quarta-feira, 8 de março de 2017

POSE NÃO GERA RENDA

Esse negócio de rede social aproximou demais as pessoas. Não, não. Esse negócio de rede social aproximou pessoas demais. Sim, pessoas em número excessivo interagem simultaneamente. Imaginem aí cem, cento e vinte pessoas conversando ao mesmo tempo ou quase isso. Isso não seria o pior. Como se administram tantas vontades? tantas ânsias? tantas carências? Não há de ser fácil, por óbvio. Dirá alguém que a arte da interação é o uso da dialética, do contraditório, da tolerância. Tudo bem, tudo certo. Falar é fácil, fazer é que são elas, diria minha avó.
                Pois a moda em voga é a criação, na rede social, desses grupos. E para tudo se criam grupos. É o grupo dos amigos de trinta anos, dos amigos de quarenta anos; dos amigos que se conheceram no berçário, dos que se conheceram no bar da esquina, e por aí vai. Falo tudo isso e assumo – eu mesmo já criei grupos. Devo dizer que foram grupos mixurucas, pequeninos, três, quatro, cinco pessoas. Quase não se interage, quase não se fala no grupo. Chego a pensar: – para que diachos existe tal grupo? E não acho a resposta. Mesmo eu me presto, às vezes, ao efeito manada.
                Contudo, sei de grupos enormes, acima de cem pessoas. As notícias que tenho do grupo são as mais variadas. Soube de intrigas, de querelas, de arranca-rabos. Depois, ao que consta, veio uma calmaria, uma espécie de hangover, como se todos houvessem se cansado de tantos debates e de tantos embates. Enfim, veio a prova de que Rousseau, ou o Rubem Alves, ou o Rubem Braga, estava absolutamente certo – o homem, sozinho, é essencialmente bom. O ajuntamento de homens o corrompe e o degrada. Eis tudo aí.
                Eu não sei por que falei tudo isso. Há de ter sido um desses atos falhos que diariamente nos assaltam. (O melhor do ato falho é a ausência de culpa.) Queria mesmo era falar do carioca que conheci em Florianópolis, sim, o carioca que se tornou manezinho. Sobre ele, foi o seguinte.
                Parado em seu carro em monstruoso engarrafamento na Avenida Brasil, sentiu uma opressão no peito. Não era dor física, nem o aperto da angina. Era uma emoção, uma emoção negativa. E era tão negativa que a ela seguiu-se a diaforese. A gravata o sufocava, o colarinho parecia uma argola que se lhe fechava em torno do pescoço. Tinha medo, um medo incontrolável e incoercível. Sacou do telefone portátil e ligou para o cliente que lhe esperava no fórum, para a audiência. Disse-lhe que não poderia ir, que enviaria alguém para substituí-lo.
Já em casa, chama a mulher. Dá o ultimato: –“Não quero mais viver nessa cidade”. A mulher ouvia sem dar importância. Continuou: –“Escolhe aí outro lugar pra viver; aqui não fico mais”... A mulher argumentou lembrando-lhe os filhos, que estavam para entrar na faculdade. Ele refletiu alguns segundos e assentiu: –“Está bem. Espero no máximo 2 anos. Depois disso, vamos embora”.
                Dois anos depois, após lembrá-la do acerto feito, a mulher vacila. E meus pais? Vou embora assim? Deixando papai e mamãe no inferno desse Rio de Janeiro? Ele, que ia lhe perguntar se era casada com ele ou com os pais, recua e, sem hesitar, avisa: –“Estou partindo”. E, assim, o encontramos em Florianópolis, dirigindo seu carro para fazer um caixa extra, esse negócio da Uber, a empresa americana. Tem uma banca de advogado com um sócio, mas complementa o orçamento com essa atividade. No meio da corrida – íamos à praia da Joaquina – liga um cliente. (De fato, era uma cliente.) Atende. Ela quer saber de um processo. Ele explica que já saiu o mandato de prisão contra alguém e a tranquiliza. Combinam de falar depois, e ele promete mantê-la informada. Ela se despede com gratidão: –“Muito obrigada, doutor Martins”!
Ao longo de todo o percurso, o novo manezinho fala da cidade, de seu novo lar, da nova namorada, do divórcio, dos filhos já formados, dos concursos, dos salários na cidade... Acima de tudo, demonstra estar tranquilo, vivendo em paz. Afinal, ser manezinho é como habitar o oásis da violência grassante por todo o país. É tão desprendido que ousa parar seu carro no Mirante Morro da Lagoa para tirar fotos de seus clientes cearenses, algo que não está incluído no serviço que nos presta. Ao final, deu-me um cartão de visita; não o cartão do motorista que dirige Uber, mas o do causídico atuante no interesse de seus clientes.
                Ia esquecendo. O dinheiro extra se presta à realização de um sonho. Estão de passagens compradas, a namorada e ele, para Portugal em janeiro do ano que vem. Precisa juntar sete mil euros para trazer uma quantidade de vinhos que irá guarnecer a adega que construiu em sua nova casa. Já dispõe de pouco mais da metade. Não se envergonha do trabalho que faz. Vergonhoso é parasitar, furtar, roubar, enganar, e permitir que a vaidade suba à cabeça – coisa produzida pelo efeito manada, pela pose que alguns têm em alguns lugares do país.