sábado, 21 de fevereiro de 2015

PERIGOSAMENTE FELIZ (PARTE III)

          A pior coisa que pode acontecer a um pobre diabo é esquecer-se do mal que fez a outrem. Pode parecer que esteja-se a dizer o óbvio, mas, se verificarmos a crônica de cada um de nós, constatar-se-á que, mais do que o desejável, frequentemente tal acontece. Quantas vezes somos “vítimas” quando, na verdade, somos os algozes. 

                                                                ***
  O casamento estava acabado. Conviver com a mulher seria uma daquelas penitências absolutamente necessárias e, diria até, imperiosas. A empresa, que funcionava num “puxadinho” construído na área da frente da casa onde moravam, era sua criação, a menina de seus olhos. Ele havia ideado o sistema, um programa de computador, cuja utilidade era indiscutível. O número de contratos só crescera até então. O caixa engordava, para a alegria dos sócios. O diabo era que, como o divórcio estava em vias de se concretizar, os sócios estavam à beira de iniciar uma briga feroz pela “menina dos olhos”. 
De fato, e para não faltar com a verdade, Amorim era a alma da empresa, seu coração e seu sangue. Sem ele o negócio não existiria, nem mesmo sobreviveria, e os quase vinte funcionários iriam, assim, para o olho da rua. Ocorre que, perante a lei, a mulher era a única dona do negócio. Sendo ainda mais preciso, a mulher e sua irmã, cunhada de Amorim, eram as donas do negócio. Empresas daquele tipo, segundo as linhas e entrelinhas da lei, eram obrigadas a nascer de uma sociedade e ele, por ser servidor público federal, estava impedido de nelas ter participação. Tivera, então, a brilhante ideia de constituir as irmãs – esposa e cunhada – donas de fachada da empresa. 
Parece óbvio que em projetos dessa natureza escolham-se pessoas de plena confiança sob pena de ser passado para trás. No caso de meu amigo, não seria a hipotética desonestidade da mulher o grande perigo. O mais óbvio a se pensar é que casamentos eventualmente se desfazem e, em consequência, os bens se tornam, no momento da separação, o foco da ganância de cada um dos cônjuges. Ademais, os motivos pelos quais os matrimônios são desfeitos são, muitas e muitas vezes, os mais sórdidos que se possa imaginar, deixando um dos envolvidos tomado pela decepção, pelo ódio, pelo desejo de vingança, enfim, pelo mais profundo ressentimento.  Amorim poderia ter escolhido o irmão, um amigo chegado, um compadre para receber a missão... Preferiu, sabe-se lá porquê, nomear a esposa e a cunhada. 
Nada mais natural, desde que, em contrapartida, não saísse por aí a envergonhar a consorte. Mulher é um bicho que não tolera infidelidade, hoje em dia. Séculos de anulação e açoites construíram, aos dias de hoje, o tipo de mulher que todo homem deve temer, se quiser com elas prosperar. Um coração ferido não é bem algo que se queira ter  no encalço, caso se esteja pensando em ter paz e sucesso nos negócios. Pois foi justamente o que não observou o Amorim. Deu à mulher todos os sórdidos motivos. A decepção e um profundo ressentimento se apoderaram da pobre mulher e veio, então, o inevitável: – ela iniciou, contra ele, uma lenta e cruel vingança.  
   
                                                              ***

Como sempre fazia, Amorim acordou cedo, às 5 da manhã. Tinha o hábito de ir à padaria comprar o leite e o pão dos meninos. De fato, há muito adquirira tal hábito, antes mesmo de os filhos chegarem. Era um homem pontual e sempre levava o trabalho a sério. O que ninguém sabia era de seu vício, de sua tara. Antes da padaria, passava pela dependência de empregada, uma suíte anexa à cozinha, e olhava como estava a porta. Se estivesse entreaberta, era a senha para adentrar o recinto. Muitas vezes a jovem a fechava completamente, mas tomava o cuidado de não passar a chave. Dessa forma ele poderia facilmente entrar apenas girando a maçaneta.  
As conquistas amorosas de meu amigo eram sempre “domiciliares”. Não era homem de sair de casa durante a noite ou no fim de semana à caça de mulheres. Sua esposa tornara-se fria, desinteressada e distante depois do nascimento dos três filhos. A vida sexual quase não existia, e o casal não se deu o trabalho de sentar para debater o problema. Se alguém lhes perguntasse, diriam: –”Que problema”? Como quase sempre ocorre, tudo isso acaba entrando para a ordem dos acontecimentos naturais e inevitáveis da vida. Era o que, parecia, estava ocorrer com o casal. Para ele, entretanto, não havia problema. Problema, em seu entendimento, era qualquer das coisas com as quais era obrigado a lidar por não ter obtido uma saída ou solução vantajosa. Para a falta de sexo a saída era fácil e, portanto, nenhum problema existia neste quesito. Por sua vez, para ela tudo ia às mil maravilhas. Nem  de perto imaginava que sua diminuta libido estaria a pesar nas prementes necessidades do marido. Como se bem vê, todos os conhecidos, amigos e familiares estavam diante de um casal modelo, de um casal bem casado, de um casal que deu certo...
Desde adolescente Amorim era dado à conquistas das moças que sua mãe contratava para fazer o serviço doméstico, as empregadas. Aproveitava-se da vantagem da proximidade e da comodidade, e saía a arrastar a asa para as jovens. O normal era que obtivesse sucesso naquelas aventuras. Fosse por uma presumida superioridade no estrato social ou por uma submissão hierárquica implícita, sua taxa de sucessos era virtualmente de 100%.  Por sua vez, cada um desses sucessos lhe enchia de confiança e segurança, de modo que esse se tornou o modo habitual através do qual arranjava mulheres para lhe satisfazer o apetite sexual. Com o tempo, isso se tornou, em sua consciência, uma verdade absoluta. 
A outra vantagem é que, com elas, nunca se apaixonava, não havia perigo de se apaixonar. Tal vantagem tornou-se ainda mais evidente quando um inusitado acontecimento ao final da adolescência lhe mostrou que a vida não era somente flores –  a primeira namorada lhe pôs chifres. A sensação de rejeição lhe ficou impressa na alma como uma chaga maligna e indelével. Após o ocorrido, só a lembrança do fato lhe doía como uma úlcera profunda. Concluiu, sem dificuldade, que estivera apaixonado. Percebeu, então, os riscos a que se expõe quando há sentimento, quando há paixão e, provavelmente, quando há amor. Em que pese o prazer que se sente em estar enlevado, a dor que resultou ao final era excruciante e sua vontade e intenção era não mais se deixar levar por esse sentimento. Em suma, no que dele dependesse, jamais se apaixonaria novamente. 

***

Aparentemente a porta estava trancada. Girando a maçaneta, entrou. A pequena já o esperava, como fazia todas as manhãs. Ele se enfronhou nos lençóis e agarrou-se a ela com o afã dos necessitados. Despiram-se entre beijos e carícias. Os passarinhos cantavam lá fora enquanto farfalhavam a copa das plantas e dos arbustos. Fora isso, era tudo silêncio.
Lá dentro,  no quarto do casal, a mulher revirava-se na cama. Um incômodo qualquer a perturbava. Notou a ausência do marido, como de praxe, e deduziu que saíra para a padaria. Tentava reconciliar o sono, não conseguia. Ergueu-se e veio à geladeira beber água. De volta ao quarto percebeu algo esquisito quando lançou a vista para a persiana que dava para fora. Se o homem fora comprar leite e pão, por que o carro ainda estava na garagem? 
O sono suspenso por força de uma indisposição parecia lhe afetar a memória, mas apenas por uns poucos segundos. O passado do comportamento do companheiro se refez rapidamente na lembrança. Como poderia esquecer? Jamais esqueceria. Quando achou, durante a faxina, a fita cassete onde estavam gravadas as conversas entre ele e as bruacas, teve um colapso. Chegou ao ponto de beber Baygon. Por uma semana o hálito fedia a Baygon, não sem antes ir parar no hospital. 
Era domingo. A tarde começava preguiçosa e o sol a pino brilhava amarelo como a chama de uma vela. O telefone bateu e atendi. Era o Amorim. Nervoso, começou a me relatar que a mulher descobrira tudo entre ele e certa senhorita. Estava histérica e até a vizinha viera tentar acalmá-la. O pior é que tomara um copo inteirinho de Baygon. Que faria?, quis saber. Disse-lhe que a levasse ao hospital imediatamente.
Felizmente nada de mais grave resultou à sua saúde por ter ingerido veneno para matar pernilongos. Ela voltou para casa sã e salva, depois de ter passado a tarde inteira e o início da noite na Emergência. Os dias que se seguiram fogem do meu conhecimento. Somente o casal e os filhos sabem dos bate-bocas, dos insultos  e provocações mútuas que ambos trocaram entre si. E a vida assim seguiu até que a mulher, sem o menor temor do que poderia presenciar, resolveu ir até os aposentos da empregada munida da certeza absoluta de que seu marido estaria lá.

***

Parecia que o pandemônio se instalara na casa àquele dia. Os pequenos não foram à escola, Amorim não foi trabalhar, e até chamou-se a polícia para acalmar os  ânimos. Na empresa, os funcionários revezavam-se no leva-e-traz das fofocas. Não era pra menos. A mulher do patrão pôs a pobre jovem para fora de casa como se ela fosse uma morfética coberta de úlceras e chagas, não sem antes apoderar-se de todos os seus documentos ameaçando jamais devolvê-los. Escorraçou-a quase a vassouradas e chineladas, não fosse a intervenção  de alguns funcionários que acabaram, inevitavelmente, por assistir a tudo de camarote. 
Depois deste fatídico dia, o casal passou a dormir em quartos separados.