sábado, 22 de setembro de 2012

Um a menos a se queixar

         Eis que estou em pleno horário do ócio e me bate o telefone. Era o meu querido Bacana.
          Não sei se o conhecem. Se não, vos apresento o Bacana. Ele nasceu nove dias depois de mim, quando corria o ano de 1961. Encontramo-nos na vida, pouco depois, no colégio marista. Era o "primário", primeiro ou segundo ano. Somos amigos há mais de 40 anos, portanto. 
          Houve o seguinte: suas irmãs foram assaltadas defronte a própria casa, e lhes levaram o carro. Desde o momento do infortúnio, que resultou apenas em prejuízo material, ele corre atrás de autoridades e instituições a fim de buscar seus direitos de cidadão que o Estado diz garantir.
          Disse-me ele, quase aos berros: -"Estamos perdidos! Estamos perdidos!" Provou-me por A+B que os tais direitos são uma farsa, um faz-de-conta. Lembrei-lhe o que vivo a dizer e escrever: este é o país do faz-de-conta. Não funcionam as instituições nem têm autoridade as autoridades. Tão incompetentes são uns e outros que punem e dificultam com facilidade a vida do cidadão honesto, trabalhador e pagador de impostos, mas não punem nem dificultam a vida dos bandidos, corruptos e marginais. Seu aparelhamento só os permite alcançar aqueles posto que facilmente localizáveis; estes se beneficiam e deitam e rolam às barbas de todos.
          Contou-me ele que acionaram, logo após a ação dos bandidos, o policiamento dos bairros que, no Ceará, chama-se "ronda do quarteirão". Todos no estado o conhecem, e conhecem também as viaturas caríssimas que o governo adquiriu à polícia para servir à atividade de fazer a "ronda do quarteirão". O "ronda" – abreviemos que o entendimento já se fez – tem a missão de promover o policiamento preventivo e ostensivo nos bairros. É o que parece. Segundo consta, seus policiais são orientados a não sair à cata dos bandidos. 
          Disse-me o Bacana que os homens do "ronda" chegaram quase meia hora depois do chamado. Os facínoras já iam bem à frente. Nem valia a pena sair-lhes no encalço. As chances de achá-los e pegá-los já minguava. 
          Fiquemos aqui para tranqüilizar as pessoas, as vítimas. Tem um cafezinho aí? Com um pãozinho amanteigado ia bem. Se não, um suco, um chá, qualquer coisa para molhar a goela e a língua que a canícula está de rachar a cachimônia. Os policiais do ronda apreciam os agrados culinários. Sem eles... sei, não!
          Mas as viaturas não têm condicionador de ar? Ah, têm, sim!... Mas é que a gente passa muito tempo na rua e a sede é uma constante apesar dele. 
          Gostamos também de namorar. Sabe-se que algumas mocinhas adoram fardas, e encantam- se facilmente à visão de um latagão vestido em trajes de guerreiro. A patente aos ombros pouco importa. Mesmo um soldado raso tem o seu it. "Rondar" próximo a estabelecimentos comerciais é ainda melhor, em que pese o maior risco de ações violentas como assaltos e outros bichos semelhantes, mas é dos tais comércios que nos saem mais freqüentemente os lanchinhos que tanto apreciamos. Isso sem falar nas vendedoras de lojas e farmácias. Vez ou outra uma olhadela, um piscar de olho, uma insinuação num leve movimento de um músculo ao canto da boca já é o suficiente a que entendamos que mais tarde haverá o encontro. 
          E não gostamos de ronda próxima a bancos. Nada têm eles que nos agrade. De fato, têm tudo o que nos desagrada, a começar pela ameaça que representam à nossa tranqüilidade. Preferimos ficar longe deles. Quando muito, uma passadinha à frente deles apenas para "enganar a torcida", e damos o fora o mais rápido possível. Não queremos ser alvos de atiradores. Hoje a coisa está pela hora da morte – os bandidos não respeitam nem policial! Um absurdo! Quando se vai dar um jeito nisso? 
          Quando da próxima greve, em janeiro próximo, acho que ao dia 3, exigiremos um serviço mais leve, mais proteção para o pobre e desguarnecido policial, que as autoridades e as instituições nos apóiem e nos mostrem apreço e consideração. Onde já se viu? Exigir que o sujeito arrisque a vida por uma titica de nada...! 
          E tem mais. Nem sei por que cargas d'água nos dão essas armas ao coldre, se não podemos usá-las. Sim, porque, não sei se sabem, mas se atiramos n'algum bandido estaremos sujeitos a todo o tipo de inquérito e corregedoria. É bem verdade que às vezes matamos gente inocente, mas isso será o ônus que a sociedade paga para ter segurança. Nossas vítimas inocentes podem até ser inocentes, mas a princípio pareciam ser facínoras bem treinados. Lembram o garoto de catorze anos, o Bruce Cristian, morto por nosso glorioso companheiro, o policial Yuri Silveira, quando trafegava sentado à garupa da motocicleta de seu pai? Era, de fato, uma criança, mas não sei onde vão parar esses meninos de hoje – aos catorze já tomam corpo de adultos. Aos catorze já aparentam ser bandidos. E se forem pobres mais ainda. 
          A vida de policial, como bem se vê, não está fácil. Se bem que o governo deu uma colher de chá para nós, com essas Hylux que custam igual a um apartamento. Nosso conforto aumentou um pouco, não mais que o conforto dos proprietários das empresas que venderam essa ruma de carros. Devem ter ganho uma nota preta com esse negócio. Mas o que se há de fazer? Ficou todo mundo satisfeito com o novo visual da polícia, e isso é o que importa. 
          Nós do ronda somos diferentes; não gostamos de truculência. Somos a elite da força. Nossos companheiros do batalhão de choque e o pessoal do "Raio" são os especialistas da pancadaria e da artilharia. Esses bandidos aí que roubaram o carro da senhora sua mãe, "seu" Bacana, deveriam ser perseguidos por esse pessoal. Nós somos o pessoal da conversa, da conciliação, da fachada. Não nos sujamos fácil, só quando não houver outro jeito. Enfim, o senhor vai ter de ir no distrito falar com o delegado que ele manda o escrivão lavrar o seu Boletim de Ocorrência, o BO, já ouviu falar? De posse dele o senhor aciona o seguro, prova que foi roubado e um monte de coisas mais, mas só isso. 
          O senhor já sabe, né? No Brasil a gente não abre inquérito para esse tipo de crime, não. Às vezes, nem de homicídio é possível abrir. Sabe como é, não temos pessoal para isso. Com o BO o senhor faz tudo, menos prender os larápios. Quem sabe um dia eles pisam na bola e a gente os pega noutro crime?... Com um pouco de sorte tudo se resolve, mais cedo ou mais tarde. É rezar para a coisa ser no flagra.
          Bacana já entrava a falar da dificuldade em abrir uma conta no banco. Empresário registrado no conselho da categoria, o funcionário da banco oficial não aceitou como comprovante de seu endereço o documento do conselho. Tinha de voltar outro dia com uma conta de água ou energia elétrica. 
          Interrompi a conversa abruptamente. Receava que o amigo sofresse um colapso ou uma apoplexia. Os leitos de UTI dos hospitais da rede privada e pública da cidade estão lotados. Ele morreria à mingua. Não queria perder o amigo. Quem gostaria que morresse era o governo – um a menos a se queixar.