quinta-feira, 26 de julho de 2012

Como escolher tomates e reconhecer idiotas

          Uma das [de(z)s]vantagens da solteirice é que se é obrigado a fazer mercantil. (Para os que são estranhos aos dizeres desta terra alencarina explico – "fazer mercantil" significa ir ao supermercado comprar os chamados gêneros de primeira necessidade.) Na solteirice não é possível transferir essa tediosa atividade a quem quer que seja. O(a) solteiro(a) é uma entidade única, intransferível, indelegável, inalienável. O(a) solteiro(a) paga suas contas, compra suas roupas, faz seu mercantil, e assim por diante.
          Pois hoje fui ao supermercado. E precisava de tomates; queria tomates. (A ciência atribui ao licopeno do tomate potentes propriedades antioxidantes e antineoplásicas.) Na seção de frutas e verduras estavam os tomates, e lá fui eu escolher tomates. Não sei se já se deram o trabalho de escolher tomates. Não direi que é algo fascinante, pois estaria mentindo. A bem da verdade, além dos tomates escolhi cebolas, batatas, goiabas, maçãs... (Paro por aqui senão o povo vai dar conta de minha lista de compras e presumo que ela deponha em demasia sobre a minha personalidade e o meu caráter. Dirão, por exemplo, que devo ter um péssimo hálito por comer cebolas, ou que me vazem os intestinos por gostar de ameixas.)
          Mas fiquemos com a escolha dos tomates. Uso de uma técnica para os escolher – só escolho os perfeitos, os que não têm nenhum defeito na casca. Podem ser vermelhos, ou amarelos, ou verdes, não importa – quero somente os de casca perfeita e de consistência dura. Os que apresentam defeitos na casca ou áreas de amolecimento podem já estar a caminho do apodrecimento. Por isso os rejeito. E como é difícil nesta terra encontrar tomates perfeitos!... Mas eles estão lá; basta ter um pouco de paciência. É procurar, garimpar, não há outro meio.
          Enquanto escolhia os tomates, pensava em pessoas. Pensava em mim mesmo. Vejam que não me referi ao tamanho dos tomates ou ao matiz de suas cores. Não os quero perfeitos senso latu; me importa a consistência do fruto e a integridade de seu revestimento. No mais, estarão ótimos para mim. O que para alguém será um defeito, para mim há de ser nada. Haverá quem não se importe que eles sejam moles, ou que um ou outro tenha falhas ou rupturas na casca.
          Confesso: – não tenho a menor idéia do porquê estou a falar de tomates e de meus critérios na sua escolha. Lembrei. Enquanto os escolhia, com a atenção redobrada de quem está focado em manobra de altíssima periculosidade, pensava: -"Escreverei sobre como escolher tomates..." Sim, na aridez de quem há muito nada sente nem nada tem a dizer, eu pensava que já era hora de escrever sobre algo que não fizesse o menor sentido; nem para mim nem para quem quer que fosse. Eis, então, a razão de eu falar em tomates. Outra coisa de que me lembro: – imaginava se alguém escolhe os tomates que rejeito. Concluí que, sim, há de haver quem leve para comer os tomates moles e os com defeitos na casca. Paciência. Cada um escolhe o que bem entender, sejam tomates ou qualquer outra coisa.
           Chego em casa. Sobre a mesa, de Nelson Rodrigues, "A cabra vadia - novas confissões", presente de uma amiga também apreciadora do autor. Perguntou-me: -"Já tens?" Respondi que não, mas que já o lera. Quis saber por que não o tinha. Os aficionados geralmente não se desfazem dos objetos de seu fanatismo. Expliquei que a ex-minha mulher ficara com toda a minha discoteca e com toda a minha biblioteca  como punição a mim imposta. (Ex-cônjuges feridos na auto-estima são capazes das mais desnecessárias atitudes.) E assim minha amiga se encheu de alegria por saber que estava me presenteando com algo de que muito gosto e que me foi tolamente subtraído um dia.
          Fui ver, ou melhor, fui rever no livro do Nelson crônicas que muito me marcaram. Enquanto aguardava o mensageiro com o mercantil – no Ceará "aguardar o mercantil" significa "aguardar as compras" – li duas que imputo de uma atualidade cada vez maior como se, à medida que passasse o tempo, mais atual elas se tornassem. O tempo lhes empresta mais verdade, mais lucidez, o que me leva a pensar que o cronista foi um grande visionário de seu tempo e do porvir próximo. Vejam, por exemplo, o que ele diz em "Festa de cabeças cortadas", publicada no jornal O Globo em 24.05.1968:
          "No passado, eram os 'melhores' que faziam os usos, os costumes, os valores, as idéias, os sentimentos, etc. etc. Perguntará alguém: -'E que fazia o idiota?' Resposta: - fazia filhos". Continua o Nelson: "Mas vejam: - o idiota como tal se comportava. Na rua, passava rente às paredes, gaguejante de humildade. Sabia-se idiota e estava ciente da própria inépcia." E arremata: "E, de repente, tudo mudou. Após milênios de passividade abjeta, o idiota descobriu a própria superioridade numérica. Começaram a aparecer as multidões jamais concebidas. Eram eles, os idiotas. Os 'melhores' se juntavam em pequenas minorias acuadas, abatidas, apavoradas. O imbecil, que falava baixinho, ergueu a voz; ele, que apenas fazia filhos, começou a pensar. Pela primeira vez o idiota é artista plástico, é sociólogo, é cientista, é romancista, é Prêmio Nobel, é dramaturgo, é professor, é sacerdote. Aprende, sabe, ensina."
          Constata, por fim, o inevitável e o inegável dos tempos atuais: "No presente mundo ninguém faz nada, ninguém é nada, sem o apoio dos cretinos de ambos os sexos. Sem esse apoio o sujeito não existe, simplesmente não existe. E, para sobreviver, o intelectual, o santo ou herói precisa imitar o idiota. O próprio líder deixou de ser uma seleção. Hoje, os cretinos preferem a liderança de outro cretino."
          Outro dia, acho que foi ontem, abro um dos jornais locais aqui no computador. Hoje tudo se faz e se resolve no computador. Há hoje dois mundos e, por que não dizer?, duas existências para cada ser humano – a real e a virtual. E ambas se tocam às vezes muito intimamente, de tal forma que se pode ter duas vidas, ambas a se encontrar no mesmo tempo e espaço a intervalos irregulares e, às vezes, indesejados e inesperados. Encontrava-me recentemente em França e, vejam vocês, estava para vencer a conta de luz. Simplesmente fui à companhia de energia elétrica e obtive o boleto para pagar a conta no meu banco – tudo no mundo virtual.
          Como ia dizendo, fui ver o jornal virtual. E o que vi? Vi certo jornalista local, homem supostamente culto, escritor de livros, cantado e decantado na imprensa da terra, colunista lido e relido, um ás, enfim. Escreveu ele o seguinte.
          Antes, contudo, abro um parêntese para um breve comentário do senhor Winston S. Churchill no capítulo 4 de seu compêndio "Memórias da Segunda Guerra Mundial" intitulado "Adolf Hitler". Diz ele sobre Hitler: "Filho de um obscuro funcionário aduaneiro austríaco, ele havia alimentado sonhos juvenis de se tornar um grande artista plástico. Não tendo conseguido ingressar na Academia de Arte em Viena, vivera na pobreza nessa capital e, posteriormente, em Munique. Pintor de paredes ocasional e trabalhando muitas vezes como biscateiro, sofrera privações físicas e desenvolvera um ressentimento sombrio, embora disfarçado, pelo fato de o mundo haver-lhe negado o sucesso." Tempos depois vimos o senhor Hitler encher estádios, e praças, e boulevares, e ruas, e avenidas, sacudir uma nação inteira contra o mundo. Seus discursos inflamados e respondidos com palmas e ovações ainda podem ser vistos e ouvidos em documentários de televisão.
          Voltemos ao aclamado colunista do Diário do Nordeste. Disse ele o seguinte em sua coluna de ontem: "Que Lula é grande político ninguém pode negar. Um modesto operário nordestino chegar à Presidência da República e de lá sair como um dos maiores presidentes do mundo já diz alguma coisa. Fazer de uma mulher que nunca fora, sequer, vereadora sua sucessora é outro feito que não aconteceu a nenhum outro." E torce para a eleição de Fernando Haddad para prefeito de São Paulo, apoiado por Lula e Paulo Maluf, de quem expõe uma fotografia na coluna com a seguinte legenda: "Filho de Maluf tem contas no exterior, segundo jornal. Foi a luta de Maluf, com dinheirão da prefeitura, para deixar fortuna para os filhos."
          Lula não é nem de perto parecido com Hitler, muito mais astuto, mais popular, mais unanimidade e melhor político do que ele. Mas o que não me sai da cabeça é a história do Nelson sobre a ascensão do idiota e de seus asseclas, admiradores e simpatizantes. Bem se vê o que o "grande político" está a significar aos dias de hoje. Nem me darei o trabalho de considerar as castas definições de Política e Políticos dos filósofos antigos. Elas têm migrado na linha de conceitos e a ética da personalidade suplantado por completo a do caráter.
          Quanto aos tomates, sigo escolhendo-os cuidadosamente.