sábado, 18 de março de 2017

RISCOS

Não se pode viver sem riscos. Em tudo há risco. Nada há nesta vida que não implique n’algum risco. Só não há o risco de morrer: a morte é certa. Não é um risco de quem vive: é a única certeza. O resto, todo o resto, é um risco. Em tudo há risco, repito.
                Um amigo, que reclamava até da nuvem sobre sua cabeça, não queria mais nada em sua vida que implicasse algum risco. Em verdade, não queria nenhum risco. Eu lhe disse que não era possível; que escolhesse coisas de menor risco; que seria até possível aferir os riscos de cada projeto, mas não havia como evitá-los completamente. Ele se convenceu quando lhe disse que as seguradoras vivem do dinheiro que ganham assumindo os riscos alheios. Você as paga e elas assumem os riscos que você tem de ter prejuízos ou perder um bem num sinistro. Se o evento indesejado vier a ocorrer, elas te reembolsam. Deve ser um bom negócio, visto que elas crescem cada vez mais. E, se crescem, é porque o dinheiro que entra em seus contratos de risco é maior do que o que sai com o pagamento do prejuízo dos clientes. Conclusão: o risco é só um risco. O risco não é um fato líquido e certo, como a morte. Ele é apenas uma possibilidade, e, portanto, só ocorre eventualmente. Na maioria das vezes nada ocorre. Por isso as seguradoras enchem os bolsos de dinheiro.
                Ele passou, então, a especular sobre os riscos de cada coisa em particular. Antes, contudo, alertei-lhe que às vezes corremos o risco de que também coisas boas aconteçam; que o evento fortuito pode ser uma coisa esplendorosa, tremenda. Um exemplo: se jogar toda semana na loteria esportiva – sou do tempo da loteria esportiva – corro o risco de ficar rico. É óbvio que também corro o risco de perder todo o meu dinheiro jogando, o que é muitíssimo pouco provável se jogar apenas um único e mísero real por semana. Ele, que estava mais preocupado em problemas advindos dos maus riscos – os maus riscos são os riscos em que o evento fortuito é ruim ou indesejável – enumerou duas coisas que evitaria doravante: casamento e filhos. Sobre o casamento alegou que corria o risco de levar chifres ou de sua mulher lhe tomar o que tinha. Sobre ter filhos me saiu com esta: custam muito caro e não dão retorno. Sobre o matrimônio argumentei que diminuiria bastante os riscos se procurasse a companheira ideal, financeiramente independente e de reputação ilibada. Ele contra-argumentou que as mulheres financeiramente independentes não iriam casar com um borra-botas como ele, e que as de reputação ilibada seriam como rede preta: inexistentes. Disse-lhe que os filhos lhe dariam muito prazer e que seriam a ponte para transcender a vida. Disse ele, então, que preferia ter outros prazeres com as mulheres e que não tinha interesse em transcender, pois não estaria lá em corpo físico para ver. Lembrei-lhe que, com a vida devassa que levaria, correria o risco de adquirir doenças e morrer mais cedo. Ele replicou que não tinha medo de correr esse risco, desde que a morte fosse confortável e rápida. E a conversa foi, foi, foi... e não teve mais fim.
                Como vêem, cada um escolhe os riscos que quiser. Foi muito bom porque fizemos um exercício de pensar mais objetivamente nas coisas. Na maior parte das vezes não agimos assim. Não nos damos ao trabalho de pensar nos riscos que corremos, os bons e os maus. Às vezes, o risco de bom êxito é até maior que o de mau, mas recuamos porque focamos no último. Só olhamos para o medo de perder. E esquecemos que podemos ganhar. Isso mostra que os seres humanos são basicamente negativos. E por isso muitos não acreditam em si mesmos. Quando amealhamos o pouco, não acreditamos que possamos ir além e abdicamos do muito. Quando nossos projetos se mostraram inadequados para nossa realização pessoal, perdemos a autoconfiança e a auto-estima. Ficamos congelados e aterrorizados. Morremos em vida. Dizemos-nos velhos, ou cansados, ou decepcionados, e nos apegamos com unhas e dentes ao status que eventualmente tenhamos. E ficamos unicamente com ele, nosso status. Nesse momento esquecemo-nos de fazer a pergunta principal: qual o risco de me prender a esse status? E eu lhes responderei: o risco de perder a capacidade de aprender. Quando se perde a capacidade de aprender, acaba a vida. O tempo que nos resta será usado para relembrar quem já fomos, o que já fizemos, quão bons fomos um dia. Seremos velhacos. O status será tudo que nos resta. Paramos e ficamos a olhar para trás, enquanto a estrada se perde no horizonte à nossa frente. Esse é um risco que não devemos correr. Seremos zumbis a vaguear pelo mundo, desprezados pelos que pulsam de tanta vida.

Fernando Cavalcanti, 06.12.2007