terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Uma palavrinha sobre a chuva


          Uma chuvinha de nada. Uns poucos milímetros de pouca água e ninguém anda no Centro desta decadente cidade sem molhar os sapatos. Engano. Sempre há que se molhar os pés ao se andar na chuva, onde quer que seja. O que quis dizer é que encharcamos os pés, as meias, as bainhas de nossas calças ao caminhar ao Centro de Fortaleza. Melhor seria usar canoas ou pranchas.
            Não é empáfia; é conhecimento. Que diabos há de errado em se admitir que se tem conhecimento? Vivemos à época do idiota. Se o que tem conhecimento se omite, que será dele mesmo? Assim, é lícito que se manifeste o que tem conhecimento.
            Quem tem conhecimento sobre outras cidades, cidades do chamado primeiro mundo, cidades seculares, cidades milenares, sabe que uma cidade que se alaga a uma chuvinha de nada não pode ser uma cidade que preste para se viver. Que se manifestem os que têm conhecimento dessas cidades, essas que permanecem “secas” após uma chuvinha de nada. Não há de ser empáfia.
            E não só no Centro, mas em bairros considerados “nobres” (?) os alagamentos e canos furados após chuvinhas mixurucas são uma constante praga. Ano passado, recentemente, uma chuva maior devastou a cidade. A chuva virou notícia, virou manchete. Deu no telejornal e no jornal do dia seguinte. Havia gente ilhada, gente em cima de árvores e sobre os muros, gente desabrigada, gente dentro de carros que viraram barcos. Instalou-se o caos.
            Na Beira-Mar com Tereza Hinko os esgotos romperam; novamente, para falar a verdade, uma vez que já haviam rompido duas ou três vezes semanas antes. A companhia de água e esgotos fizera o reparo com cola maluca, quero crer. A chuvinha derreteu a cola e os canos derramaram seu pútrido conteúdo em plena avenida. Com a chuva maior a impressão que se tinha era a de que havia um rio subterrâneo a transbordar para a superfície. (“O rio subterrâneo” é o título de um romance de José Costa Matos, pai de meu amigo Costinha.)
            Voltemos às chuvas mais recentes.
            Não sei se já perceberam o que já está a ocorrer ao nosso asfalto “sonrisal” após essas poucas chuvas – está a derreter. Ou melhor – a se dissolver na água. Nos espetáculos que se aproximam – as copas – ele terá sido recapeado uma dezena de vezes, sem dúvida. Haverá algo verdadeiramente novo a se fazer e que vá resolver o problema de uma vez por todas? É provável que não.
            Tudo isso, diga-se, não é de responsabilidade de um indivíduo em uma única época. A culpa de tudo isso é de todos em todas as épocas, desde que essa vila passou a ser cidade, eis a verdade. Os mais recentes gestores, os dos últimos trinta anos, talvez tenham uma maior responsabilidade sobre esse estado de coisas porque sua miopia foi a mais impactante. As coisas estavam acontecendo bem debaixo de seus olhos e nada foi planejado para receber o futuro.
           Eis que chegou o futuro e nele estamos e permaneceremos estagnados e parados por pura e simples incompetência e irresponsabilidade no passado. A propósito, cidades confortáveis não têm futuro; têm somente e apenas passado. Seu futuro chegou e hão de nele permanecer até o fim dos tempos. Ao contrário, cidades como a nossa serão sempre piores, como é bem fácil inferir a partir do que pensa a maioria de seus moradores. 
          Não esqueçamos: o idiota ganhou notoriedade e espaço porque se deu conta de sua superioridade numérica. Salve-se quem puder!