terça-feira, 28 de outubro de 2014

OS APAIXONADOS DE OUTUBRO

         Deixemos para o tempo a demonstração daquilo que o presente insiste em esconder. Óbvio é que, muita vez, mesmo o tempo não ensina nem expõe, não por ser ele incapaz, mas por fato de algumas cegueiras serem persistentes e obstinadas.
         Se o tempo tem lá suas deficiências, há que se imputar também aos apaixonados muito de sua insensibilidade e indolência. Quem já esteve apaixonado e um dia se livrou da química de uma paixão feroz, sabe muito bem sob tais e quais efeitos sofreu. De fato, o que quase sempre se lhe segue é a vergonha, quando, e somente quando, abrem-se os olhos de sua vítima.
         É fácil constatar que existem muitos cujo veneno da paixão é inacabável. Nem para todos se esvai o estado de libação, de modo que jamais experimentarão o embaraço de se perceber um tolo. Como numa ressaca do ex-alcoolizado, cujo comportamento inadequado lhe custa muita reprovação, o que acorda dos efeitos da paixão comumente esconde a face daqueles a quem se expôs.
         Somente os corajosos assumem publicamente seu engano, depois de passado o lapso que lhe serve de evidência, quando os acontecimentos rumam para a demonstração do que é fato e do que é opinião. Há aquele conhecido adágio sobre serem os vencedores aqueles a escrever a história. Será ainda assim em nossos dias? E, mesmo no passado, foi assim? Se o foi, de onde vêm tanto conhecimento e provas que atestam a versão dos perdedores?
         Como exemplo, ainda agora alguns propagam e escrevem sobre a inexistência do holocausto judeu. Seria o caso se perguntar: - de quem serão as ossadas daqueles milhares, talvez milhões, de pessoas sepultas em covas enormes e reveladoras? O que serão aquelas construções cujas tubulações de gás denunciavam a intenção de seus engenheiros junto a alojamentos humanos? E que dizer das fornalhas ardentes próximas às grandes valas a servir de sepulturas indignas? Se não houve o holocausto hebreu, que outro holocausto toda essa evidência evidencia? A versão dos vencidos brada que o holocausto judeu é uma invenção da cabeça dos vencedores. O que, em nome de tudo o que é sagrado, pode a mente humana ainda tramar?
         Voltemos aos apaixonados. Digamos que são uns tolos. São tolos em seu estado de libação, como o bêbado e o drogado o são. E, como eles, os que se enovelam em paixões perigosas estão a um angstrom da violência que caracteriza seu estado; basta que lhes queiram frustrar os anseios ou que, em seu íntimo, estejam a revolta e o rancor pelo impedimento, no passado, de suas fantasias hediondas.
         Não há apaixonado ignorante. Todo apaixonado é inteligente em sua cegueira, um dos efeitos do banho de seu cérebro em mediadores químicos que mais se assemelham a drogas indutoras. Daí o acharmos entre os conceituados, os estudiosos, os religiosos, os magistrados, os docentes, os intelectuais. Por isso parecem - e o são de fato – mais tolos ainda. Não se esperaria tamanha bisonharia de uma plêiade de notáveis e respeitáveis senhores e senhoras.
         Voltemos aos que querem julgar a versão dos vencedores. Presume-se que queiram estar entre os vencidos, ou deles se julguem defensores e guardiães. Daqueles vencidos noutras eras querem o resgate de uma dignidade duvidosa. Por que assim agem e pensam? Têm em seus corações e almas a pureza demonstrada, ou são seus propósitos tão indizíveis que se escandalizam falsamente ante a sua revelação inesperada? Ou será que seu discurso indignado por tamanhas injustiças venha a bem da manipulação das gentes que se enganam e que por eles se apaixonam? As massas humanas tão impessoais e tão injustiçadas, vítimas eternas de seus manipuladores inveterados e recalcitrantes, necessitam, precisam, anseiam seus benfeitores e protetores, a lhes sempre guardar os interesses. 
         E tanto anseiam e tanto esperam. Apaixonados seguem, de modo que sua paixão lhes dá a paciência necessária a mais e mais espera. E aos guardiões dos menos favorecidos, cuja consciência está mais leve, parece ter havido uma enorme mudança na vida de seus protegidos. É preciso apenas um pouco mais de tempo, até que tudo mude verdadeiramente, radicalmente, visceralmente, permanentemente. Esperemos mais um pouco, doze, dezesseis, vinte ou trinta anos. Vejamos, ao cabo, quem contará a história desse tempo – os apaixonados curados ou os então permanentemente apaixonados, a insistir que não houve jamais o holocausto.
         Há ainda um outro tipo – o rebelde. Aos vencedores deram-se todas as chances e oportunidades, e as desperdiçaram obstinadamente. Julgavam-se eternos em sua vitória secular. Venceram ininterruptamente, apenas para abusar de seu talento para explorar. Merecem agora uma derrota, a fim de que os vencidos possam contar um dia a versão que diz de sua incompetência para lutar e, agora sim, contem do holocausto que nunca existiu, que nunca sofreram. Por tudo isso os rebeldes vêm se juntar aos apaixonados e aos guardiões nessa vitória final e esplendorosa da massa de falidos, vítimas de tantos e tantos assassínios. E é assim, famintos de vingança, falidos e doentes, que vencerão essa batalha.  
         Enquanto isso, se esvai a vida.


 Fernando Cavalcanti, 02.09.2010