segunda-feira, 4 de julho de 2016

É COMO SE JAMAIS HOUVESSE EXISTIDO

              O meu amigo Pinto escreveu-me para pedir explicações sobre a crônica publicada ontem neste blog. Queria saber, afinal, se eu achava se seria melhor sobreviver ou se o melhor mesmo seria ter razão. Respondi-lhe que o preferível é o sujeito vivo e saudável sem nenhuma razão ao indivíduo mortinho da silva e cheio de razão. Assim, concordamos que esse negócio de se insistir em ter razão é coisa de gente que não tem amor à vida, nem à sua nem à alheia. E assim nos despedimos.
                Após passado um dia inteiro, ocorreu-me que a estória relacionada ao motociclista pode ser extrapolada para qualquer outro aspecto da vida. Por exemplo, o meu amigo Amorim.
                Não sei se sabem, mas Amorim amancebou-se. Sim, após o divórcio da esposa, sem nem deixar o defunto esfriar saiu a enamorar-se desta senhorita de poucas prendas e pouca idade. O resultado, como bem se pode depreender pelas infindáveis crônicas que a vida proveu neste tema, foi a falência completa do amigo. E nem falo somente da falência material, mas aponto também a miséria afetiva, moral, e até espiritual. Dirá alguém inteirado do episódio que o homem fazia lá suas preces e rogava favores divinos, mas mesmo os santos o abandonaram, quero crer. Não sei se por conta de uma súbita fé a denotar o caráter puramente interesseiro do pedinte, ou se por causa de suas ladainhas intermináveis, o fato é que o santo, ao que parece, dormia àquela zangurriana, uma cantilena modorrenta e chorosa... Dormindo o santo, nenhum milagre ocorreu, e o meu amigo vem, de fato, ao longo dos últimos anos, comendo o pão que o demo amassou.
                Os caros e rarefeitos leitores já se exasperam para saber a relação que há entre a escolha referida acima, trazida novamente à baila hoje pelo meu querido Pinto, e o drama do Amorim. Tentarei explicar já adiantando que nada há de complicado, como bem poderão apreciar.
                Ocorre que o amigo e a jovem à qual se associou viviam em querelas e questiúnculas sem fim. Digo questiúnculas e já me corrijo, visto que nada há de mais sério contra uma relação amorosa do que a perda da confiança. A jovem fez lá as suas estripulias bem como o meu amigo, de modo que na história não havia auréola a pairar sobre a cabeça de ninguém – eram os dois uns safardanas de marca maior. Assim, tornou-se comum o bate-boca infindável e improdutivo a cavar ainda mais fundo a cova do relacionamento. Os entreveros serviam a medir forças para ver quem tinha razão. Resultado – o apartamento, a separação, o novo divórcio do amigo, e a conclusão de que ninguém tinha razão.
                Dirá alguém, apelando à mutualidade exclusivista de nossa tese que, se ninguém tinha razão, então alguém sobreviveu o que, com efeito, é verdade. Ambos sobreviveram. Continuassem a disputa e teríamos, quem sabe, um daqueles crimes passionais onde um trucida o outro enquanto dorme. É bem verdade que houve uma morte – a do relacionamento. Diríamos, à essa argumentação, que antes se vá o substantivo abstrato que o substantivo concreto, e que antes se cavem sepulturas na alma que na terra. O que morre dentro de nós é como se jamais houvesse existido.