terça-feira, 27 de outubro de 2015

SENHOR DE ENGENHO

          Na fila do supermercado, no mesmo onde outro dia a alvíssima senhora idosa me pedira para lhe comprar um pote de requeijão, o sujeito grisalho e alto passava seus produtos. Falava com o caixa e, quando falava, ouvia-se-lhe a  voz altiva, firme, postada e imperativa. Dir-se-ia um rei, ou um príncipe. 
          Circulara entre as prateleiras, minutos antes, quase sem nada dizer. Ouvi-lhe aquela voz, antes do momento em que se postara no caixa, apenas uma vez, bem ali defronte às verduras e frutas. Sussurrou baixinho, de si para si, olhando os preços: –“Nossa... Não se pode mais comer”... 
          O funcionário, empacotador de profissão, labutava sozinho naquela tarde ensolarada de um recente domingo primaveril. Era surdo-mudo. Naquele exato instante ajudava outro cliente que se utilizava de outro caixa. Usava a farda do estabelecimento. Como ele, outros deficientes lá têm o emprego. Ganham, talvez, o salário e algumas patacas que lhes dão os fregueses mais atenciosos. Entretanto, naquele domingo só ele trabalhava.
      Estava distraído do movimento em torno de mim quando ouvi a voz principesca. Dizia, dessa vez ainda mais penetrante e reverberante, indignada, quase arrogante: –“Onde estão os empacotadores? Não querem mais trabalhar? Hoje o negócio aqui não está bom”...
          Após guardar as compras no carro, dei a partida e saí. Por coincidência, dei de cara com o tal sujeito, acompanhado de um outro funcionário do supermercado, guardando as compras em seu vistosíssimo veículo fabricado além-mar. 
          Vindo de Siena, na Toscana, entrávamos em Florença para devolver o carro à locadora. Estacionei defronte à bomba para abastecer. Nenhum funcionário. Só as máquinas para receber o pagamento. O frentista era eu mesmo. O brasileiro não se desfaz de seu complexo de senhor de engenho.