terça-feira, 20 de outubro de 2015

O IMPLACÁVEL CREDOR DO MESQUITA

         Já havia percebido. Mesquita andava meio cabisbaixo, sorumbático, macambúzio... Desde julho último o homem não conseguia dissimular seu estado. Mas, coisa esquisita, o homem voltara de uma viagem de férias com a família.
          (Mesquita só viaja com a família. E não falo do núcleo familiar apenas. Quando digo família inclua-se aí uma penca de gente, um cachorro, um gato e até um papagaio. Vai o pai, a mãe, filhos com cônjuges, primos...Com tanta gente assim, a presunção automática é a de que a viagem é uma animação só!)
         Porém, ali estava o homem absorto naquele olhar perdido sabe-se lá onde e mudo como um coelho. Óbvio era que algo o preocupava, que algo o abatia. Foram três as  vezes em que nos encontramos e assim ele se apresentava. Quando saía ficávamos a lucubrar. Dizíamos: —“Serão chifres”?, e saíamos imediatamente a nos penitenciar. Dona Rejane é mulher seríssima como já quase não mais existe. Seguramente não era o que afligia o amigo, e já entrávamos a alentar outra possibilidade.
         “Será liseira”?, supúnhamos. Afinal, é vastamente conhecido o amor que o Mesquita tem pelo vil metal. Outro dia o comparei ao Tio Patinhas. Seu esporte favorito é gastar seu tempo a apreciar o monte de cifrões que amealhou em anos de trabalho árduo, como também gostava de fazer o personagem dos quadrinhos. Assim, a hipótese pareceu vir bem a calhar. Na última vez que o encontramos, ele, por fim, desabafou.
         Compraram, ele e a mulher, um novo apartamento para morar. Com efeito, o velho não era velho, mas há de ter havido uma razão para quererem mudar. O ser humano é frequentemente vítima de entojos inexplicáveis. Vai ver o casal quisesse novos vizinhos; ou um apartamento em andar mais elevado, ventilado com brisas mais amenas, espaços mais amplos, mobília mais moderna, sei lá... O fato é que compraram outro apartamento e já estão para mudar. Seja por tédio ou por qualquer outra razão.
         Outro dia o corretor bateu-lhes o telefone e disse: —“O bicho lá tá prontinho”! Antes de contratar a mudança, Dona Rejane quis inspecionar tudo. Foram, então, ver o imóvel. Queria saber se as coisas estavam realmente na mais perfeita ordem.
         Todos sabem que a mulher é um ser especial. Não tente o homem jamais entender seus processos mentais. Consta que o último a tentar está internado até hoje, tomando elevadas doses de ácido. Por isso o Mesquita tinha espasmos e contraturas ao nos comunicar que a mulher simplesmente detestou a cozinha e outros itens do apartamento. Dizia, quase gritando de indignação: —“Tudo do bom e do melhor! Material de primeira! Com’é que pode”?!?..., e meneava a cabeça inconformado.
         Assim, ficou mais do que esclarecido que ele estava gastando além do que inicialmente havia previsto. A cozinha estava sendo refeita ao gosto da mulher, com o material que ela pessoalmente escolheu. “As torneiras, as pias, a bancada da cozinha, tudo do material mais luxuoso e caro pra essa mulher mandar quebrar tudinho”!..., berrava ele numa excitação de frustrado. E engrossava a voz: —“Com'é que pode”?!?...
         Ora, não sejamos assim tão duros com Dona Rejane. Dizia um velho professor dos tempos da faculdade: —“Tudo se explica, tudo se explica”... E, de fato, há, na razão de tudo, muito mais do que os complicados processos mentais da mulher e o que supõe a tal da vã filosofia shakespeariana.
         O caso é que Dona Rejane já me confessara há muito um detalhe pitoresco da vida do casal que, agora, parecia ter tudo a ver com seu desejo de fazer o quebra-quebra no apartamento novinho em folha: – quem paga todas as despesas do dia-a-dia do lar é justamente ela. A fim de se medir o tamanho desse minúsculo detalhe, sejamos mais específicos. Ela paga, mês a mês, há anos, desde que são casados, a conta de luz, o condomínio, o salário da secretária do lar, a mensalidade escolar do filho do casal, as compras do supermercado, e qualquer outra despesa extra que porventura surja inadvertidamente. Enquanto isso, durante todos esses longos e macios anos o Mesquita vem guardando tudo o que ganhou e que, se não é uma fortuna, também não se diga que é pouco. Eis aí tudo. ( Vejam a semelhança de meu amigo com o Tio Patinhas, embora o simpático patinho nunca tenha casado. A noção de economia e a avareza de meu amigo separam-se por uma muito tênue e quase invisível linha demarcatória.)
         Assim e sem dificuldade chegou-se à mais óbvia das conclusões: – Dona Rejane resolveu cobrar a sua parte nas despesas de casa com juros de mora e multa por longa que era a dívida. É nisso que dá o sujeito querer passar a mulher pra trás. Seus processos mentais incluem uma tal de memória que jamais esquece além do velho e bem conhecido sexto sentido. Aventa-se mais recentemente que haja até um sétimo e, quiçá, um oitavo sentido.
         Antes de sair, em nosso mais recente encontro, ele tomou duas ou três cervejas. Só não bebeu mais uma porque podia ter um piripaque por estar entupido do antidepressivo que lhe prescreveu o médico. Daqui pra frente ou ele dobra a dose da pílula ou toma mais cerveja. Aguentar a sangria na conta bancária sem um atenuante da tragédia está fora de cogitação e o remédio não parece estar adiantando coisa nenhuma. Espera-se que em nossos próximos encontros o número de cervejas bebidas por ele aumentem como semanalmente aumentam as expectativas da inflação brasileira...