quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Encruzilhada


          Nunca estive tão necessitado da poesia do meu efêmero e intenso amigo Chico Passeata. Não falo de toda a sua poesia, que essa a história um dia há de lhe pagar o devido tributo. Falo da poesia que escreveu ao dia em que fortuitamente o encontrei; falo da poesia que escreveu ali, ao meu lado, bem perto de mim, naquele que seria o último dia que o veria com vida; falo da poesia que o vi parir e transbordar do poeta como a lava que o vulcão expele em convulsões truculentas como cólicas que suscitam sofrimento inabrandável... Escreveu ele, à mesa ao lado, sem que eu ainda houvesse me dado conta de sua presença (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2011/08/menos-um-poeta.html):
          “...eis o dilema:
           (com)parar,
           ou (con)seguir.”
          Nunca estive tão vítima da essência poética de meu saudoso e efêmero amigo: "...eis o dilema:..." Essa é a poesia da qual estou necessitado; essa, a mesma de nem sei mais quando, ainda me sussurra: "...eis o dilema..."; e me instiga: (...)parar, ou (...)seguir."? 
          Que faço? Não sei. Há pouco sabia; agora já não sei... Por isso a poesia do Chico fala por mim; por isso o amigo, ao me chamar a atenção para a sua presença num leve toque às costas, parecia profetizar de mim, de meu destino, de meu breve futuro: "(...)parar, ou (...)seguir."?
          Lembra-me o dia em que procurava a letra do Chico em meio a meus livros e rascunhos, e papéis, e borrões; em meio à bagunça de tudo, anelava sentir entre as mãos a matéria original que o amigo, ao que parecia, escrevera para mim, especialmente para mim... seguramente uma pretensão tola de minha parte (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2011/08/tormenta-e-o-poema.html). 
          Ah... tudo em vão... Guardei tão bem guardada a jóia que quis o meu desatino punir-me exemplarmente: não a achei. Ainda hoje não a acho. Sei que ali está, envolta em minhas memórias, em meus devaneios, em escritos bissextos e jurássicos, do tempo em que minhas tormentas mentais apenas iniciavam, formavam-se ao longe como procelas vindouras a se anunciarem precocemente. 
          E até hoje nem sei porque deitei ao papel o que escrevi outro dia, coisa sem rumo e sem nexo (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2012/02/ilusao-de-amor_08.html), uma quase poesia que suscitou noutro amigo, outro poeta, a idéia de que eu seria o poeta que escrevia prosas... Ledo engano... tola pretensão, mais uma, desta feita não minha. 
          E agora a belíssima poesia do Chico que, quero tanto acreditar, escreveu especialmente para mim... Sinto agora, passados vários meses, a poesia para mim, uma encruzilhada, dois caminhos, dois destinos, dois rumos... Eu, que dei uma volta na vida, que vivi uma e posso outra viver, me deparo com a decisão: inicio outra ou não? faço outro destino? escrevo outra história? 
          Ainda que a vida, a nova vida, me espicace a vontade de si mesma, que tem ela de novo para mim que não já tenha visto? Que novos resultados me propõe? se eu mesmo sou ou tornei-me a incógnita que julgam, que observam, que testam, da qual duvidam, que temem, que rejeitam e da qual se envergonham? Tornei-me, involuntariamente, um ponto de interrogação, um buraco negro, um algo a ser evitado... 
         Ainda que já tenha vivido uma vida e nela já tenha morrido, posto que na morte vão-se inexoravelmente as eventuais pendências e dívidas, insistem em me julgar sobre o que nela realizei ou deixei de realizar. Fui marcado com a marca dos condenados, o 666 da besta, a cicatriz dos aguilhoados. Tornei-me um natimorto de minha nova vida... 
         Vem então o Chico e me admoesta: 
         “...eis o dilema:
         (com)parar,
         ou (con)seguir.”
          Seguir é o que escolho; custe o que custar. De uma forma ou de outra.