sexta-feira, 27 de julho de 2012

Preciso sofrer!


            Ando na busca de um sofrimento. Sim, preciso urgentemente sofrer. Tenho escrito numa rarefação de atmosfera lunar. A razão é óbvia – não tenho sofrido o bastante.
Uma amiga que me lê já não me lê. Ou, melhor, quase não me lê. E, se me lê, nada diz, nada comenta. Sendo franco, ela me lia. Sei que me lia porque dizia que me lia. E dizia porque eu escrevia o que a enlevava.
Uma outra foi mais específica e mais direta. Disse-me de supetão: -“Não gosto quando escreves sobre a Unimed!” E tudo porque houve um tempo em que a Unimed Fortaleza me era uma obsessão. O tempo passou, fechei o consultório, a Unimed deixou de me fazer sofrer. Ontem mesmo encontrei no hospital o meu amigo Sales, que se queixou da Unimed. Fez um rosário de reclamações, e por fim concluiu: -“Tá difícil! Tá difícil!” Eis aqui a mais soberba prova de que o escritor precisa sofrer para bem escrever, ainda que certos temas só interessem a um número de pessoas equivalente à torcida do Ferroviário. (Estima-se que o Ferrim, carinhoso diminutivo do Ferroviário e tradicional escrete do futebol cearense, tenha hoje algumas poucas centenas de torcedores.)
Minha amiga que me lia, minha ex-leitora, gosta dos temas intimistas, da prosa poética, da leitura que fala ao coração. Conclui-se, sem a menor sombra de dúvida, que meu coração vai muito bem, obrigado. Se dele viesse um sofrimento que fosse, uma leve angina pectoris que fosse, eu havia de me derreter nas letras e em textos espectrais e maviosos.
Dirão alguns que transpiro certo apelo masoquista ao invocar um sentimento tão abominado. Nada é mais doloroso do que a dor não-física, a dor do espírito, a dor que transcende a matéria. Todavia, há que se lembrar que, aparentemente, tudo é química. As prostaglandinas provocam a dor física ao passo que a supressão das endorfinas e dopaminas suscita o que chamamos “dor da alma”. Aquela age aqui na periferia; estas, lá no encéfalo; aquela é produzida, num teleológico devaneio meu, para provocar a dor; estas, por sua vez, têm sua produção suprimida para alcançar o mesmo efeito. Assim, detenham-me as endorfinas e dopaminas!
Não se deve brincar com certas coisas, e de fato não anelo sofrimento algum. Minha amiga da poesia que leia os que sofrem, que leia os angustiados. Há uma enormidade de escritores sofredores. Conheci um que de tanto sofrer, mas de tanto sofrer, escrevia sempre o mesmo. Suas frases e períodos eram tão profundos que para alcançá-los eu precisava pular do quinto andar ou, se não isso, era assaltado por vontade incoercível de praticar tal ato. Como não tenho inclinações suicidas, parei de lê-lo. Ademais não se deve esquecer que há o sofrimento fabricado, igual a choro de atriz de novela. O sujeito imagina uma enorme dor e põe-se a escrever carpindo mais que profissional de velório.
Vejam o que escrevi ontem, por exemplo. Nada havia no texto que minha ex-leitora saia a ler e, se o fizesse, seria com esgares enojados e contrações labiais. Falei dos idiotas de nossas barbas, nos quais se tropeça tão logo se abra a porta da rua. (Sou do tempo em que a porta da rua era mais conhecida como a porta “da feira”.) Falei também de como escolher tomates quando se vai ao mercantil. E brá! Que fez ela até agora, passadas várias e várias horas da divulgação do texto? Resposta: nada. Não deu um pio.
O diabo é que no artigo de ontem avisei que relera dois textos do Nelson dos quais muito gosto, e mencionei apenas um deles. Esqueci-me de falar do outro, que tem muito a ver com o primeiro, cujo título é “Os idiotas da objetividade”, de 22.02.1968. Basicamente é o seguinte. Antes, lá pelos idos de 1920, os jornais estampavam emoção na manchete e na notícia. Se alguém matava alguém, a manchete vinha tinta de sangue. E de lágrimas. E de indignação. E repleta de todas as possíveis emoções suscitadas por um assassinato bárbaro e cruel. Abusava-se dos pontos de exclamação nas manchetes.Tempos depois surgiu o revisor, que reescreve a notícia de forma puramente informativa, tipo “MULHER MATA O MARIDO E VAI AO CABELEIREIRO”; e dentro da matéria diz o que ocorreu, quando e onde – e estamos conversados. Diz lá o Nelson, em suma: “Na velha imprensa as manchetes choravam com o leitor”.  
Eis porque me causam repúdio as manchetes da imprensa local com sua idiota objetividade quando a indignação anda tão necessitada por mais e mais gente. Se os jornais não porejam a indignação do corpo social em tantas e tantas questões que ora nos afligem, quem o fará? Estamos precisados de ver a indignação em vivos pinotes nas manchetes de nossos jornais. Sua exposição ao alto delas seria aliciadora e arrebatadora de mais gente que está entorpecida no mar escaldante de tantas indignidades que pululam sem resistência.
Volto à amiga ex-leitora. Será que para ela me tornei um idiota da objetividade?