quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

UM ARTIGO BEM A CALHAR

          Foi com imenso prazer que li, no Diário de Notícias de Lisboa, artigo escrito pelo professor universitário João César das Neves intitulado “O partido que é quinta-feira”. De imediato anexo o link do texto para os leitores que gostam de saborear a leitura (http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=4406216&seccao=Jo%E3o%20C%E9sar%20das%20Neves&tag=Opini%E3o%20-%20Em%20Foco&page=-19).
          Sim, porque não sei se sabem, mas há o leitor que não é leitor, o leitor para quem a leitura é uma tortura e um esforço descomunal, tudo porque não aprendeu a degustá-la como se fora uma deliciosa iguaria culinária. Esse tipo é o leitor que não mastiga; é o que engole a comida sem ao menos lhe sentir o sabor e as nuances de seu tempero. Daí porque o que ele lê não é absorvido, já que a “mastigação” é parte importantíssima da digestão do “alimento” que é a leitura. A analogia com a fisiologia digestiva é perfeitamente aplicável.
          A bem da verdade tive mais de um prazer no mencionado artigo. Ao final da matéria, o editor apôs a seguinte observação: “por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo acordo ortográfico”. Ora, que maravilha! O professor português parece se opor ao acordo ortográfico recente. Não conheço suas razões, mas permito-me deleitar com lucubrações pessoais. É bem possível que ele conceba a opinião pessoal de que o acordo tornou a língua portuguesa mais “feia”, ou menos “culta”, ou menos “clássica”. Eu, que deploro e odeio com todas as forças de meu ser o comunismo, penso que tal acordo tem sua costura enviesada na máquina das esquerdas dos países de língua portuguesa. Por aqui fala-se na tal “variação lingüística” – assim mesmo, com trema – e no “preconceito lingüístico” para validar abortos cometidos contra a norma culta. Pois, quero crer, o professor João César das Neves declara, implicitamente, todo o seu repúdio a esse estratagema escrevendo seus textos à parte desse acordo chinfrim.
          Abaixo alguns trechos primorosos do ensaio permeados com alguns comentários meus.
          “O caso Syriza (partido grego de extrema esquerda que recentemente assumiu o poder) é especial porque, devido ao sucesso eleitoral por que tanto lutou, todos os véus caíram. Os ministros, que há meses eram contestatários românticos sem responsabilidade, encontram-se face a face com um dos mais ingovernáveis países da Europa. Durante umas semanas ainda poderão jogar a desculpa da maldade comunitária mas, se não se demitirem para regressar ao conforto da crítica inconsciente, terão mesmo de acabar por enfrentar os problemas nacionais e construir, lenta e cuidadosamente, caminhos de solução. A retórica incendiária, tão eficaz nas eleições, pouco ou nada ajuda a melhorar a Grécia.”
          Veremos se, agora, conquistado o poder a muito custo, os que antes só contestavam serão capazes de governar o país ingovernável. Ou isso ou permanecerão a imputar à comunidade européia a culpa pelos graves problemas nacionais. O discurso que elege pode até eleger, mas não será capaz de melhorar o país. Que semelhança incrível com o que se faz por aqui!...
       Agora, na dura realidade do mundo real, “o Syriza constatará que muitos dos seus eleitores são culpados de defender benesses e privilégios insustentáveis que, afinal, são a verdadeira causa da crise.” (Onde andará o senhor Giorgio Agamben e seu espantoso cérebro?) Esses eleitores e o próprio Syriza acabarão por entender “que o seu verdadeiro inimigo é a simples aritmética.” O delirante comunista cuja cabeça é das mais influentes do mundo, segundo seus atarantados e babantes admiradores, terá que admitir, enfim, que quem pede dinheiro emprestado tem de pagar e que a melhor forma de fazer isso é usar os recursos para crescer e não para sustentar mordomias e privilégios. Culpar o credor tem servido como discurso que desvia a atenção das mentes dementes, mas não de quem está atento à parafernália retórica dessa gente (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2015/02/uma-besta-menos-besta_1.html).
          “Repudiar a dívida, a resposta preferida dos extremistas de todas as nacionalidades,” – será que no Brasil nossos extremistas não tão extremistas assim fazem o mesmo? – “nada contribui para eliminar a máquina que criara anteriormente a carga. Abandonar a redução de despesas e aumentar impostos, que repudiavam tão vigorosamente como austeridade, implica ver a dívida regressar aos níveis de antes do repúdio, com a agravante de que esse repúdio terá fechado as portas de muitos credores respeitáveis e aumentado os juros dos demais.” Observe-se que as crises não são do capitalismo mas ocorrem no capitalismo causadas por governos incompetentes, irresponsáveis e pródigos.
         “O verdadeiro problema da Grécia, como aliás de Portugal, é construir um Estado que se consiga sustentar sem recorrer a estrangeiros.” Há anos o discurso comunista incrimina o capitalismo. Não enxergam que seu sistema é o fracasso desde sua concepção porquanto prega o calote sistemático como parte de suas “negociações”. Para eles o calote é um ato “revolucionário”.
          Os estrangeiros, “que há décadas sucessivamente canalizam milhões para os países, começam finalmente a perder a paciência. Porque a crise de 2015 não é a primeira, nem a décima vez que a Grécia viola os acordos, pedindo nova ajuda para finalmente resolver a situação, sem de fato nunca chegar a fazê-lo.” Como disse o senhor Agamben, as crise nunca acabam. Mas isso não se deve ao capitalismo, senão àqueles mesmos governos perdulários que se utilizam do populismo e da manutenção dos privilégios nas altas cúpulas para se manter no poder.
          Depois deste primoroso texto penso que não há mais nada a ser dito.