quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

BURRO INTELIGENTE

          João é um sujeito difícil. E pensar que um dia o julguei inteligente... De fato, burro ele não é. Talvez seja mesmo é safado, desses que se fazem de besta para melhor passar. Pelo sim, pelo não, tirei-o de minha lista de amigos na rede social. Estou chegando numa certa idade, não sei se me entendem. A idade traz, ao mesmo tempo, a intolerância e a tolerância. Parece ser isso uma insanidade, uma incoerência, mas não é. A uma certa idade, acho que essa em que cheguei, tem-se certas necessidades únicas, dentre elas a de ser tolerante com as fraquezas humanas pueris e inconsequentes para os outros. Por outro lado, é extremamente difícil e até impossível tolerar a burrice, a estupidez, a maldade, a safadeza, a manipulação, o ardil e a cegueira da alma, que afetam pessoas de bem e até nações inteiras. Pois o João é burro – sendo inteligente – ou é mau. 
          Que fez ele para que eu esteja aqui a debulhar-lhe as intenções? Outro dia, na rede social, defendia a permanência por tempo indeterminado da famigerada CPMF. Essa tal CPMF – Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira – seria para a vida toda, enquanto durasse a nação brasileira. Eu poderia dizer que a burrice do João era justamente a de querer transformar uma instituição provisória numa permanente sem mudar-lhe o nome. Óbvio é que isso não seria problema, já que mudam-se nomes a todo momento apenas para disfarçar o caráter, imutável e podre, dos objetos e objetivos de nossa política. Fica então claro que a burrice do João não seria essa. A burrice seria apoiar a criação de mais um imposto num país com a maior carga tributária do mundo, donde se conclui que não há aqui burrice, mas maldade, ou safadeza, ou ambas. Assim, na dúvida removi o João de minha lista de amigos na rede social. Afinal e como já fui claro, estou na idade da mais completa intolerância a tais deformidades do caráter.  
          O discurso politicamente correto manda a que se seja tolerante a tudo. Pergunto a quem possa me responder e me convencer com argumentos inteligentes e persuasivos: o que diachos é um discurso politicamente correto? Onde se inventou essa mazela que faz parecer que combater o mal não é desejável? essa mazela que manda tolerar o assassinato, o roubo e o rombo em instituições e empresas públicas e privadas?; que manda tolerar o desmonte de princípios éticos sabidamente eficazes na manutenção da ordem e da paz?; que manda tolerar a tentativa de subverter a educação das crianças a bem do implante de costumes nefastos e cretinos que visam enfraquecer o tecido social através do desmonte da família? Pois o discurso do João não tem nada disso, e até parece que estou falando de alhos e os trocando por bugalhos. Explico.
          O João, fiquei sabendo, tornou-se "assessor" de certo deputado comunista. Sim, está instalado ali na assembleia legislativa do estado junto a seu "parlamentar". Dizer que está acampado ali seria um eufemismo às avessas. A verba parlamentar para assessores é bem generosa e é paga justamente com os elevados impostos que sangram o bolso do brasileiro honesto. (É bem possível que o João esteja planejando um aumento de seu "salário" e por isso torce pela CPMF vitalícia.) 
          Mas, pasmem, o João não ficou só por aí. Berrou na rede social que é a favor tirar dos ricos para dar aos pobres. Vejam aí de volta o secular e interminável discurso da canalha comunista a vazar pela língua do João. (Começo a desconfiar que o João não é apreciador do trabalho, do mérito, da criatividade, da livre iniciativa, da liberdade... Aliás, sendo comunista não se poderia esperar dele coisa diferente.) O discurso do João remete lá ao início do anos 2000, ou ao início dos anos 1900, ou a meados dos anos 1800; ou ainda mais para trás, nos anos 1500, quando o Morus, em delírio que seu amigo Erasmo elogiou, pensou na "melhor forma de governo". Enfim, que detestaria me delongar em veemente ataque a essas ideias cretinas, o João perdeu a minha amizade na rede social. E ele se dê por satisfeito, já que a idade manda que o distanciamento seja perene é irrevogável. O que o salva é a existência no presente de um tal mundo virtual onde se pode lá deixar as excretas e abjeções ao mesmo tempo em que se preserva no mundo real uma nesga de amizade ou de relacionamento pacífico. 
          O que me faz concluir em definitivo pela burrice do João é que ele é pai e, sendo pai, põe em risco o dom mais precioso do ser humano vivo – a liberdade de sua prole.