quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

MAFALDA

          O diabo foi a chuva. Ninguém merece Puerto Madero com chuva. Ainda bem que estávamos por trás da Casa Rosada. De lá para o hotel seria um pulo, mas Bella estava ensopada e queria sair da maldita chuva. Um táxi vinha bem a calhar.
          Disseram-nos para evitar os táxis comuns. Eles não seriam confiáveis. Para nossa sorte, apontou de longe um radiotáxi, esses sim, bastante confiáveis. Ao se aproximar, percebi a luz vermelha: "LIBRE". Dei com a mão e ele parou. Quando ia abrir a porta, ele insistiu para que não entrasse ainda. Queria saber para onde íamos. Disse-lhe aonde íamos. Gesticulando, argumentou que só nos levaria se lhe pagasse setenta reais ou duzentos pesos, e emendou-se em justificativas que não justificavam. Eu só dispunha de cento e dez pesos. Ele partiu deixando-nos no aguaceiro.
         Resolvemos ir a pé. Já estávamos encharcados mesmo... Devo admitir que a chuva já amainava. Atravessamos a pista e subimos por Belgrano. Caía a noite. Súbito, a vi parada na esquina de Defensa. Quase não pude acreditar, mas era ela. Os cabelos eram fartos ainda como em menina. A adultícia não alterara seu aspecto de garota irrequieta e instigadora. Com efeito, era a mesma. Nada mudara nela. Encolhi os olhos à moda dos míopes para me certificar. Bella vinha absorta, nem percebeu. Cutuquei-a: –"Olha, olha quem está ali!" Ela olhava e não via, não atinava. Retrucou: –"Quem? Quem?" Sussurrei-lhe ao ouvido: –"A Mafalda! A Mafalda!"
          Em dois minutos nos cumprimentávamos. 
          –"Mafalda, há quanto tempo!..."
        –"Menino, não morres mais!" (Mafalda fala o espanhol argentino, mas traduzirei o diálogo a fim de proporcionar ao leitor o melhor entendimento.)
          –"Que fazes aqui na chuva? Estás sem a sombrinha..."
          –"Estava voltando pra casa. Ainda moro ali adiante..."
          –"Não acredito!... Ainda moras esquina de Chile com Defensa?"
          –"Sim! Nunca mudei. Papai adora San Telmo e, além disso, é perto da Casa Rosada. Ele é fã do Macri!"
          –"Ah!... Isso também sou! O Boechat até sugeriu que ele fosse dar um expediente de 20 horas semanais no Planalto pra ver se dá um jeito no Brasil... Achei fantástica a ideia do Boechat!"
          –"É sério?? Mas estamos precisando que ele fique por aqui o tempo todo... Lamento, mas para nós não seria uma boa."
       –"É, imagino que não. Em dois meses de governo ele já deu uma faxinada na sujeira kirchnerista, li na imprensa."
          –"É verdade. Por falar nisso e já que estamos aqui, por que não damos um pulinho ali na Casa pra levar um papo com ele? Gostarias?"
         –"Visitar o Macri? Ora, eu adoraria!"
     Apresentei Mafalda a Bella. A simpatia mútua foi imediata. Afinal, Mafalda é até hoje uma figura inesquecível das crianças e ex-crianças de todo o mundo. Assim, àquele convite para dar uma palavrinha com o Macri, Bella assentiu incontinenti. Sorriu aquele seu sorriso lindo ao que Mafalda respondeu entrelaçando seu braço ao dela. 
          As portas da Casa se abriram para nós tão logo Mafalda se postou à frente das grades e dos portões. Os seguranças riam como pequerruchos levados e nem o Macri fez pose. Ao ouvir o burburinho cá embaixo postou-se numa das sacadas em mangas de camisa e, ao avistar-nos, sorriu e, comedidamente, comemorou:
          –"Mafalda!"
        Fez sinal para subirmos. Meia dúzia de serviçais vieram nos receber. Traziam uma dessas mesas de rodinhas repletas de frutas, garrafas de café, chás, sucos e várias cestinhas com empanadas, choripans, provoletas e medialunas, além de taças com doce de leite.
          Subimos.
       Adentramos um salão enorme no primeiro andar. Macri correu a abraçar Mafalda e fomos apresentados a ele. Muito cordial e amável, levou-nos a sentar em sofás felpudos e confortáveis, e ordenou a que todos os seguranças se retirassem e nos deixassem a sós. 
          Mafalda quis brincar – ela jamais deixou de ser criança – e comentou com ele a proposta que o Boechat fizera em sua coluna no jornal. Ele soltou uma sonora gargalhada ao final da qual exercitou o discurso politicamente correto inerente a todo político, seja da Cochinchina ou do Haiti:
         –"Ora, meu caro Fernando, a senhora Dilma saberá pôr as coisas nos eixos..."
      Eu ainda estava um pouco acanhado para responder a esse comentário denotativo do pouco conhecimento do Presidente argentino sobre a natureza da relação entre a senhora Dilma e a distância entre as coisas e os eixos... Então, provoquei-o: –"Mas, Presidente... Ouvi dizer que o senhor mandou tirar a foto da Dilma de seu gabinete..." (Só assim fiquei sabendo que a senhora Cristina Kirchner mantivera fotos de presidentes de outros países no gabinete presidencial.)
        Ele sorriu suavemente e respondeu com o constrangimento próprio dos de educação esmerada:
       –"Ora... Não me leve a mal... Mas, você sabe... Essa Dilma..."
       Sem querer gerar uma situação constrangedora, atalhei: 
      –"Meu caro e ilustríssimo senhor, essa Dilma é a imbecilidade esculpida e encarnada, se o senhor me permite a franqueza!" 
       Ele não concordou nem discordou. Como se mudando de assunto, ergueu a mão direita e estalou os dedos. No mesmo instante entrou na sala um como que garçom. O Presidente se ergueu fazendo um sinal para que permanecêssemos bem sentados e se dirigiu gentilmente ao jovem. Pediu a que preparassem um lauta e típica refeição portenha para todos.
       Enquanto aguardávamos, a conversa correu leve e solta. Como já ia perdendo algum pudor em lhe indagar o que me espicaçava a curiosidade, quis saber:
       –"Presidente, que fazem esses homens, mulheres e crianças acampados ali defronte à Casa, ali na Plaza de Mayo? A mim me pareceu serem a gente da esquerda a reivindicar qualquer coisa..."
    Ele voltara a sentar-se após lidar com o cumim. Empertigou-se na confortável poltrona e calmamente respondeu:
      –"Bem, você sabe... As esquerdas não mudam. Estão sempre querendo que o Estado lhes proveja, sempre querendo direitos sem a contrapartida dos deveres, e sempre querendo o dinheiro sem custos nem obediência aos contratos... Querem tudo de tudo mas não querem pagar. Querem que o Estado financie seus projetos populistas, mas não querem saber de onde se vai tirar os recursos... Não dá pra conversar com eles. Já conheço seu discurso e o resultado de suas administrações. Enfim..."
      Mafalda estava calada. Mesmo ela, que sempre se incomodou com as injustiças sociais, com as incoerências e contradições do ser humano, não ousou dizer qualquer coisa. 
     Nitidamente interessado em mais uma vez mudar o rumo da prosa, o Presidente quis saber do carnaval brasileiro. Por que saíamos do Brasil justo no período da festa?
     –"Ora, Presidente! A violência! Tudo piora no carnaval! Então o senhor não sabe? Temos várias das cidades mais violentas do mundo! O país é um campo de batalha onde um lado está armado, os bandidos, e o outro desarmado, os cidadãos que trabalham e produzem. O poder judiciário persiste julgando por um código de leis que não fazem justiça. O bandido está solto. Tornamos-nos um amontoado de gente sem respeito pela vida e pela propriedade. Ainda há quem ache que bandidos que matam não merecem ser trancafiados a vida inteira porque, dizem, isso não resolve. Ainda discutem o óbvio e o senhor sabe: discutir o óbvio é um flagrante sinal de atraso. O senhor não acha?"
        O Presidente mostrou-se indignado e quis saber:
        –"Sofreram algum tipo de violência em sua estada aqui?"
        Respondi com a alma lavada numa espécie de vendeta solitária contra meu próprio país: 
      –"Em absoluto, senhor! Andamos por essa Buenos Aires inteira de dia e de noite e não fomos incomodados. Nem mesmo presenciamos um ato de violência sequer, por menor que fosse. Os argentinos estão de parabéns! Estamos pensando até em vir morar aqui. O que o senhor acha?" 
        Ele se mexeu na poltrona como a preparar a resposta, e disse simplesmente:
        –"Então venham." Fez uma pausa e continuou:
     –"Mafalda pode ajudá-los nisso. Tenho certeza de que se sentirão bem recebidos e acolhidos. Saiba que não somos perfeitos, mas somos um povo ordeiro que ama o trabalho, a pátria e as leis. Sem um solo acolhedor nenhum homem pode ser feliz. Queremos dar a mesma oportunidade a todas as nossas crianças e a todos os que queiram vir trabalhar honestamente. Só oportunidades iguais permitem desenvolver em cada criança e em cada jovem suas únicas e individuais potencialidades. Tirar de quem tem para dar a quem não tem é o discurso populista e revolucionário que nada tem de revolucionário porquanto só gera parasitas sociais e aproveitadores que odeiam o mérito e as inexoráveis diferenças individuais."
      Após essas palavras não pude deixar de observar em Mafalda um fulgurante brilho nos olhos, acompanhado de um sorriso meigo e cheio de candura. Era como se aquela criança atingisse plenamente o maior de suas possibilidades em esperança e confiança. Então, ela se ergueu de onde estava sentada e, puxando Bella pela mão, exortou-nos a nos deliciar da deliciosa culinária portenha. 
      Saímos da Casa Rosada ainda cedo. O Presidente trabalharia pesado ao dia seguinte, feriado de carnaval, e Mafalda era esperada em casa pelo pai já velhinho. Quanto a Bella e eu, fomos caminhando para o hotel conversando. Foi quando lembrei que esquecera de contar ao Presidente a presepada do taxista em Puerto Madero... Quando viermos aqui morar, prometi a Bella, contarei a ele a desfeita de seu conterrâneo.