terça-feira, 9 de setembro de 2014

TIRO OU FURTO – a escolha é da vítima

          Ia chegando quando me acenou. Acheguei-me e ele disse:
          -”Soubeste”?
          -”De quê”?
          -”O Cassundé levou um tiro”...
          Antônio Cassundé é um dos rapazes que fazem a segurança do estacionamento superior interno do Instituto Dr. José Frota, o Frotão. Boa praça, pilota, como eu, uma motocicleta.
          Uma sensação de incredulidade ia se apoderando de mim. Estaria bem o Cassundé?, era o que me perguntava, sem a coragem de fazer a indagação cuja resposta poderia me lançar num mar de desesperança e terror. Não tinha jeito; quis saber:
-”E como ele está”?...
          Estava bem. Ao que era de seu conhecimento, o tiro passara de raspão.
          Entrei de férias e nada mais soube do Antônio.
          De volta ao trabalho encontro ali, na rampa do estacionamento, a vítima, o Cassundé. Estava em perfeito estado. Olhando o homem, nada indicava que fora vítima de um balaço. Até mais gordo estava. Cumprimentamos-nos efusivamente, eu já querendo saber os detalhes da quase tragédia. Aconteceu exatamente o seguinte.
          Vinha ele pela Avenida João Pessoa em sua motocicleta num belo domingo de sol quando, subitamente, dois elementos, vindos não se sabe de onde, pularam diante dele. As armas em punho denunciavam o assalto. Numa fração de segundo pensou: “eles vão me matar”... e imprimiu velocidade ao veículo numa fuga, alguém dirá, suicida. Um dos facínoras gritava ao outro: -”Atira! Atira”!
           Tudo se passou muito rápido. Antônio ouviu dois estampidos e, quase ao mesmo tempo, sentiu uma fisgada como brasa ardente nas costas. Seu pensamento era justamente vir para o hospital. Sabia que fora atingido. Já a uma distância segura, passou a mão esquerda na parte detrás do tronco e sentiu o líquido quente e viscoso. Trouxe a mão à vista e confirmou: - era sangue.
          Ao terminar de me relatar o fatídico acontecimento, as lágrimas lhe brotavam nos cantos dos olhos. Contou-me que a bala não lhe penetrara profundamente o corpo, não lhe causando mal maior. Foi, concluiu, pura sorte. O bandido atirou para matar.
          Quase três meses passados da covarde agressão, ele ainda tem pesadelos e dificuldade para conciliar o sono, lembrando-se da cena a cada vez que se deita para mais uma noite de descanso. A estreiteza do fato dentro de um ínfimo lapso de tempo, num átimo por assim dizer, jamais será capaz de exprimir sua eternidade. Para Antônio, aqueles mínimos segundos ganharam uma dimensão única e indescritível. Só mesmo sendo ele, Antônio, para sentir o terrível sabor da humilhação, impotência, desamparo e incomensurável dúvida, naquele instante, sobre o restante de sua vida. É preciso se tornar vítima desta cidade cruel e mortal para se ter a precisa ideia do que este cidadão passou.
          Disse-me, as lágrimas ainda descendo-lhe a face rechonchuda: -”Já tive 5 motocicletas em minha vida, e sempre tive todo o cuidado para não cair, para não me envolver em acidentes... porque tenho medo, sempre tive medo...”
          E continuou:: -”Nunca pensei em passar por isso. A coisa por aqui 'tá difícil, doutor...!”
          Sim, a coisa está difícil por aqui...

                                                                    ***

          Dias depois vinha eu subindo a rampa. Antônio Cassundé, o sobrevivente, me chama. Perguntou:
          -”O doutor conheceu o Monteiro, funcionário da Radiologia? um que puxava a perna”?
          Respondi-lhe que sim, sei quem é o Monteiro.
          -”Mataram ele, doutor...”, atalhou o Cassundé. E arrematou: -”Estava com uns amigos no bar da esquina de casa... Daí chegaram uns caras armados e atiraram pra todo lado. O Monteiro morreu lá mesmo. Nem veio pro hospital...”
          Adentrei o hospital para mais um dia de trabalho, ver os “doentes”, os sobreviventes da doença do tiro. Outros há que cá não vêm. Ficam por lá mesmo, nos bares, nas calçadas, nas casas, nos carros, seus cadáveres a derramar o sangue que mancha a reputação de mais de dois milhões de miseráveis.
          (Estou a conjecturar a possibilidade de presentear o Cassundé com uma passagem de ida e volta a Paris. Quando voltar perguntar-lhe-ei se sofreu por lá o mesmo estresse pós-traumático que ora o aflige aqui. É bem possível que os descuidistas parisienses causem tanto ou mais mal a meu amigo quanto o causaram os facínoras fortalezenses.)
          A coisa está difícil por aqui...