Quase junho e a chuva não arreda. E ainda há gente que diz que “é inverno”. Como aqui, pertinho da linha do equador, só há dois estados de “clima”, quando o sol se vai encoberto por nuvens negras e a chuva cai se diz que estamos no “inverno”. Ou seja, chuva é sinônimo de inverno por aqui. Poder-se-ia dizer que, não tendo chuva, estamos no “verão”. A conclusão é que por aqui só temos duas estações: o inverno e o verão. Assim, como a chuva ainda não se foi de vez, estamos no inverno.
E
há também por aqui uma certeza indubitável: cearense não gosta de chuva... à
noite. Sim, chuva à noite atrapalha a saidinha, a farra, o balacobaco. De dia,
não – a chuva é bem-vinda. Alivia o calor inarredável do lugar. Mas, detalhe –
a chuva de dia só é bem-vinda na semana porque no fim de semana ela atrapalha a
praia. E se for em fim de semana à noite, aí é de frustrar qualquer bom
cearense mal intencionado.
Há
um detalhe que merece menção – a chuva à noite em fins de semana começa a
frustrar o pobre cearense já em tenra idade, nos primórdios de sua vida. Não admira,
então, tamanha tristeza no bom cearense quando o evento se concretiza perfeita.
Refiro-me à chuva.
Eis
que comigo não poderia ser diferente. Comigo foi uma paulada. Explico.
Era
o ano de 1976, em que faria 15 anos em maio. Devo dizer que àquela época os 15
anos das meninas era motivo e razão de festas magistrais e fenomenais. Já o dos
meninos era nada comparado ao delas. Poder-se-ia fazer uma... tertúlia!! Sim, a
tertúlia era a festa dos meninos para comemorar os 15 anos! Naquele tempo as
tertúlias eram feitas em nossas próprias casas. Era preciso apenas ter
disponível uma radiola, um salão ou espaço para a dança e os pais tinham que
alugar uma “luz negra”. E aos leitores mais jovens anuncio – a “luz negra” era
elemento fundamental para a tertúlia. A “luz negra” era uma luz arroxeada que
iluminava brilhantemente dentes perfeitos e denunciava decepcionantemente
dentes postiços, artificiais ou quebrados. Benguelas detestavam a “luz negra”. Felizmente,
pela idade dos contratantes de então as dentaduras eram raras, raríssimas. Algumas
roupas também se destacavam à exposição da “luz negra”. Creio até que algumas
peças de roupas ficavam meio transparentes. Assim, os adolescentes mais afoitos
anelavam algum vestido “vulnerável” ...
Assim,
como ia dizendo, resolvi, com a permissão de meus pais, comemorar em nossa casa
meus 15 anos com uma baita tertúlia. Convidaria todos os amigos e amigas do
bairro, do colégio, primos e familiares adolescentes. Podia esperar também a
vinda de penetras. Era algo extremamente comum à época, jovens que perambulavam
pelas ruas em busca de uma tertúlia qualquer para se divertir. Nós mesmos –
meus amigos do bairro e eu – éramos frequentes penetras em tertúlias em casa de
seja lá quem fosse. Seria num sábado antes do dia do natalício, já que ele
cairia numa terça-feira. Lembro a Kombi verde da empresa locadora da luz
chegando no dia da festa para montar o equipamento. Trouxemos a radiola da sala
para a área onde seria a dança e mamãe pendurou uns enfeites que caíam do teto
para dar um ar de alegria ao evento. Eu estava exultante e eufórico com a vinda
de todos para uma tertúlia preparada com muita energia e carinho. Contudo...
Minha
tristeza crescente iniciou com o barulho de trovões precedidos de flashes de
relâmpagos quase contínuos vindos de um céu absolutamente carregado de nuvens negras,
baixas e pesadas. Em seguida caiu o maior toró de que se tinha notícia até
então. A chuva adentrou a noite e a madrugada sem trégua. À água que caía
juntaram-se minhas lágrimas de choro forte pela ausência de todos. Minha mãe me
consolava me envolvendo em seus braços. E assim fiz uma tertúlia vazia, regada
a chuva e choro. Naquele tempo, adolescentes de 15 anos choravam como crianças
pequenas...