segunda-feira, 18 de agosto de 2014

O DESOCUPADO

               Outro dia falei sobre as vicissitudes de um desocupado. O desocupado é o sujeito a quem mais se perturba no mundo. Quer estorvar alguém? Procure um desocupado.
                O problema é encontrarmos um verdadeiro desocupado. Hoje em dia o que parece ser um desocupado provavelmente não o é de fato. É preciso investigar para se ter certeza. Portanto, se estás interessado em tirar o sossego de alguém que julgas desocupado, descobre primeiro se o alvo em vista é realmente um deles. Caso contrário, vais perturbar um sujeito que está muito ocupado, e isso só trará problemas para ele.
            A dificuldade em se ter certeza se alguém é desocupado é o paradigma recentemente criado de que o sujeito tem que estar sempre executando trabalho braçal para ser considerado ocupado ou, no caso do médico, atendendo em mutirões ou às multidões.
           Criou-se a noção, não se sabe tirada de onde, de que o médico só estará trabalhando se estiver atendendo uma penca de gente. Tudo baseado na ideia de que atender gente é como produzir motores numa fábrica, ou fabricar vários carros numa linha de montagem, ou coisa que o valha. Ou seja, o sujeito vai entrando e o médico já vai passando o remédio só em olhar-lhe as fuças. E já vai gritando: - “O próximo!”
          Exageros à parte, é exatamente isso o que acontece nos tempos atuais. Aquele médico cuja consulta com seu paciente durava sua boa hora e meia a duas horas já não existe. E todos reclamam. E todos estão certos em reclamar. Por quê? Porque não está correto. Não é uma questão de opinião. Não está certo porque os resultados desta prática são desastrosos. Ponto final.
          Pois vejam que eu estava muito desocupado ontem de manhã. É que havia visitado apenas dois doentes no hospital. Fui impelido a ouvir-lhes as queixas, os temores, os anseios, e isso não tem a menor importância, de acordo com o paradigma vigente. Que diachos tem um médico de estar a ouvir queixumes de doentes? Doentes só têm direito de se queixar sobre coisas diretamente relacionadas com sua doença atual tipo dor na operação, febre, incapacidade funcional, e por aí vai. A mim não interessa onde moram, se têm filhos, se se alimentam bem, se são felizes em seu trabalho, se seu casamento anda bem, se acreditam em Deus, se têm medo de morrer, ou qualquer outra dessas besteiras. A mim não importa se vão perder a perna, ou o braço, ou a vida. Por que devo confortá-los? Não devo nem mesmo auscultar-lhes o peito, palpar-lhes o abdome, examinar-lhes a face. Não é minha função.
               O gestor público há de me perdoar, mas ontem eu estava tão desocupado que fui obrigado a estar com os dois doentes da forma que ele detesta: - como verdadeiro médico. Entendo que o gestor deve estar certo: - isso não tem a menor importância. O gestor quer que eu, após o estupro em mim perpetrado, tenha orgasmos estuprando o doente da forma mais vil e abjeta. E, se errar, que me processem. O governo não tem nada a ver com isso.
               Mas, paremos com essa lengalenga que minha obsessão já me leva à desistência. Não foi com isso que sonhei. É problema meu.
               Saindo do hospital, resolvi voltar a pé para casa. Coisa de quem não tem o que fazer.
               Subo Barão do Rio Branco pelo lado direito e viro à direita por trás do Cine São Luís em direção à Praça do Ferreira. Vinha pensando em engraxar os sapatos. Certamente lá haveria um engraxate a quem pudesse confiar meus Scatamacchia. Viro à esquerda em direção a São Paulo. Os bancos estavam tinindo de gente. Não obstante, de longe já avistei a caixinha repleta de graxas, e ceras, e brilhos, e polidores, e escovas, e flanelas. As duas elevações de madeira para o cliente apoiar os pés eram inconfundíveis.
                  Era um homem negro e magro de cabelos brancos. Usava um boné e vestia uma camisa branca os botões todos abertos, exceto o último. Calça jeans surrada e sandálias havaianas gastas nos calcanhares completavam sua “farda”.
                -“Tá livre?”, perguntei. Ele se apressou em ajeitar um assento acolchoado que jazia sobre o banco de madeira, tangendo de cada lado os companheiros que lhe serviam de plateia, todos infinitamente mais desocupados do que eu.
                Sentei.
                À esquerda um jovem de seus vinte e poucos anos em bermudas lendo o jornal do dia; à direita um homem branco de seus setenta, interlocutor de meu engraxate.
                -”São só cinco reais”, respondeu ele já dando início ao trabalho. Suas mãos e dedos deslizavam com maestria pela superfície opaca de meus Scatamacchia, demonstrando elevado conhecimento do ofício.
                  Os dois homens retornaram à conversa que eu interrompera:
                -“Viste a roubalheira do INSS?”, perguntou o engraxate.
                -“A polícia federal prendeu uns quinze. Tudo gente de nível. Milhões de reais”!
                -“Tem jeito não, rapaz. Vês o que esta prefeita está fazendo com a cidade?”
                -“É um buraco em cada esquina, né?... Fortaleza não vê outro prefeito como o Juraci.”
                -“O povo é fogo…! Não sabe votar.”
                -“É capaz de reelegerem a loira.”
                Pausa. O homem idoso voltou, após ficar pensativo alguns poucos minutos:
               -“Rapaz, se eu pudesse voltaria ao trabalho. A saúde não permite. Tenho 73, mas ainda gostaria de estar na ativa. Trabalhei duro por 50 anos.”
                -“Eu já trabalho há 60...”
                -“Tens quantos anos, Pirrita?”
                Finalmente soube o nome do profissional da graxa.
                -“Sessenta e cinco. Trabalho desde os seis anos de idade”, respondeu ele com naturalidade.
                -“Lembro de ti nos anos 60... lavador de carros, né?”
                Nova pausa após o negro assentir afirmativamente. Desta vez foi ele quem reiniciou:
                -“Raimundo, tu eras funcionário da Esquisita, né?” Raimundo era o nome do mais velho.
            -“Isso. Sabias, Pirrita, que salvaste a minha vida naquele dia em que desligaste os cabos de vela daquele meu Volks?”
                 -“Mesmo? Taí qu’eu num sabia, não...”
             -“Foi, sim. Vou te contar. Foi o seguinte”, e se empertigou no banco como a buscar uma posição mais cômoda para o relato que viria em seguida.
              “Tinha uma dona que passava todo dia na frente da loja. Olhava pra mim e sorria. Uma morena jeitosa que só vendo. Um dia ela passou e eu a chamei: ‘Olha, meu amor, vem cá… já percebi que você nutre por mim uma simpatia. Eu te acho um estouro. Que tal a gente sair e conversar um pouco? ‘ Ela falou: ‘Acho que não, eu sou casada. Isso dá certo?’ Notei que ela ficou na dúvida. Falei: ‘Claro que dá. Vamos? ’ Ela topou. Quando entramos no carro, o bicho não pegava. Virei a chave num sei quantas vezes e nada... Acabei desistindo. Aí eu falei pra ela: ‘Olha, meu amor, não vai dar certo, não. Não sei o que há com esse carro. Vamos deixar pra outro dia. ’ Depois disso pensei melhor e de sair com ela. Já pensou se saio com a mulher e o marido fica sabendo? Poderia até levar um tiro, né não?!”
                 E continuou, convicto:
                 -“Se não desligas o cabo de vela depois da lavagem... sei não!”
          Quinze minutos depois os sapatos brilhavam mais do que espelho na luz. Pirrita caprichou. Vai engraxar bem assim no raio que o parta! Se quiserem experimentar, é bem ali na Praça do Ferreira, quase defronte ao São Luís para o lado norte. O segredo é ficar um pouquinho mais desocupado.

Fernando Cavalcanti, 25.06.2008