quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

SOBRE ENRASCADAS

          Hoje me vi numa enrascada que não tem tamanho. Vocês sabem, a vida em si é uma grande enrascada. De enrascada em enrascada vive-se a vida. Entre uma e outra enrascada, os momentos dos quais bem falou o Jorge Luis Borges. E eis aí a vida. 
          Dirá alguém que sou pessimista e direi que não, não o sou. Pessimista é quem presumiu que toda enrascada é o fim do mundo. É bem verdade que há enrascadas gravíssimas. Há sujeitos que estão numa enrascada tão grande que através delas perderão a vida, por exemplo. Há outros que, por outro lado, meteram-se em enrascadas que lhes renderão o aprendizado, ou o lucro financeiro, ou a experiência inolvidável... Assim, há enrascadas e enrascadas. 
          A minha enrascada hoje, por exemplo, foi uma daquelas semelhante a quando se apagam todas as luzes em ambiente em que o indivíduo nada conhece. A enrascada de hoje foi uma como que a escuridão do conhecimento, a completa falta de ciência, a ignorância pura e simples. Notem que, sempre que sobrevem uma enrascada, procura-se de imediato o culpado. Se estou numa súbita enrascada, como hoje, a sensação inicial é a de que fui uma vítima inocente e desprevenida e o culpado será alguém, outro alguém que não eu. A enrascada progressiva é, ao contrário e com elevada frequência, de inteira responsabilidade do próprio indivíduo. Observem que é possível haver exceções a essas tais "leis da enrascada". Como seria isso?
          Há dois dias estava eu ali, não me recorda onde, folheando as páginas de um periódico local. Há dois dias era o dia 16 de fevereiro do ano de Nosso Senhor Jesus Cristo de 2016. O jornal dizia precisamente o seguinte: 
          "Mesmo com precipitações acima da média em janeiro, os registros deste mês têm confirmado o prognóstico da Funceme de redução das ocorrências e quadra chuvosa abaixo da média histórica no Ceará". 
          Mais na frente a matéria diz que
          "Os primeiros quatro dias do mês ainda contaram com a influência dos Vórtices Ciclônicos de Altos Níveis — fenômeno que ocasionou as chuvas em janeiro. 'Isso ainda pode trazer chuvas pontuais nesta semana, mas a influência tende a enfraquecer no fim de fevereiro e nos próximos três meses', explica Raul Fritz, meteorologista da Funceme".
          A enrascada em que me vi foi justamente a tromba d'água que caiu hoje sobre a cidade sem que nenhum órgão de previsão do tempo tenha dado qualquer alerta. Não foi uma chuva qualquer. Carros quebraram, ruas viraram rios, cruzamentos se assemelhavam a lagos e lagoas, e é bem possível que tenha havido pane em semáforos e rede elétrica e ruptura do sistema de esgotos, como sói acontecer nessas ocasiões. Assim, o cidadão fortalezense foi vítima mais uma vez das fortes chuvas. Mês passado aconteceu; agora aconteceu novamente. Se o sujeito for esperar, por parte dos órgãos que estudam os fenômenos meteorológicos, um alerta sobre o que está para ocorrer, vai se dar muito mal. E, mesmo que fôssemos alertados, o que iríamos fazer? Em Fortaleza há uma única resposta possível para essa indagação: ficar em casa. Avisaríamos ao chefe que não compareceríamos ao trabalho ao que ele responderia: –"Aviso que também não irei"... 
          A outra enrascada em que todos estamos cronicamente metidos é a própria cidade. Com uma infra-estrutura de fazer vergonha, Fortaleza sofre os mesmos e perenes problemas quando chove. E não há quem dê jeito. Se faltou o planejamento para o crescimento natural da cidade, imagine-se o resultado da falta de planejamento para o crescimento não esperado ou não natural. Com efeito, com todos os desinvestimentos feitos e todos os projetos não concretizados, se é que um dia houve algum, é quase um acinte dizer que o que resultou não era esperado. 
          Agora a enrascada da escuridão científica. Depois de hoje podemos confiar nas estimativas da velha e boa Funceme? As chuvas de hoje são uma daquelas "pontuais" às quais se referiu o meteorologista? Quem sabe?... Se ele não sabe, ou pensa que sabe e diz que sabe sem saber, eu é que não sei. Só sei que minha enrascada como cidadão foi consequência das imprecisões da Funceme – não venham me dizer que São Pedro é o vilão! – e dos nossos podres políticos-administradores. Quanto à (falta de) ciência de nosso órgão meteorológico, aguardemos pelo fim de fevereiro e próximos três meses. O tempo dirá. Literalmente. Já no que diz respeito à qualidade de nossos políticos-administradores, só há um jeito: convoquemos os alemães, os britânicos e os japoneses para votar em nossas próximas eleições. Se não for assim...


"A PRIMEIRA VEZ QUE ME ENGANARES, A CULPA É TUA; A SEGUNDA VEZ A CULPA É MINHA."