quinta-feira, 28 de junho de 2012

Os camaradas do "Kamarada"

          Os amigos me conhecem; sabem que vez ou outra sou assaltado por obsessões tremendas e recalcitrantes. Vê-se aqui o emprego proposital de uma tautologia. A intenção é essa mesmo: teimar, não inutilmente, tanto quanto possível. 
          Ontem dediquei-me ao "Kamarada" de meu amigo Mauro Oliveira. Hoje quero me ater aos camaradas daquele. O tema teve início com a história da aliança política entre Lula e o famigerado Paulo Salim Maluf. Hão de se lembrar que ela foi coroada com abraços e tapinhas às costas entre ambos. Pareciam amigos de anos, companheiros de lutas, comparsas revolucionários. É bem possível que em defesa do "Kamarada" saiam em seu socorro irado séquito que bradará aos quatro cantos do mundo que a aliança não é pessoal – é institucional. 
          Mas voltemos ao meu amigo Oliveira e seu artigo de antes de ontem no jornal O Povo de Fortaleza(http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2012/06/26/noticiasjornalopiniao,2866315/o-kamarada-e-os-camaradas.shtml). Mauro queria explicações de Lula a fim de "não o confundirmos com alguns de seus camaradas". 
          Um dos camaradas do "Kamarada" é a senhora Luíza Erundina, que seria o vice na chapa de Fernando Haddad, do PT, a concorrer à prefeitura da maior cidade do país. Apesar de não mais integrar o quadro de militantes petistas desde 1997, ela permaneceu nas fileiras da esquerda brasileira ao se ligar ao PSB em 1998. Disse ela que o "Kamarada" passou dos limites ao tirar fotografia no jardim da casa do senhor Maluf, e se negou a permanecer na chapa. Saiu. Foi coerente. Afinal, ela e Maluf são adversários históricos, o que nem de longe parecia ser o caso com o "Kamarada".
          Voltemos a 1992, quando Erundina foi convidada pelo então presidente Itamar Franco para ser a ministra-chefe da Secretaria da Administração Federal, e aceitou o cargo. Que fez o PT de Lula e Erundina? Suspendeu por um ano seus deveres e direitos partidários. Segundo a nota divulgada pelo partido, ela teria rompido com a disciplina partidária ao não consultar a legenda sobre o assunto, e ao desrespeitar a decisão do partido de fazer oposição a Itamar. 
          Antes disso, em 1988, ela se elegeu prefeita de São Paulo após vencer as prévias de seu partido sem o apoio de seus maiores cacifes, o "Kamarada" e os camaradas José Genoíno e José Dirceu, que apoiavam o deputado constituinte Plínio de Arruda Sampaio. Sua administração foi marcada com importantes medidas na área educacional, saúde, educação, esportes e transporte público. Atualmente exerce seu quarto mandato consecutivo como deputada federal por São Paulo. E nem falemos de sua origem humilde no nordeste brasileiro, natural do interior da Paraíba e filha de um artesão de selas e arreios de couro. 
          Quanta semelhança e quanta diferença entre esta valorosa brasileira também perseguida do regime militar e seu "Kamarada"! Quanta distância os separa na coerência, na frugalidade das ambições, na persistência em seus ideais, na realização por competência! Quanta diferença em tudo entre ela e os outros camaradas do "Kamarada", José Dirceu e José Genoíno! estes desde o começo unha e carne com o mesmo "Kamarada" a quem meu amigo Mauro pede explicações e teme por sua semelhança com aqueles!
          As notícias de hoje dos maiores jornais do país dão conta de uma substituta para Erundina, a senhora Nádia Campeão, do PC do B, ex-secretária municipal de Esportes na gestão da senhora Marta Suplicy, outra conhecida camarada cuja língua é bem conhecida em seus rompantes de insensatez. Detalhe: antes de escolher a candidata o PT consultou o senhor Paulo Maluf sobre sua aprovação, e ele anuiu positivamente. Vede a que ponto chegou o único partido praticante da ética da virtude no país! 
          A mensagem que enviaria hoje a meu querido Mauro, homem de bem, homem culto, inteligente além da conta, sensível, abnegado, lúdico, alegre, quimérico, enfim, um ser humano de primeira linha, seria: "querido Mauro, é urgente que mais brasileiros exijam as mesmas explicações que tu demandas. Somente essa tua dúvida, uma vez grassada, será capaz de lobrigar em meio à cegueira da paixão que ainda resta por tão decepcionante 'Kamarada' uma nesga de luz a aguilhoar a razão. Forte abraço do amigo qua ainda mais te admira".