sábado, 30 de maio de 2026

A TERTÚLIA QUE ME FEZ CHORAR

             Quase junho e a chuva não arreda. E ainda há gente que diz que “é inverno”. Como aqui, pertinho da linha do equador, só há dois estados de “clima”, quando o sol se vai encoberto por nuvens negras e a chuva cai se diz que estamos no “inverno”. Ou seja, chuva é sinônimo de inverno por aqui. Poder-se-ia dizer que, não tendo chuva, estamos no “verão”. A conclusão é que por aqui só temos duas estações: o inverno e o verão. Assim, como a chuva ainda não se foi de vez, estamos no inverno.

E há também por aqui uma certeza indubitável: cearense não gosta de chuva... à noite. Sim, chuva à noite atrapalha a saidinha, a farra, o balacobaco. De dia, não – a chuva é bem-vinda. Alivia o calor inarredável do lugar. Mas, detalhe – a chuva de dia só é bem-vinda na semana porque no fim de semana ela atrapalha a praia. E se for em fim de semana à noite, aí é de frustrar qualquer bom cearense mal intencionado.

Há um detalhe que merece menção – a chuva à noite em fins de semana começa a frustrar o pobre cearense já em tenra idade, nos primórdios de sua vida. Não admira, então, tamanha tristeza no bom cearense quando o evento se concretiza perfeita. Refiro-me à chuva.

Eis que comigo não poderia ser diferente. Comigo foi uma paulada. Explico.

Era o ano de 1976, em que faria 15 anos em maio. Devo dizer que àquela época os 15 anos das meninas era motivo e razão de festas magistrais e fenomenais. Já o dos meninos era nada comparado ao delas. Poder-se-ia fazer uma... tertúlia!! Sim, a tertúlia era a festa dos meninos para comemorar os 15 anos! Naquele tempo as tertúlias eram feitas em nossas próprias casas. Era preciso apenas ter disponível uma radiola, um salão ou espaço para a dança e os pais tinham que alugar uma “luz negra”. E aos leitores mais jovens anuncio – a “luz negra” era elemento fundamental para a tertúlia. A “luz negra” era uma luz arroxeada que iluminava brilhantemente dentes perfeitos e denunciava decepcionantemente dentes postiços, artificiais ou quebrados. Benguelas detestavam a “luz negra”. Felizmente, pela idade dos contratantes de então as dentaduras eram raras, raríssimas. Algumas roupas também se destacavam à exposição da “luz negra”. Creio até que algumas peças de roupas ficavam meio transparentes. Assim, os adolescentes mais afoitos anelavam algum vestido “vulnerável” ...

Assim, como ia dizendo, resolvi, com a permissão de meus pais, comemorar em nossa casa meus 15 anos com uma baita tertúlia. Convidaria todos os amigos e amigas do bairro, do colégio, primos e familiares adolescentes. Podia esperar também a vinda de penetras. Era algo extremamente comum à época, jovens que perambulavam pelas ruas em busca de uma tertúlia qualquer para se divertir. Nós mesmos – meus amigos do bairro e eu – éramos frequentes penetras em tertúlias em casa de seja lá quem fosse. Seria num sábado antes do dia do natalício, já que ele cairia numa terça-feira. Lembro a Kombi verde da empresa locadora da luz chegando no dia da festa para montar o equipamento. Trouxemos a radiola da sala para a área onde seria a dança e mamãe pendurou uns enfeites que caíam do teto para dar um ar de alegria ao evento. Eu estava exultante e eufórico com a vinda de todos para uma tertúlia preparada com muita energia e carinho. Contudo...

Minha tristeza crescente iniciou com o barulho de trovões precedidos de flashes de relâmpagos quase contínuos vindos de um céu absolutamente carregado de nuvens negras, baixas e pesadas. Em seguida caiu o maior toró de que se tinha notícia até então. A chuva adentrou a noite e a madrugada sem trégua. À água que caía juntaram-se minhas lágrimas de choro forte pela ausência de todos. Minha mãe me consolava me envolvendo em seus braços. E assim fiz uma tertúlia vazia, regada a chuva e choro. Naquele tempo, adolescentes de 15 anos choravam como crianças pequenas...

A TERTÚLIA QUE ME FEZ CHORAR

                 Quase junho e a chuva não arreda. E ainda há gente que diz que “é inverno”. Como aqui, pertinho da linha do equador, só há ...