quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

OS CRIMES DO COMUNISMO (excertos do prefácio de "O Livro Negro do Comunismo", por Stéphane Courtois), 1ª parte

          Já se escreveu que “a história é a ciência da infelicidade dos homens”; nosso século de violência parece confirmar essa fórmula de maneira eloquente. É verdade que nos séculos precedentes poucos povos e poucos Estados estiveram isentos da violência de massa. ...
           Não resta dúvida de que, a esse respeito, nosso século deve ter ultrapassado seus predecessores. …
          O comunismo insere-se nessa faixa de tempo histórico transbordante de tragédias, chegando mesmo a constituir um de seus momentos mais intensos e mais significativos. …
          Qualquer que seja o grau de envolvimento da doutrina comunista anterior a 1917 na prática do comunismo real, foi este quem pôs em prática uma repressão metódica, chegando a instituir, em momentos de grande paroxismo, o terror como modo de governo. Isso faz com que a ideologia seja inocente? …”na verdade, as revoluções são como as árvores, elas são reconhecidas através de seus frutos”. …
          Excedendo os crimes individuais, os massacres pontuais, circunstanciais, os regimes comunistas erigiram, para assegurar o poder, o crime de massa como verdadeiro sistema de governo. …
          Nenhuma das experiências comunistas, populares durante algum tempo no Ocidente, escapou a essa lei. …
          Ora, os crimes do comunismo não foram submetidos a uma avaliação legítima e normal, tanto do ponto de vista histórico quanto do ponto de vista moral. …
          Os crimes que expomos neste livro não se definem em relação à jurisdição dos regimes comunistas, mas ao código não escrito dos direitos naturais da humanidade. …
          A história dos regimes e dos partidos comunistas, de sua política, de suas relações com as sociedades nacionais e com a comunidade internacional não se resume a essa dimensão criminosa, ou mesmo a uma dimensão de terror e de repressão. Na URSS e nas “democracias populares” depois da morte de Stalin, na China após a morte de Mao, o terror atenuou-se, a sociedade começou a retomar suas cores, a “coexistência pacífica” – mesmo sendo ainda “uma continuação da luta de classes sob outras formas” – tornou-se um dado permanente da vida internacional. Entretanto, os arquivos e os testemunhos abundantes mostram que o terror foi, desde sua origem, uma das dimensões fundamentais do comunismo moderno. …
          Abandonemos a ideia de que tal execução de reféns, tal massacre de trabalhadores revoltados, tal hecatombe de camponeses mortos de fome, foram somente “acidentes” conjunturais, próprios a tais países ou a tal época. O nosso método...considera a dimensão criminosa como uma das dimensões próprias ao conjunto do sistema comunista, durante todo o período de sua existência.
          O comunismo cometeu inúmeros (crimes): inicialmente crimes contra o espírito, mas também crimes contra a cultura universal e contra as culturas nacionais. Stalin ordenou a demolição de centenas de igrejas em Moscou; Ceaucesco destruiu o coração histórico de Bucareste para construir edifícios e traçar perspectivas megalomaníacas; Pol Pot fez com que fosse desmontada pedra por pedra a Catedral de Phnom Penh e abandonou à selva os templos de Angkor; durante a revolução cultural maoísta, tesouros inestimáveis foram quebrados ou queimados pelos Guardas Vermelhas. Entretanto, por mais graves que tenham sido essas destruições, a longo prazo, para as nações envolvidas e para a humanidade inteira, em que medida elas pesam em face do assassinato em massa de pessoas, de homens, de mulheres, de crianças?
          Portanto, consideramos apenas os crimes contra as pessoas, os que constituem a essência do fenômeno do terror. Esses respondem a uma nomenclatura comum, mesmo que tal prática seja mais acentuada neste ou naquele regime: execução por meios diversos – fuzilamento, enforcamento, afogamento, espancamento e, em alguns casos, gás de combate, veneno ou acidente de automóvel; destruição pela fome – indigência provocada e/ou não socorrida; deportação – a morte podendo ocorrer no curso do transporte (em caminhadas a pé ou em vagões para animais) ou nos locais de residência e/ou de trabalhos forçados (esgotamento, doença, fome, frio). O caso dos períodos ditos de “guerra civil” é mais complexo: não é fácil distinguir o que decorre do combate entre poder e rebeldes e o que é massacre da população civil.
          Contudo, podemos estabelecer os números de um primeiro balanço que pretende ser somente uma aproximação mínima e que necessitaria ainda de uma maior precisão, mas que, de acordo com estimativas pessoais, dá uma dimensão da grandeza e permite sentir a gravidade do assunto:
- URSS: 20 milhões de mortos;
- China: 65 milhões de mortos;
- Vietnã: 1 milhão de mortos;
- Coreia do Norte: 2 milhões de mortos;
- Camboja: 2 milhões de mortos;
- Leste Europeu: 1 milhão de mortos;
- América Latina: 150 mil mortos;
- África: 1,7 milhão de mortos;
- Afeganistão: 1,5 milhão de mortos;
- Movimento comunista internacional e partidos comunistas fora do poder: uma dezena de milhões de mortos.
          O total se aproxima da faixa dos 100 milhões de mortos. …
         Nosso propósito aqui não é o de estabelecer uma macabra aritmética comparativa qualquer, uma contabilidade duplicada do terror, uma hierarquia da crueldade. Entretanto, os fatos são tenazes e mostram que os regimes comunistas cometeram crimes concernentes a aproximadamente 100 milhões de pessoas, contra 25 milhões de pessoas atingidas pelo nazismo. Essa simples constatação deve, pelo menos, provocar uma reflexão comparativa sobre a semelhança entre o regime que foi considerado, a partir de 1945, como o regime mais criminoso do século e um sistema comunista que conservou, até 1991, toda a sua legitimidade internacional e que, até hoje, está no poder em alguns países, mantendo adeptos no mundo inteiro.

(A ser continuado.)