sábado, 5 de maio de 2012

ONTEM FIZ 51


                Ontem fiz 51.
            Lembra-me que há exatos três anos escrevi uma resenha de mim mesmo (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2016/05/resenha-de-mim-mesmo.html). Permanece à realidade do tempo passado tudo como lá está deitado à página. Em outras palavras, tudo confirmo. Ao final anelei: “Oxalá possa fazer algumas reflexões o ano que vem”. O ano que vinha passou, depois dele mais um, e cá estou novamente à beira de novas reflexões. Previno: não serão tantas quanto aquelas.
            Em primeiro lugar, a pensar em números, é uma quantia bem razoável de dias, pouco mais de 18.615. Coloquem-se aí os bissextos a cada quatro anos e teremos mais quase 13 dias. Ou seja, estou vivo há quase 18.630 dias. Não é algo a se desprezar. Terei feito muitas escolhas que o tempo demonstrou serem incorretas, o que me levou a uma larga experiência. Esta, por sua vez, me está a capacitar a fazer, hoje, melhores escolhas. É preciso tempo, em suma. Eis aí ele, o meu tempo.
            Que de novo me trouxe a vida após aquelas reflexões? A perda do que chamo um “amor essencial”, a morte de um ente próximo, tão próximo que faz a dor ser em parte substituída por uma espécie de perplexidade, foi a novidade dos últimos três anos. Não por isso ou, talvez sim, justamente por isso, voltei com maior e mais aguçado interesse à busca das questões também essenciais. Muito cedo fui impelido a elas. A vida, contudo, é alienante em todos os aspectos. Seus ventos e vendavais nos lançam e nos levam para distante delas. Diga-se que sempre há uma enorme colaboração de nossa parte nesse distanciamento. Buscar tesouros que a humanidade insiste em esconder sob o peso dos milhões de dias de nossa perambulação no planeta não é tarefa fácil, a não ser que o que busca se dê algumas horas de seus poucos dias a ela. Ademais, há o amontoado de tralha científica e idéias absurdas. Dirá alguém que há de se exercer e respeitar a liberdade de idéias, e eu direi que mais ainda há que se exercer e respeitar a liberdade de combatê-las quando afrontam a inteligência do homem. Não é fácil romper paradigmas seculares. Como disse o Nelson Rodrigues, toda unanimidade é burra, ao que o Rubem Alves completou afirmando que as massas são destituídas de caráter e adquirem sérios desvios da boa ética.
            Os de língua inglesa usam uma expressão que considero extremamente poética para dizer que alguém já não vive. Dizem que fulano passed away. Assim, a essas alturas, em torno dos 50, começa-se a perder o que nos lúdicos anos jamais se pensou perder. Pois para mim chegou o que nunca imaginei chegar.
            Uma outra novidade foi o segundo divórcio, que para nós representou tão somente a solução simples para um problema mais simples ainda. Ambos o queríamos. Libertar-nos-ia de nossa teimosia em fazer vicejar o que já não vivia. A amizade se nos apresentava como a excelente alternativa e ungüento à nossa frustração dos sonhos sonhados e comprovadamente impossíveis de se realizar. Passamos por isso de forma madura e em paz. Há coisas que só se fazem a dois. É necessário que apenas um agrida durante o processo do divórcio para que tudo descambe em direção aos poços mais profundos e lamacentos. O outro vai junto ainda que não queira. Será o momento em que se percebe quão errada foi a escolha. O divórcio não é necessariamente um fracasso ou sinal dele. Se maduramente escolhido é, como já disse, a simples solução. O que se faz a dois é escolhido a dois, e tudo a dois é bem mais complexo. São dois quereres, duas vontades, dois mundos, duas vidas, duas noções, várias concepções individuais em dois seres humanos completamente diferentes. Gabriel García Márquez expõe de forma magistral as reflexões íntimas que faz um casal, cada um a seu modo e de modos bem parecidos, sobre a sua situação de casal, de ser casal, de pertencerem à instituição casamento. “Uns ressentimentos mexeram em outros, reabriram cicatrizes antigas, transformaram-nas em feridas novas, e ambos se assustaram com a comprovação desoladora de que em tantos anos de luta conjugal não tinham feito mais do que pastorear rancores”, é uma dessas inúmeras passagens de seu “O amor nos tempos do cólera”. Para o casal Juvenal Urbino e Fermina Daza a solução veio à velhice com a morte do primeiro. A nossa veio com o que considerei um bom divórcio.
            Minhas reflexões levaram-me a conjeturar sobre o que me parece o óbvio. A união entre um homem e uma mulher no casamento é uma instituição criada pelo Criador ao tempo em que comungavam com Ele vida santa e irrepreensível. Após o alijamento do homem daquela comunhão, o casamento tomou contornos e moldes humanos, sem a invocação do divino. E nos moldes do homem tudo apodrece. O que o G. G. Márquez demonstra em seu romance é a aparência degradada da instituição divina, posto que humanamente impossível juntarem-se peças corrompidas em união feliz por delongado tempo.
            Em conseqüência do apartamento do casal do qual era parte tornei-me um solteiro convicto, uma experiência que há tempos não experimentava. E o melhor – descobri-me um solteiro convicto nato que se sabotou à verdura dos anos. Serodiamente descobri que, sim, somos nossos maiores sabotadores. Os outros apenas fazem conosco o que permitimos, e frequentemente nos permitimos a sabotagem, por si mesmos ou através de outrem. Não seremos culpados por adoecer, em tese. E o somos, quando agredimos o corpo através de uma vida desregrada e degradante, imersos que estamos num mar de carcinógenos carregando nossos já degradados genes por ação de nosso apartamento da árvore da vida. Assim, a solteirice se abateu sobre mim como uma dádiva e como uma bênção. Descobri-me um homem por demais espaçoso, ou cansei-me da coabitação, das duas uma. Qual a importância da causa da vontade de morar sem companhia? Nenhuma importância. A muitos pesa o medo de envelhecer sozinhos, ou de passar mal à madrugada, ou de morrer sem a tentativa de um socorro, e escondem seu egoísmo pondo-se ao lado de qualquer um. Que importa? A morte há de ser como um beijo doce que faz dormir. Pior que isso só a tortura do viver.
            Por agora já me vão ditas as novidades. E, repito, oxalá possa fazer novas reflexões ao próximo ano.