terça-feira, 26 de junho de 2012

Laissez faire, laissez aller, laissez passer – o jeito cearense de ser

          Deveis ver o que postou uma amiga na página da rede social. Escreveu assim: "Não dá pra negar a capacidade do cearense de ser gaiato. Já ri muito com essas fotos e comentários sobre a chuva de hoje". Conclui-se que na rede social se fez a maior papagaiada sobre a estrondosa chuva que caiu sobre nossa Fortaleza à última sexta-feira. Digamos melhor; não foi sobre a chuva que se falou – falou-se sobre seus efeitos e consequências, e sobre a aflição do povo.
          Disse o jornal que abriram-se buracos, caíram imóveis, muros, árvores e tudo o mais cuja estrutura não fosse forte o bastante para resistir à força das águas e correntezas que delas se formaram em alguns logradouros; carros foram arrastados e largados ao deus-dará por proprietários apavorados de serem tragados pela força das águas; pedestres se amotinaram em lugares altos e até em árvores temerosos de se verem achados afogados mais tarde. Enfim, sobre tudo isso se fez piada na rede social.
          Se bem observastes, a chuva da sexta passada – hoje é terça – já foi quase esquecida. Não, não – já o foi totalmente e plenamente. Somente dela estão a lembrar-vos agora porque estou a ventilar-vos a memória sobre a matéria. Não fosse isso e ela estaria já bem guardadinha em vossos subconscientes, quiçá em vossa lixeira mental. Deixem-me, pois, lembrar-vos um ou outro detalhe que julgo premente ser trazido à baila ainda que a essas alturas.
          Haveis de lembrar que aquela precipitação bem pode ser dividida em duas fases: a primeira e a segunda. A primeira, ainda que mais impetuosa que o ordinário, terá sido bem menos que a segunda, cuja força e volume foram infinitamente maiores. Entre ambas, um intervalo de calmaria que creio ter iludido a todos quanto ao seu fim. Pareceu que ali tudo se esvaía e o sol abraçaria o restante do dia após evanescente período nebuloso. Mas qual! Em uma hora pouco mais ou menos eis que novamente abriram-se as comportas dos céus e caiu sobre nós aquele aguaceiro medonho, em cúmulos-nimbos e nimbos-estratos vistos pouco antes ali, da Praia do Futuro, em alto mar a se aproximar. Ali na Avenida Beira-Mar, à altura de Tereza Hinko, as eternas sarjetas – três ou quatro em série, se não me engano – que sempre se rompem e cospem de seus canos podres e junturas milenares suas águas pútridas ricas em matéria orgânica em decomposição, já estavam a drenar em jato seu conteúdo fétido, sempiterna falta de vergonha de nossa companhia de águas e esgotos, a dar suas dolorosas e descaradas explicações que aceitamos com nossas também sempiternas  leniência e pusilanimidade. Assim, o temporal se esgueirou por toda a tarde e só amainou ao início da noite, quando o céu antes encanecido se enegreceu destituído da luz da lua e das estrelas.
          Mais tarde, hora em que se sai em busca de um lazer – um bar, um restaurant, uma boite –, quase ninguém se arriscou. Fosse por medo de uma possível insistência do temporal que já nos havia pregado uma peça tendo deixado após si seu rastro de destruição e danos, fosse por uma espécie de hang over que houvesse colhido a quase todos num torpor pós-traumático, quase nenhum cidadão se aventurou a deixar seu lar àquela noite. Novo engano: não houve chuva além. 
          Fácil demais entender as avaliações incorretas de nossos concidadãos. A Funceme, Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos, dava, em sua página da internet e à hora mais estrepitosa do temporal, uma previsão up-to-date mais – muitíssimas vezes mais! – amena. Falava que teríamos tempo nublado com chuvas esparsas, e expunha uma fotografia tirada a partir do satélite que demostrava com clareza uma enorme massa de pesadas nuvens sobre nossa região.  Vede como estamos mesmo muito mal informados e mal assessorados em termos de informação meteorológica, e talvez em termos de muitas outras coisas, vale lucubrar. É possível que a mesma Funceme tenha dado mais tarde, após o início da noite, a informação, atrasada, de que uma chuva torrencial se aproximava, e as pessoas hajam se recolhido temerosas de se expor a seus perigos. 
          Pois foi isso tudo o que açulou a veia cômica do fortalezense. Sabeis sobejamente e fartamente que os cearenses somos um povo dado ao cômico, à pilhéria, à galhofa. Vede que não me refiro ao chiste comum, inteligente, mordaz. Gostamos da facécia espalhafatosa e estrepitosa, como foi a chuva; nossa maior criação é a vaia, forma estrondosa e ruidosa de chacota mesclada a ao largo e debochado sorriso, de preferência em coro, em grupo numeroso de pessoas. Uma vaia solitária não é uma vaia: é um grito destituído de sentido. Uma verdadeira vaia cearense há de ser ouvida ao estádio de futebol lotado, o Castelão, quando, por exemplo, um jogador do Ceará aplica um drible desconcertante a um jogador do Fortaleza, ou o contrário. Duas enormes torcidas, cada uma a espera de um desses momentos aprazíveis para entoar sua maior galhofa: a vaia pelo "traço" monumental e humilhante. Eu diria, talvez mal comparando, que as péssimas consequências da chuva de sexta tenham levado uma fenomenal e estridulante vaia. Ou isso ou a vaia foi ao povo delas vítima. 
          Cearense não vaia objetos, exceto por uma exceção: o sol. Para quem não sabe o sol já foi vaiado por estas paragens cearenses. Consta que havia tempos não chovia, e eis que veio uma chuva  maviosa, melíflua e apaziguadora da canícula infernal habitual, regadora do solo e dos açudes sedentos e enxutos. Dali a pouco – foi na Praça do Ferreira – abre-se sorrateiramente uma brecha entre as nuvens por onde vem o astro-rei se embrenhar e se enxerir como menino travesso. A turba que lotava a praça não perdoou: apupou-o freneticamente com tal e qual ira de quem se vê frustrado e decepcionado. Teria sido agora a chuva o motivo da vaia virtual e internética? Seria agora a chuva a razão da vaia virtual?
          Os comentários e fotografias postados à rede social davam conta de carros revirados; pessoas em barcos salva-vidas, encharcadas em paradas de lotação, subindo em postes de luz e muros; enfim, pessoas sofrendo por sua visível vulnerabilidade perante fenômeno comum, como uma chuva mais forte, numa cidade de quase 3 milhões de almas, cuja "obrigação" seria já ter obtido e construído a infra-estrutura necessária para resistir-lhe. Se as postagens estivessem a dar conta do drama das pessoas, teríamos presenciado um momento do lamento solidário de seus concidadãos. 
          Mas eram apupos. Sou tentado a concluir que o fortalezense vaiou a si mesmo. O sol permanece solitário como o único objeto inanimado vítima da nossa comicidade e desdém. No mais são as pessoas, nós mesmos, que nos embrenhamos a escarnecer de nossas próprias mazelas, criadas em nosso estilo laissez faire, laissez aller, laissez passer de viver. Nós gostamos mesmo é de vaiar o outro.