrição e dava a entender, sem a menor sombra de dúvida, que lá, durante o conclave, ela estaria sempre a seu lado e que ele nada teria com que se preocupar. E, até onde entendi, os olhares da pequena deviam ser brilhantes e lascivos. Ele precisava ir! Percebem?
​          Tomou conhecimento do fato dona Fulana, mulher de meu amigo, acho que por intermédio da referida secretária. Digamos que a funcionária fosse dessas senhoras conservadoras e zelosas, que não permite que uma pouca vergonha ocorra diante de seus olhos sem que se tome uma atitude condizente. Dona Fulana trabalhava com o marido na empresa, mas se ausentava com frequência para ir a bancos ou resolver outras pendengas. A secretária se perguntava por que a jovem sirigaita não estendia o convite à sócia de meu amigo, justamente a esposa. E concluía de si para si que naquele mato estava para sair coelho. Por outro lado, dona Fulana sabia muitíssimo bem que Amorim é ferrolho, mas não um ferrolho legítimo, feito de ferro fundido moldado e preso na porta a fim de correr pelo mesmo trilho e a entrar e sair da mesma fechadura. O "ferrolho" Amorim é de carne e osso, de modo que "o espírito está pronto, mas a carne é fraca" e o ferrolho de carne perde, assim, toda confiabilidade de um ferrolho propriamente dito. O apelido, se descobre, é só uma aproximação da similaridade, nunca uma medida exata daquela. Por tudo isso, dona Fulana pouco ponderou antes de agir. Nem era preciso.
          Amorim, após consumada a frustração, relatou-ma em evidente pesar. Tal reação nos permite concluir, sem muita dificuldade, que o homem estaria ansiosíssimo para subir no avião com a beldade e que, por conta desse desejo insaciável, revelou-se um safado e enrustido ferrolho. Assim que soube, pela secretária do marido, do que estava a ocorrer bem debaixo de seu nariz, dona Fulana chamou-o a um canto e disse-lhe: 
          –“Não vai viajar coisa nenhuma"!... Foi sumária assim, sem meias palavras. Ele ainda quis redargüir, argumentar, negociar, que o evento era importante, que não podia faltar, que perderia uma grande oportunidade... mas não teve jeito. E em mais uma única frase a mulher expediu o decreto-lei: 
          –“Não vai, e estamos conversados!” Ele, que além de ferrolho é um barriga-branca de carteira e sindicato, baixou a cabeça e assentiu. Se fez beicinho e esgar de choro não se sabe, mas a ordem da mulher caiu-lhe como balde d'água gelada. 
          Porém, a mente humana não descansa, não sossega... Desde o passa-fora da mulher, o homem entrou a imaginar e a lucubrar sobre fatos que ocorreriam no futuro do pretérito e em todos e noutros tempos verbais. E perguntava de si para si: –"E se minha mulher não trabalhasse comigo"? "E se não tivesse tomado conhecimento da viagem"? E se perguntava, numa obstinação doentia, o que teria acontecido se houvesse viajado de fato... E, perdido em si mesmo e absorto no desejo e na magia perpetrada por uma jovem e bela mulher, deixava-se ficar, o olhar perdido no horizonte escuro e ilimitado... O sonho e a tentação quase se faziam matéria real, objeto palpável e concreto, como qualquer sensação tátil que se percebe ao usar as mãos e a pele... A sensação de frustração era a única em toda sua vida. Pelo menos que se lembrasse.
          No dia e na hora marcada para o embarque, ainda envolto nas fantasias de sua mente sonhadora, pensava: –"Deve estar embarcando nesse minuto"... e o olhar se perdia na etérea imagem só vista por sua imaginação. 
          Ao encerrar o relato do drama, regado a choros e protestos por tamanha fofoca disseminada pela incauta funcionária, chamei-o à responsabilidade. Disse-lhe que parasse de se torturar imediatamente, já que a falta do ato não o eximia da culpa. A traição estava na intenção, ficasse bem claro. Tinha era muita sorte, já que a mulher não mais quis remexer no assunto, contentando-se apenas em lhe abortar as maliciosas ações que estava para praticar. Fosse mulher de outro tipo, ia fazer e acontecer até ele contar-lhe em detalhes o que sua cabeça maldosa estava tramando. Imagine ele sendo obrigado a admitir que estava de olho na pequena e que lá longe, onde a vista da mulher não alcançasse, iria traí-la como nunca fizera até então!... E se tivesse por fim realizado seus sonhos e saciado seus desejos, quem poderia imaginar onde isso iria parar? Ao final, provavelmente levaria um pé na bunda da mulher e da amante. Ajudei o amigo a concluir que a secretária fizera-lhe, na verdade, um grande e inestimável favor. 
          Ao ouvir-me citar a secretária, o amigo encheu-se de furor, levantou-se colérico e, dando um murro na mesa, fuzilou: –"Pois agora mesmo vou demitir essa bruaca"! 
          De lá saí com a nítida impressão de que ele cogitava demitir também a mulher. Não sei é se vai ter coragem...