domingo, 13 de dezembro de 2015

UM VINHO NASCIDO VINAGRE

       Já disse várias vezes de minha ojeriza aos jornais locais. Hoje, por exemplo, uma amiga me enviou por mensagem no telefone portátil o link de uma reportagem de certo periódico. A matéria dava conta de uma empresa norte-americana produtora de vinhos cujo nome agora me escapa e que acaba de engarrafar o vinho Fortaleza. Ora, o vinho foi inspirado, segundo a matéria, em nossa cidade.
      (Lembrei agorinha o nome da vinícola: Villa Bellezza; assim mesmo, com essa abundância de eles e zês.)
      Eu disse que o processo de criação do vinho foi inspirado em nossa cidade? Se disse, acho que me equivoquei... Não, não me equivoquei. De fato, o proprietário da vinícola, que “sempre foi interessado em diferentes culturas e países, sempre gostou muito do nome Fortaleza e sempre perguntava sobre seu significado”, após ouvir da enóloga cearense Elea Aguiar – ela é funcionária da vinícola – sobre a origem e a história de Fortaleza, “adorou a ideia de nomear um vinho que inspirasse um pouco a cidade”.
         O proprietário da ilustre empresa, Derick Dahlen, resolveu criar o Fortaleza, “um vinho tinto fino seco e que possui aromas complexos de frutas pretas, sabor de amoras e ameixas”, porque gostava do nome de nossa cidade. Ora, confesso que, ao ler a descrição do sabor do Fortaleza, encheu-se-me a boca. Tive abundante sialorreia, tamanha a vontade de degustá-lo. De fato, também essa Fortaleza-cidade já teve sabores, aromas e perfumes complexos, atrativos de seus mil encantos. Entretanto, lamentável e forçoso dizer, como a nobre fruta que cai da árvore que a produziu abandonada às intempéries e aos germes peçonhentos da decomposição, a Fortaleza-cidade também degenerou, também azedou, também apodreceu... Deixada ao desamparo e carregando dentro de si inconsequências históricas e fissuras sociais perenizadas, cresceu como a metástase das malignidades implacáveis que corroem o organismo aos poucos para depois abandonar-lhe a carcaça deitada à margem, como cadáver indigente... A Fortaleza-cidade do dia-a-dia de seus filhos seria a disgeusia do degustador do Fortaleza, o vinho norte-americano que encheu de orgulho bairrista a enóloga cearense que ganha em dólar, o sonho de centenas de milhares de seus filhos esclarecidos que custam inexplicavelmente a entender o porquê de tamanha degradação.
        Não bastasse essa simples e pouco pretensiosa reportagem, deparo-me, desta vez na rede social, com outras, sim, outras três matérias jornalísticas que me fisgaram tão logo lhes li o título. A primeira delas me encheu de depressivo horror. A prefeitura de Fortaleza vai realizar, na festa de réveillon deste ano no próximo dia 31 de dezembro, a maior queima de fogos do país. Seguramente irá contratar artistas a peso de ouro para animar (?) a festa. Em suma, o país mergulhado numa crise econômica sem precedentes, os serviços básicos, como a saúde pública, assistindo à morte e ao sofrimento de milhares de fortalezenses por corte no repasse de recursos para o setor, o desemprego grassando, a miséria aumentando... e a prefeitura de Fortaleza gastando na “maior queima de fogos” do país. Está-se tentando inflamar um outro orgulho bairrista inútil e perverso...
      A segunda reportagem li-a cheio de suspeitas e desconfianças. Ela dá conta da ocupação de 100% dos leitos de hotelaria da cidade por ocasião da festa onde ocorrerá a tal queima de fogos de artifício. O que excitava minhas suspeitas era a seguinte questão – há alguma relação entre a queima de fogos promovida pela irresponsável prefeitura de Fortaleza e os 100% de ocupação da rede hoteleira da cidade? Para mim, não apenas há uma relação mais que direta, mas uma relação promíscua e criminosa. Os leitores a julguem.
    A terceira reportagem informa que os funcionários da Saúde do Estado estão “devendo” mais de 136 mil horas de trabalho a seu patrão. E por quê? Porque, com a vigência do chamado “ponto eletrônico”, constatou-se que há sérias “fragilidades” na avaliação das “horas trabalhadas” do pessoal da Saúde.
       Não há a menor sombra de dúvida que é legítimo, por parte do Estado empregador, cobrar de seus funcionários a que cumpram a carga horária estipulada à realização do concurso público. Causa espécie, entretanto, dois aspectos. Primeiro, o Estado, até então omisso quanto à cobrança deste item, não estava preocupado com o cumprimento desta carga horária. Dizendo assim parece que ninguém trabalhava, uma suposição que está tão longe da verdade quanto a Terra está longe de Betelgeuse.
     Os funcionários dos hospitais geridos pelo Estado do Ceará trabalham e sempre trabalharam cumprido a sua carga horária. As supostas 136 mil horas em falta são apenas o atestado de incompetência do Estado em avaliar, em sua míope visão burocrática, o que o funcionalismo tem feito ao longo dos anos. Quero dizer apenas que o funcionário do Estado tem trabalhado com afinco e no cumprimento de suas obrigações de carga horária todos esses anos, apesar da “ausência” de seu patrão. A explicação para a recente “preocupação” do gestor para este item, e aqui está o segundo aspecto a nos causar espécie, deve-se apenas a uma conjunção incômoda, para o poder público, de algumas variáveis: primeiro, a falência completa da Saúde Pública devido a incompetência e irresponsabilidade do Estado e, segundo, à consequente necessidade do ente estatal de, reconhecidas a sua incompetência e irresponsabilidade, tomar alguma “atitude” que faça parecer que algo está sendo feito quando, de fato, nada do que realmente precisa ser feito está sendo. A prova disso é a queima irresponsável e inconsequente de fogos de artifício num cenário de caos nas finanças públicas. Estivéssemos num país sério e estes senhores estariam sendo presos sem demora. Estão vindo a público demonstrar um pretenso zelo quando de fato são os carrascos daquilo que pretendem salvar.
      Há sérias distorções no cumprimento desta carga horária? Certamente que, sim, há; distorções pontuais que o Estado bem conhece e que, sem delongas, existem, mais uma vez, por sua ausência na fiscalização e zelo. Mas daí a vir a público afirmar com alarde que mais de 136 mil horas de trabalho a ele são devidas já é demais. O Estado, que no Brasil tudo pode, está se aproveitando de sua própria ingerência, incompetência e irresponsabilidade para desviar de si o dedo que lhe aponta a culpa. A caótica e criminosa situação da Saúde Pública não se deve a essas “horas devidas” mas, sim, ao colapso da gestão estatal, notadamente no financiamento fruto da corrupção, da corrupção e da corrupção dos agentes estatais. Os noticiários diários deixam claro – a corrupção brasileira atingiu patamares intoleráveis. O que estamos assistindo, mais uma vez, é o corrupto em ação, tentando culpar a terceiros pelos seus graves crimes.