quarta-feira, 23 de maio de 2012

Raparigas, uni-vos!


Os que me lêem nativos de outras paragens, é provável, não conhecem o significado do verbo raparigar. Com efeito, nem mesmo os dicionários da língua portuguesa, exceção feita, talvez, aos informais cujo conteúdo se constrói à moda contínua através da participação de quem o desejar e, obviamente, aos autóctones desta terra alencarina. Os participantes na construção de tão inusitado cartapácio eletrônico e virtual procedem de regiões diversas que, seguramente, têm lá suas próprias formas e trejeitos de sentir e ver a vida e, por conseguinte, de expressá-los e dizê-los à sua moda. Por isso é bastante possível que já alguém deste torrão tenha feito o favor aos demais falantes do português “informal” de avisá-los do significado do que seja raparigar.
            Para que não saiam a alastrar aos vários cantos do mundo que estou a dizer asneiras, basta que se vá ao link http://www.dicionarioinformal.com.br/raparigar/ e se constate se o que falo tem ou não lastro. Provado por A+B a minha aparente inútil tese, passo a dizer-vos do porquê de tê-la trazido à baila. Ocorre que o cearencês, língua própria dos habitantes e residentes do Ceará, comete das mais torpes injustiças ao incluir em seu jargão semelhante verbo derivado do substantivo rapariga. A injustiça se faz, como é fácil inferir, às mulheres, especialmente às jovens.
            Feminino do substantivo rapaz, rapariga significa mulher muito nova, moça ou menina pequena e, no Brasil, meretriz. Vê-se que no Brasil, e especialmente no Ceará, raparigar passou a significar ir à caça de meretriz(es). Bem poderia significar ir à caça de moças, mas, por uma obscura razão que não atino, não é assim. O sujeito que sai para paquerar ou flertar sai para raparigar.
            É bom que se diga uma ressalva: o verbo ou a atividade de raparigar é empregado na maioria das vezes quando o agente que rapariga (3ª pessoa do singular do presente do indicativo – eu raparigo, tu raparigas, ele rapariga) é um mancebo casado ou comprometido de alguma forma. Usando uma expressão inglesa que serve bem à idéia do sujeito compromissado, diremos que o sujeito is engaged ou, se o caso for mais sério, is engaged to. É possível que aí se incluam também os casados. Óbvio é que essas considerações aparentemente prolixas e hiperbólicas não estão a excluir os solteiros da tão agradável atividade de raparigar. Solteiros também raparigam (3ª pessoa do plural do presente do indicativo). E muito! Entretanto, via de regra o sujeito que sai para flertar sendo livre e desimpedido jamais dirá de si mesmo que está a ir raparigar. Ele sai para se divertir, jogar conversa fora, tomar um drinque, flertar. A não ser que vá de fato no encalço de dissolutas, nunca dele se dirá o que se diz sempre dos que are engaged quando saem desprovidos de suas consortes. Digamos, para encerrar de uma vez por todas essa lengalenga, que raparigar é sempre atividade dos comprometidos ao passo que é, nos solteiros e desimpedidos, uma atividade circunstancial. Não sei se me faço entender.
            Devo alertar ao meu leitor que essas conclusões são, todas, fruto da pura e simples observação. Seria o caso de imputá-las ao método científico. Reparem bem – ponham um casado varão vigoroso a se aventurar à noite de uma grande cidade e comuniquem o fato à sua esposa. À manhã do dia seguinte, de volta ao lar seguro e saciado, será abordado pela mulher que lhe fará a seguinte pergunta: -“Onde o senhor foi raparigar?” Ainda que o nesse momento infeliz diga que esteve a parlamentar e rir-se com amigos, a cônjuge partirá do princípio que ele saiu a flertar com todas as mulheres que viu. Aqui dou cabo daqueles que julgavam a minha tese ainda por ser provada – se o varão flertou ou fez a corte a alguma linda mulher que por acaso tenha visto no restaurante ou taverna ou bar onde esteve nada disso demonstra que ela seja uma notória rameira. Conclui-se daí que a consorte do varão que nos serve de exemplo incluiu todas as mulheres do lugar sob a balda de galdéria, o que obviamente está longe da verdade. Mesmo os lupanares mais ordinários têm lá suas faxineiras que não serão incluídas entre as “funcionárias” do lugar.
            Assim, fica provado com usura que o verbo raparigar é muitíssimo mais utilizado por mulheres de maridos e por noivas de noivos e similares. Foi o que ocorreu outro dia ao Amorim, que saiu a bebericar e palrar comigo. O homem vinha lá sob o peso de determinada apoquentação quando, numa coincidência providencial, bati-lhe o telefone portátil. Quando lhe fiz o convite a vir me encontrar ele sentiu dirimir-se por inteiro sua justificada aflição como se largasse de sobre os ombros pesado fardo. Correu à casa na tenção de trazer consigo a mulher e a encontrou dormindo. Resolveu, então, vir sozinho ao meu encontro, do qual se despediu cedo por zelo a ela. Ao dia seguinte a pergunta: -“Onde o senhor foi raparigar?”
E quereis saber? Não estivemos em alcouce àquela noite. Não somos dados à sua freqüência. Para as esposadas, todas as outras mulheres são raparigas. Agora percebeis a injustiça de que falei ao início.
Alastra-se como a praga mais contagiosa de nosso tempo a idéia inútil e parva de que a língua e a linguagem são instrumentos de opressão e de discriminação. Por exemplo, se há trinta mulheres e um único homem numa sala diz-se sobre eles: -“Eles estão na sala.” Pois esse eles é opressor, já que um mísero exemplar do sexo masculino impôs o uso do pronome masculino como sujeito da frase numa situação onde também havia trinta mulheres. Assim, percebe-se que o homem, em pleno século XXI, ainda subjuga a mulher e a trata a socos e pontapés como no tempo das cavernas. Uma mulher americana do norte – não sei se as inglesas também – diriam a esse desusado grupo na sala, ao cumprimentá-lo: -“Hi, guys!” Vejam bem: guys! É que por lá guy, no singular, significa “homem”, ou “rapaz”, ou “companheiro, amigo”; no plural refere-se a pessoas de qualquer sexo indistintamente, “pessoal”. Então nossa norte-americana hipotética estaria dizendo ao grupo da sala: -“Oi, pessoal!” O nosso eles, ao que me parece, bem que merecia ser visto da mesma forma, mas a praga contagiosa do ranço e das idéias inúteis o impede.
Tornamo-nos senhores do excesso inútil. Baixou-se uma lei “especial” que prevê a punição aos homens que agridam suas mulheres. Ora, se já há uma lei que prevê a punição do ser humano de qualquer sexo que agrida qualquer outro ser humano de qualquer sexo, para quê tal lei? A própria lei torna-se discriminatória e revela a suspeita da existência do surgimento de um preconceito às avessas. Vejam que as raparigas são o preconceito das estabelecidas contra as outras. Sabem que a figura que mais as assombra é a amante. Assim, resta apenas pôr de parte um conselho a estas: amantes, uni-vos! Ou, melhor: raparigas, uni-vos!