sábado, 12 de dezembro de 2015

OS COCOS E OS CHIFRES DO CARLINHOS

        Afirmaria sem medo de errar: – o coco do Carlinhos é o mais barato da Beira-Mar. Dos parcos 3 mil metros de extensão da Avenida Beira-Mar, é o Carlinhos quem vende o coco mais barato. Digamos de uma vez, a fim de que não reste nenhuma sombra de dúvidas – o coco do Carlinhos custa dois reais. (Escrevamos a cifra a fim de que ela permaneça impressa na memória visual do leitor: R$ 2,00.)
        E não somente na Beira-Mar, mas em seus arredores é também o Carlinhos o campeão do preço baixo. Seus concorrentes – todos, sem nenhuma exceção – cobram 50% a mais no coco: – três reais (R$ 3,00). De forma inversa, a fim de que se coloque esses concorrentes em evidência, o Carlinhos vende seu coco com um desconto de 33,33% em relação ao preço praticado pelo cartel dos vendedores de coco da Beira-Mar. (Suspeito que esse cartel se estenda por toda essa Fortaleza e o coco do Carlinhos seja o único vendido ao menor preço da cidade.)
      Já supus inúmeras razões para essa exorbitante diferença, mas todas elas caíram por terra. Cheguei a pensar ser menor o coco vendido pelo Carlinhos. Sendo menor, teria menos água e, portanto, custaria menos. Pura e vazia suposição – o coco do Carlinhos tem água em volume igual ao do coco dos outros vendedores. Pensei, por outra, que seu custo para vender fosse menor. Pura balela. Ele traz o coco diariamente em sua Kombi inteiramente adaptada para transportar os refrigeradores repletos de coco, com a gasolina a quase R$ 4,00. Ao final, concluí que seus custos são iguais ou até um pouco maiores que o de seus concorrentes. Assim, permanece a dúvida – por que diachos o Carlinhos vende seu coco a um preço 1/3 menor?
        Em verdade, talvez a pergunta não fosse essa. Talvez a pergunta mais adequada seja: – por que todos os vendedores de coco da Beira-Mar vendem um coco tão caro? Prometo aos açodados leitores pesquisar mais a fundo a questão a fim de esclarecê-la. Enviarei o meu amigo Ponciano, mais chegado ao Carlinhos, a que lhe inquira um pouco mais sobre seu negócio de venda de coco. Quem sabe ele não descobre seu segredo?!...
       Quanto aos demais vendedores, em bem maior número, nada vejo que possa fazer a fim de arrancar deles a explicação. Está claro que estão todos alinhados na não-concorrência, aquele tipo de comportamento que mais agrada boa parte do empresariado brasileiro. Concorrência significa ameaça ao negócio. Para sobreviver diante de tal ameaça há que se reinventar o negócio a fim de criar diferenciais que o tornem mais atraente aos olhos do cliente a um preço justo. O mais barato nem sempre é o melhor.
        A outra possibilidade de sobrevivência é justamente o que fazem os vendedores de coco da Beira-Mar – igualam-se em tudo, a começar pelo preço. Essa equalização garante que todos sobrevivam, nem que seja ao custo de um serviço medíocre e pouco atraente. Mas, quem se importa? Ninguém se importa. O brasileiro gosta de dinheiro, como todo mundo. O que ele não gosta é de ter que trabalhar duro para obtê-lo.
         O fato é que o Carlinhos já vende seu produto mais barato há vários anos. Quando o conheci, temi por sua vida. Sabe-se lá... Hoje em dia tudo é possível. A máscara do brasileiro caiu. Descobriu-se, ao longo dos últimos quinze anos, que o brasileiro é um dos povos que mais odeia atualmente. O Carlinhos, ao vender seu coco barato, poderia pôr em risco o cartel formado por seus concorrentes. Felizmente, o tempo demonstrou que eu estava errado. A venda do Carlinhos em nada afetou a de seus concorrentes, de modo que eles não deram a mínima. Seguramente não há interferência do Carlinhos no cômputo geral.
        Agora vejam como percentuais servem muitas vezes a impressionar. Em outras palavras, o percentual é uma operação matemática que serve ao engano. Vejamos um exemplo.
       Quanto é 100% de 1? Resposta – 100% de 1 é 1. O algarismo 1 representa uma pequena quantidade. Se vendo em produto a R$ 1,00 e majoro seu preço a R$ 2,00, pratico um aumento de 100%. O diabo é que R$ 1,00 é um valor irrisório, não fará falta ao bolso de muita gente. Dirá alguém que quem paga R$ 1,00 paga R$ 2,00, e provavelmente terá razão. Da mesma forma, quem dá R$ 2,00 por um coco, não reclamará se der R$ 3,00. O aumento de R$ 1,00 no preço da fruta em nada afetou o bolso do burguês frequentador da Avenida Beira-Mar. Antes de os concorrentes do Carlinhos se importunarem com sua “concorrência desleal”, os clientes não se importaram com essa abissal diferença percentual, de modo que os concorrentes permanecem felizes até hoje e o risco de vida do Carlinhos se dissipou como uma tênue névoa que se deixa espalhar.
          De minha parte, o que agora me preocupa são os chifres que lhe pôs a mulher do Carlinhos. Sim, soube pelo Ponciano. O homem está arrasado, numa tristeza cósmica e sofrente. Entre o suposto risco de vida que jamais se concretizou e os chifres declarados, suspeito que o Carlinhos preferiria o primeiro. É melhor um morto honrado que um vivo achincalhado. Será que o Carlinhos está pensando em se matar?