quarta-feira, 24 de julho de 2013

Ou a comanda ou a conta!


               Eu estava para começar a escrever sobre minha viagem à França, mas lembrei-me que seria prudente adiar os comentários por mais alguns dias. Nunca se sabe até onde a ira de alguém pode ir. Assim, melhor é o silêncio sobre o tema, por enquanto.
               A minha sorte é que veio cair-me ao colo um tema que estará pra lá de batido, mas nunca é demais contribuir para as ebulições que ele provoca. Procurarei dar-lhe uma moldura menos talhada, a fim de lhe conferir toda a seriedade da qual é merecedor.
               Não sei se sabem que, após chegados de Paris, fomos, Bella e eu, gastar uns dias à praia do Mundaú, numa deliciosa e proveitosa pousada à beira-mar. Alguns dirão que nada mais apropriado, nada mais natural. O Brasil é um país lindíssimo, tem praias lindíssimas, nosso turismo está de vento em popa, e essas bobagens todas que nosso tolo bairrismo já se acostumou a decantar tão logo lhe dêem a chance. Cotejamentos à parte, o Brasil tem lugares lindíssimos, não resta dúvida; mas há no mundo bilhões de lugares tão ou mais lindos que o lugar mais lindo de nosso país. Portanto, paremos de ufanismos paisagísticos inúteis e pueris. 
               Havia dito ao início que não falaria da viagem ao Velho Mundo e, de fato, não o farei. Abro um parêntese apenas para dizer que, a propósito de lugares lindos, há lugares de belezas naturais, e há aqueles cuja beleza é inteiramente atribuível ao gênio e à sensibilidade do coração humano. Diria até que há belezas atribuíveis ao pior sentimento que o homem eventualmente nutre por seu semelhante: - o ódio e, em consequência, a vontade de e o planejamento para o destruir. No final, a guerra e, depois – seguindo-se a matança e a dor –, a contrição e o lamento. 
               Paris ostenta este último tipo de beleza, posto que seja deslumbrante inteiramente pela ação do homem, eis o que eu queria dizer. E diria mais. De fato, nada mais diria. Indagaria. E perguntaria: - que mérito há, para o homem, na beleza natural? Nenhum, eis a resposta. As belezas  da natureza são obra d'Aquele que a idealizou e a trouxe à existência, em que pese a empáfia do pó (http://fecavalcanti.facilblog.com/Primeiro-blog-b1/A-empafia-do-po-b1-p201.htm), que insiste em o negar. 
               A pousada à beira-mar era um desses refúgios paradisíacos, onde o céu e o mar se encontram aonde quer que se deitem os olhos. O som das ondas é suprimido na baixa-mar, quando se formam aquelas mansas e límpidas piscinas naturais e o oceano recua bem longe. O vento corre incansável levando fumaças de areias daqui para ali, encrespando a rala mata que ainda beira aquela faixa de praia. Nas piscinas formadas, cardumes de minúsculos peixes vêm brincar, como a querer ostentar sua instintiva felicidade. Os pássaros cortam o céu entoando seu canto e, vez ou outra, vêm mergulhar nas águas daquelas lagoas para um banho refrescante ou para a refeição que ali se oferece. Este o cenário no qual o homem apenas se deleita e que, não fosse sua hedionda estupidez, diante dele ajoelhar-se-ia incansavelmente, diariamente e humildemente em adoração.
               Mal acordáramos de um sono reparador, fomos ao desjejum, que era servido no restaurante do lugar, com vistas para aquela "pintura" perfeita. Ao lá adentrarmos, nossa surpresa. Três policiais do Ronda do Quarteirão, que ali recebia o sugestivo epíteto de "polícia turística", se empanturravam das delícias preparadas para os hóspedes. Compunham a "tropa" um oficial graduado – era um major, se bem me recordo – e dois cabos. O oficial exibia uma silhueta mais ou menos atlética, ao contrário dos outros dois, que eram donos da comum obesidade entre nossos policiais. Vendo-lhes comer não é difícil descobrir a razão de tamanho desleixo. São uns glutões de primeira grandeza. Comem como se fossem morrer em seguida, ou como se há três dias não o fizessem. Um deles deu cabo da salada de frutas numa única "colherada". Não me assustei: - seu ventre comportaria uma tonelada de salada. 
               Dali a pouco o major deixou a mesa onde os três se refaziam e se dirigiu a três senhores que lá fora estavam, cumprimentando-os, a cada um pessoalmente, com sóbrios mas demorados apertos de mãos. Eram os proprietários do estabelecimento, dois jovens e um simpático senhor mais entrado em anos. Sentaram-se a uma mesa e demoraram-se a confabular. Os dois outros polícias ainda permaneceram bom tempo a se refestelar, após o que saíram e desceram em direção à parte do hotel que dava para o mar. Bella e eu saímos do restaurante nesse momento. 
               Eis aí o cenário da tragédia. Enquanto comíamos – com uma certa ânsia, já que temíamos não ser possível devido à gula daqueles funcionários públicos –, lucubrávamos. 
               Também somos funcionários públicos. Mas a nós não se permitem esses privilégios de comer gratuitamente em restaurantes particulares sem a devida contrapartida do pagamento da conta. É possível e bem provável que esses senhores recebam, juntamente com seus salários, um auxilio alimentação. Afinal, trabalham nas ruas e, no caso deles, em zona praiana, e precisam ter para as refeições. Mas, se assim recebem, por que não pagam pelo que comem nos estabelecimentos aonde vão? Se nada recebem para pagar por sua alimentação no horário de trabalho, aí sim. O patrão está obrigando o funcionário, cuja função é especial e ainda mais no cenário de violência desenfreada em que vivemos, a esses escandalosos incestos. É bem conhecida, mesmo na capital, a prática desses policiais no que tange a essa relação bastante promíscua com os estabelecimentos que oferecem alimentação, bares e restaurantes. 
               E só agora me dou conta de que posso aqui estar cometendo uma enorme injustiça. Não ter presenciado pessoalmente o momento em que os policiais meteram a mão no bolso para pagar a conta não significa que eles não o fizeram. E assim também todos os outros policiais do Ronda cujas viaturas vemos com freqüência paradas à porta de restaurantes da capital, e sentados à mesa fazendo suas refeições. Presumo que assinem a comanda que será depois, ao fim do mês, enviada ao governo do estado para a devida cobrança.
               Alguém aí já presenciou um policial do Ronda pagando a conta do que comeram nos restaurantes que freqüentam durante o serviço? Eu nunca. Tenho mais o que fazer.