segunda-feira, 29 de julho de 2013

Caldeirão


               Foi uma descida para ir aqui pertinho, numa agência bancária. Ainda de dentro do condomínio avistei, através do portão, um dos taxistas que fazem ponto aqui defronte se aproximar. Pensei: - "Vem falar comigo..." E, de fato, tão logo fechei o portão por fora, Caçarola – só lhe conheço o apelido – me abordou. Queria relatar um problema de saúde da mulher, saber s'eu podia ajudar.
               (A consulta na "porta da feira" – "porta da feira" é expressão do tempo da vovó que significa "casa", "residência", "lar" – não é muito comum. Ela é mais usual na fila, na esquina, na festa de quinze anos, no buffet após a cerimônia religiosa, e por aí vai... Na "porta da feira" foi a primeira vez. E pior. Não era a doente que me consultava: - era o marido!)
               Disse-me: -"O doutor lá nem olhou pra cara dela..." Havia sido "consultada" por um médico da Santa Casa. Os exames que pediu demonstraram que ela tinha pedra na vesícula. Vai voltar lá semana que vem, mas queria saber por que diabos a patroa vivia cheia de dores no corpo. "Um doutor não devia fazer assim, não olhar pra cara do paciente...", dizia ele resignadamente e com uma certa doçura e pureza na fala. 
               Ainda conversava com ele quando percebi que alguém se aproximava. Era o João Mesquita, outro dos taxistas. Torce pelo Fortaleza. Queria me relatar o resultado de uma ajuda que lhe dei antes de sair de férias. A cunhada também tinha pedra na vesícula e eu havia "intermediado" um amigo para vê-la e operá-la. Resolveu bater o telefone ali mesmo, do meio da rua, para a mulher. Ela tinha mais informações para me passar. Enquanto ele discava e reclamava da operadora, um carro parou rente ao meio fio, defronte a nós. 
               -"Doutor, como vai?", gritou o taxista de lá. A princípio não o reconheci, mas logo em seguida me dei conta. Era o Carlão. Aproximei-me e acocorei-me à janela para lhe falar. Contou-me que a mulher não estava bem. Após a colocação de uma prótese de coronária, dera pra acordar à madrugada, sobressaltada, dando chiliques. Disse que não tinha sossego. Muitas vezes ela lhe pedia a que voltasse cedo pra casa. Sugeri: -"Não seria medo de morrer?" Despedimos-nos com a sugestão de, caso necessário, ele levá-la ao meu ambulatório. Agradeceu e deu a partida. Voltei-me para falar com o outro, o João Mesquita, o que tentava ligar para a mulher. 
               Eu já demonstrava pressa. "Aonde vai o senhor"?, perguntou. Disse-lhe que ia ao banco, ali pertinho. Sugeriu: -"Levo o senhor"!
               Retruquei: -"Precisa não, rapaz". 
               Insistiu: -"A gente vai conversando". 
               No caminho, enquanto dirigia, passou-me o telefone. A mulher pedia para que eu, se possível, desse um jeito de "agilizar" a operação da irmã. Prometi empenho no assunto, e assim nos despedimos. Tão logo saltei, próximo à agência bancária, um sujeito que vinha por trás resmungou algo sobre um furto a uma loja na Monsenhor Tabosa, perto do banco. E arrematou, desolado: -"Estamos num mato sem cachorro"...! 
               Entrei na agência mais desolado ainda. Haverá esperança para nós?