quinta-feira, 19 de julho de 2012

Provável unanimidade, provável burrice

          Um corajoso amigo convidou-me na rede social ao grupo "aposto que consigo encontrar 20 mil pessoas que odeiam o Ceará", referindo-se ao time de futebol, muito bem entendido (https://www.facebook.com/pages/Aposto-que-consigo-encontrar-20-mil-pessoas-que-odeiam-o-Cear%C3%A1-/171898536274881). 
            De relance, sem deitar muita atenção a princípio, imaginei-o odiando o estado da federação. Num desses pensamentos em que se concebe na mente, numa bilionésima fração de segundo, quatro ou cinco deduções fatais e irremediáveis – num desses silogismos múltiplos e feéricos – conjeturei o amigo aliciando uma revolução anunciada e vitoriosa tamanha a audácia da pregação. O amigo, que mora há muito no exterior, estaria empenhado em destruir o Ceará à distância. Contudo, como já disse, o ódio se referia ao time de futebol. Quer ele  angariar ódios ao time, não ao estado, portanto.
          Celeumas e desamor à parte, fiquemos com outra coisa qualquer. E o que seria? Nem imagino. Talvez devêssemos ficar com o suposto ódio ao Ceará estado da federação a fim de ver no que vai dar. Fiquemos com a celeuma e o desamor geográfico. Imaginemos que meu amigo odeie o estado do Ceará e, por tabela, o Brasil. Ora, é seu direito. Nem críticas merece. De modo oposto, seu ódio há de merecer uma apreciação detalhada e circunstanciada. Nem se obriga a que todos tenham a mesma opinião. Dizia o Nelson Rodrigues que toda unanimidade é burra.
          Veja-se, por exemplo, o meu querido amigo Mauro Oliveira, o homem do "Kamarada". Estudante em Paris, lá ia – e ainda vai! – muitíssimo. Antes ia estudar, hoje vai palestrar. Eis que um dia, numa de suas idas e vindas à Cidade-Luz, estava, à noite de uma sexta, na Avenue du Champs Élysée. Conhecida por seu mítico charme, Champs Élysée atrai a todos segundo a unânime idéia de que suas noites seriam incomparáveis e inigualáveis às de qualquer outro boulevard.
         Ora, o meu Mauro Oliveira sentara-se a uma daquelas mesinhas redondas que os bares e restaurantes parisienses dispõem ao lado de fora, na via de pedestres, com as cadeiras voltadas para a calçada, e punha-se a degustar um delicioso Bordeaux de 50 euros. Descia-lhe o vinho pela goela enquanto petiscava uma baguette tradition molhada em molho picante, o pensamento a voar para longe, para a terra natal. Pensava: -"Ai! que vontade de estar na Zug agora...!" Note-se que nem o fuso foi levado em consideração; o homem queria a Zug já! naquele instante! naquele momento! como as improrrogáveis  necessidades e urgências fisiológicas de que por vezes somos acometidos. Bem se vê que nem a Champs Élysée é lá essa unanimidade toda. 
          Pois aí está demonstrado que meu amigo bem poderia odiar o estado do Ceará e é provável que seu ódio nos livrasse da estupidez de nossa unanimidade. Então, vejamos: por que haveria o meu amigo Valdísio – o nome dele é Valdísio – de odiar o Ceará? Que odeie o time até se entende – o homem é Fortaleza doente; mas odiar o Estado? Não é o caso; nem é possível persistir em tal suposição. Ela não se fundamenta. Ele nasceu e se criou aqui; teve uma infância sadia e feliz aqui; sua família lhe ensinou aqui as virtudes essenciais necessárias a que se forje um ser humano de bem. Não lhe seria possível olvidar tudo isso, por mais longe que fosse. Conclui-se, sem a menor sombra de dúvida, que ama deveras seu berço natal. 
         Confesso: a culpa de tal mal-entendido foi toda minha, supor um ódio tão impossível. Alguém dirá que ódio é ódio, um sentimento que se deve banir de si, fosse qual fosse o objeto, e provavelmente estará correto tal pensamento sobre sentimento tão ruim. Dos males o menor – meu amigo mora tão longe que mal nenhum fará que odeie o Ceará, o time de futebol. Não estará sujeito às represálias de seus torcedores nem a qualquer outra vicissitude semelhante. Oxalá não encontre por lá, onde mora, um torcedor de seu arqui-rival. Aí, em breve teríamos a má notícia de dois torcedores cearenses a se esganar além-mar por causa de times de futebol. O Lima Barreto estrebucharia na campa. Uma vergonha!....


"...mas o tal de futebol pôs tanta grosseria no ambiente, tanto desdém pelas coisas de gosto, e reveladoras de cultura, tanta brutalidade de maneiras, de frases e de gestos, que é bem possível não ser ele isento de culpa no recrudescimento geral, no Rio de Janeiro, dessas danças luxuriosas que os hipócritas estadunidenses foram buscar entre os negros e os apaches."

(Lima Barreto em "Marginália")